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Posts na categoria "Romance"

Guerra grande, vidas breves

29 de dezembro de 2014 0
Capa do livro 14, de Jean Echenoz

Capa do livro 14, de Jean Echenoz

Com tanto que se publicou a respeito da centenária I Guerra Mundial ao longo deste ano – literalmente milhares de páginas – é uma surpresa o tamanho do impacto provocado no leitor por uma novela tão curta quanto 14, do escritor francês Jean Echenoz, que foi lançada recentemente no Brasil (Tradução de Samuel Titan Jr., editora 34, 136 páginas). Falando de uma das guerras mais esquecidas pela ficção devido à complexidade de suas causas e forças em disputa, Echenoz, com uma prosa sóbria e impessoal, consegue realizar um grande livro enfocando personagens que sabiam tanto daquela guerra quanto o leitor contemporâneo: muito pouco.

Estruturado em 15 capítulos breves como vinhetas, mas plenos de cenas poderosas em seu poder evocativo, 14 concentra seu olhar não em soberanos, diplomatas e generais, os protagonistas “históricos” da guerra, mas em cinco rapazes e em uma moça franceses. Anthime, Charles, Padioleau, Bossis e Arcenel são jovens nascidos e criados todos na mesma aldeia da Vendeia, unidos por relações de coleguismo, em alguns casos, e parentesco, em outros – relações que a narrativa vai revelando aos poucos.

Em um primeiro momento, seu horizonte não parece muito amplo: alguns trabalham na fábrica que é o centro da economia local, outros são amigos de pescaria, mas todos são afetados pela notícia da declaração de guerra. Alistam-se e são designados ao mesmo regimento de infantaria e rumam para uma guerra até então sem par nos métodos industriais de violência e carnificina – o signo da fábrica que é o elemento tão presente na rotina da pequena aldeia é aqui replicado com uma torção cruel: a fábrica a serviço da morte em larga escala. O contraponto da narrativa é dado por Blanche, jovem a quem Anthime dirige sentimentos de afeição mas que é amante, efetivamente, de outro dos rapazes (e mais não se dirá porque o triângulo que se forma terá consequências no próprio destino de alguns dos combatentes no front).

Ciente de que seu romance não tem a legitimidade do testemunho de obras de escritores que de fato combateram na I Guerra, como Blaise Cendrars ou Céline, Echenoz não tenta transformar seu relato de guerra em um drama comovente. Pelo contrário, os melhores efeitos são obtidos do contraste entre os horrores narrados – combates, ferimentos, o inferno das trincheiras cheias de lama e ratos, as tentativas de deserção, reais ou acidentais – e o tom breve e impessoal da narrativa. Esse poderia ser o único reparo a ser feito ao livro: quando se demora um pouco mais na descrição da guerra do que em acompanhar seus personagens, Echenoz parece estar fazendo uma súmula das ideias mais facilmente associadas ao teatro de operações da I Guerra. É quando o livro se estende sobre o impacto de tal engrenagem sobre as frágeis vidas de seus personagens que 14 brilha com um magnetismo conciso e perturbador.

Três perguntas para Veronica Stigger

17 de novembro de 2014 0
A escritora Veronica Stigger. Foto: Guto Kuerten, Agência RBS

A escritora Veronica Stigger. Foto: Guto Kuerten, Agência RBS

A escritora porto-alegrense Veronica Stigger recebeu, na semana passada, o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria estreante acima de 40anos, por seu romance Opisanie Šwiata. Ela respondeu três perguntas por e-mail. Parte desta entrevista foi publicada, com cortes, no caderno PrOA de Zero Hora deste domingo. Abaixo, segue a versão na íntegra:

Dar a um romance de estreia no Brasil um título em polonês (apesar de todo o sentido que o título assume dentro da narrativa) é, de algum modo, um gesto anticomercial?
Não é a primeira vez que dou um título em outra língua para um trabalho. Meu segundo livro saiu com o título em italiano: Gran Cabaret Demenzial. E tenho vários textos com títulos em línguas estrangeiras: “Argumentum chronologicum”, “Quand avez-vous le plus souffert?”, “L’après-midi de V. S.”, “Des cannibales” – cada um com sua razão própria de ser. Antes de ser um gesto anticomercial, é, para mim, um gesto artístico, um gesto poético. Que poesia e anticomércio, hoje em dia, acabem por coincidir é algo que talvez diga menos sobre meu romance do que sobre nossa sociedade ou nossa “vida cultural”. Com o título Opisanie Šwiata, queria produzir um estranhamento, que colocasse o leitor na posição de estrangeiro, como é a do personagem principal (o título está na língua dele). E não abriria mão deste gesto por um suposto aumento de vendas.

Seu livro dialoga com títulos brasileiros dos anos 1920 e tem até um viajado Bopp como personagem, alusão clara a Raul Bopp, autor do clássico modernista Cobra Norato. Esta aproximação explícita do modernismo é uma tentativa de dialogar com os valores estéticos desse movimento?
Sim. Vejo o Opisanie Šwiata como uma espécie de história poética do modernismo brasileiro, e não só brasileiro – uma homenagem a este período, que venho estudando bastante. Acredito que há uma vontade de experimentação, naquela fase da história artística e literária brasileira, que ainda não foi de todo esgotada. Daí eu ter buscado fazer, como dizem as anotações encontradas por Opalka no caderno de Natanael, “um livro antigo / um livro de viagens / com páginas que se desdobram”, isto é, um livro “moderno”. Às vezes, um desvio pelo passado (e não para o passado), um reencontro com aquilo que ainda permanece vivo no passado, pode ser a melhor maneira de ultrapassar os impasses estéticos do presente, a melhor maneira de seguir adiante. Por exemplo, há um modelo de ficção literária que foi se impondo ao longo dos últimos anos, que é o modelo chancelado e até mesmo promovido pela indústria editorial de língua inglesa. Este modelo, transformado em padrão por algumas editoras hegemônicas e por alguns jornais e revistas a elas associados, arriscou transformar a prosa literária brasileira contemporânea numa espécie de cover da literatura anglo-saxã. O que, convenhamos, é bastante melancólico para uma prosa que já teve um Oswald de Andrade ou uma Clarice Lispector. Todas as experiências que se contraponham, conscientemente ou não, a esse padrão, e à padronização dele resultante, contam com minha simpatia. Felizmente, posso nomear vários autores cujo sucesso (artístico, não comercial) demonstra que o padrão que se tentou e ainda se tenta impor já está em declínio: Nuno Ramos, André Sant’Anna, Marcelo Mirisola, Ricardo Lísias, João Paulo Cuenca, Paloma Vidal, Marcelino Freire, Alberto Martins, Carlos de Brito e Mello, Elvira Vigna, Evandro Affonso Ferreira, Juliano Garcia Pessanha, Vitor Ramil, Juliana Frank. Fico por aqui, mas haveria uns tantos outros nomes a citar.

