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Posts na categoria "Tradução"

Três perguntas para a tradutora Hilary Kaplan

14 de dezembro de 2015 0
A capa da edição brasileira de "Rilke Shake", à esquerda, e a da tradução à direita.

A capa da edição brasileira de “Rilke Shake”, à esquerda, e a da tradução à direita.

A americana Hilary Kaplan foi indicada esta semana à lista de semifinalistas do prêmio Pen pela sua tradução de Rilke Shake, livro de estreia da poeta pelotense Angélica Freitas, publicado em inglês em fevereiro deste ano pela editora californiana Phoneme Media. Kaplan respondeu, por e-mail, três perguntas sobre o trabalho de tradução do livro:

Você encontrou o livro Rilke Shake em uma viagem a Porto Alegre, não? Poderia contar rapidamente essa história? Fui a Porto Alegre, em 2007, visitar uma amiga e a família dela. Fui à Livraria Cultura buscar poesia brasileira contemporânea. Adorei o título Rilke Shake – foi o único título na estante que me fez rir. Abri o livro e achei poemas que brincavam/jogavam muito com as palavras, escritos em uma voz que eu nunca tinha ouvido em poesia brasileira: divertida, feminina e do sul.

O que a atraiu na poesia de Angélica? Adorei o jogo de palavras nos poemas, os trocadilhos – muito criativos e engraçados. Me atraíram a criação de identidade e a interrogação da identidade, através de um encontro com o presente e o passado da literatura e da cultura brasileiras – e também latino-americana, norte-americana e europeia. Foi uma voz em diálogo (mesmo não propositado) com jovens poetas contemporâneos americanos que eu tinha lido, e por isso ressoou comigo.

Dado o uso que Angélica faz de trocadilhos, aliterações e outros recursos rítmicos, quais foram suas principais dificuldades? Trocadilhos, aliterações e recursos rítmicos são divertidos. Isso é escrita, poesia, invenção e jogo. O prazer e o desafio é achar um equivalente ou uma maneira de dizê-lo em inglês. Aprendi muitas expressões e fatos culturais do sul do Brasil. O livro também tem tantas alusões, óbvias e sutis, à literatura brasileira. Ainda as estou descobrindo.

Tradução e escravidão

17 de fevereiro de 2014 3
Chiwetel Ejiofor em cena de "12 Anos de Escravidão". Foto: Fox Searchlight, divulgação

Chiwetel Ejiofor em cena de “12 Anos de Escravidão”. Foto: Fox Searchlight, divulgação

Como já escreveu a jornalista Raquel Cozer, da Folha de S. Paulo, neste texto do último dia 10 de fevereiro, vivemos, e já há alguns anos, um momento em que as editoras parecem se guiar muito mais pelo possível sucesso de uma adaptação cinematográfica do que no valor intrínseco de uma obra para desovar uma tradução no Brasil. Um dos exemplos citados por ela é a obra Twelve Years a Slave, de Solomon Northup. Publicada originalmente em 1853, em domínio público, portanto, a narrativa autobiográfica do negro livre que foi raptado e vendido como escravo ganhará não uma, mas duas chances no mercado nacional – já que o filme de Steve McQueen estrelado por Chiwetel Ejiofor tem boas chances de ganhar o Oscar e de ser um sucesso de bilheteria.

A Companhia das Letras lança 12 Anos de Escravidão pelo selo Penguin, em edição com tradução de Caroline Chang e prefácio do mesmo Steve McQueen que assina a adaptação para o cinema. Em uma estratégia para associar ainda mais o livro e o filme, a capa foge do padrão da série usando a imagem do cartaz do filme. A segunda edição está saindo pela editora Seoman, parte do grupo Pensamento, e é creditada a alguém nomeado estranhamente apenas como Drago. Dado que fazia horas que não rolava uma comparação tradutória aqui no blog, acho que essa é uma circunstância mais do que apropriada para nos dedicarmos a isso.

