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Posts na categoria "Teatro"

Nos bares da vida

06 de março de 2013 0

Cena de "Uma História Radicalmente Condensada...". Foto: Cris Lyra, divulgação

Quando foram apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado. Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada. Depois, cada um voltou para casa sozinho em seu carro, olhando direto para a frente, com a mesma contração no rosto.
O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles, embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento. Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo.

O texto acima é a íntegra (sim, a íntegra) do conto Uma História Radicalmente Condensada da Vida Pós-Industrial, praticamente um cruzamento entre vinheta e epigrama que o autor defunto David Foster Wallace publicou em sua coletânea de contos Breves Entrevistas com Homens Hediondos. É o primeiro texto da coletânea, que contém alguns dos melhores contos de Wallace, como Para Sempre Em Cima e A Pessoa Deprimida.

Publico aqui porque a mesma companhia paulista que há um ou dois anos apresentou aqui em Porto Alegre uma peça adaptada com o mesmo título do livro agora apresenta uma nova produção retirada do livro de Wallace, chamada justamente Uma História Radicalmente Condensada da Vida Pós-Industrial. O espetáculo é montado em bares, com os pagantes recebendo um fone para escutar a conversa do elenco durante a peça, enquanto a casa funciona normalmente atendendo outros frequentadores que podem nem saber o que está acontecendo ali.

A peça será apresentada em Porto Alegre em um dos pontos tradicionais da boemia da Cidade Baixa, o Van Gogh (Na Lima e Silva, esquina com João Pessoa). As apresentações serão realizadas nos dia 8, 9 e 10 de março (sexta e sábado, às 21h; domingo, às 20h). Os ingressos estão à venda no próprio bar, a partir de duas horas antes de cada performance. Achei que seria um bom pretexto para publicar a história de Wallace

Honra e virtude no sertão

13 de setembro de 2012 0

Estreia nesta quinta-feira em Porto Alegre, dentro da programação do 19º Porto Alegre em Cena, o espetáculo baiano Sargento Getúlio, adaptado por  Gil Vicente Tavares da novela homônima de João Ubaldo Ribeiro. A peça, um monólogo no qual o ator Carlos Betão vive o sargento façanhudo e falastrão, será levada de hoje a sábado, às 19h, no Teatro do Sesc. O espetáculo venceu a edição 2011 do Prêmio Braskem baiano, nas categorias Melhor Espetáculo e Melhor Ator, e me parece um bom pretexto para republicar este texto que o David Coimbra escreveu sobre Sargento Getúlio, o  livro (Alfaguara, 168 páginas), na época em que a obra fazia parte de uma coleção de clássicos vendidos nas bancas junto com o jornal. Desfrutem:

A Qualquer Preço

David Coimbra

Essa história quem conta é Getúlio, sargento Getúlio, bem entendido, que prendeu um preso e leva o preso de Paulo Afonso a Barra dos Coqueiros, sertão fundo, sol de brasa parecendo sempre a pique e mosquerio e tudo seco e tisnado, é o Sergipe, o Sergipe é assim. Getúlio vai assuntando com o preso e o chofer Amaro, Amaro não é de muito falar, fica lá, quietão atrás da direção, cuidando a buraqueira da estrada. Amaro é bom de direção, o melhor da soldadama, mas não é de trela, é Getúlio que fica assim contando façanha, que Getúlio é façanhudo. De morte, vinte nas costas. Vinte. Não é pouco. Já de comecinho Getúlio avisa que matou, que mata, mas que não é dado a sangria. Fosse, terminava o vivente no ferro, porém faz um barulho esquisito e não é asseado por causo de todo aquele esguincho que sai. Getúlio prefere disparo no cachaço, como explicou pro preso e pro Amaro já na saída de Paulo Afonso, pegando aquela estrada ruim, estrada de carroça. E se vão os três desse jeito na camioneta, sacolejando, Getúlio falando sem parar, de quando em quando fazendo filosofice, Getúlio é de preceitos, vai ensinando uns e outros, vai lembrando de Tárcio. Bom amigo, Tárcio. Bom de tiro, bom de briga, bom na atalaia. Tárcio tinha um olho cego e quando ele arregalava aquele olho cego e branquela e cheio de veiazona arroxeada, nossa, o vivente podia se apreparar que vinha coisa, ah, vinha, Tárcio era fogo. Getúlio sabe também de gente importante. De comunista. Udenista. Pessedista. Luis Carlos Preste, Cristiano Machado, Floriano Peixoto, muitas gentes. Todo Peixoto é macho, sabia? Pois é. Getúlio tem cabelo ruim, tenta alisar com Quina Petróleo Oriental, já usou? Ou Brilhantina Glostora, que tem cheiro bom, ele até prefere, mas em salão ele não vai, que se o cabra olha enviesado pra ele ele já abre um buraco no infeliz. Pois é assim que se vai a história de Getúlio, do chofer e do preso. A história passeia junto com a mosquinha que passeia pelo vidro da camioneta, a história é dura, história de gente matada, mas também é história risonha, de mulher bonita, de amizades e amores. Getúlio vai contando e a gente vai lendo como se tivesse ouvindo e vai se imiscuindo na história e não consegue mais largar o livro do Ubaldo, que até nem é um livrão, é livrinho, fininho, mas é uma beleza de se ler e se encantar com o jeito do Getúlio, o jeito do Ubaldo, o jeito que a história sai envolvendo a gente, a gente acaba dentro da camioneta e termina o livro. Pena. Dá até saudade do Getúlio.