O livro apresenta um cuidadoso trabalho visual, com imagens e cores que se alternam ao longo das páginas. Também Os Anões tinha um padrão gráfico sofisticado e único que emulava na forma a pequenez do título. Como foi sua participação no processo de edição visual? Você pensa seus livros como objetos artísticos?
Para mim, um livro não se resume ao texto. Costumo pensá-lo como um todo. Quando o estou escrevendo, já vou imaginando a forma que darei a ele, a organização interna dos textos, o tipo de papel, a capa, se terá ilustrações, que ilustrações etc. Por conta disso, quando entrego os originais na editora, sento-me com a equipe de design gráfico e explico toda a concepção do livro em seus mínimos detalhes. Em Opisanie Šwiata, por exemplo, há várias linhas narrativas: em primeira pessoa, em terceira pessoa, cartas, trechos de um guia de viagem, notícias, anúncios. E eu queria que cada uma dessas linhas tivesse uma diferenciação gráfica discreta, evitando recorrer ao itálico ou à mudança muito marcada de tipo de letra. Por isso, as páginas são coloridas. Além disso, imaginei a abertura do livro como a abertura de um filme, em que há uma espécie de prólogo antes dos créditos iniciais. Daí, o livro se abrir com as cartas e só depois disso apresentar seu título e minha assinatura, a dedicatória, as epígrafes.

Cores e flores astrais

03 de setembro de 2014 3
A escritora Eleanor Catton. Foto: NZatFrankfurt, Wikicommons

A escritora Eleanor Catton. Foto: NZatFrankfurt, Wikicommons

Logo de cara, a vitória do romance Os Luminares, de Eleanor Catton, na última edição do Man Booker Prize, uma das mais prestigiosas premiações para a literatura em língua inglesa, criou dois factoides que impulsionaram o hype sobre a obra. Então com 28 anos, Catton, canadense de nascimento mas radicada na Nova Zelândia desde a infância, foi a mais jovem escritora a ganhar o prêmio. E o romance, com suas mais de 800 páginas, foi a narrativa mais longa a ser agraciada. São informações que não têm correlação direta com a qualidade da obra (curiosidades como essas quase nunca têm). No máximo, a juventude da autora e a extensão peculiar do romance podem ser indícios a se pinçar no quadro das principais virtudes e problemas de Os Luminares: uma obra ambiciosa, surpreendentemente madura e erudita, construída em uma forma tão rigorosa que foi seguida até as últimas consequências – não necessariamente para o bem do livro.

Lançado há pouco no Brasil,Os Luminares (Tradução de Fabio Bonillo Globo, 880 páginas, R$ 69,90) se passa no interior da Nova Zelândia, entre 1865 e 1866, no auge da corrida do ouro que de fato teve lugar no país naqueles dias. No povoado de Hokitika, que no período de dois anos passou de um amontoado de cabanas para uma cidade em expansão, o recém-chegado Walter Moody surpreende inadvertidamente uma reunião de 12 homens no salão de um hotel. Todos estão ali para discutir quatro eventos aparentemente não relacionados, mas que se sucederam na mesma noite: a morte suspeita de um ermitão que vivia nas proximidades; a chegada a Hokitika de um candidato ao parlamento; o misterioso desaparecimento do mais jovem e bem-sucedido garimpeiro local e o fato de uma jovem prostituta ter sido encontrada quase morta devido a uma ingestão pesada de ópio.

Os presentes à misteriosa reunião são dois chineses (um garimpeiro e um ourives), um aborígene, um jornalista, um hoteleiro, um proprietário rico de minas da região, um corretor comissionado, um boticário, um funcionário do tribunal, um bancário e um agente portuário. Estão ali porque ao longo das últimas semanas cada um deles esteve envolvido com um ou mais dos quatro acontecimentos, que se revelam de algum modo conectados no momento em que aparecem na cidade uma ex-cafetina que se diz viúva do homem morto e um belicoso capitão de navio metido em expedientes escusos.

Os homens reunidos não são 12 por acaso: cada um corresponde a um signo do Zodíaco na arquitetura que sustenta a trama. Os outros que em torno deles “gravitam”, como o próprio Moody, a suposta viúva, o marinheiro, são planetas. À medida que a narrativa avança e recua, reconstituindo os contatos prévios de cada personagem com os demais, avança-se por um mapa celeste que espelha as interações dos personagens. Há outras surpresas formais. Escrito com uma linguagem suntuosa que por vezes parece acertar o ponto e por vezes parece um pastiche de Dickens, o romance se subdivide também em 12 capítulos, cada um passado em um mês. Como um livro que consome a si mesmo, cada capítulo é menor que o precedente, das longas 370 páginas do primeiro até uma vinheta de duas páginas no 12º.

Mesmo com uma estrutura tão metódica e planejada, o livro de Catton é uma leitura que flui enquanto entretece as narrativas de seus personagens, ligando-as a fraudes de registros de mineração, chantagens, adultérios, e a trajetória misteriosa de uma quantia em ouro desaparecida. Subterrâneas à trama, estão as movimentações de uma insuspeita história de amor entre dois personagens comparados ao sol e à lua na dinâmica do livro – são eles os “luminares” do título, coração camuflado da narrativa e subtrama na qual Catton cede a toques de fantástico que parecem deslocados no rigoroso realismo histórico de todo o resto. É ao amarrar suas histórias que o romance torna-se prisioneiro de sua estrutura. Depois de avançar por quatro capítulos de mais de 750 páginas, Catton acha por bem recuar a narrativa um ano no tempo para seguir os meses anteriores à reunião que abre a narrativa. É um recurso desnecessário a não ser para um tipo de leitor tão desatento que provavelmente já teria abandonado o livro antes – e que produz um paradoxo: as pouco mais de 100 páginas até o fim do romance são mais tediosas do que as 750 anteriores, por reiterarem relações já subentendidas.

