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Posts na categoria "Romance Histórico"

Guerra grande, vidas breves

29 de dezembro de 2014 0
Capa do livro 14, de Jean Echenoz

Capa do livro 14, de Jean Echenoz

Com tanto que se publicou a respeito da centenária I Guerra Mundial ao longo deste ano – literalmente milhares de páginas – é uma surpresa o tamanho do impacto provocado no leitor por uma novela tão curta quanto 14, do escritor francês Jean Echenoz, que foi lançada recentemente no Brasil (Tradução de Samuel Titan Jr., editora 34, 136 páginas). Falando de uma das guerras mais esquecidas pela ficção devido à complexidade de suas causas e forças em disputa, Echenoz, com uma prosa sóbria e impessoal, consegue realizar um grande livro enfocando personagens que sabiam tanto daquela guerra quanto o leitor contemporâneo: muito pouco.

Estruturado em 15 capítulos breves como vinhetas, mas plenos de cenas poderosas em seu poder evocativo, 14 concentra seu olhar não em soberanos, diplomatas e generais, os protagonistas “históricos” da guerra, mas em cinco rapazes e em uma moça franceses. Anthime, Charles, Padioleau, Bossis e Arcenel são jovens nascidos e criados todos na mesma aldeia da Vendeia, unidos por relações de coleguismo, em alguns casos, e parentesco, em outros – relações que a narrativa vai revelando aos poucos.

Em um primeiro momento, seu horizonte não parece muito amplo: alguns trabalham na fábrica que é o centro da economia local, outros são amigos de pescaria, mas todos são afetados pela notícia da declaração de guerra. Alistam-se e são designados ao mesmo regimento de infantaria e rumam para uma guerra até então sem par nos métodos industriais de violência e carnificina – o signo da fábrica que é o elemento tão presente na rotina da pequena aldeia é aqui replicado com uma torção cruel: a fábrica a serviço da morte em larga escala. O contraponto da narrativa é dado por Blanche, jovem a quem Anthime dirige sentimentos de afeição mas que é amante, efetivamente, de outro dos rapazes (e mais não se dirá porque o triângulo que se forma terá consequências no próprio destino de alguns dos combatentes no front).

Ciente de que seu romance não tem a legitimidade do testemunho de obras de escritores que de fato combateram na I Guerra, como Blaise Cendrars ou Céline, Echenoz não tenta transformar seu relato de guerra em um drama comovente. Pelo contrário, os melhores efeitos são obtidos do contraste entre os horrores narrados – combates, ferimentos, o inferno das trincheiras cheias de lama e ratos, as tentativas de deserção, reais ou acidentais – e o tom breve e impessoal da narrativa. Esse poderia ser o único reparo a ser feito ao livro: quando se demora um pouco mais na descrição da guerra do que em acompanhar seus personagens, Echenoz parece estar fazendo uma súmula das ideias mais facilmente associadas ao teatro de operações da I Guerra. É quando o livro se estende sobre o impacto de tal engrenagem sobre as frágeis vidas de seus personagens que 14 brilha com um magnetismo conciso e perturbador.

Cores e flores astrais

03 de setembro de 2014 3
A escritora Eleanor Catton. Foto: NZatFrankfurt, Wikicommons

A escritora Eleanor Catton. Foto: NZatFrankfurt, Wikicommons

Logo de cara, a vitória do romance Os Luminares, de Eleanor Catton, na última edição do Man Booker Prize, uma das mais prestigiosas premiações para a literatura em língua inglesa, criou dois factoides que impulsionaram o hype sobre a obra. Então com 28 anos, Catton, canadense de nascimento mas radicada na Nova Zelândia desde a infância, foi a mais jovem escritora a ganhar o prêmio. E o romance, com suas mais de 800 páginas, foi a narrativa mais longa a ser agraciada. São informações que não têm correlação direta com a qualidade da obra (curiosidades como essas quase nunca têm). No máximo, a juventude da autora e a extensão peculiar do romance podem ser indícios a se pinçar no quadro das principais virtudes e problemas de Os Luminares: uma obra ambiciosa, surpreendentemente madura e erudita, construída em uma forma tão rigorosa que foi seguida até as últimas consequências – não necessariamente para o bem do livro.

Lançado há pouco no Brasil,Os Luminares (Tradução de Fabio Bonillo Globo, 880 páginas, R$ 69,90) se passa no interior da Nova Zelândia, entre 1865 e 1866, no auge da corrida do ouro que de fato teve lugar no país naqueles dias. No povoado de Hokitika, que no período de dois anos passou de um amontoado de cabanas para uma cidade em expansão, o recém-chegado Walter Moody surpreende inadvertidamente uma reunião de 12 homens no salão de um hotel. Todos estão ali para discutir quatro eventos aparentemente não relacionados, mas que se sucederam na mesma noite: a morte suspeita de um ermitão que vivia nas proximidades; a chegada a Hokitika de um candidato ao parlamento; o misterioso desaparecimento do mais jovem e bem-sucedido garimpeiro local e o fato de uma jovem prostituta ter sido encontrada quase morta devido a uma ingestão pesada de ópio.

Os presentes à misteriosa reunião são dois chineses (um garimpeiro e um ourives), um aborígene, um jornalista, um hoteleiro, um proprietário rico de minas da região, um corretor comissionado, um boticário, um funcionário do tribunal, um bancário e um agente portuário. Estão ali porque ao longo das últimas semanas cada um deles esteve envolvido com um ou mais dos quatro acontecimentos, que se revelam de algum modo conectados no momento em que aparecem na cidade uma ex-cafetina que se diz viúva do homem morto e um belicoso capitão de navio metido em expedientes escusos.

Os homens reunidos não são 12 por acaso: cada um corresponde a um signo do Zodíaco na arquitetura que sustenta a trama. Os outros que em torno deles “gravitam”, como o próprio Moody, a suposta viúva, o marinheiro, são planetas. À medida que a narrativa avança e recua, reconstituindo os contatos prévios de cada personagem com os demais, avança-se por um mapa celeste que espelha as interações dos personagens. Há outras surpresas formais. Escrito com uma linguagem suntuosa que por vezes parece acertar o ponto e por vezes parece um pastiche de Dickens, o romance se subdivide também em 12 capítulos, cada um passado em um mês. Como um livro que consome a si mesmo, cada capítulo é menor que o precedente, das longas 370 páginas do primeiro até uma vinheta de duas páginas no 12º.

