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Posts na categoria "tecnologia"

Meu primeiro e-book

14 de dezembro de 2012 0

O iPhone no qual nosso repórter leu 'Carcereiros', de Drauzio Varella. Foto: Carlos Moreira

Texto de Caue Fonseca

Aprecio a ideia de vida .zip. Objetos que tornam o cotidiano mais prático e o apartamento mais espaçoso se compactados ao menor volume possível. Isso vale para tudo: TVs, notebooks, celulares… menos para livros. Estes, faço questão de apreciar as capas, curtir o passar de páginas, marcá-las com sachês dos cafés que sediaram minhas leituras e, ao final, de colocá-los na prateleira. Muito me orgulha a estante ainda modesta, mas já com livros sobrepostos, caoticamente organizados pelo encaixe geométrico uns aos outros.

De modo que torço o nariz para as versões eletrônicas deles, os e-books. Ao contrário de ouvir um álbum, por exemplo, a ideia de ler um romance na tela do iPhone e depois vê-lo resumido a um ícone me entristece. Mas, motivado por uma reportagem sobre o assunto e pelo atraso de uma amiga a um compromisso, resolvi comprar meu primeiro livro eletrônico à mesa de um bar. Descrevo em tópicos o que me chamou a atenção ao longo das 627 páginas (calma, elas são menores no celular) vencidas no passar de dedos pelo touchscreen.

1. Facilidade
Com 3G em boas condições e nenhum conhecimento prévio, pesquisei títulos na iBook Store, instalado automaticamente na última atualização do iPhone, e optei por Carcereiros, uma espécie de apêndice de Estação Carandiru, livro que deu fama ao médico escritor Drauzio Varella (leia entrevista com o autor aqui). Paguei US$ 12 e o livro baixou em segundos. Na tela, ele fica disponível com capa e tudo, em uma simpática prateleirinha de madeira virtual. Essa facilidade para espantar o tédio a nem tão módicos R$ 25 assusta um pouco. Como ocorre com as músicas do iTunes, é preciso resistir à compra compulsiva que só pesará no fim do mês, na fatura do cartão de crédito.

2. Velocidade
Simultaneamente a Carcereiros, comecei a ler Segundos Fora, romance bem interessante de Martín Kohan, em versão impressa. Pois desde que o autor argentino começou a concorrer com Varella, o livro virtual levou larga vantagem. A título de comparação, Carcereiros tem 262 páginas na versão impressa. Venci elas na tela do celular em dias, enquanto Segundos Fora, aqui na mochila, está parado na página 72. São dois os motivos para isso, e nenhum deles é a qualidade das narrativas.
Todo bom leitor sabe o quão importante é ter um livro sempre à mão, para horas de ócio imprevisíveis, como uma fila inesperadamente comprida (o Carlos André, dono deste blog, por exemplo, era um goleiro que costumava ler trechos sob as traves enquanto o time apertava a defesa adversária). O celular, mais compacto do que um livro e sempre à mão, otimizou essa leitura incidental. Dependendo do número de velhinhos à frente, dá pra ler um capítulo na fila para pesar as frutas.
O segundo motivo, chuto eu, é o tipo de narrativa. Fiz questão de escolher um livro de não-ficção como primeiro e-book, pois é uma leitura mais propensa a ser abandonada e retomada o tempo todo. Fosse um romance como o de Kohan, cuja história se passa em três cenários e tempos diferentes, creio que seria mais difícil de mergulhar na história dos personagens – e até de apreciar a qualidade do texto – cada vez que a namorada se maquia.

3. Consumo
Eis uma vantagem do livro impresso. Ler no celular exige a tela ligada 100% do tempo de leitura, e isso consome uma bateria medonha. Desde que comecei a ler Carcereiros, não houve dia em que o iPhone não chegasse em casa pedindo penico. Em dias em que você passará muito tempo longe de uma tomada, é preciso cancelar leituras para não correr o risco de ficar incomunicável mais tarde. E-readers com o Kindle, da Amazon, ou o Kobo, da Livraria Cultura, não têm esse problema. Mas, por servirem só para ler, eles perdem esse fator incidental de ler no telefone. A chance de ter um Kindle na mochila ou na bolsa para distrair-se em uma fila qualquer é a mesma de ter um livro físico.