Nelson, centenário além do óbvio ululante

23 de agosto de 2012 0

Nelson Rodrigues, cujo nascimento completa 100 anos hoje. Foto: Banco de Dados

Faça como Olegário, o marido obsessivamente desconfiado da peça A Mulher sem Pecado, e questione muito do que já ouviu a respeito de Nelson Rodrigues. Para marcar o centenário de nascimento do maior dramaturgo moderno brasileiro, celebrado hoje, pesquisadores e encenadores desfazem mitificações e revelam novos aspectos de sua obra, que reúne 17 peças de teatro, além de contos, romances, crônicas (ou ensaios) e textos publicados em livro postumamente. É um sinal de que os discursos críticos sobre Nelson, aos poucos, deixam de ser o óbvio ululante – para usar uma de suas mais célebres expressões – que se tornaram há tempos: seria irônico demais para o sujeito que disse que toda unanimidade é burra. Aos poucos, descortina-se um Nelson além do reacionário, moralista ou simplesmente tarado, como já foi chamado.

Sim, foi uma revolução sem precedentes no teatro.Mas não é correto acreditar que o palco apareceu para Nelson como uma inspiração desvinculada de seu tempo. A inovação deve ser entendida, em parte, pelo diálogo com as comédias de costume de grande apelo popular no Rio de Janeiro das décadas de 1930 e 40,as quais Nelson conhecia bem.“Isto eu confesso”, declarou em uma entrevista em 1967, citando nomes hoje praticamente esquecidos do público.“Eu tinha ódio do Joracy Camargo, por causa do sucesso de Deus lhe Pague, ódio do Raimundo Magalhães Jr.,por causa do Carlota Joaquina, tudo anterior a mim. Mas não importa, eu incluía o passado no meu presente, no meu ressentimento. Qualquer sujeito que tivesse, quisesse ter ou tivesse tido algum êxito teatral dava-me uma irritação de extrema malignidade, não perdoava”. O depoimento está reproduzido no livro Nelson Rodrigues por Ele Mesmo (Nova Fronteira), organizado pela filha Sonia Rodrigues e lançado este ano.

Tania Brandão, crítica de teatro e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), afirma que os paralelos com modernos e revolucionários como o americano Eugene O’Neill (1888 – 1953) e o italiano Luigi Pirandello (1867 – 1936) têm sido suficientemente explorados. É preciso, segundo ela, situar Nelson no teatro nacional.

– Tradicionalmente se parte da ideia de que ele zerou a dramaturgia brasileira, que liquidou o passado e se impôs com violência contra um teatro de sala de visitas, de sentimentalismo barato – explica. – Pode surgir uma nova luz se lembrarmos das comédias açucaradas, feitas para as famílias, e percebermos como Nelson as subverte. A Madame
Clessi
, de Vestido de Noiva, tem uma função dramática que se aproxima da dama galante, um dos tipos das comédias da época. Só que ele a caracteriza como uma prostituta.

É difícil apontar culpados. Nelson foi o maior ficcionista de sua vida (“Eu fiz cinicamente a minha falsa biografia”). Várias de suas boutades foram levadas a sério por leitores com menos presença de espírito, e muito do que merecia atenção foi tomado como galhofa. Ao contrário do que ainda se acredita, ele não leu pouca dramaturgia, tampouco era distante das salas de espetáculo. Um Inimigo do Povo, de Ibsen, foi uma das “mais deslumbrantes experiências vitais”, assim como a Electra de O’Neill.“Depois disso então, por uma questão de decoro pessoal”, declarou, “passei a ler muito teatro”. Veio Shakespeare. Fora da dramaturgia, Dostoiévski o impressionava sobremaneira.

Tema de pesquisa de uma vasta produção bibliográfica nas áreas de teatro, literatura e, cada vez mais, antropologia, sociologia e história, a obra de Nelson ainda tem flancos a serem preenchidos, como lembra Alexandre Pianelli Godoy, historiador e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp):

– Há poucas abordagens sobre as encenações das peças teatrais e seus significados históricos. É um trabalho ainda a ser feito, bem como sobre o repertório de leituras de Nelson Rodrigues – aponta o pesquisador, que publicará, ainda este ano, o livro Nelson Rodrigues – O Fracasso do Moderno no Brasil (Alameda/Fapesp).