Vamos, então, começar com a versão de Caroline Chang. Caroline é jornalista, editora da L&PM e tem em seu currículo traduções, entre outras, de A Longa Marcha, de Sun Shuyun (Arquipélago Editorial); As Filhas Sem Nome, de Xinran (Companhia das Letras); Janela para a Morte, de Raymond Chandler (L&PM) e A Resposta, de Kathryn Stockett (Bertrand Brasil) – este último, curiosamente, também um “livro de Oscar”, uma vez que foi publicado por aqui na mesma época em que sua adaptação cinematográfica, Histórias Cruzadas, chamava a atenção por indicações ao prêmio. Como nosso intuito com esta série é mais lúdico e menos técnico, selecionei para fins de comparação os primeiros dois parágrafos, em uma seleção arbitrária. Não é um trecho especialmente fácil ou difícil, é só o trecho que abre o livro:

12_anos_de_escravidao“Tendo nascido um homem livre, por mais de trinta anos gozado da bênção da liberdade em um estado livre e sido, ao final desse período, sequestrado e vendido como escravo, assim permanecendo até ser felizmente resgatado no mês de janeiro de 1853, após uma servidão de doze anos, foi sugerido que um relato da minha vida e de minhas desventuras não seria desprovido de interesse para o público. Desde meu retorno à liberdade não deixei de perceber o crescente interesse nos estados do Norte quanto ao assunto da escravidão. Trabalhos de ficção, prometendo retratar suas características mais amenas bem como as mais repugnantes, circularam de forma sem precedentes e, a meu ver, criaram um tópico rico para comentários e discussões.
Posso falar sobre a escravidão apenas na medida em que foi por mim observada – apenas na medida em que a conheci e vivenciei em minha própria pessoa. Meu objetivo é dar uma declaração simples e verdadeira dos fatos: repetir a história de minha vida, sem exageros, deixando para outros determinarem se as páginas da ficção apresentam um retrato de uma maldade mais cruel ou de uma servidão mais severa.”

O interesse pelo livro – e também por outra obra contemporânea deste, A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe – dá mostras de como a escravidão começava a ser tornar um tema central no norte “ilustrado”. Já começava-se a sentir o inevitável choque entre a escravidão no Sul, institucional, e as pretensões civilizadas do Norte industrializado, que desembocaria na Secessão na década seguinte, após os Estados sulistas formarem uma confederação e declararem a separação dos demais. O trecho que vemos acima serve como uma sinopse do livro, ao mesmo tempo em que tenta marcar sua diferença para com as obras de ficção. Este é um depoimento. Tem a validade de haver sido testemunhado e vivido. Vamos ver, agora, como esse trecho foi passado para o português pelo tradutor Drago, de quem não conheço a biografia e cujos outros trabalhos na área parecem ter sido todos realizados para a mesma editora Seoman, como O Homem que Amava Muito os Livros, de Allison Hoover Bartlett, e a biografia de Lance Armstrong editada pela mesma casa.

12-Anos-de-Escravidão-seoman“Tendo nascido um homem livre e desfrutado, por mais de trinta anos, das bênçãos da liberdade em um Estado livre e, ao término desse período, tendo sido sequestrado e vendido como escravo – condição na qual permaneci até ser, felizmente, resgatado no mês de janeiro de 1853, após doze anos de servidão – foi-me sugerido que um relato da minha vida e dos acasos que a pontuaram não poderia deixar de atrair o interesse do público.
Desde a minha volta à liberdade, não pude deixar de notar o crescente interesse pelo tema da Escravidão, em todos os Estados do Norte. Obras de ficção que pretendem retratar os aspectos mais agradáveis – tanto quanto os mais repugnantes – do assunto têm circulado, com uma abrangência e uma aceitação popular sem precedentes; o que, segundo creio, contribui para o estabelecimento de um proveitoso tópico de comentários e discussões.
Posso discorrer sobre a Escravidão apenas até o ponto em que tive oportunidade de observá-la; até o ponto em que a conheci e experimentei-a pessoalmente. Meu objetivo é fornecer um testemunho sincero e verdadeiro sobre os fatos: recontar a história de minha vida, sem exageros, deixando aos outros a tarefa de decidir se mesmo páginas de ficção contenham descrições mais equivocadas ou rigorosas de como foi a Escravidão.”