4. Conforto
É besteira a história de que ler em um meio digital cansa. No trabalho, a maioria de nós já passa o dia em frente ao computador. A não ser que o sujeito seja um leitor voraz, uns minutos a mais ou a menos olhando para a telinha não fazem a menor diferença. Em ambientes escuros, como uma viagem noturna, o celular é até mais confortável, pois tem luz própria. O passar de páginas com uma mão só (em um movimento patenteado pela Apple de tão bacaninha) e o tamanho das letras tampouco incomodam, já que o telefone pode ser aproximado “das vistas”, como diriam as nossas avós.

5. Falta de charme
É pura vaidade, mas eu gosto de ser visto lendo e também de ver pessoas lendo. Pessoas interessantes leem. Uma mulher lendo, então, não sendo Cinquenta Tons de Cinza, é a dona de qualquer lugar em que eu esteja. Por outro lado, qualquer babaca brinca no celular. E quando você está praticamente dentro do aparelho distraído com a leitura, não só não parece que está lendo, como projeta a imagem de que é um daqueles louquinhos que não sai do Facebook. A mesma falta de charme se estende à ausência do livro na estante após a leitura. Ler um e-book, portanto, é consolar-se com o ser interessante sem parecer interessante. E, poxa vida, isso faz toda a diferença.

* A equipe do blog agradece a Larissa Roso o empréstimo do celular com o qual foi tirada a foto que ilustra este post

O Analógico e o Digital na terra das letras

03 de setembro de 2011 0

Alberto Manguel e Kate Wilson no traço de Paulo Caruso

A Jornada de Passo Fundo encerrou, na semana passada, com uma altercação das boas entre Alberto Manguel, crítico argentino autor, entre outros, de Uma História da Leitura e A Biblioteca à Noite, e a editora escocesa Kate Wilson, à frente de sua própria casa publicadora, a Nosy Crow, que produz livros infantis e aplicativos para dispositivos digitais de leitura. Foi justamente um desses aplicativos que provocou a grande discussão.

Foi no último debate da Jornada, que contou ainda com os brasileiros Fabiano dos Santos e Affonso Romano de Sant’Anna. Sant’Anna abriu a conversa com um relato de como o Brasil abraçou um projeto de desenvolvimento que separou leitura e educação e que não previu o incentivo à leitura. Manguel e Sarlo compararam a leitura à sexualidade, duas atividades pessoais e subversivas de ensino “muito mais complexas do que se pensa”.

Wilson, uma mulher alta e de olhar intenso, apresentou números para dar uma panorâmica de o quanto as crianças hoje estão expostas a telas e dispositivos eletrônicos. É esse o ambiente que as editoras devem abordar para interessar os pequenos na leitura. O que talvez tenha detonado todo o mal estar foi que o exemplo apresentado por ela foi um aplicativo de sua própria editora, um Cinderela com animações, recursos de interação, possibilidade de umm leitor ver a si próprio em um dos espelhos do castelo, possibilidade de trocar a música que o príncipe e a gata borralheira dançam na festa no palácio, etc.

Manguel, um senhor barbudo de ares entre bonachões e formais, tomou o microfone quando Kate encerrou, sem sequer dar tempo para o mediador Fabiano dos Santos abrir oficialmente o debate, e em espanhol, promoveu um ataque frontal surpreendente ao que havia visto e ouvido:

– Achei que esta mesa falaria de formação de leitores, e não de deformação. Leitura não é comércio. – disse, em uma crítica ao que considerou pura propaganda de um produto de segunda categoria. Manguel sequer disse o nome de Kate Wilson durante todo o arranca-rabo (que era transformado em charge por Paulo Caruso, que vinha acompanhando as mesas e desenhando de improviso a cada debate, assim como faz no programa Roda Viva. Suas charges, mostradas no telão ao auditório, despertaram gargalhadas de uma palteita que aplaudia cada intervenção, de Kate, de Manguel, de Beatriz Sarlo, que também criticou muito a ideia de confundir leitura com mercado editorial, e de Affonso Romano de Sant’Anna, que tentava apresentar uma posição mais moderada). Você ler mais sobre o caso em si aqui.

Para mim, em particular, parece uma daquelas discussões que, vistas no futuro, intrigarão muitos desavisados: por que tinha de ser uma coisa ou outra, por que não a síntese?