Capa do livro Os Luminares

Capa do livro Os Luminares

Alice no país dos porto-alegrenses

15 de julho de 2014 2

quarentadias

Quarenta Dias, da escritora paulista Maria Valéria Rezende, conta uma história do tamanho do Brasil, embora restrinja seu foco a Porto Alegre. O romance (Alfaguara, 248 páginas, R$ 37,90) acompanha a paraibana Alice, professora na faixa dos 50 anos, que, após muita insistência, se vê praticamente obrigada a trocar João Pessoa por Porto Alegre – para ajudar a filha, professora universitária casada com um gaúcho – nos planos de uma futura gravidez. É do estranhamento de Alice com Porto Alegre, uma cidade de costumes e gentes diversos, nos quais outros nordestinos como a protagonista parecem sempre relegados à periferia e a funções subalternas, que Maria Valéria tece sua história.

Freira da Congregação de Nossa Senhora, Maria Valéria não ignora as referências bíblicas do título de seu romance. Se no Evangelho de Mateus Jesus passa 40 dias em uma ascese mística jejuando no deserto, período em que é tentado com o reino material pelo próprio Diabo, a protagonista do romance migra de sua pacata e já estabelecida vida nordestina para um deserto sem conhecidos e amigos, no qual o conforto material e o consumismo inconsequente são as grandes tentações mascarando uma vida vazia.

Os Quarenta Dias mencionados no título são um período crucial da narrativa, no qual Alice, sozinha em Porto Alegre devido a uma reviravolta familiar que soa um tanto forçada, se lança a vagar sem rumo pela cidade desconhecida, dormindo em parques, saguões de hospital e bancos de rodoviária, com o pretexto de encontrar o filho de uma amiga  pernambucana. Maria Valéria Rezende já comentou em entrevistas que elaborou a história e depois passou um tempo em Porto Alegre pondo à prova as errâncias da personagem.

Tal circunstância talvez explique a irregularidade do livro: a fragilidade dos eventos construídos para empurrar Alice para sua caminhada. Os encontros e contatos espontâneos que Alice estabelece com as pessoas do lugar são a maior riqueza do romance. Por baixo de sotaques e hábitos diversos, Alice vai tecendo elos fugazes com pessoas que, no fundo, ela não tarda a perceber, carregam muitas das mesmas angústias da própria protagonista: solidão, falta de conexão com o mundo ao redor, cansaço, solidariedade. As trombadas de Alice com a árida Porto Alegre também servem para uma denúncia sutil do racismo e do preconceito velados que este Rio Grande do Sul tão orgulhoso de si mesmo nunca admite que pratica.

Por mais errático que seja o caminho de Alice, é gratificante trilhá-lo com ela. O problema é que, até o início dessa jornada, a autora se estende por 60 páginas no rame-rame da relação insatisfatória de Alice com sua filha, com o genro, com o estranho apartamento “todo em preto e branco” em que foi alojada. A história se ilumina quando Alice finalmente abre a porta e se aventura nas ruas frias e estranhas de Porto Alegre.  Pena que ela não faça isso mais cedo.

O México como história policial

11 de julho de 2014 1

arrecife

Se uma narrativa começa com a descoberta de um cadáver, é bastante provável que se trate de um história policial. Isso é verdade apenas até certo ponto para Arrecife, romance do mexicano Juan Villoro que ganha edição agora no Brasil (Companhia das Letras, 240 páginas, R$ 39,90. Tradução de Josely Vianna Baptista). Embora não deixe de ser uma história de crime, Arrecife não busca apenas a resolução de um único homicídio, mas a reconstrução do caminho que levou o próprio país a um inferno social e criminal.

Villoro é um um dos grandes autores mexicanos contemporâneos. Pertence a uma geração mais recente que os canônicos Carlos Fuentes, Octávio Paz ou Elena Poniatowzka. Ele e outros autores, como Juan Pablo Villalobos ou Jorge Zepeda Patterson, se distinguem por encarar abertamente como tema a violência endêmica na sociedade mexicana – em certos aspectos bem parecida com a brasileira, situação agravada pela interferência do vizinho Estados Unidos e pela ação do narcotráfico. Cada qual a seu modo, seus livros falam de um México sangrado até o limite do surrealismo, aproveitando para isso o cruzamento de referências, olhares e gêneros.

Em Arrecife, um grupo de personagens alquebrados gravita em torno de um empreendimento hoteleiro chamado La Piramide – um resort de luxo no Caribe que oferece como diferencial a seus hóspedes, turistas endinheirados da Europa e dos EUA, a sensação de perigo que se vive em uma região conflagrada pelo narcotráfico e pela disparidade social. Um programa que inclui sequestros encenados e encontros com guerrilhas falsas compostas por atores contratados.

Até que um dos mergulhadores contratados, o americano Ginger Oldenville, aparece assassinado diante do aquário do hotel, com um arpão nas costas. Quem conduz a narrativa é Tony Góngora, ex-roqueiro aposentado com vazios na memória devido ao abuso de drogas. Contratado para o resort por um amigo de infância e ex-colega de banda – que agora gerencia o local e seu programa de “violência recreativa” –, Tony se vê enredado nas consequências da investigação, que se complicam depois que outro mergulhador, amigo e talvez amante do primeiro, é encontrado morto em alto-mar, e a possibilidade de um pacto suicida entre ambos é sugerida.

É aqui que Villoro marca a diferença entre seu romance e uma novela de crime tradicional. A investigação propriamente dita corre à parte das ações de Tony, e o foco se concentra em sua relação com outros personagens que também veem no La Piramide um ponto de recomeço para desastres passados. À medida que a narrativa enfoca cada vez mais o passado de Tony como roqueiro e bicho-grilo dos anos 1970 aos 1990, mais se imiscui na trama o México infernal do século 21, com os rios de sangue vertidos pelo narcotráfico – que Villoro, inteligentemente, associa ao dos sacrifícios maias, centro de um passado histórico e mítico também regado com sangue.