Godoy defende que é preciso compreender a mitologia criada pelo autor em torno de si como parte, e não como explicação da obra:

– Outra confusão é estabelecer uma relação direta e um pouco “chapada” entre as tragédias familiares pelas quais passou e sua produção teatral e jornalística. Seu repertório “trágico” vinha certamente do trabalho com o jornalismo policial exercido desde de muito jovem no jornal de seu pai, entre os anos 1920 e 1930, no Rio de Janeiro. É legítimo estabelecer paralelismos entre vida e obra, mas, na maioria das vezes, tende a empobrecer e comprometer a análise estética e histórica.

E que vida, diga-se: nasceu no Recife, quinto dos 15 filhos que o deputado e jornalista Mário Rodrigues e Maria Esther Falcão teriam. Aos quatro, mudou-se com a família para o Rio. Com 13, começou a trabalhar como repórter policial. Aos 17, viu um irmão, Roberto, ser assassinado em plena redação. Outro, Paulo, morreu com a mulher e os filhos no desabamento de um prédio em 1966. Antes, em 1963, a filha Daniela nasceu cega, fato marcante na vida do  dramaturgo e escritor. Outro de seus filhos, batizado com o nome do pai, foi preso e torturado durante a ditadura militar, mesmo que Nelson tivesse relação pessoal com o general Médici.

A trajetória no teatro foi duradoura: a primeira peça, A Mulher sem Pecado, estreou em dezembro de 1942; a última, A Serpente, em março de 1980, ano de sua morte, em 21 de dezembro. Textos como Anjo Negro e Senhora dos Afogados foram proibidos em 1948. Foi em 1951 que começou a publicar no jornal Última Hora a coluna A Vida como Ela É... Mais uma vez, despistava – com o título irônico – os leitores apressados: nada é menos realista do que sua ficção. A coloquialidade da dicção dos personagens no teatro contribuía para a falsa impressão.

– É uma linguagem à frente do seu tempo porque não se fecha em um estilo realista, psicológico. Tem uma força poética, teatral muito forte. Os diálogos são construídos da forma mais coloquial possível, mas não buscam reproduzir a realidade – afirma Angela Leite Lopes, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tradutora de Nelson Rodrigues para o francês. – São os novos artistas que estão trabalhando, no teatro, esse aspecto de maneira mais clara.

Assim, Nelson realizou a revolução. Estruturada em planos simultâneos, Vestido de Noiva desafiou as convenções teatrais em voga no país em 1943. Álbum de Família gerou escândalo com personagens incestuosos: foi escrita em 1945, proibida no ano seguinte e liberada apenas em 1965 (a estreia foi em 1967, no Rio). Seu teatro completo é uma sequência de clássicos do início ao fim. Mas ainda há o que ser redescoberto, afirma Luís Artur Nunes, diretor gaúcho radicado no Rio e em São Paulo:

– Vejo textos que são pouco montados. Me refiro mais especificamente a Viúva, Porém Honesta; Anti-Nelson Rodrigues e Perdoa-me por me Traíres. A desculpa frequentemente é que seriam textos menores. Não concordo. Acho que são textos que intimidam porque se articulam em chaves diferentes daquelas que encontramos no resto da obra. Jogam com a farsa, com a metalinguagem e com estruturas narrativas mais livres, desamarradas, quase anárquicas. E aí fica difícil de encontrar o tom adequado.

Sorte dos encenadores contemporâneos, que encontram um contexto mais apropriado do que nunca para se livrar das amarras das velhas convenções. Nada seria menos coerente do que ler Nelson Rodrigues com excesso de reverência.“Todas as vaias são boas, inclusive as más”, dizia ele.

Clóvis Massa, professor do Departamento de Arte Dramática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), defende:

– O equívoco seria a pasteurização, ou seja, montar suas peças sempre da mesma forma. Hoje, não há a exigência de uma fidelidade. Os textos de qualquer autor podem ser subvertidos frente a uma encenação que coloca em tensão o que a dramaturgia propôs.

Entre os dualismos que marcaram a vida e a escrita de Nelson Rodrigues, ficou este: o reacionário era, na verdade, revolucionário.