Mesmo com uma estrutura tão metódica e planejada, o livro de Catton é uma leitura que flui enquanto entretece as narrativas de seus personagens, ligando-as a fraudes de registros de mineração, chantagens, adultérios, e a trajetória misteriosa de uma quantia em ouro desaparecida. Subterrâneas à trama, estão as movimentações de uma insuspeita história de amor entre dois personagens comparados ao sol e à lua na dinâmica do livro – são eles os “luminares” do título, coração camuflado da narrativa e subtrama na qual Catton cede a toques de fantástico que parecem deslocados no rigoroso realismo histórico de todo o resto. É ao amarrar suas histórias que o romance torna-se prisioneiro de sua estrutura. Depois de avançar por quatro capítulos de mais de 750 páginas, Catton acha por bem recuar a narrativa um ano no tempo para seguir os meses anteriores à reunião que abre a narrativa. É um recurso desnecessário a não ser para um tipo de leitor tão desatento que provavelmente já teria abandonado o livro antes – e que produz um paradoxo: as pouco mais de 100 páginas até o fim do romance são mais tediosas do que as 750 anteriores, por reiterarem relações já subentendidas.

Capa do livro Os Luminares

Capa do livro Os Luminares

Crime de sangue na aurora do Brasil

23 de junho de 2014 1

A primeira historia do mundo

Não é comum encontrar em listas de “melhores autores brasileiros contemporâneos” ou “gente que está fazendo a nova literatura” e outras denominações semelhantes o nome de Alberto Mussa. O que, dada a qualidade da obra que vem tecendo com paciência ao longo das últimas duas décadas, é francamente incompreensível. Mussa dá mais motivos para essa perplexidade com a publicação, agora, de A Primeira História do Mundo, livro no qual reconstrói, com o misto de prosa ensaística e literária que é característico de seu trabalho, o primeiro crime de sangue registrado no ainda jovem território do Brasil.

A Primeira História do Mundo parte de um fato real: o assassinato de um serralheiro morto com sete (talvez oito) flechadas no Rio de Janeiro de 1567. Em uma cidade com apenas três ruas, ainda cercada pela mata, e com cerca de 400 habitantes, nove homens foram apontados como possíveis autores do crime, de acordo com os registros do procedimento judicial instalado para averiguar o homicídio.  O livro compõe uma trilogia com O Trono da Rainha Jinga, passado em 1626, e O Senhor do Lado Esquerdo, ambientado em 1910. Nos três, Mussa usa a estrutura de um romance policial para engendrar uma mitologia urbana do Rio em diferentes períodos históricos. Ele já anunciou que pretende escrever outros dois romances para outros dois séculos da cidade: o 18 e o 19.

Além de ser parte desse projeto maior, outra possível leitura de A Primeira História do Mundo é a de uma condensação de elementos já trabalhados pelo autor ao longo de sua carreira. O motivo do crime, segundo o processo, seria um adultério, indiscrição à qual Mussa dedicou o romance O Movimento Pendular, no qual se propunha a fazer uma teoria classificatória das variantes do adultério na literatura. A presença de indígenas por toda parte nesse Rio ainda em formação dá a Mussa a oportunidade de tangenciar outra vez o rico universo da tradição autóctone, que ele já havia abordado em Meu Destino é Ser Onça, no qual apresenta uma versão reconstituída da cosmogonia tupinambá.

O que mais surpreende em A Primeira História do Mundo são as soluções que Mussa, criando um narrador que refletindo sobre seus próprios procedimentos, encontra nessa reflexão as ferramentas  para especular as sutilezas de um inquérito do qual só sobraram os depoimentos por escrito, tomados há mais de 400 anos. Um toque de originalidade usando a sempre difícil, porque rígida, moldura do romance policial.

A utopia como caso de polícia

14 de janeiro de 2014 0
À esquerda, Ramón Mercader. Nas imagens seguintes, Trosky (com a esposa ao centro e uniformizado à direita). Divulgação, Boitempo

À esquerda, Ramón Mercader del Río na época da Guerra Civil Espanhola
Nas imagens seguintes, Trosky (com a esposa ao centro e uniformizado,
como líder do Exército Vermelho, à direita). Divulgação, Boitempo

Nos interstícios entre dois gêneros de formas bem demarcadas, o romance policial e o de espionagem, o livro O Homem que Amava os Cachorros, do escritor cubano Leonardo Padura, retrata a degradação de uma das principais utopias do século 20. O romance, a obra mais ambiciosa de um escritor que fez nome como respeitado autor de literatura de crime, monta uma complexa rede narrativa para retratar as trajetórias paralelas do líder revolucionário soviético Leon Trotsky (1879 – 1940) e do homem que o assassinou a mando de Josef Stalin (1879 – 1953), o militante espanhol Ramón Mercader del Río (1913 – 1978).

O Homem que Amava os Cachorros  (Tradução de Helena Pitta, Boitempo Editorial, 590 páginas, R$ 69) pega seu nome emprestado de um conto de Dashiell Hammett (incluído na coletânea Assassino na Chuva, publicada pela L&PM). Essa filiação já declara tacitamente a proposta de Padura: mesclar um romance de ficção histórica com uma narrativa em ritmo de thriller, para reconstituir: o instável quadro político da primeira metade do século 20; as sucessivas quedas e expurgos de soviéticos à medida que a tirania de Stalin se tornava mais paranoica e cruel; a cambiante política de alianças dos comunistas submetidos à autoridade de Moscou e, principalmente, a trajetória errante de Trotsky, um dos homens que fizeram a Revolução Russa, como um exilado indesejável em boa parte do mundo.

No centro da trama está o complô para matar Trotsky – consolidado, em 1940, quando Mercader, ex-combatente da luta contra Franco na Espanha, assassinou o soviético em seu último pouso, no México, com um golpe de picareta. Até o desenlace fatal, o romance acompanha alternadamente o exílio de Trotsky, de 1928 até sua morte, e a transformação de Mercader de guerrilheiro em agente infiltrado. À parte as vidas paralelas de ambos, Padura Fuentes – que, curiosamente, é identificado apenas como Leonardo Padura na edição do romance pela Boitempo – acrescenta um terceiro elemento que serve como a voz contemporânea a avaliar os resultados dos esforços de ambos, um escritor cubano chamado Iván Marturell. Após um bem recebido livro de contos, Marturell cai em desgraça junto ao regime dos irmãos Castro e passa por diversas etapas de aniquilação pessoal em conflito com a marcha da História na Ilha.

Marturell gradualmente abandona a literatura enquanto seu caráter lentamente se degrada à medida que cumpre funções burocráticas para o regime. Seu irmão, homossexual forçado a esconder sua condição, desaparece após tentar fugir de Cuba em uma balsa improvisada que naufraga. Desiludido com a marcha da revolução cubana que se tornou autoritarismo, ele encontra na Havana dos anos 1970 um misterioso estrangeiro que parece saber tudo sobre o complô stalinista para matar Trotksy – algo bem pouco conhecido na Cuba alinhada com a política oficialista da União Soviética. O relato, uma espécie de lado B da utopia comunista defendida pela propaganda oficial da ilha, será fundamental para que ele tente recuperar a literatura que havia abandonado.