Crime de sangue na aurora do Brasil

23 de junho de 2014 1

A primeira historia do mundo

Não é comum encontrar em listas de “melhores autores brasileiros contemporâneos” ou “gente que está fazendo a nova literatura” e outras denominações semelhantes o nome de Alberto Mussa. O que, dada a qualidade da obra que vem tecendo com paciência ao longo das últimas duas décadas, é francamente incompreensível. Mussa dá mais motivos para essa perplexidade com a publicação, agora, de A Primeira História do Mundo, livro no qual reconstrói, com o misto de prosa ensaística e literária que é característico de seu trabalho, o primeiro crime de sangue registrado no ainda jovem território do Brasil.

A Primeira História do Mundo parte de um fato real: o assassinato de um serralheiro morto com sete (talvez oito) flechadas no Rio de Janeiro de 1567. Em uma cidade com apenas três ruas, ainda cercada pela mata, e com cerca de 400 habitantes, nove homens foram apontados como possíveis autores do crime, de acordo com os registros do procedimento judicial instalado para averiguar o homicídio.  O livro compõe uma trilogia com O Trono da Rainha Jinga, passado em 1626, e O Senhor do Lado Esquerdo, ambientado em 1910. Nos três, Mussa usa a estrutura de um romance policial para engendrar uma mitologia urbana do Rio em diferentes períodos históricos. Ele já anunciou que pretende escrever outros dois romances para outros dois séculos da cidade: o 18 e o 19.

Além de ser parte desse projeto maior, outra possível leitura de A Primeira História do Mundo é a de uma condensação de elementos já trabalhados pelo autor ao longo de sua carreira. O motivo do crime, segundo o processo, seria um adultério, indiscrição à qual Mussa dedicou o romance O Movimento Pendular, no qual se propunha a fazer uma teoria classificatória das variantes do adultério na literatura. A presença de indígenas por toda parte nesse Rio ainda em formação dá a Mussa a oportunidade de tangenciar outra vez o rico universo da tradição autóctone, que ele já havia abordado em Meu Destino é Ser Onça, no qual apresenta uma versão reconstituída da cosmogonia tupinambá.

O que mais surpreende em A Primeira História do Mundo são as soluções que Mussa, criando um narrador que refletindo sobre seus próprios procedimentos, encontra nessa reflexão as ferramentas  para especular as sutilezas de um inquérito do qual só sobraram os depoimentos por escrito, tomados há mais de 400 anos. Um toque de originalidade usando a sempre difícil, porque rígida, moldura do romance policial.

Conflito de versões numa terra fraturada

13 de junho de 2014 0
Capa do livro "Absolvição"

Capa do livro “Absolvição”

Estratégias comerciais de editoras podem ser um involuntário problema para o autor. Veja-se o caso do recente Absolvição, romance de estreia do escritor sul-africano Patrick Flanery (Alfaguara, tradução de Ângela Nogueira Pessoa, 408 páginas, R$ 54,90 impresso, R$ 29,90 em e-book ). Flanery aborda, em um romance longo e de estrutura fragmentada, as feridas e os traumas da transição da África do Sul ao fim do apartheid. Apartheid + autor africano, a editora faz as contas e se apressa a informar na orelha que o autor vem sendo “comparado a J.M. Coetzee por sua visão sombria e desconcertante da história sul-africana”.

Para quem acredita no que se lê em orelhas de livros (o que não se deveria fazer, mas até aí também não se deveria dirigir sem cinto de segurança, vai saber), a afirmação pode ser irresistível, mas é bobagem. Tirando a nacionalidade do autor e o fato de o romance se passar na África do Sul, Flanery, com uma prosa detalhista e centrada em vasculhar as emoções de seus personagens, não poderia estar mais distante do Nobel Coetzee. É aí que surge o involuntário problema, porque a orelha vende errado o peixe certo: Flanery não é Coetzee, e não precisa ser, para tornar Absolvição um romance muito interessante.

Absolvição é, em uma análise sintética, um estudo sobre as diferentes formas de esconder a verdade que se desenvolvem na esteira de um regime totalitário. A trama entrelaça as vidas de Clare Wald, uma célebre e já idosa escritora sul-africana, e de Sam Leroux, acadêmico contratado para escrever a biografia da grande autora. Parte da narrativa encena as entrevistas entre ambos, na casa para a qual a escritora se mudou após uma suspeita tentativa de assalto. As interações entre Clare e Sam são inicialmente ásperas, com a autora deixando clara toda sua má vontade com o projeto da biografia, aparentemente imposto pelo seu editor. À medida que os contatos vão se tornando mais íntimos e o diálogo mais franco, outras linhas narrativas vão dando pistas de que, embora não toquem no assunto, ambos estão ligados por circunstâncias passadas e por traumas antigos de ambos: o assassinato da irmã de Clare, casada com um figurão da extrema-direita pró-apartheid; o desaparecimento da filha da escritora, Laura, ligada à luta armada contra o regime separatista; a infância infeliz de Sam, órfão adotado por um tio violento e abusivo.

Embora a concatenação dessas linhas narrativas possa ter um quê de desconcertante novela mexicana, o que está no centro de Absolvição é o conflito de versões entre o que Sam sabe, ou pensa que lembra, o que os registros contam, o que Clare está disposta a contar ou imagina, como ficcionista que é. Uma ciranda de dissimulações que a seu modo reproduz a lógica ditatorial do regime do apartheid. Em um Estado que mente, segrega e tortura, o resultado só poderia ser uma sociedade em que a desconfiança é a norma. O olhar múltiplo de Flanery também para as vítimas do processo histórico encontrará ressonância em um Brasil que ainda luta para purgar os crimes de sua própria ditadura.