A navalha de Plínio Marcos

20 de setembro de 2010 1

Tônia estava decidida em sua escolha, disposta a assumir a causa da liberação da peça desde que o autor lhe garantisse o direito de intepretar Neusa Sueli. Criou-se um impasse, pois Ruthneia de Moraes já fazia a personagem no espetáculo do Grupo União. Tônia concordou em não apresentar a peça em São Paulo, ficando com os direitos de de levá-la no Rio e no resto do país. Acordo fechado, ela saiu a campo, enfrentando a resistência na própria casa, “uma família de professores e militares”, que já torcera o nariz quando dissera que queria fazer cinema. Agora, fazer uma prostituta numa peça cheia de palavrões, era demais. Tônia relembra:
“Quando eu fiz Neusa Sueli engordei oito quilos, botei enchimento no peito, um traseiro enorme, deixei o cabelo sem pintar. As minhas rugas, que o Ivo Pitangui já tinha tirado, eu pus todas de volta. Minha figura era uma tristeza, lamentável. Meu irmão falou assim: “Eu não vou ver, é uma vergonha”. Eu era casada desde 1964 com o César Thedim, que ajudou a Sarah Ferez a fazer o cenário. César me aconselhava: ‘Não diga palavrão, não vai ficar bem; diga vaca, galinha, piranha em lugar de puta; eu duvido que Barbara Heliodora vá gostar de ouvir você falando essas coisas’. Realmente, a Barbara disse: ‘Olha, fica muito pesado na sua boca, troca’. Mas eu fui com a cara e a coragem e isso é que foi um espanto.”
Tônia tinha consciência da necessidade de estabelecer uma nova imagem como atriz, diferente daquela que tantos outros tinham: “Uma pessoa muito bela sobe no palco, tudo o que se espera dela é a perfeição. Uma feinha faz bem uma cena e todos dizem: ‘Como é talentosa, me deu um momento de beleza’. Essa, como já é bela, dizem que não tem técnica. E não há técnica que supere a beleza. Até hoje tenho insegurança por isso. Jamais a técnica corresponde ao grau de beleza que a gente já transmitiu. Tanto que, quando eu me despi de todo charme, fiz mais sucesso”.
E fez mesmo, em Navalha na Carne. Inventou que logo na abertura da peça ela apareceria como Neusa Sueli lavando sua calcinha na pia. De imediato, dava um recado à plateia sobre a personagem que estava interpretando. Que não se esperasse dela, dali pra frente, nada menos que aquela imagem patética, triste, sofrida. Impressionada com o deles em Dois perdidos numa noite suja, Tônia convidou a dupla Fauzi Arap e Nelson Xavier, entregando a este a direção. Não, quem deve dirigir é o Fauzi, “esse é que é bom diretor”, disse Nelson, na lembrança de Tônia. Na de Fauzi — que aos 29 anos se despediu como ator em Dois Perdios (um brilhante ator, sabem todos que o viram em cena) e estreou como diretor profissional em Navalha na Carne —, o seu nome foi imposto pelo próprio Plínio, versão que Walderez de Barros confirma. Tônia e Fauzi tiveram então uma conversa reservada.
— Plínio sugeriu meu nome, mas não faço nenhuma questão de dirigir a peça.
— Ótimo, porque eu também não quero você.
Césa Thedim chegou, pegou essa conversa que não saía do chove e não molha, perdeu a paciência.
— Chega de frescura e marquem logo o início dos ensaios.
E os ensaios começara, com a escolha de Emiliano Queiroz para o papel de Veludo. “Daí para a frente, no começo até meio empurrado pelo Plínio, acabei virando diretor sem nunca ter tido essa ambição”, diz Fauzi. “Eu tinha minhas veleidades artísticas, mas não sabia bem se queria continuar no teatro ou voltar para a engenharia, estudar psicanálise, psicologia ou sei lá o quê. Como eu e Tônia brigamos no primeiro dia, depois não precisamos mais brigar. Tudo deu certo no trabalho. Na estreia ela me disse que nunca mais eu dirigiria uma peça com tantos detalhes”.
(…) Entretanto, não foi tão fácil assim impedir que a beleza de Tônia tornasse nada crível a decadência física da sua personagem. Quando Vado pegava Neusa pelos cabelos e lhe esfregava um espelho na cara, apunhalando-a com um “você é uma galinha velha, todo mundo te acha um bagaço”, era impossível acreditar. A uma mulher como a atriz jamais faltariam fregueses. Por mais que Fauzi pedisse para ela se enfear, não adiantava. Até que Tônia convidou algumas amigas para assistir a um ensaio. Entre elas, a atriz Djenane Machado e a crítica Barbara Heliodora, que no fim, depois dos elogios merecidos e de praxe, foi ao ponto:
— Tônia, só tem um problema. O texto diz que a personagem é uma mulher acabada, decadente, mas voc~e em cena está deslumbrante!
— Mas eu estou sem maquiagem nenhuma!
Bárbara se controlou para não rir  da desculpa esfarrapada. Preferiu explicar que não usar maquiagem, no caso dela, era insuficiente. Precisava, sim, colocar umas olheiras, fazer uma maquiagem vagabunda que envelhecesse e derrubasse a figura de Neusa Sueli, como Plínio Marcos a escreveu. Foi então que Tônia se convenceu e Fauzi Arap ficou agradecido a Barbara Heliodora, já famosa por não ter papas na língua.