Embora o foco se divida, a rigor, entre três personagens, Trotsky, Mercader e Marturell, são combinações binárias entre temas e motivos especulares que sustentam o romance. A derrisão da identidade de Trotsky provocada pela perseguição de Stálin (de líder comunista a voz de oposição, de dissidente perigoso até um homem solitário transformado em bicho-papão da utopia) encontra seu reflexo nas várias trocas de identidade do próprio Ramón ao longo de sua preparação, de militante comunista movido por paixão genuína a um agente cheio de dúvidas que mesmo assim executa sua missão (Mercader também muda de nome ao longo da sua preparação, até assumir a identidade de Jacques Mornard Vandendreschs, um belga envolvido em negócios no México, que se aproxima do círculo de confiança de Trosky).

Em outro caso de temas que se refletem, Trotsky, embora esteja sempre em cena, se constitui, na narrativa de Padura, em uma figura com a qual Stálin, ausente das cenas mas presente nas sombras, estabelece uma relação simbiótica. Para que Stálin se erga como o líder e guardião incontestável dos valores da Revolução, precisa transformar Trotsky em um líder dissidente de igual poder, capaz de complôs e alianças com os mais perigosos inimigos dos soviéticos, como os nazistas – embora Trotsky tivesse um prestígio cada vez mais restrito e um grupo cada vez menor de seguidores, sua apresentação pela propaganda comunista como um grande conspirador fornecia a cobertura necessária para as tramas que o próprio Stálin tecia, inclusive um acordo com os mesmos nazistas que Trotsky foi acusado de apoiar em certo momento.

Também as trajetórias de duas revoluções se espelham na forma como Padura urde sua trama: a Russa, matriz da Cubana, ambas corrompidas pelo autoritarismo e pela politicagem. Os expurgos e os desmandos de Stálin, que resultam em perseguições e fome para a população, têm eco na forma como a própria revolução cubana vai se deteriorando, da utopia sustentada pelo dinheiro soviético nos anos 1970 e 198o até a pobreza extrema dos anos 1990, agravada pela queda do comunismo e pelo embargo norte-americano.

Autor de policiais bastante apreciados pelos fãs do gênero, como Adeus Hemingway ouVentos de Quaresma, Padura se vale de sua habilidade adquirida no ofício e tem sucesso em criar uma atmosfera de suspense e interesse para um episódio real cujo fim é hoje amplamente conhecido. O que deixa a desejar é justamente o território novo que o escritor tem a desbravar em uma trama tão extensa e ambiciosa: a construção psicológica dos personagens. O retrato íntimo de Trotsky como um homem exilado e perseguido contrapõe- se com eficiência à imagem demoníaca que Mercader forma do adversário depois da doutrinação stalinista (em mais uma elegante construção especular). Mas, como o retrato esboçado por Padura é abertamente simpático a um Trotsky derrotado e sem poder, são reduzidas algumas contradições importantes de seu comportamento como um dos comandantes revolucionários, ele próprio responsável por fuzilamentos durante os primeiros anos da Revolução. Até se menciona de passagem esse episódio, mas a voz de Trotsky, colada à do narrador, é rápida em justificar que as circunstâncias de seus fuzilamentos eram outras e não se volta a esse tema.

Ao menos no início, é uma obsessão amorosa o grande motivo para que Mercader embarque em sua missão de morte, a paixão por Africa de las Heras, uma militante stalinista radical e totalmente devotada às ordens do Kremlin (e outra personagem real, a propósito). Ainda que o romance possa ter base histórica, o destaque que Padura dá a esse caso de amor é uma solução pouco imaginativa, que de algum modo enfraquece o universo interior, moral e ideológico de Mercader, melhor apresentado em A Segunda Morte de Ramon Mercader, de Jorge Semprun, por exemplo, que também aborda o mesmo episódio.  Á medida que os destinos de Trotsky e Mercáder convergem, contudo, O Homem que Amava os Cachorros cresce, na forma como consegue interligar a estrutura especular habilmente montada à história real, montando um grande painel de vidas levadas de roldão pela História, essa abstração pela qual tanto se matou e morreu.

Pepetela e o outro lado das coisas

25 de maio de 2012 0

O escritor Pepetela. Foto: Sérgio Lima, Divulgação

Pepetela situa-se entre os autores que trazem consigo a sina da procura da identidade nacional, o que se coloca já a partir da “cartilha” para guerrilheiros adultos,  As aventuras de Ngunga, (1972). É o autor quem diz : “despojados que fomos da nossa História por séculos de obscurantismo, muitas vezes  nos  sonhando iguais aos outros, mas sempre temerosos da comparação, nada igualava as tradições da Europa a que tínhamos que ficar para sempre agradecidos porque  das trevas nos tirou, quando afinal as trevas vinham de lá…”

Pepetela nasceu numa região fronteiriça do reino de Benguela, onde terminava a cidade branca e começava o musseke, portanto produto, como sua própria cultura, da confluência da base africana com a influência euro-ocidental. É a partir desta posição que propõe, através de sua obra, a reescrita da história angolana, com a visão não apenas do ponto de vista da colonização, mas também daquelas populações que a viveram de fato. Trata-se da procura da identidade através da reunião dos elementos dispersos na memória coletiva. É como chegamos ao excelente livro que, agora, lança no Brasil, A Sul. O Sombreiro (Editora Leya, 364 páginas, R$ 44,90), onde volta, com um diálogo forte, tenso, irônico entre a história e a ficção. É com extrema habilidade que o autor nos conduz  ao princípio da colonização angolana, aos séculos 16 e 17, período do domínio espanhol sobre as terras lusas, construindo a urdidura sobre duas personagens, uma histórica, Manuel Cerveira Pereira, administrador do império e conquistador de Benguela, e uma ficcional, Carlos Rocha, um negro livre, talvez descendente do navegador Diogo Cão.

O primeiro, Pereira,  o legítimo representante da prepotência, da crueldade, da hipocrisia e da ganância do processo de colonização. Sabia como ninguém se movimentar entre conspirações e intrigas na corte, empolgando os reis com as grandes riquezas que lhes poderia oferecer, mas esquecendo-se de referir os lucros que teria com o comércio de escravos ou outros produtos. Na verdade, todos os colonizadores, inclusive os padres jesuítas e franciscanos, acobertados pela missão de converter as populações locais ao cristianismo, ambicionavam enriquecer rapidamente e sem grande trabalho.

O que poderia ser apenas um relato factual, ainda que interessante,  se enriquece com o cruzamento da história com o segundo personagem, Rocha, e nisso Pepetela é mestre. Esteticamente inquieto, o escritor brinca com a estrutura, no que diz respeito ao ponto de vista, o que está ligado à própria tradição oral africana, e na utilização de uma linguagem que transita  entre o Português e as línguas nacionais angolanas. É através do percurso de Carlos Rocha que a tradição emerge, quando, com o fiel Mulembe e um mosquete nas costas, abandona Luanda temendo que o pai, um alcoólatra que tudo perdera, o venda como escravo. É Carlos Rocha, ” o negro branco”, quem desvela, aos olhos do leitor, a paisagem africana e suas gentes, seus costumes, a rivalidade entre os reinos  Ndongo e Konga e os confrontos tribais e, é justamente numa tribo jaca, canibal, que ele encontra Kandalu,  a mulher a quem vem a amar e que o coloca  na divisa das diferenças culturais, seja pelo dote, um escravo a ser comido, seja pelo filho, que deveria ser morto no nascimento.