Gonçalo Tavares e a máquina da cidade

14 de fevereiro de 2014 1
goncalo_tavares

Gonçalo M. Tavares na Feira do Livro de Caxias do Sul, em 2013.
Foto: Diogo Sallaberry, Agência RBS

A obra do português Gonçalo M. Tavares conquistou, ao longo de apenas uma década, um reconhecimento crítico que costuma levar bem mais tempo para ser obtido. Autor de Jerusalém, romance que venceu o Prêmio Portugal Telecom, e de uma inventiva série chamada O Bairro, na qual os personagens, identificados com nomes de artistas e intelectuais, representam ideias abstratas em situações que vão da lógica à comicidade, Tavares está lançando no Brasil seu romance Matteo Perdeu o Emprego (Foz Editora, 160 páginas, R$ 49) – publicado originalmente em 2010 em Portugal . Trata-se de um livro de difícil classificação. Metade da obra é constituída por uma reunião de fragmentos narrativos em que cada personagem serve de ponte para o protagonista da história seguinte. A outra metade é um posfácio crítico do autor à própria obra, puxando os fios de interpretações possíveis sobre os elementos reunidos na ficção. Leia aqui o texto publicado hoje no Segundo Caderno de Zero Hora. E confira abaixo a entrevista com o autor, concedida por telefone desde Lisboa, onde o autor português nascido em Angola reside:

Zero Hora – Por lidarem com a tradição de um modo um tanto elíptico, seus livros sempre despertam muitas leituras críticas bastante imaginativas. Neste livro o senhor apresenta uma leitura crítica do livro no próprio livro. Foi para orientar a leitura?
Gonçalo M. Tavares – Penso que não. Penso que é realmente uma segunda parte na qual eu faço uma reflexão sobre o texto narrativo. Mas eu espero que esse ensaio final abra ainda mais leituras e mais interpretações. É também um comentário, uma reflexão muito elíptica, que dá uma interpretação mas também abre um espaço. Como você disse bem, eu quando escrevo tento ser tanto mais sintético quanto possível. E essa síntese, essa tentativa de escrever com o mínimo possível de palavras faz com que, espero eu, aumente a densidade do texto. Eu busco essa densidade como uma característica quase física da matéria: como a matéria que ocupa pouco espaço mas contém muito mais energia. Espero que o meu ensaio final em Matteo Perdeu o Emprego também tenha essa característica. É o leitor que vai, de certa maneira, desdobrar em vários metros quadrados essa energia densa que ocupa pouco espaço. E portanto, eu na segunda parte também não dou muitas explicações.

ZH – O senhor estrutura a história como um círculo organizado de personagem a personagem seguindo a ordem alfabética, uma ordem que, no ensaio, o senhor define como uma escolha arbitrária. Por que, então, o título, que poderia ser sobre qualquer personagem, é justamente sobre o último, o que “perde o emprego”? É seu comentário sobre a crise econômica cujos efeitos ainda são sentidos na Europa?
Tavares – Talvez não tanto, porque o livro é não realista, todos os episódios são bizarros. Eu, por norma, não escrevo sobre o que está a acontecer em termos concretos. Agora, é evidente, o desemprego é qualquer coisa de muito atemporal. E sobre dar ao livro a ordem do alfabeto, uma das coisas importantes para mim foi realmente a ideia de que o alfabeto é qualquer coisa de muito aleatório. Por exemplo, se pensarmos na enciclopédia, com os temas ordenados pelo alfabeto, o que é impressionante é que a ordem alfabética é quase surrealista de tão absurda. Pode-se juntar na letra C a palavra “comboio” com a palavra “costura”… Ou seja, só por ser a mesma letra, palavras que nada têm a ver uma com a outra podem estar juntas ou em uma sequência. E a esta lógica absurda do alfabeto, não sei por que, respeitamo-la como uma lógica qualquer, forte, como se fosse quase uma lógica divina, e não humana. E nesse sentido, no Matteo Perdeu o Emprego, o fato de essas personagens interligadas terem nomes que se ordenam por ordem alfabética dá como que um sentido no meio dessa estranheza. Quanto à história que dá título ao livro, é uma história de alguém que precisa trabalhar, e eu diria que é uma narrativa mais da perversidade humana, que se confunde com a perversidade sexual. Acho que essa característica está muito presente, além da questão do emprego.

ZH – Assim como em outros romances que o senhor escreveu, neste os nomes dos personagens têm um estranho papel simbólico. Em sua série O Bairro, os personagens têm nomes de artistas e pensadores. Em seu ciclo O Reino os nomes têm uma vaga referência ao leste europeu. Neste livro, a maioria dos personagens têm nomes judaicos. Para o senhor o nome de um personagem é escolhido para ancorá-lo em um espaço ficcional próprio?
Tavares – O nome dos meus personagens é quase como o nome de um livro. Há uma parte que é racional na escolha, mas há outra parte que é, eu não diria que do acaso, mas de qualquer coisa que é diferente da racionalidade. Ou seja, eu não escolho o nome de forma consciente. Em outro livro que eu escrevi, chamado Uma Viagem à Índia, a escolha dos nomes têm a ver às vezes com a sonoridade. E nesse caso de Matteo Perdeu o Emprego, o ponto de partida foi um conjunto de fotografias que eu vi de um vendedor de campas. Não eram campas no cemitério, eram apenas as pedras, lisas, não tinham nem data de nascimento ou de morte, porque eram para vender, e nessas campas tinham alguns dos nomes que aparecem em Matteo Perdeu o Emprego, muitos deles judeus. E não sei explicar, eu não penso, quando escrevo, em uma determinada mensagem, nem quero situar a narrativa espacial e temporalmente. Acho que meus livros, no geral, não estão situados nem no espaço nem no tempo. Então, a escolha do nome se dá pela narrativa que ele incita. Eu consigo ver quase como se o nome “Goldman” me atirasse para uma história, por exemplo. Há qualquer coisa que tem a ver com o nome, e se eu usasse o nome “Maria”, isso me atiraria para um tipo de história completamente diferente. Ou seja, o nome não é algo que seja neutro, ele tem já uma história. Quando eu uso um nome judeu, por exemplo, não é apenas o nome de uma pessoa, é como se pudéssemos ver parte da história do mundo através do nome de uma pessoa.