* É fato que está cada vez mais difícil convencer alguém que não gosta de ler a ler

* Mas ao mesmo tempo nunca se publicou tanto livro

* Ao mesmo tempo, exponencialmente, não se publicou tanto livro ruim

* Se a vida das crianças é hoje ocupada em boa parte pelo ambiente digital, não há mal em o mercado livreiro se dirigir a ele, é um argumento totalmente válido.

* Ao mesmo tempo, a tecnologia, se não mata suas predecessoras (Beatriz Sarlo falou muito do fato de a bicicleta ainda estar em uso), as transforma de alguma maneira. A disseminação do 3D parece estar transformando o cinema para ser visto em salas em espetáculos descerebrados em que o grande barato é alguém na tela jogar alguma coisa em ti, enquanto os filmes menos cheios de piruetas e pirotecnias estão relegados ao computador ou ao DVD em casa. Um livro eletrônico cheio de recursos não poderia fazer o mesmo com suas menos espetaculosas contrapartes em papel?

Como a discussão ainda continua rendendo (como vocês puderam ver na edição de hoje do Caderno Cultura, com um texto com a doutora em Letras Ana Cláudia Munari), publicamos nos próximos dois posts artigos de Ignácio de Loyola Brandão e de Marcelo Spalding, ambos presentes em Passo Fundo e testemunhas oculares da ronha (adoro essa palavra).

Ainda as livrarias

20 de outubro de 2010 3

NOTA DO EDITOR: Conforme vocês vêm lendo aqui no Mundo Livro, um ameno post escrito pelo colega Gustavo “Paradinha” Brigatti sobre uma decepção em uma livraria de shopping gerou uma acalorada série de manifestações e comentários, o que levou o Brigatti a escrever outro texto e permitiu o gancho para que eu recuperasse um texto de George Orwell com o qual prometia encerrar a polêmica – que não sei nem se polêmica é, foi um debate, ainda que acalorado e com dedões no olho e puxões de cabelo em um ou outro momento.

Não sou político, mas essa promessa vou descumprir agora, depois que bateu na caixa de comentários um texto escrito pelo colega daqui da redação Caue Fonseca (que no primeiro turno das eleições cobriu, no blog e na coluna Palanque Eletrônico, o lado pitoresco da disputa). O Caue faz em seu texto algumas considerações interessantes e extremamente high-tech – e com as quais, a exemplo dos pontos defendidos pelo Brigatti, não concordo cem por cento. Mas achei o  texto pertinente, bem escrito e bem argumentado, o suficiente para voltar ao tema com mais uma colaboração.  Leiam abaixo:

Livros e Margarinas

Lamento ter entrado atrasado na discussão (há um mês só penso em candidatos e seus jingles), já que me interesso bastante sobre o tema. O que achei peculiar aqui no Mundo Livro, foi como a discussão ficou acalorada ao discutir o futuro das livrarias enquanto já se discute o futuro dos livros, mas enfim…

O Paradinha tem razão em tudo o que escreveu. Minha única ressalva é que não acredito que as livrarias possam vir a ganhar essa briga, a serem melhores em te entregar o que tu quiseres na hora em que tu quiseres, pois a internet está ficando cada vez mais eficiente nisso.

Mas não é só livro. Já está bem próximo o dia em que minha geladeira acusará a falta de margarina, eu encomendarei mais margarina na própria geladeira e, no fim do dia, o supermercado entregará minha gordurinha vegetal na portaria do prédio em horas. Com livros, não será diferente.

Às livrarias, restará competir naquilo que o livro difere da margarina ou de um produto qualquer. Apostar no cliente que consome literatura por impulso – e aqui escreve um comprador compulsivo de livros −, na conversa com os livreiros (um amigo cronista, o Vitor Diel, reparou que atendentes de megalivrarias sabem bem menos de livros do que o de qualquer outra loja: carros, roupas, locadoras. Está aí algo a ser melhorado), nos cafés, no ambiente propício à leitura, nos eventos literários. Tanto devem ser competitivas nesses quesitos que muitas delas já são.

E tudo isso muda ali na frente, quando o download do gibi do meu colega estiver acessível no seu ipad a dois toques na tela. Aí as livrarias terão novamente que repensar uma série de coisas. E por aí vamos…

Tecnologia gera evolução. A gente pode repensar certas coisas e evoluir junto. Ou a gente pode xingar quem repara nisso antes que a gente.

Texto de Caue Fonseca