Uma figura que merece destaque é o aventureiro inglês Battell, exímio contador de histórias, que, ao voltar para a terra natal, escreve um livro de memórias. Da mesma forma, não há como ignorar o narrador que insiste em interromper a narrativa, para apresentar sua versão, crítica e irônica, da história que, então, se conta.
É como Pepetela se reafirma  em A Sul. O Sombreiro, como o maior romancista de Angola e da tradição angolana, revelando, com olhos críticos jogados no passado,  causas que nos podem iluminar o presente angolano e africano.

Texto de Jane Tutikian, escritora e diretora do Instituto de Letras da UFRGS

Atado de Histórias

05 de outubro de 2011 0

Ana Mariano. Foto de Fernanda Davoglio, Divulgação

A escritora Ana Mariano lançará o livro Atado de Ervas (L&PM, 400 páginas, R$ 49) nesta quarta-feira (5/10), às 19h, no Instituto NT (Marquês do Pombal, 1.111), em Porto Alegre. Autora da coletânea de poemas Olhos de Cadela (2006), também pela L&PM, ela estreia no romance. Leia, na íntegra, a entrevista que ela concedeu para a matéria publicada na edição impressa do Segundo Caderno de Zero Hora desta quarta-feira.

Zero Hora – Atado de Ervas é, para todos os efeitos, um romance histórico, gênero muito praticado no Rio Grande do Sul. Você desejou conscientemente enveredar por este gênero ou percebeu que se tratava de um romance histórico apenas durante o processo de escrita?
Ana Mariano –
Gostei da expressão “para todos os efeitos”. Ela se aplica bem ao meu livro porque define algo que é sem ser exatamente. Atado de Ervas, ainda que escrupuloso nos detalhes que cercam a vida numa fazenda; ainda que descreva as minúcias da vida em Porto Alegre durante a enchente de 1941, por exemplo, ou no episódio da Legalidade; ainda que fiel ao que acontecia no Rio de Janeiro nos anos dourados do Cassino da Urca, não tem a pretensão de ser romance histórico. Todos os dados históricos servem apenas como pano de fundo para mostrar a vida diária de gente comum, ou não tão comum assim, mas “encontrável”. João Goulart, por exemplo, aparece no livro mais como o filho da dona Tinoca do que como o angustiado presidente de um Brasil conturbado. Getúlio Vargas, mais do que um presidente, é o amigo que fez revolução e suicidou-se no Palácio do Catete. Porém, se todos os pormenores do livro foram minuciosamente estudados, nada ou quase nada mais foi planejado. Quando comecei a escrever, nem mesmo sabia que seria um romance. Achava que escrevia contos. Só quando esses “contos” começaram a se enredar numa narrativa, a conversarem entre si, a continuarem-se, foi que, ainda sem ter um nome para o que nascia, eu os reuni num arquivo a que chamei de “Possível Romance”. Não recomendo esse método caótico a ninguém, é muito dolorido.

ZH – Você passou a infância em São Borja. De que forma essa vivência influenciou a construção do cenário e dos personagens de Atado de Ervas?
Ana –
Passei a infância no interior do município de São Borja, na estância, e isso influenciou em tudo. Como diz Leocádia, uma das personagens, “ninguém vive impunemente a amplidão”. Mesmo quando eu ainda não sabia que escrevia uma narrativa longa, tinha a certeza de que queria resgatar do esquecimento a história de um lugar, de um tempo e de seus habitantes. O livro foi um reencontro. Nas histórias que inventei, revi pessoas e situações que conheci de perto.

ZH — A história se passa em um período entre 1928 e 1963. Que panorama da história do Rio Grande do Sul você quis criar?
Ana —
Talvez esteja apenas na minha cabeça, mas sinto uma unidade nesse período. O início e o fim do romance acontecem em anos que podem ser chamados de preparatórios das grandes mudanças políticas de 1930 e 1964. Durante esse período, que vai de 1930 a 1963, tendo Getúlio e depois Jango como presidentes, o Rio Grande, sob alguns aspectos, tornou-se nacional. Por outro lado, um lado oposto, como não havia luz elétrica, a forma de viver das pessoas simples das estâncias estava ainda preservada de influências externas, era um lugar à parte _ puro, mágico e violento _ semelhante ao sertão dos livros de Guimarães Rosa. As chegadas da televisão e das novelas padronizaram os costumes, trouxeram para o campo os modismos do centro do país. Não estou dizendo que isso seja ruim, nem sendo saudosista, apenas estou constatando uma realidade.

ZH — Uma das suas referências literárias é García Márquez. A solidão é uma referência associada à família Buendía (de Cem Anos de Solidão). No caso do ambiente familiar de Atado de Ervas, quais são suas características? Quem são estes personagens?
Ana —
A relação é sutil. Embora na minha família ninguém tenha sido levado pelas formigas ou subido aos céus envolto em lençóis, a realidade que os livros de García Márquez apresenta através de metáforas, esse realismo fantástico que cerca as antigas famílias, a continuidade da estirpe, seus assustadores quartos de santos, suas paixões, os loucos que sempre existiram e eram aceitos como inevitáveis, os adultérios, suicídios e assassinatos e, é claro, a enorme solidão dos fortes, tudo isso me é muito familiar.

ZH — O livro contém diversas passagens com estratégias de narrativa que remetem a maneiras de documentação obsoletas ou em desuso, como memoriais da estância, telegramas e cartas. Qual é o papel destes recursos na sua narrativa?
Ana —
Os livros da fazenda, como os chamávamos, ou Memoriais Rio-grandenses da Livraria do Globo, eram  muito comuns nas estâncias maiores. Outro dia, um amigo que comprou uma estância em Itaqui me contou que leu muito sobre o meu pai nos livros que encontrou por lá. A estância pertencia a um casal de ingleses a quem meu pai visitava com assiduidade. Essas visitas eram registradas junto com a vida diária da fazenda, o manejo do gado, as vacinas aplicadas, as ovelhas carneadas. Na casa que foi a sede da estância do meu avô, estão guardados exemplares desses Memoriais que datam do ano de 1925. Esses diários eu usei para mostrar o dia a dia de uma estância e, principalmente, para situar o leitor no tempo e no espaço – “Estância Santa Rita, 20 de julho de 1942″ ou “Estância Água Bonita, 13 de março de 1958“. Os telegramas, as cartas mandadas não pelo correio mas dentro das cestas que iam e vinham pelo trem, levando manteiga e ovos e trazendo encomendas da cidade, eu usei para dar veracidade à narrativa: era assim que as coisas aconteciam realmente.