O trecho acima foi retirado de Bendito Maldito, obra do jornalista Oswaldo Mendes (Leya, 542 páginas, R4 44,90) que apresenta um apanhado biográfico do dramaturgo Plínio Marcos, e que fala sobre a difícil produção de Navalha na Carne, peça do autor censurada pela ditadura militar.  O livro conta como 1967 foi um dos anos mais produtivos na vida de seu autor, que já havia ganho notoriedade com a produção de Dois Perdidos numa Noite Suja. Foi em 67 que Plínio escreveu alguns de seus trabalhos mais impactantes: Quando as Máquinas Param, Homens de Papel e Jesus Homem. Além da própria Navalha...,  escrita, Mendes relata, em três dias.

Antes mesmo de estrear, apenas com a apresentação obrigatória do texto à censura, a peça foi proibida. Mesmo censurado o espetáculo — que narra uma noite de discussão, violência e catarse em um quarto de pensão entre a prostituta Neusa Sueli, o gigolô Vado e o homossexual Veludo —, a peça foi preparada por dois grupos diferentes: o Grupo União, de São Paulo e a montagem carioca produzida por Tônia Carrero (na foto que ilustra este post, encarnando Neusa Sueli). Enquanto isso, era feita uma ampla campanha para a liberação da peça, com a coleta de depoimentos e pareceres inclusive de nomes ligados ao clero e às forças armadas. Plínio e Tônia solicitavam audiência com o ministro da Justiça Luís Antônio da Gama e Silva quase diariamente, até que finalmente ela fosse liberada — o que só aconteceu graças ao prestígio do nome de Tônia, apesar da ampla campanha popular em favor da peça.

Navalha na Carne é um dos textos mais encenados do teatro brasileiro, e já ganhou duas versões no cinema. A primeira, em 1969, dirigida por Braz Chediak, tem Glauce Rocha como Neusa Sueli. Emiliano Queiroz, que já fazia o papel de Veludo no palco, deu vida ao personagem na tela. A segunda versão, de 1997, é estrelada por Vera Fischer e traz o ator cubano Jorge Perrugorría como o cafetão Vado. Além de incontáveis montagens teatrais, como a que estreia amanhã na Sala Álvaro Moreyra como parte da programação do Porto Alegre em Cena (ingressos já esgotados), com Paula Cohen como Neusa Sueli e Gero Camilo, o Sem Chance de Carandiru, como Veludo.

Jorge Amado e os bonecos

24 de junho de 2010 1

Imagem da peça O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá,
do grupo El retablo / Foto: Divulgação

Enquanto isso, o Gato Malhado levantou-se, estirou os braços e as pernas, eriçou o dorso para melhor captar o calor do sol subitamente doce, abriu as narinas para aspirar os novos odores que rolavam no ar, deixou que todo o rosto feio e mau se abrisse num sorriso cordial para as coisas e os seres em torno. Começou a andar.
Aconteceu então uma debandada geral. O grande Pato Negro arrastou a pequena Pata Branca para o fundo do lago e assim, num mergulho que bateu todos os seus recordes anteriores, atravessou para a outra margem, onde pôs sua mulherzinha a salvo. Os pombos recolheram-se todos ao pombal, silenciando os arrulhos de amor nos galhos das árvores onde nasciam e se multiplicavam brotos verdes no mesmo minuto transformados em folhas cheias de sombra. Os cães pararam de correr e pular, fizeram como se estivessem muito ocupados em desencavar ossos escondidos. Os botões que começavam a virar flores suspenderam momentaneamente seu trabalho, e uma rosa que, apressada, já se abrira, deixou cair todas as pétalas sobre o chão. Meunos uma que ficou volteando no ar, ao sabor da brisa.
Toda essa correria fez um certo ruído, despertando a atenção do Gato Malhado. Olhou espantado. Por que fugiam todos se era tão belo o parque naquela hora de chegada da primavera?
Não havia tempestade, não corria o vento frio derrubando as folhas, a chuva não desabava em lágrimas sobre os telhados.
Como fugir e esconder-se quando a Primavera chegava trazendo consigo a doçura de viver? Será que a Cobra Cascavel havia voltado, havia ousado retornar ao parque? O Gato Malhado procurou-a com os olhos. Se fosse ela, dar-lhe-ia nova lição para que jamais ali viesse roubar ovos, tirar pássaros dos ninhos, comer pintos e pomba-rolas. Mas não, a Cascavel não estava. O Gato Malhado  refletiu. E compreendeu então que fugiam dele, há tanto tempo que não o viam miar nem sorrir que agora se amedrontavam.
Foi uma triste constatação. Primeiro deixou de sorrir, mas, depois, encolheu os ombros num gesto de indiferença. Era um gato orgulhoso, pouco lhe importava o que pensassem dele.
Até piscou – num gesto um pouco forçado – um olho malandro para o sol, e esse gesto, ainda mais inesperado, fez com que uma enorme Pedra, que há muitíssimos anos residia nas proximidades do lugar onde o Gato estava, rolasse correndo para o mato.
O Gato Malhado aspirou a plenos pulmões a Primavera recém-chegada. Sentia-se leve, gostaria de dizer palavras sem compromisso, de andar à toa, até mesmo de conversar com alguém. Procurou mais uma vez com os olhos pardos, mas não viu ninguém. Todos haviam fugido.
Não, todos não. No ramo de uma árvore a Andorinha Sinhá fitava o Gato Malhado e sorria-lhe. Somente ela não havia fugido.  De longe seus pais a chamavam em gritos nervosos.
E, dos seus esconderijos, todos os habitantes do parque miravam espantados a Andorinha Sinhá, que sorria para o Gato Malhado. Em torno era a primavera, o sonho de um poeta.