Cá estamos, então. Há, como seria de se esperar, pequenas diferenças que se referem não à tradução, mas à edição. A mais estranha para mim é a adoção daquela maiúscula na palavra Escravidão. Quando se usa uma letra maiúscula em uma palavra como essa, está-se falando do período histórico a que ela alude, e não à indústria infamante da escravidão de um modo mais genérico. Mas aí algo não encaixa, para mim, por dois motivos: 1) o Brasil teve seu próprio período histórico de Escravidão, que não coincide com o retratado no livro, e 2) o livro fala da escravidão tanto no sentido histórico quanto no sentido geral, embora Northup ressalte que está dando um testemunho pessoal. Também é digna de menção outra alteração gráfica, esta promovida pela Companhia: a transformação dos três parágrafos desse trecho em dois, algo cujo motivo não entendi muito bem. Mas claro que isso não tem a ver com o tradutor, então vamos adiante.

Drago lança mão do recurso de delimitar uma das frases da longa sentença inicial entre travessões para torná-la mais clara e inteligível. É um recurso que, ao menos na edição que eu encontrei de 12 Years a Slave, o original também usa, embora aplicado em uma frase diferente daquela que o tradutor resolveu apartar do restante. Nesse sentido, acho que a tradução de Caroline Chang para a Companhia é mais eficiente em conseguir preservar o ritmo da longa frase original sem precisar de parênteses ou travessões. É interessante notar que ao longo do trecho todo Drago parece optar por um andamento mais entrecortado por pronomes e conetivos.

O fim da primeira frase na edição da Seoman também me parece alterar sutilmente o original. Fiel ao tempo em que foi escrita, a prosa de Northup é mais cheia de circunlóquios, menos afirmativa, mais cheia de ressalvas, o que se percebe na forma indireta como ele afirma que o motivo da escrita do livro é o interesse público. No original ele escreve que seu relato ” would not be uninteresting to the public“. “Não seria desinteressante para o público”, literalmente, e nesse sentido o “não seria desprovido de interesse” da tradução de Caroline Chang parece mais preciso do que o “não poderia deixar de atrair o público”. Não ser desprovido de interesse e não poder deixar de atrair são duas coisas diferentes. Algo pode não ser desinteressante e ainda assim não atrair interesse algum, se é que me entendem.

Em outro ponto, Northup se refere ao quadro da escravidão montado pelas obras de ficção que se dedicaram ao tema. E aí admito que a opção de Drago por traduzir “their more pleasing as well as more repugnant aspects” por “os aspectos mais agradáveis – tanto quanto os mais repugnantes – do assunto” me provoca certa estranheza desconfortável, porque parece apelar a um sentido inadequado do “pleasing” original. Ao menos em português, a ideia de que a escravidão tenha um aspecto “agradável”, que “agrada”, parece fora do lugar.

São aspectos extremamente subjetivos, claro, mas confesso minha predileção pela tradução de Caroline Chang. A caixa de comentários fica, portanto, aberta a novas contribuições e à discordância – fundamentada, claro. Para encerrar, vamos ao trecho original, em inglês, para que vocês mesmos aí possam fazer sua própria análise:

“Having been born a freeman, and for more than thirty years enjoyed the blessings of liberty in a free State – and having at the end of that time been kidnapped and sold into Slavery, where I remained, until happily rescued in the month of January, 1853, after a bondage of twelve years — it has been suggested that an account of my life and fortunes would not be uninteresting to the public.
Since my return to liberty, I have not failed to perceive the increasing interest throughout the Northern States, in regard to the subject of Slavery. Works of fiction, professing to portray its features in their more pleasing as well as more repugnant aspects, have been circulated to an extent unprecedented, and, as I understand, have created a fruitful topic of comment and discussion.
I can speak of Slavery only so far as it came under my own observation—only so far as I have known and experienced it in my own person. My object is, to give a candid and truthful statement of facts: to repeat the story of my life, without exaggeration, leaving it for others to determine, whether even the pages of fiction present a picture of more cruel wrong or a severer bondage.”