ZH — Quais são suas lembranças da infância na estância?
Ana —
Nasci no dia 3 de abril de 1950, em Porto Alegre, mas apenas porque aqui havia mais recursos, melhores hospitais. Na verdade, morei na estância até os 11 anos. Como já haviam feito antes com o meu irmão (sete anos mais velho do que eu), para evitar dividir ainda mais a família, meus pais optaram por me ensinar eles mesmos, em casa. Quando vínhamos a Porto Alegre, visitar meu irmão, por algumas semanas, eu  tinha aulas particulares com uma professora, dona Maria Terra. Era sentada à mesa da sala de jantar dela, comendo bolinhos de arroz recém-fritos, que eu fazia as sabatinas e avaliações finais. Só quando precisei prestar o exame de admissão ao ginásio, meus pais compraram um pequeno apartamento em Porto Alegre, perto da casa de um tio, e então passei a morar aqui com meu irmão e duas empregadas. Meus pais iam e vinham, divididos entre os filhos e a estância.

ZH — Em algumas das fotos de divulgação, você aparece com um cachorro…
Ana —
É um macho. Chama-se Pablo. Nome completo — Pablo Neruda Backyardigan —, resultado da mistura inseparável da Ana escritora com a Ana avó. Quem tem netos ou filhos pequenos sabe quem são os Backyardigans (série televisiva canadense-americana criada em 2004). É à minha neta Maria Luiza, que tem o mesmo nome da minha mãe já falecida, que Atado de Ervas é dedicado: “Para Maria Luiza, as duas“.

Texto e entrevista de Fábio Prikladnicki

Bagagem humana

18 de maio de 2011 4


A romena Herta Müller - Foto Jens Meyer/AP


Ganhadora do Nobel em 2009, Herta Müller era bem pouco conhecida no Brasil — a própria Lya Luft, tradutora de O Compromisso, seu único romance publicado no Brasil naquela época, declarou a um jornal não lembrar sequer de haver traduzido livro, há muito tempo esgotado àquela altura. A visibilidade obtida pelo Nobel, contudo, animou o mercado editorial brasileiro a dar nova chance a seus livros já editados e a publicar seus inéditos. A Globo reeditou no ano passado O Compromisso e a coletânea de contos Depressões. Agora, a Companhia das Letras põe em circulação um poderoso romance: Tudo o que Tenho Levo Comigo.

Tudo o Que Tenho Levo Comigo é um livro no qual a autora enumera fragmentos que tentam passar, na totalidade, a experiência traumática do narrador, um romeno de origem alemã deportado para um campo de trabalho soviético ao fim da II Guerra. O livro começa com a arrumação de uma mala: a do jovem Leo Auberg que, aos 17 anos, prepara-se para a viagem até os campos russos. São os últimos dias da guerra e os nazistas estão sendo derrotados em toda a Europa. Até então aliada dos fascistas, a Romênia muda de lado e recebe os soviéticos de braços abertos _ atendendo à exigência de deportar para os campos todos os cidadãos de origem alemã entre 17 e 45 anos. É nessa leva que Auberg embarca para o que será uma temporada de cinco anos de trabalhos forçados e tentativas de sobrevivência acossada pelo “Anjo da Fome”. É nessa mala que Auberg levará “tudo o que tem” – e não apenas as roupas emprestadas pelos vizinhos, mas uma humanidade florescida no segredo (o rapaz é homossexual, o que era perigoso durante o nazismo e continuou perigoso durante o comunismo).

O livro é construído com base nos depoimentos que Herta colheu de um sobrevivente real, Oskar Pastior, para o que seria um livro de não ficção escrito a quatro mãos por ambos. A morte de Pastior, em 2006, mudou os planos. Depois de anos com o projeto paralisado, Herta decidiu retomá-lo como um romance. Se, como lembrou Benjamin, o horror da guerra não se presta à visão narrativa totalizante, Herta Müller não oferece uma narrativa linear ou unívoca. Cada capítulo opta por focar um aspecto da longa experiência do campo, relatada ora no passado ora no presente _ assim como as lembranças do Auberg já idoso e em liberdade também se misturam à narrativa da viagem aos campos. Auberg conhece a fome, o cansaço, a necessidade de esperteza para negociar ou roubar itens suplementares à mirrada ração fornecida pelos russos. À medida que luta para se manter vivo, Auberg também luta para se manter humano colecionando palavras. E é na mescla entre o presente do idoso Auberg e suas recordações de juventude que a primeira frase do livro, “Tudo o que tenho levo comigo” (o título original em alemão, Atemschaunkel, remete ao ritmo da respiração), assume novo significado: também os anos de fome são algo que o prisioneiro sobrevivente levará consigo.

Aventino túmulo, cadáveres muralhas

02 de março de 2011 4

Foto de Tiziana Fabi/AFP

O romance policial nasce com a modernidade, da união de vários elementos que contribuiram para a ascensão do gênero: o aumento da população nas cidades, a modernização da sociedade capitalista industrial e, claro, a criação da própria polícia nos moldes das modernas sociedades ocidentais – uma vez que a manutenção da segurança e da assim chamada “ordem” nas sociedades de épocas anteriores era uma tarefa colateral do Exército ou da Guarda do soberano. Como lembra um dos primeiros intelectuais a estudar o romance policial a sério, Howard Haycraft, no estudo Murder for Pleasure: The Life and Times of the Detective Story (Assassinato por prazer: a vida e as épocas da história de detetive, em tradução livre):

Histórias de enigma, de mistério, de crimes e de dedução e análise existem desde os tempos primordiais – e o romance policial está intimamente relacionado a todas elas. No entanto, a própria história de detetive é meramente um resultado da era moderna. Cronologicamente, não poderia ter sido de outra forma. Porque o tema essencial da história de detetive é a investigação profissional do crime. Esta é a sua razão de ser, o elemento distinto que a torna uma história de detetive e a afasta das suas “primas” da família dos enigmas. Claramente, não poderia haver histórias de detetive (e não havia nenhuma) até que houvesse detetives. E isso não ocorreu até o século XIX.

Essa afirmação era verdade no tempo em que Haycraft publicou seu estudo, em 1941. A questão é que de lá para cá o policial não apenas evoluiu em uma série de subgêneros como se tornou ele próprio mais do que um gênero, mas uma “moldura de gênero” que pode ser usada e subvertida por autores com pretensões distintas. Pode ser apenas um elemento a mais numa trama com outras intenções, como Umberto Eco fez magistralmente em O Nome da Rosa ou como Borges fez em alguns de seus melhores contos – temos até um exemplo bem próximo na figura do gaúcho Dyonélio Machado e de seus Deuses Econômicos.