Quem leu a Zero Hora de hoje viu, na capa do Segundo Caderno, uma reportagem de Vanessa Franzosi sobre o começo do 22º Festival Internacional de Teatro de Bonecos de Canela, que vai até domingo apresentando a arte de grupos daqui e de fora. Um deles, El Retablo, é espanhol, e traz à serra gaúcha um espetáculo baseado no livro de Jorge Amado cujo trecho vocês puderam ler logo acima: O Gato Malhado & A Andorinha Sinhá, história que Jorge escreveu para o filho, João Jorge, quando este era criança, e que foi pubilcada nos anos 1970 por insistência do próprio João Jorge já adulto.

Na história, apresentada por Jorge Amado como um conto de amor, o temido e selvagem Gato Malhado conhece e se apaixona pela andorinha e ambos enfrentam o estranhamento de todo o parque dadas as óbvias diferenças entre ambos.  Confesso que a antropomorfização de coisas e bichos que é a ferramenta centtral de muita literatura para crianças hoje me incomoda um pouco, mas o problema é meu, não dos livros, claro. E já que o El Retablo, dirigida pelo argentino radicado na Espanha Pablo Vergne, vem a  Canela com uma adaptação bonequeira de O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, recupero um trecho do livro, que foi reeditado em 2008 no selo Cia. das Letrinhas da Companhia das Letras. A história é ilustrada pelo parceiro de longa data de Jorge em seus livros adultos: o artista Carybé.

Os espetáculos do Festival Internacional de Canela são apresentados em praças de Canela, com entrada franca, e também nos espaços Casa de Pedra, Lage de Pedra e Teatro Municipal, com ingressos a R$ 25, R$ 15 (menores de 10 anos) e R$ 12,50 (idosos). Confira a programação de hoje no site www.bonecoscanela.com.br.

Tradução e Reação - 6

28 de dezembro de 2007 1

Como não tivemos semana passada nossa atrasada brincadeira comparativa entre traduções de uma mesma obra, vou compensar esta semana com uma edição especial de ano novo abordando duas obras em vez de uma. Na primeira, hoje, voltamos agora a um idioma com o qual já trabalhamos, mas em uma forma na qual ainda não havíamos nos detido: o texto teatral. Na segunda, que devo atualizar hoje, senão domingo, sigo aproveitando o mote da literatura policial que iniciei alguns posts atrás. Mas não nos apressemos.

Quando Edmond Rostand encenou Cyrano de Bergerac pela primeira vez, em 1897, obteve sucesso imediato com a história, e o segredo pode ser resumido em apenas duas palavras: romantismo e fantasia. Na contramão do drama francês do período ou da tradição trágica do país, a obra se amparava em um personagem carismático e romântico. Em lugar da lama das grandes paixões, um romantismo amoroso que via na poesia a expressão máxima – e ao mesmo tempo o artifício mais enganador, já que a bela persoangem Roxanne se apaixona pelas palavras do feio e narigudo Cyrano, mas adequadas ao belo aspecto do colega de regimento estúpido. Há também o aspecto histórico. A França ainda se recuperava da Guerra Franco-Prussiana de 1870, que resultou na perda da região de Alsácia-Lorena. Cyrano era, portanto, um personagem que, mesmo na pobreza, acossado por dívidas, desaprovado pela chamada boa sociedade, ainda tinha a sagacidade de um satirista e a espada de um herói, “mantinha o seu penacho”, como o próprio diz. Uma atitude que obviamente cairia no gosto das platéias, sendo até hoje uma das peças mais montadas na França e fora dela — a última adaptação cinematográfica de vulto foi a estrelada por Gerard Depardieu nos anos 1990 (e cujo pôster ilustar esta página), mas até uma versão modernizada com Steve Martin e Daryl Hannah foi feita nos anos 1980. Ah, sim, e provavelmente também o sucesso se deva ao fato de a peça ser ótima tanto em termos de enredo quanto de qualidade literária. Imagino que a essa altura vocês estejam familiarizados com a história: O bravo Cyrano, dotado de um nariz descomunal, é apaixonado pela prima, Roxana, que, por sua vez, sem saber, pede ao próprio Cyrano que a aproxime do cadete Cristiano, recém-chegado colega de regimento do protagonista. Cyrano, embora desolado, assume a incumbência de aproximar os dois. Mas como Cristiano é um sujeito bonito porém imbecil, é Cyrano quem escreve para Roxana as cartas que ela pensa ser do jovem oficial.