ZH – Matteo Perdeu o Emprego tem um determinado número de temas e signos que aparecem ao longo de todo o livro quase como refrões ou motivos musicais. Não apenas a circularidade da trama espelha outros “círculos” espalhados pelo romance (que começa em uma rótula, ou rotunda, no português lusitano), mas também há uma recorrência à questão do lixo, central em várias das histórias.
Tavares – Interessava-me pensar a questão do círculo. Há outras rotundas que aparecem no livro, e é como se elas espelhassem a própria forma da obra, como se o próprio livro fosse uma rotunda, ainda que mal feita, no sentido de que não termina no mesmo ponto em que começou. Mas no lixo eu não havia pensado nele surgindo tanto assim, mas é verdade. A questão principal era adequar os episódios como se fossem peças de dominó, ou seja, a partir do momento em que se começa a contar a primeira história, aquela primeira personagem cruza-se com uma segunda, a segunda cruza-se com uma terceira, a terceira fala de uma quarta… Matteo Perdeu o Emprego é um pouco a história das ligações possíveis entre diferentes histórias. Não me interessava aqui um personagem concreto ou um tema concreto. Talvez o tema chave seja a questão da circunferência. Mas realmente esses episódios envolvendo o lixo são para mim muito significativos. A mim me interessa muito a ideia do lixo, e que está também em outro dos meus romances, Aprender a Rezar na Era da Técnica. O lixo é uma coisa interessante, porque muitas vezes não temos a consciência de que uma casa de uma pessoa é como se fosse um imenso organismo. Uma experiência interessante seria se filmássemos e pesássemos tudo o que entra de alimento pela porta de uma casa, e depois víssemos o lixo que sai. O lixo é qualquer coisa que atiramos para longe, mas se ficássemos com todo o lixo produzido por uma casa durante um mês, ficaríamos com algo de um peso gigantesco. E é quase como se fossem dejetos do próprio organismo. A ideia do lixo me interessa muito, e cruza-se com a ideia de cidade. A cidade tem muitas funções, e uma delas é fazer desaparecer o lixo. Fazer com que as pessoas não se apercebam que produzem diariamente quilos de lixo, e isso é interessante. Porque esconder o que é sujo, o que cheira mal, é uma imagem que pode ser pensada para outras situações: a cidade quer esconder a pobreza, quer esconder o que é feio, e a cidade às vezes quer esconder a deficiência. E aqui há um instinto da cidade que eu considero muito perigoso: crer apenas em fachadas limpas. Dar uma ideia da cidade que seja apenas, digamos, a sua parte iluminada. Mas a cidade tem várias outras sombras, e o lixo simbolicamente é isso. Aquele episódio do livro de um homem que aproveita o lixo para fazer alguma coisa é algo que me interessa muito, bem como a arte contemporânea, que lida com os restos que a cidade vai deixando.

ZH – Em outro episódio do livro uma escola vai sendo progressivamente soterrada por pilhas de lixo acumulados no pátio após uma greve de lixeiros. Quando o lixo começa a invadir a sala, apenas uma turma permanece. É também um comentário sobre a produção do lixo, e sobre esse peso que o senhor falou?
Tavares – Para mim não há uma interpretação concreta, como disse, há várias interpretações, mas realmente há ali qualquer coisa que tem a ver com a racionalidade, com a pessoa manter a sua inteligência e manter-se aprendendo apesar de mais ou menos atacado pelo lixo. São temas que me interessam, e o Matteo Perdeu o Emprego está cheio de pequenos episódios, de situações um bocado bizarras que têm a ver com a cidade. É possível dizer que o livro é sobre a lógica da cidade, também.

ZH – Caminhos também são um signo recorrente no romance. Ele começa em uma rótula, uma via para automóveis, na qual um homem é atropelado. Há uma outra rótula projetada em um cruzamento quadrado. Há dois homens que se perdem em um labirinto turístico. É também um romance sobre trajetórias?
Tavares – Sim, parte da cidade é basicamente uma rede de cruzamentos sucessivos. Matteo Perdeu o Emprego é realmente sobre essa questão dos caminhos, de ir pela esquerda ou pela direita. Eu vejo a cidade como se fosse uma máquina composta por vários cruzamentos que mais não fazem do que separar as pessoas. Por exemplo, em Lisboa eu ando muito de metrô. E uma das coisas que gosto é de ver, em uma estação de metrô, aquelas centenas e centenas de pessoas a saírem de uma mesma estação. E a estação tem duas saídas. E logo de imediato, se tivermos ali mil pessoas, 500 vão por uma saída e 500 vão pela outra. É o primeiro cruzamento, aquela saída de metrô. E depois, as 500 que foram para um lado vão andando e chegam a outro cruzamento. Ali, 200 vão para a esquerda, 100 vão em frente e 200 seguem à direita. E daqueles 200, depois vão 100 para um lado e 100 para o outro. Vão aparecendo cruzamentos sucessivos e o que eu sinto é que os vários caminhos, os vários cruzamentos, são maneiras de ir separando multidões. Até o ponto em que, a certa altura, restam duas pessoas caminhando lado a lado, uma vai para a esquerda e outra dobra para a porta de seu apartamento, abre a fechadura, deita-se na sua casa, na sua cama, uma daquelas mil pessoas que saíram da estação de metrô todas juntas. E isso é a grande máquina da cidade, é como um conjunto de canais de água que consegue transportar uma pessoa para seu local individual, a sua casa, a sua cama. De certa maneira os conflitos na cidade aparecem quando duas pessoas estão no mesmo espaço e não deveriam estar.