Ao mesmo tempo, o policial se tornou um dos gêneros mais produzidos em larga escala, e por isso cada autor, para se destacar em um cenário em que a oferta de obras ao público é avassaladora, precisa achar um elemento que o particularize, seja formal, seja temático. Normalmente a tentativa de inovação se dá na temática, na ambientação, e isso deu origem a um subgênero do policial muito praticado nos dias de hoje, o do “policial histórico”, que cruza uma trama de mistério e muitas vezes de investigação com uma narrativa histórica ao estilo ágil e dinâmico de um Bernard Cornwell, digamos. O que criou o interessante fenômeno anacrônico que entra em choque com a opinião de Haycraft: são romances policiais ambientados na Idade Média, na antiguidade clássica, no renascimento. Livros que narram uma história de detetives em um tempo em que não havia detetives de fato. Claro que experiências como essa não datam das últimas décadas, apenas. Em 1944, apenas três anos depois da publicação do estudo de Haycraft, Agatha Christie ambientou seu E No Final a Morte no Egito Antigo da 11ª Dinastia (cerca de 2.000 a.C.), mas ela própria admite na apresentação da obra que “tanto o lugar quanto a época são indiferentes para a história. Qualquer outro lugar em qualquer outra época poderia ter servido tão bem quanto”.  A questão é que tal prática se tornou mais constante a ponto de ser quase um subgênero próprios nas últimas décadas.  E nota-se nos autores atuais uma tentativa de fazer a trama policial ter uma relação mais íntima e orgânica com o período histórico retratado.

Nos últimos dois anos, um bom número de obras ambientam tramas de crime e conspiração na Roma dos Imperadores. O interessante é que o período imperial foi tão vasto que cada romance parece eleger um período cronológico específico para situar sua trama. Abaixo, uma pequena seleção dos mais interessantes recentemente lançados:

O Centésimo em Roma, de Max Mallmann
Publicado no ano passado, tem como protagonista um ambicioso centurião romano, Publius Desiderius Dolens. Depois de anos nos campos de batalha, Dolens volta à cidade romana contando com o favor de um homem poderoso para elevar-se à ordem dos Cavaleiros, mas a mudança da maré política deixa o soldado sem respaldo e ele tem de se contentar com o comando da guarda urbana, um amontoado mal treinado de refugos militares e soldados moloides e indisciplinados. Enquanto testemunha, em rápida sucessão, uma série de quarteladas da vida política pós-Nero que fazem Roma passar por quatro imperadores diferentes durante os anos de 68 e 69 d.C.. Além de viver em tal cenário de instabilidade política, Dolens recebe a missão de desvendar as razões da morte de um influente cidadão romano, que teve a garganta cortada em sua sala de estudo aparentemente tranda por dentro. A reinvenção de um dos motes clássicos da literatura policial, a do crime cometido em um “quarto fechado”, coloca Dolens no rastro de uma conspiração envolvendo a clandestina e subversiva seita dos cristãos e suas próprias raízes familiares.  Rocco, 424 páginas.

Imperium e Lustrum, de Robert Harris
Os dois primeiros volumes de uma trilogia histórica protagonizada pelo prócer romano Cícero (106 a.C. – 43 a.C.). Harris é um autor de thrillers que transita com eficiência do histórico ao contemporâneo. É o autor de Pompeia, no qual um engenheiro encarregado de construir aquedutos na Pompeia antes da explosão do Vesúvio enfrenta a corrupção da política romana. Também escreveu O Fantasma, no qual um escritor de discursos se envolve em uma trama de corrupção na política inglesa (adaptado por Roman Polanksi em seu filme mais recente). Pode-se ver, portanto, que a política imperial, independentemente de qual império e em que época,  é um tema de interesse para Harris, que pode, com Cícero, esmiuçar um período crucial na história de Roma e do próprio Ocidente. Harris transforma em leitura vigorosa uma história das mais conhecidas da Antiguidade: a ascensão de César, a aliança com Pompeu, a conspiração de Catilina, o triunfo e a queda de Cícero, advogado e ex-cônsul romano. É um romance histórico mais aos moldes clássicos, embora seu segundo volume, em especial, invista em toques de suspense e abra a narrativa com o assassinato brutal de um menino escravo – apenas o começo de uma conspiração que pode derrubar a República. Tradução de Domingos Demasi. Record, 389 páginas e 419 páginas.

Morituri te Salutant, de Danila Comastri Montanari
Considero até lógico que um dos países com o maior nicho dos chamados “policiais históricos” seja uma das nações com a história mais rica do planeta: a Itália. Herdeira contemporânea da Roma Antiga, a Itália é hoje uma das principais produtoras de romances históricos sobre o período imperial, desde obras de aventura mais convencionais como A Última Legião, de Valerio Manfredi (adaptada para o cinema), a romances como os desta escritora, professora de história que criou seu próprio investigador policial da Antiguidade. Públio Aurélio,  senador romano no ano de 45 d.C., que já havia protagonizado um romance anterior de Danila lançado no Brasil, Cave Canem, se lança à investigação da morte suspeita de um popular gladiador que perece subitamente em plena luta. Para desvendar morte tão insólita, Públio Aurélio mira seus dotes de investigador até mesmo para o imperador Cláudio César, o mesmo que protagoniza a dupla de romances de Robert Graves Eu, Cládius, Imperador, e Claudius, o Deus, e sua Esposa Messalina. A série do investigador Públio Aurélio é sucesso na Itália, e já conta com 16 títulos. Tradução de Joana Angélica D’Ávila Melo. Record, 292 páginas.

O Atiçador de Fogo, de Ben Pastor
Outro romance da recente safra de romances policiais-históricos italianos, curiosamente também escrito por uma mulher, Maria Verbena Volpi, que assina seus romances com o pseudônimo masculino de Ben Pastor. Dos romances aqui abordados, é o que situa sua história no período mais tardio, no ano de 304 d.C., quando o poder romano não está mais nas mãos de um imperador central, e sim dividido nas mãos da chamada “tetraquia”: dois imperadores, Diocleciano no Oriente e Maximiano no Ocidente, e dois jovens preparados para serem seus sucessores, Galério e Constâncio. O protagonista do romance é o emissário Aélio Espartano, enviado em missão a serviço de Diocleciano para Treveris, na província Bélgica Prima, sede do Império (a região fica na atual Alemanha). No caminho, Espartano esbarra em um caso insólito: rumores de que um milagreiro religioso teria ressuscitado um homem dos mortos. Antes que Espartano possa investigar o caso, o “ressuscitado” é morto novamente. É um romance de atmosfera sombria e pesquisa sólida, mas que demora a encontrar seu ritmo devido às descrições minuciosas da narrativa, que muitas vezes parecem estar ali para provar ao leitor que a autora fez sua pesquisa. Aélio Espartano já protagonizou três romances, o primeiro deles também já lançado no Brasil em 2008: O Ladrão de Água. Tradução de Celina Cavalcanti Falk Cook. Record, 332 páginas.

Ah, sim.