A peça foi composta em versos que rimam em parelhas, com métrica dodecassílaba. Cyrano sempre foi considerado um dos papéis mais difíceis da dramaturgia francesa devido à grande extensão de suas falas. Ele está em cena em 90% do tempo e tem para si 1600 versos, um recorde. É inevitável pensar em todas essas especificidades ao examinar as duas traduções que veremos agora – e que são tão dessemelhantes que em vários momentos parecem duas peças diferentes. A primeira, de 1985, é da José Olympio Editora, com tradução livre de Ferreira Gullar, feita a pedido do diretor teatral Flávio Rangel para uma montagem específica – a imagem da capa é o Antônio Fagundes caracterizado como o personagem. Esse exemplar foi comprado em 1996, por aí, no sebo Beco dos Livros. E conta com a vantagem, que não tivemos até agora na série Tradução e Reação, de trazer um breve texto do tradutor sobre seu trabalho. Gullar escreve, por exemplo:

…Tudo isso decorre da atitude básica que tomei diante da tarefa que me foi solicitada por Flávio Rangel: realizar uma tradução que funcione teatralmente. Seria impossível conseguir esse resultado se me dispusesse a traduzir ipsis literis o texto de Rostand. De fato, a leitura atenta do original francês revela que muitas das falas surgiram, na forma em que estão, por necessidade de adequar-se o autor ao sistema de métrica e rima que escolhera. A peça escrita em prosa teria certamente diálogos bem diversos na maioria das situações vidias pelos personagens. Não seria, portanto, aconselhável, ao fazer a tradução – tendo que enfrentar em português dificuldades semelhantes às que o autor enfrentou em francês – que me submetesse à forma estrita do original.

Depois dessa defesa do autor ao seu trabalho, resta-nos passar ao trecho, retirado da oitava cena do segundo ato, passada na mesa de uma taberna com Cyrano conversando com seu amigo Le Bret:

CYRANO
É uma questão de gosto e de princípio:
acho bonito exagerar assim!
LE BRET
Precisavas ser menos mosqueteiro!
CYRANO
Pois serei mosqueteiro até o fim!
LE BRET
E desprezar a glória e o dinheiro?!
CYRANO
Para manter-me independente, sim!
Ou queres que eu me arranje um protetor
para subir por ele como faz
a parasita, e sem nenhum valor
vencer na vida? Que vitória é essa?
Fazer cada poema dedicado
a um rico burguês, a um grã-senhor?
Não é isso o que eu quero… Obrigado!
Ou devo bajular cada ministro,
transformar-me em bufão condecorado?
Ou, diante de cada olhar sinistro
dos poderosos me prostrar curvado
e submisso? Gostarias disso?

Esse monólogo é maior, mais extenso, ele segue, mas como este post já está ficando imenso, vamos adiante. Como ficará mais claro ao comparar com a segunda tradução, Gullar opta por um esquema de rimas mais solto, não respeitando as parelhas do original, optando por às vezes rimas internas no próprio verso, como /submisso/ e /isso/, na última linha, ou, o mais comum, rimas alternadas, como /obrigado/, /condecorado/ e /curvado/, que rimam verso sim, verso não. Já a segunda edição é de 2003, publicada na encarnação mais recente da coleção de clássicos da literatura da Nova Cultural, com tradução de Fábio M. Alberti (Na verdade, conforme já apontou a tradutora Denise Bottmann nos comentários, o decano Ivo Barroso já denunciou esta versão como uma cópia da consagrada tradução de Carlos Porto Carreiro). Esta versão respeita o esquema de rimas parelhas do original, como podemos ver na transcrição abaixo, do mesmo trecho:

CYRANO
Mas – como princípio e como exemplo – enfim
Considero excelente exagerar assim.
LE BRET
Se amainasses um pouco essa altivez de raça.
A glória, as posições…
CYRANO (interrompendo-o)
Que queres que eu te faça?
Que vá ver um patrono em voga, um protetor
E – como hera servil que em busca de tutor
Lambe a casca do tronco em roda ao qual se torça –
Cresça por manha, em vez de me elevar por força?
Obrigado. Ofertar meus versos a um banqueiro,
Como é vulgar? Fazer do vil patomimeiro
na esperança de ver nos lábios de um ministro,
sorriso que não tenha uns longes de sinistro?
Almoçar cada dia um sapo – e não ter nojo,
Gastar o próprio ventre a caminhar de rojo?
Obrigado…