ZH – Matteo Perdeu o Emprego parece fundir elementos de seus projetos anteriores: os romances da série O Reino, com um corte mais sério e realista, e os livros da série O Bairro, na qual o senhor cria variações sobre temas mais abstratos e fantásticos. O senhor o vê como uma síntese?
Tavares – Eu diria realmente que, se pensarmos nos romances, Jerusalém, Aprender a Rezar… são do mundo mais realista. E as narrativas d‘O Bairro são mais da fantasia. Histórias como a do Senhor Valéry são uma ficção em um mundo paralelo à realidade. Este Matteo Perdeu o Emprego é ao mesmo tempo um livro realista e fantasioso, bizarro. E, portanto, é uma mistura entre qualquer coisa que poderia acontecer mas que era muito improvável acontecer, era estranho. Há uma coisa no livro que me interessa muito, que é o contraste entre este tom por vezes estranho, quase no limite da irracionalidade que marca as histórias, e depois o tom muito racional e reflexivo que marca o posfácio interpretativo. Me interessava escrever as histórias, ligá-las e depois pensar como escrever racionalmente, reflexivamente, sobre histórias que têm um tom não realista. Isso é também interessante, porque podemos pensar sobre histórias realistas ou pensar sobre a realidade, mas a partir de histórias não realistas. Matteo Perdeu o Emprego é qualquer coisa que eu não sei bem definir, mas ocupa um espaço intermédio entre a realidade e esse mundo paralelo da ficção.

matteo

 

A utopia como caso de polícia

14 de janeiro de 2014 0
À esquerda, Ramón Mercader. Nas imagens seguintes, Trosky (com a esposa ao centro e uniformizado à direita). Divulgação, Boitempo

À esquerda, Ramón Mercader del Río na época da Guerra Civil Espanhola
Nas imagens seguintes, Trosky (com a esposa ao centro e uniformizado,
como líder do Exército Vermelho, à direita). Divulgação, Boitempo

Nos interstícios entre dois gêneros de formas bem demarcadas, o romance policial e o de espionagem, o livro O Homem que Amava os Cachorros, do escritor cubano Leonardo Padura, retrata a degradação de uma das principais utopias do século 20. O romance, a obra mais ambiciosa de um escritor que fez nome como respeitado autor de literatura de crime, monta uma complexa rede narrativa para retratar as trajetórias paralelas do líder revolucionário soviético Leon Trotsky (1879 – 1940) e do homem que o assassinou a mando de Josef Stalin (1879 – 1953), o militante espanhol Ramón Mercader del Río (1913 – 1978).

O Homem que Amava os Cachorros  (Tradução de Helena Pitta, Boitempo Editorial, 590 páginas, R$ 69) pega seu nome emprestado de um conto de Dashiell Hammett (incluído na coletânea Assassino na Chuva, publicada pela L&PM). Essa filiação já declara tacitamente a proposta de Padura: mesclar um romance de ficção histórica com uma narrativa em ritmo de thriller, para reconstituir: o instável quadro político da primeira metade do século 20; as sucessivas quedas e expurgos de soviéticos à medida que a tirania de Stalin se tornava mais paranoica e cruel; a cambiante política de alianças dos comunistas submetidos à autoridade de Moscou e, principalmente, a trajetória errante de Trotsky, um dos homens que fizeram a Revolução Russa, como um exilado indesejável em boa parte do mundo.

No centro da trama está o complô para matar Trotsky – consolidado, em 1940, quando Mercader, ex-combatente da luta contra Franco na Espanha, assassinou o soviético em seu último pouso, no México, com um golpe de picareta. Até o desenlace fatal, o romance acompanha alternadamente o exílio de Trotsky, de 1928 até sua morte, e a transformação de Mercader de guerrilheiro em agente infiltrado. À parte as vidas paralelas de ambos, Padura Fuentes – que, curiosamente, é identificado apenas como Leonardo Padura na edição do romance pela Boitempo – acrescenta um terceiro elemento que serve como a voz contemporânea a avaliar os resultados dos esforços de ambos, um escritor cubano chamado Iván Marturell. Após um bem recebido livro de contos, Marturell cai em desgraça junto ao regime dos irmãos Castro e passa por diversas etapas de aniquilação pessoal em conflito com a marcha da História na Ilha.

Marturell gradualmente abandona a literatura enquanto seu caráter lentamente se degrada à medida que cumpre funções burocráticas para o regime. Seu irmão, homossexual forçado a esconder sua condição, desaparece após tentar fugir de Cuba em uma balsa improvisada que naufraga. Desiludido com a marcha da revolução cubana que se tornou autoritarismo, ele encontra na Havana dos anos 1970 um misterioso estrangeiro que parece saber tudo sobre o complô stalinista para matar Trotksy – algo bem pouco conhecido na Cuba alinhada com a política oficialista da União Soviética. O relato, uma espécie de lado B da utopia comunista defendida pela propaganda oficial da ilha, será fundamental para que ele tente recuperar a literatura que havia abandonado.

Embora o foco se divida, a rigor, entre três personagens, Trotsky, Mercader e Marturell, são combinações binárias entre temas e motivos especulares que sustentam o romance. A derrisão da identidade de Trotsky provocada pela perseguição de Stálin (de líder comunista a voz de oposição, de dissidente perigoso até um homem solitário transformado em bicho-papão da utopia) encontra seu reflexo nas várias trocas de identidade do próprio Ramón ao longo de sua preparação, de militante comunista movido por paixão genuína a um agente cheio de dúvidas que mesmo assim executa sua missão (Mercader também muda de nome ao longo da sua preparação, até assumir a identidade de Jacques Mornard Vandendreschs, um belga envolvido em negócios no México, que se aproxima do círculo de confiança de Trosky).

Em outro caso de temas que se refletem, Trotsky, embora esteja sempre em cena, se constitui, na narrativa de Padura, em uma figura com a qual Stálin, ausente das cenas mas presente nas sombras, estabelece uma relação simbiótica. Para que Stálin se erga como o líder e guardião incontestável dos valores da Revolução, precisa transformar Trotsky em um líder dissidente de igual poder, capaz de complôs e alianças com os mais perigosos inimigos dos soviéticos, como os nazistas – embora Trotsky tivesse um prestígio cada vez mais restrito e um grupo cada vez menor de seguidores, sua apresentação pela propaganda comunista como um grande conspirador fornecia a cobertura necessária para as tramas que o próprio Stálin tecia, inclusive um acordo com os mesmos nazistas que Trotsky foi acusado de apoiar em certo momento.

Também as trajetórias de duas revoluções se espelham na forma como Padura urde sua trama: a Russa, matriz da Cubana, ambas corrompidas pelo autoritarismo e pela politicagem. Os expurgos e os desmandos de Stálin, que resultam em perseguições e fome para a população, têm eco na forma como a própria revolução cubana vai se deteriorando, da utopia sustentada pelo dinheiro soviético nos anos 1970 e 198o até a pobreza extrema dos anos 1990, agravada pela queda do comunismo e pelo embargo norte-americano.