Curiosidade número 1: o título original de O Atiçador de Fogo é La Voce del Fuoco, que poderia ser traduzido por A Voz do Fogo. Não saberia dizer se a tradução que ficou para o título procura evita qualquer confusão com outro romance de mesmo nome, de autoria do quadrinista inglês Alan Moore, publicado pela Conrad há uma década, mais ou menos.

Curiosidade número 2: o leitor mais atento captou, esta nota é para os demais. O título algo empolado desta postagem é uma referência ao poema A Roma sepultada en sus ruinas, de Francisco Quevedo, cuja primeira estrofe foi assim traduzida em coletânea de poesia espanhola organizada por Fábio Aristimunho Vargas para a editora Hedra:

Procuras Roma em Roma, ó peregrino,
e achar em Roma a própria Roma falhas;
se agora são cadáveres as muralhas,
é de si mesmo túmulo o Aventino.

A Outra Nação da Sereia

07 de dezembro de 2010 0

Livro ganhador do Prêmio Passo Fundo Zaffari Bourbon em 2007, o romance O Outro Pé da Sereia, do moçambicano Mia Couto, é uma narrativa complexa que se faz de travessias, de deslocamentos entre mundos (reais e metafísicos), separados pelo tempo ou pelo espaço. Duas jornadas se intercalam para compôr, como um estrado, o eixo estrutural do livro. A primeira é a da jovem Mwadia Malunga, que, no ano de 2002, ou seja, mais próximo do “presente” do leitor, viaja de Antigamente, o terreno ermo em vive com o marido, o pastor Zero Madzero, até Vila Longe, seu povoado de origem, de onde saiu primeiro para estudar em um colégio cristão no Zimbabwe e depois para viver com o marido nas solidões de Antigamente. A segunda travessia que forma o esqueleto da narrativa é a de um provincial dos jesuítas, Dom Gonçalo da Silveira, que, em 1560, a bordo do navio Nossa Senhora da Ajuda, viaja de Goa a Moçambique para, em companhia de seu subordinado Manuel Antunes, responsável pelos registros de viagem, escoltar uma imagem em tamanho natural de Nossa Senhora, esculpida em madeira. A imagem está sendo levada para o império africano do Monomotapa com o intuito de auxiliar na conversão do soberano do lugar ao cristianismo.

Entre essas duas viagens, enroscam-se outras, tributárias das primeiras, todas desembocando na África, tanto o mundo físico do passado (no caso de Dom Gonçalo) quanto o continente alegórico do presente, representado na figura de Mwadia, mulher sedutora, sábia, ousada, intrigante. Mwadia, cujo nome significa “canoa”, o transporte por excelência da África e de seus rios caudalosos, é o barco que um pouco à deriva conduz o olhar do leitor no interior da narrativa. Ela é uma peregrina em busca da verdade que não se importa de falsear um pouco transes místicos com dados buscados em antigos livros que ela e o marido encontraram à beira de um rio em uma mata sagrada. A mata que nos é apresentada logo no começo da narrativa, aonde ela e o marido vão para enterrar os restos de uma “estrela” encontrada pelo pastor Zero logo no início da história (na verdade um satélite espião caído no solo).

A representação que Mia Couto faz da África em seu livro é a de um ponto de confluências entre os dois níveis da narrativa, o cenário para o qual se dirigem personagens que representam, a seu modo, um microcosmo das relações do mundo que fala português, tanto no passado quanto no presente. Como Mwadia vai definir a determinada altura: “diversas viagens se cruzavam, a um só tempo, na velha casa”. Inclusive a narrativa do passado, representada na figura da Santa e nos escritos encontrados no baú – outrora  pertencente ao falecido Gonçalo da Silveira e no presente abandonado às margens do rio Zambeze.

Na trama que se passa no século 16, viajam a bordo do Nossa Senhora da Ajuda (o navio e sua viagem, simbolicamente, dominam a maior parte dessa linha narrativa) personagens de nacionalidades diversas, retratando a embarcação, bem como os portos do período, como a babel decorrente do comércio e do transporte marítimo. Estão no navio portugueses que assumem maior ou menor importância à medida que narrativa avança: os já citados Gonçalo da Silveira, Manuel Antunes e uma dama de nome Dona Filipa, que deixa Goa, onde passava por um tratamento de saúde, para ir ao encontro do marido, o comerciante Antônio Caiado, também português, residente no Monomotapa (registre-se para quem ficou curioso que o Monomotapa se estendia, nos séculos 15 e 16, ao longo dos territórios que hoje chamamos de Moçambique e Zimbábue). Há também o capitão da nau, homem violento e sem aptidão para o comando, nomeado por favores de um pistolão.

O navio é um ele próprio uma babel de nacionalidades. O “físico de bordo” (nosso popular médico) é um goês de nome Fernandes, que afoga no álcool o horror do que presencia durante as viagens – nas quais um terço da carga humana, leia-se os escravos no porão, não chegará viva ao destino. Mas é em um infeliz triângulo amoroso que reside o coração desse núcleo da trama, cujos vértices são o padre Manuel Antunes, o negro Nimi Nsundi e a indiana Dia Kumari, aia da nobre Dona Filipa. Nsundi, que os portugueses chamam de “cafre”, ou seja, um negro africano banto, não muçulmano, parece, à primeira vista, ser o tripulante do navio mais devotado à imagem da santa, mas ele não a vê como os sacerdotes europeus, e sim enxerga uma sereia presa naquele corpo de madeira. Será Nsundi o autor do mote que dá origem ao livro: ele serra um dos pés da imagem, e  é surpreendido antes de serrar o outro, gesto que, para ele, libertaria a sereia. Nsundi é originário do Reino do Congo (que na época englobava partes do que hoje corresponde a Angola, República do Congo e Gabão), e fora negociado como moeda de troca por mercadorias encomendadas por portugueses.

Nsundi primeiro desperta a antipatia, mais tarde a simpatia e por fim a paixão de Dia Kumari, a aia. Dia também é de Goa, mas da etnia indiana, e não dos descendentes de portugueses. Tanto Dia quanto o médico de bordo Fernandes refletem o status intermediário dos indianos na dicotomia colonial “português-africana”. A determinada altura do romance, Dia deplora a devoção de Nsundi à santa, para ele um tributo aos signos religiosos dos brancos. “Para a gente do porão, você também é branca“, responde ele. Branca para os escravos e escrava para os portugueses, Dia acaba por despertar a paixão de um homem para quem aquela viagem de navio não é apenas um deslocamento espacial, mas de identidade: o padre Manuel Antunes. Em crise de fé e horrorizado com o que testemunha no navio e na relação entre os portugueses e seus colonizados, Antunes tem certreza, à medida que se aproxima da África, que está se tornando negro.