Como vocês podem ver, o segundo trecho é mais subordinado à necessidade formal e tem até uma pontuação diferente. Os pontos de exclamação que Gullar preserva somem no texto de Fabio Alberti. Gullar também, como já anuncia no texto prévio de que selecionei um texto, inventa versos de sua própria lavra para obter um ritmo adequado, como o caso do “mosqueteiro”, que também some na segunda versão. Logo na primeira linha vemos que Alberti precisou usar o “enfim” para rimar com o seguinte assim, mais ou menos igual ao que está no texto de Gullar. E, além de a maioria das idéias presentes em cada verso ser a mesma, estamos diante de duas composições completamente diversas, como se pode notar ao olhar o original, que transcrevo abaixo:

CYRANO
Mais pour le principe, et pour l’exemple aussi,
Je trouve qu’il est bon d’exagérer ainsi.
LE BRET
Si tu laissais un peu ton âme mousquetaire
La fortune et la gloire…
CYRANO
Et que faudrait-il faire ?
Chercher un protecteur puissant, prendre un patron,
Et comme un lierre obscur qui circonvient un tronc
Et s’en fait un tuteur en lui léchant l’écorce,
Grimper par ruse au lieu de s’élever par force ?
Non, merci. Dédier, comme tous ils le font,
Des vers aux financiers ? se changer en bouffon
Dans l’espoir vil de voir, aux lèvres d’un ministre,
Naître un sourire, enfin, qui ne soit pas sinistre ?
Non, merci. Déjeuner, chaque jour, d’un crapaud ?
Avoir un ventre usé par la marche ? une peau
Qui plus vite, à l’endroit des genoux, devient sale ?
Exécuter des tours de souplesse dorsale ?…
Non, merci. !

Ah, sim, um último e curioso detalhe: o personagem: Savinien Cyrano de Bergerac existiu de verdade (1619 – 1655), foi contemporâneo de Molière, e escreveu um livro intitulado Viagem à Lua, que é citado na peça de Rostand quando o herói precisa atrasar os planos do vilão De Guiche para permitir a Roxana casar-se com o cadete Cristiano. E Viagem à Lua foi publicado este ano aqui no Brasil pela Globo, como vocês podem ver na imagem de capa aí do lado.

Cem anos de Ibsen e Dreyfus

11 de agosto de 2006 0

O mundo comemora – ou relembra – neste ano, o centenário de dois acontecimentos importantes e que estão relacionados: os 100 anos da morte do escritor norueguês Henrik Ibsen (1828 – 1906) e os 100 anos da absolvição do militar francês Alfred Dreyfus, protagonista do famoso Caso Dreyfus. É uma boa oportunidade para conhecer melhor a obra de Ibsen, considerado o pai do teatro realista. No país de nascimento do cara, a celebração é intensa, no chamado “Ano Ibsen”. Tem até um site bem bom para saber tudo sobre ele www.ibsen.net.

A obra mais famosa de Ibsen, Um Inimigo do Povo, é bastante acessível, mesmo para quem não está acostumado a ler textos para teatro, e está disponível em versão pocket da L&PM. Achei uma dessas em um sebo do brique da Redenção a míseros R$ 5. Um Inimigo do Povo é considerado o texto que mais influenciou o desfecho do Caso Dreyfus – o caso jurídico que escancarou o anti-semitismo francês no final do século 18, quando um militar judeu foi acusado de trair o exército francês.

O affair opôs conservadores e liberais, os antidreyfusards e os dreyfusards, como foram chamados. A discussão sobre se Alfred Dreyfus era ou não culpado expôs as raízes anti-semitas européias que, para muitos historiadores, culminariam com o nazismo, décadas depois. Pois a peça de Ibsen, encenada na época dessa discussão, era com freqüência interrompida por calorosas manifestações pró-Dreyfus e pró-Emile Zola – um dos grandes romancistas franceses, que escreveu o famoso editorial J’Accuse!, em que defendia Dreyfus. Isso acontecia porque o texto de Um Inimigo do Povo conta justamente a história de um homem que é acusado de trair a sua comunidade.

Trata-se de um texto curto e arrebatador. Percebe-se a tragédia pessoal do personagem principal intensificar-se página por página, muito rapidamente. O protagonista, aliás, é um médico que passa a ser perseguido por denunciar a contaminação da estação termal de sua cidade – estação que era a fonte de renda de quase toda a população. Em Um Inimigo do Povo, Ibsen dá uma paulada na hipocrisia burguesa de seu tempo, como já havia feito em outras peças em que expõe assuntos pouco agradáveis para a época, como doenças venéreas e feminismo. Ibsen nunca quis agradar ninguém, mas se tornou um dos grandes nomes do teatro em todos os tempos.

Texto de Gabriel Brust