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Posts na categoria "Sociologia"

Discussões em alto nível

06 de novembro de 2012 0

Mas, se mesmo assim tudo lhe for desagradável, se considerar a casa mal construída, se o café estiver frio e fraco e a cerveja muito quente, se tudo – enfim - lhe parece errado ou ruim, então eu só lhe peço que se lembre de uma coisa: a casa, afinal de contas, é brasileira. Nela, se há regras para o anfitrião, há também normas para a visita. E que até mesmo quando não se gosta, se pode dizer isso educada e generosamente.

Roberto da Matta, na Conversa para Receber o Leitor que serve de introdução a seu livro A Casa & A Rua: Espaõ, Cidadania, Mulher e Morte no Brasil (tenho uma edição antiga, da Brasiliense, mas a mais recente é da Rocco). Mostrando o caminho a boa parte dos comentrollistas de internet (caminho que eles, é claro, em sua infinita ignorância, ficarão felizes em ignorar).

Bauman e o Capitalismo

12 de agosto de 2010 3

“O capitalismo, exatamente como os sistemas de números naturais do famoso teorema de Kurt Gödel (embora por razões diversas) não pode ser simultaneamente coerente e completo. Se é coerente com seus princípios, surgem problemas, não pode fazê-lo sem cair na incoerência em relação a seus próprios pressupostos fundamentais.
Muito antes que Gödel redigisse seu teorema, Rosa Luxemburgo já havia escrito seu estudo sobre a ‘acumulação capitalista’, no qual sustentava que esse sistema não pode sobreviver sem as economias ‘não capitalistas’: ele só é capaz de avançar seguindo os próprios princípios se existirem ‘terras virgens’ abertas à expansão e à exploração — embora, ao conquistá-las e explorá-las, ele as prive de sua virgindade pré-capitalista, exaurindo assim as fontes de sua própria alimentação.
Sem meias palavras, o capitalismo é um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento. Mas não pode fazer isso sem prejudicar o hospedeiro, destruindo assim, cedo ou tarde, as condições de sua prosperidade ou mesmo de sua sobrevivência.
Escrevendo na época do capitalismo ascendente e da conquista territorial, Rosa Luxemburgo não previa nem podia prever que os territórios pré-modernos de continentes exóticos não eram os únicos “hospedeiros” potenciais, dos quais o capitalismo poderia se nutrir para prolongar a própria existência e gerar uma série de períodos de prosperidade.
Hoje, quase um século depois de Rosa Luxemburgo ter divulgado sua intuição, sabemos que a força do capitalismo está na extraordinária engenhosidade com que as espécies anteriormente exploradas se tornam escassas ou se extinguem. E também no oportunismo e na rapidez, dignos de um vírus, com que se adapta a idiossincrassias de seus novos pastos.”

De Vida a Crédito, mais recente obra de Zygmunt Bauman a aportar nas livrarias brasileiras, pela Jorge Zahar (tradução de Alexandre Werneck, 252 páginas) . Bauman é um intelectual pop – a ponto de ter 21 outros livros já publicados no Brasil pela mesma editora, uma aposta que uma casa publicadora brasileira só costuma fazer em autores de não ficção que tenham especiais prestígio ou popularidade (ou ambos). O livro não é um dos ensaios ou estudos de Bauman, como a série “Líquida” iniciada com Modernidade Líquida e desdobrada depois em Amor Líquido, Vida Líquida, Tempos Líquidos, Medo Líquido (imagino que em breve Bauman deva concluir a série com a publicação de Água Líquida). Vida a Crédito é a reunião de diversas entrevistas concedidas à jornalista mexicana Citlali Rovirosa-Madrazo — embora essa informação só conste da folha da rosto. Pela capa e pela lombada, o livro poderia muito bem ser outra das obras solo de Bauman. Nas conversas, Bauman analisa a economia (em especial a recente crise do crédito de 2008), o papel do Estado nas atuais democracias, a transformação de uma grande massa da população mundial em “refugo humano” indesejado, os dogmas ideológicos e religiosos do século 21, questões de utopia. Nada que o próprio pensador não tenha escrito por si próprio em livros como Modernidade Líquida, Vida para Consumo, Capitalismo Parasitário ou O Mal-Estar da Pós-Modernidade. O livro funciona mais como uma grande entrevista, um balanço direcionado que Bauman faz da própria obra – embora, como costuma ser comum em livros envolvendo diálogos desse tipo (vide as entrevistas de David Barsamian com Edward Said), a contribuição do “entrevistador/provocador” seja oscilante, uma vez que Citlali elabora questões e comentários prolixos e pouco objetivos.

Estruturando o Papai Noel

03 de novembro de 2009 1

Claude Levi-Strauss. Foto de Eric Brochu / Divulgação, Cosac Naify

Este texto deveria ter sido publicado mais cedo, mas a correria da Praça inviabilizou a coisa, e a  essa altura vocês todos já sabem que o antropólogo Claude Lévi-Strauss morreu, aos 100 anos, em Paris. Agora, já que já se foi a notícia, acho mais jogo falar então de seu último livro publicado no Brasil, O Suplício do Papai Noel, obra que ainda não havia ganhado edição por aqui até o Natal do ano passado. É um ensaio no qual o mitológico intelectual francês dirige o vasto arsenal de seu conhecimento para interpretar outra figura mitológica, o Papai Noel.

Originalmente publicado na França em 1951, O Suplício do Papai Noel parte de um fato inusitado: a queima simbólica do Papai Noel, realizada na frente de uma igreja e na presença de uma multidão de alunos de escolas católicas. A partir desse pretexto, Lévi-Strauss se entrega a um exercício de raciocínio que vai buscar as raízes culturais da figura do Papai Noel, seus antepassados no folclore europeu e até mesmo a permanência de uma certa lógica cultural que preside a existência do hoje chamado “bom velhinho”. Lévi-Strauss recupera figuras como o Abade de Liesse, personagem europeu eleito rei do Natal para presidir a época de desregramentos das festas – o equivalente outonal do Rei Momo, digamos assim. E os reis das antigas Saturnais romanas, festas para os mortos por violência ou insepultos.

O Noel cuja genealogia Lévi-Strauss recupera no seu ensaio não é um modelo imposto pela colonização cultural americana — sim, já se falava nisso naquele período imediatamente posterior ao pós-Guerra — nem um agente do paganismo disfarçado corrompendo as instituições cristãs da França católica. Levi-Strauss vê no Papai Noel e nos demais símbolos associados ao Natal, como as árvores decoradas com enfeites e o costume de dar presentes, os sinais de permanência de uma tradição arcaica européia que prevê uma negociação e uma convivência temporária, durante o sombrio outono europeu, com os espíritos dos mortos, presentes outra vez junto aos vivos e exigindo mimos e agrados para não destruir o que vê pela frente — origem de outra tradição, a do Halloween, hoje presente até nas escolas do Brasil. O livreto saiu na esteira do relançamento de outras obras de Lévi-Strauss pela Cosac Naify, entre eles Antropologia Estrutural.