A viagem provocará consequências que alcançarão a trama que se desenrola em 2002, apesar dos mais de 400 anos que separam as duas instâncias. Mwadia, a canoa, é responsável também por uma travessia, entre dois lugares de ressonância simbólica por demais óbvia: “Antigamente” e “Vila Longe”. O “Antigamente” que é o ponto de partida da jornada de Mwadia representa a ponte que a mulher ergue entre os vários elementos do romance: a África em que vive, o Exterior, o passado representado pelos papéis do baú de Dom Gonçalo. Também na trama contemporânea questões de identidade assumem papel central, refletindo o cenário do navio no passado, em sujeitos de variadas procedências geográficas se cruzavam no mar mas tentavam aferrar-se inutilmente à ideia que faziam de sua própria identidade. Dia era revoltada contra o domínio português que assassinou seu marido na terra natal. Gonçalo da Silveira é praticamente um fanático em sua missão europeia, civilizadora e catequizante. Nsundi carrega a terra das margens do Rio Congo como forma de viajar levando o país consigo. Também na história de 2002 veem-se tentativas infrutíferas de recuperar uma noção de identidade.

Um exemplo está nos dois recém-chegados a Vila Longe, dois personagens que aparecem no vilarejo quase ao mesmo tempo que Mwadia e que acrescentam duas novas nacionalidades ao caldo do romance: Benjamin e Rosie. Benjamin é um negro norte-americano que vai à África em busca de uma ancestralidade que ele só quer ter por lhe ter sido ensinada em sua formação nos Estados Unidos. Rosie é brasileira, casada com Benjamin. Ambos são integrantes de uma obscura organização de assistência internacional e se tornam a galinha dos ovos de ouro para a atrasada vila. Ao saber que os dois “estrangeiros” estão a caminho, um comerciante local de nome Casuarino propõe aos moradores da localidade que forjem um passado de escravidão que a vila nunca teve ou que já esqueceu, colocando a mão, assim, nos dólares dos visitantes. A África assumindo a visão que o chamado “mundo desenvolvido” tem do continente.

A diversidade do antigo mundo colonial português também é vista na família de Mwadia. Sua mãe é moçambicana, seu padrasto e a irmã deste são goeses. Os goeses repetem no presente seu status de ora deslocados, ora privilegiados que víamos no navio no passado (onde Dia era escrava mas não dormia no porão nem era tratada como cativa pelos portugueses). A única biblioteca de Vila Longe pertence ao indiano Jesuíno – embora quem mais a desfrute seja o barbeiro e ex-combatente pela independência de Moçambique Arcanjo Mistura. O já mencionado Casuarino, articulador das maquinações urdidas para depenar os crédulos afro-americanos (na verdade não tão crédulos quanto os outros supõem), também vem a ter ligações familiares com Mwadia: é seu tio.

Outros dois personagens centrais também refletem a ilusão do pertencimento. O verdadeiro pai de Mwadia era um oficial africano no exército português. Enquanto se considera aceito pelos colonizadores, é um ferrenho antinacionalista, até ser humilhado por ex-colegas e perceber que nunca será um dos portugueses. Já o marido de Mwadia, Zero, orgulha-se de pertencer a uma etnia de coragem e valentia mitológicas, os Achikundas, tribo de índole feroz e guerreira, mas essa afiliação, ironicamente, não parece serde muita valia, já que Zero é um homem supersticioso, sempre com medo quando defrontado com as ousadias de sua mulher.

Contudo, apesar de retratar a África como uma imensa passagem onde tribos e nacionalidades se encontram, Mia Couto desenha em seu romance o contrário do cosmopolitismo, que é a noção de alguém à contade em qualquer espaço. Os personagens de O Outro Pé da Sereia são antes “cosmoexilados”, viajantes perdidos na própria e impossível jornada.

Frutos de Schlee

18 de novembro de 2010 1

Escritor, tradutor e professor, Aldyr Garcia Schlee foi agraciado, na última segunda-feira, no último dia da Feira do Livro, com o prêmio Fato Literário na categoria personalidade (a ONG Cirandar foi a vencedora na categoria projeto e a Festipoa Literária foi eleita pelo voto popular). No próximo sábado, no caderno Cultura, teremos um texto deste que vos escreve sobre como o último ano se tornou para Schlee o momento de colher esforços de praticamente uma década: foi aclamado com o livro Os Limites do Impossível e recebeu o Fato Literário bem no momento em que lançava, na Feira, o épico histórico Don Frutos. Um livro que Schlee se preparou para escrever praticamente ao longo de uma vida inteira.

Dom Frutos narra, em mais de 500 páginas, a história do caudilho uruguaio José Fructuoso Rivera (1784 – 1854), sim aquele mesmo que dá nome à cidade ali do lado de Livramento, para quem estiver perguntando. Mais do que uma reinvenção dos últimos meses de vida do caudilho, o romance é o ponto final de um interesse de 45 anos.

— Quando tive a ideia de fazer esse livro pela primeira vez, meu filho que hoje já fez 50 anos tinha apenas cinco — rememora o escritor.

A gênese do romance remonta à época em que Schlee, então um jovem professor de Relações Internacionais na Universidade Federal de Pelotas, começou a fazer uma pesquisa sobre as intervenções do imperialismo ibérico nas guerras de fronteira sul- americanas. No decorrer desse levantamento, topou com documentos comprovando uma história que já ouvira contada de boca a boca em sua cidade natal, Jaguarão: fora lá que o político e general, primeiro presidente constitucional do Uruguai, havia morrido.

Foi apenas no início dos anos 2000, com a ajuda de um pesquisador uruguaio, Amilcar Brum, que Schlee conseguiu se dedicar à pesquisa necessária para criar o romance. Don Frutos parte da estada de 10 meses do caudilho em Jaguarão para monatr seu enredo, acompanhando a longa enfermidade do caudilho – que seguia para o Uruguai, após ficar um tempo preso no Rio de Janeiro. Em seu país, Rivera deveria tomar parte do triunvirato governamental composto por ele, Lavalleja e Venâncio Flores, mas, completamente debilitado, não conseguiu atravessar a fronteira. É desse destino interrompido tão próximo de seu maior objetivo que Schlee tira a maior força do romance, que conta o passado de Rivera e das personagens com quem teve contato (entre elas os brasileiros Bento Gonçalves, a quem derrotou em batalha, e Bento Manoel, que o derrotou, os dois fatos durante a Guerra da Cisplatina) por meio de documentos, ordens de expediente e muitas cartas. A redação do romance durou quatro anos – a obra foi concluída ainda antes de Os Limites do Impossível, mas demorou a encontrar acolhida em uma editora.

— Duas editoras me pediram o livro para análise. Eu sou um sujeito que não tem muito a cara de chegar a uma editora e oferecer um livro, mandei por solicitação das própria. Depois de mais de um ano foi que recebi a resposta da recusa. Uma achou o livro muito volumoso, não pagaria o “custo-benefício”. A outra me fez um apelo que eu considerei um atentado, considerando que se tratava de um livro de ficção: pediram que eu retirasse as transcrições dos documentos da obra, que narram parte da história, alguns documentos reais, pesquisados, outros inventados por mim – conta.