Autor de policiais bastante apreciados pelos fãs do gênero, como Adeus Hemingway ouVentos de Quaresma, Padura se vale de sua habilidade adquirida no ofício e tem sucesso em criar uma atmosfera de suspense e interesse para um episódio real cujo fim é hoje amplamente conhecido. O que deixa a desejar é justamente o território novo que o escritor tem a desbravar em uma trama tão extensa e ambiciosa: a construção psicológica dos personagens. O retrato íntimo de Trotsky como um homem exilado e perseguido contrapõe- se com eficiência à imagem demoníaca que Mercader forma do adversário depois da doutrinação stalinista (em mais uma elegante construção especular). Mas, como o retrato esboçado por Padura é abertamente simpático a um Trotsky derrotado e sem poder, são reduzidas algumas contradições importantes de seu comportamento como um dos comandantes revolucionários, ele próprio responsável por fuzilamentos durante os primeiros anos da Revolução. Até se menciona de passagem esse episódio, mas a voz de Trotsky, colada à do narrador, é rápida em justificar que as circunstâncias de seus fuzilamentos eram outras e não se volta a esse tema.

Ao menos no início, é uma obsessão amorosa o grande motivo para que Mercader embarque em sua missão de morte, a paixão por Africa de las Heras, uma militante stalinista radical e totalmente devotada às ordens do Kremlin (e outra personagem real, a propósito). Ainda que o romance possa ter base histórica, o destaque que Padura dá a esse caso de amor é uma solução pouco imaginativa, que de algum modo enfraquece o universo interior, moral e ideológico de Mercader, melhor apresentado em A Segunda Morte de Ramon Mercader, de Jorge Semprun, por exemplo, que também aborda o mesmo episódio.  Á medida que os destinos de Trotsky e Mercáder convergem, contudo, O Homem que Amava os Cachorros cresce, na forma como consegue interligar a estrutura especular habilmente montada à história real, montando um grande painel de vidas levadas de roldão pela História, essa abstração pela qual tanto se matou e morreu.

O corpo em que ela nasceu

06 de janeiro de 2014 0

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Texto de Alexandre Lucchese

Escrever sobre si mesmo já se tornou algo corriqueiro, e basta dar uma rápida olhada nas redes sociais para perceber que cada vez mais gente o faz sem pudor, com desenvoltura e, por vezes, até mesmo graça. No entanto, aventurar-se no discurso sobre o eu sem cair no narcisismo estéril não é tarefa simples. Com boas doses de autoironia e humor, a mexicana Guadalupe Nettel deu conta desse desafio, conseguindo tocar o leitor e construindo um verdadeiro testemunho geracional nas mais de 200 páginas autobiográficas de O Corpo em que Nasci (Tradução: Ronaldo Bressane, Rocco, 224 páginas).

Publicado originalmente em 2011, este é o segundo romance de Guadalupe, e marca sua estreia no Brasil. Nele, a autora, que ainda tem quatro livros de contos, desnuda sua infância e adolescência para uma psicanalista. Carregando um curativo sobre um de seus olhos durante a maior parte do dia em seus primeiros anos escolares, como terapia para curar o estrabismo, a jovem Guadaluppe cedo se transforma em uma outsider entre os colegas de classe. Mais tarde, ela enfrentará a separação dos pais, e uma mudança repentina para um bairro de estrangeiros e delinquentes no Sul da França, onde passa a viver com o irmão e a mãe enquanto esta desenvolve seu doutorado.

O leitor acompanha o relato como quem espia uma sessão de psicanálise, ambiente ideal para encarar os mais decisivos episódios da história da protagonista sem os filtros da vaidade ou da auto-piedade. É fácil de identificar com a frágil jovem, que, mesmo diante de suas limitações físicas e da desestruturação familiar, nutre uma curiosidade ilimitada em conhecer o mundo que se revela em torno de si, e conta com sarcasmo e graça a respeito de seus próprios erros e insucessos, assim como de seus encontros e escolhas que possibilitaram melhor conhecer e aceitar a si mesma – o encontro com o “corpo em que nasci” do título.

Com 40 anos, Guadaluppe demonstra ser uma escritora madura, já que, depois deste profundo mergulho íntimo, consegue emergir com um relato que transcende o âmbito pessoal. A inépcia e as contradições dos jovens pais influenciados pela contracultura dos anos 1970, pretensamente libertária, para educarem seus próprios filhos; as transformações, nos anos 1980, da Europa, onde a protagonista já adolescente encontra uma sociedade desigual e preconceituosa; e uma América Latina pouco consciente de si mesma, que tenta imitar padrões de comportamento externos, perceptível no retorno da jovem ao México: tudo isto fica ricamente ilustrado na prosa da autora.

Mesmo com todas as dificuldades que a personagem/autora encontra em seu caminho, este não é um livro rancoroso ou vingativo. Como exemplo, é possível citar seu juízo sobre a agitação cultural que influenciou seus pais nos anos 1970. Ainda criança, a protagonista vai visitar três irmãs que eram suas amigas e se surpreende com a cena dos pais destas transando sem qualquer embaraço num cômodo sem portas nem cortinas, não se constrangendo com as pequenas que assistiam à televisão ao lado. A cena é descrita modo bem-humorado, mas é logo seguida do comentário: “Dizem que a mudança tão conservadora que originou a geração a que pertenço se deve em grande medida à aparição da AIDS, eu estou segura de que nossa atitude é em boa parte uma reação à forma tão experimental com que nossos pais encararam a vida adulta.

Ainda assim, a crítica acima não faz de Guadaluppe alguém insensível ao que o movimento hippie da geração anterior á sua pode ter de bom. Ao contrário: o título O Corpo em que Nasci é retirado de de um poema de Allen Ginsberg, guru da contracultura e um dos poetas preferidos da autora. A edição brasileira do livro faz parte da coleção Otra Língua, esforço capitaneado pelo escritor Joca Reiners Terron para fazer conhecidos autores contemporâneos de língua espanholas ainda obscuros nestas terras. Dentre os títulos publicados, estão Asco, do salvadorenho Horacio Moya, Deixa Comigo, do uruguaio Mario Levrero, e Os Lemmings e os Outros, do argentino Fabián Casas.