Pelos caminhos do Quixote

24 de dezembro de 2012 0

O gaúcho Ernani Ssó é o escritor de uma pérola do humor produzida no Estado, o curto romance (alguns chamariam de novela) O Sempre Lembrado, de 1989. Não deixa de ser uma boa credencial para alguém que envereda pela tradução de um dos clássicos literários mais engraçados de todos os tempos. Ssó é o autor da nova versão do Dom Quixote em português, que está chegando agora às livrarias pela Companhia das Letras, em uma caixa reunindo os dois volumes, uma cada para parte do Quixote, a original e mais antiga, datada de 1605, e a segunda parte, de modo geral menos conhecida de quem só sabe o enredo da obra, publicada em 1615 – entre outros motivos, porque o Quixote se tornara tão popular que outros escritores já estavam dando continuidade às suas aventuras à revelia de seu criador. Nesta entrevista, publicada editada no Segundo Caderno desta segunda-feira e aqui reproduzida na íntegra, ele fala sobre os desafios de traduzir a obra de Miguel de Cervantes, considerada fundadora do romance moderno e ainda capaz de encantar leitores mundo afora mesmo 400 anos após sua publicação:

Zero Hora – Como o senhor embarcou na empreitada de traduzir o Dom Quixote?
Ernani Ssó
– É uma história antiga. Aos dezessete anos, depois de uma semana folheando um manual de espanhol, tentei ler o Quixote no original. Me desiludi no primeiro parágrafo. Então fui estudar e ler autores contemporâneos, como Borges e Cortázar. Anos depois, quando a editora Civilização Brasileira publicou a tradução portuguesa dos viscondes de Castilho e Azevedo, que é do século 19, tentei de novo ler o Quixote. Achei tudo muito chato, com toda razão, por sinal, porque aquilo não é Cervantes. Além de muitos erros, como expressões idiomáticas traduzidas literalmente, muitas vezes é num português mais arcaico que o espanhol do Cervantes, com frases espichadas e uma pontuação burocrática que acaba com o ritmo do texto. O humor se perdeu inteiramente. Aí começou minha birra, ver o Quixote num português ágil e legível. Nos anos 90, quer dizer, uns trinta anos depois da minha primeira tentativa, comecei a traduzir Cervantes meio na brincadeira, pra experimentar. Fiz umas duzentas páginas e comecei a oferecer pra editoras. Quem tinha interesse, não tinha dinheiro. Quem tinha dinheiro, não tinha interesse. Até que uns treze anos mais tarde ofereci pra Penguin-Companhia, que topou na hora.

ZH – O senhor conhece as quatro traduções brasileiras do Quixote?
Ernani Ssó -
Sim, pelo direito e pelo avesso. Seria muita arrogância de minha parte ignorar as traduções anteriores, ainda mais de um livro importante e difícil assim. A primeira, de Almir de Andrade e Milton Amado, me desagrada, porque copidesca ou é literal, sem nunca se decidir. Acho interessante o que Sérgio Molina e Carlos Nougué fizeram, um tremendo jogo com a linguagem antiga, mas me sinto mais próximo da proposta de Eugênio Amado, que tentou aproximar o Quixote do leitor moderno. O engraçado é que tantas traduções de um mesmo livro, de uma língua muito semelhante ao português, tenham mais diferenças que coincidências. E, note-se, grandes diferenças às vezes.

ZH – O escritor americano Paul Auster já escreveu que a permanência do Quixote, para além de qualquer consideração mais técnica, pode ser tributada à graça e ao prazer que sua leitura proporciona. Quais suas lembranças mais marcantes de leitor do Quixote?
Ssó –
Certamente esse prazer de que fala Auster é importante. Se um livro é muito chato, mesmo que seja uma maravilha tecnicamente, terá poucos leitores, não? Mas me parece que o buraco é mais embaixo. O Quixote continua com boa saúde hoje porque lida com um dos grandes tormentos humanos, o descompasso entre nossos desejos, nosso idealismo e a realidade quase sempre brutal ou prosaica. Todos fomos dom Quixote uma hora ou outra, ou temos saudade do dom Quixote que fomos na infância e adolescência, ou ainda somos em momentos de fantasia. O toque de gênio, em minha opinião, é que Cervantes conseguiu uma ambiguidade alucinante: nossa razão sabe por que o cavaleiro está sendo espancado, mas no fundo, bem no fundo, torcemos por ele. Daí que nosso riso tem um sabor salgado. O próprio Cervantes, lá pelo fim do livro, acaba identificado com seu personagem. Esses dois livros têm tantos momentos marcantes que nem sei por onde começar.

ZH – É mais difícil transpor o ritmo e o tom em uma tradução de uma obra com tanto humor? Uma tragédia talvez oferecesse uma qualidade diversa de desafios.
SSó -
O humor é um negócio muito, muito complicado. O humor depende de síntese e agilidade, mas, antes de mais nada, de um modo específico de dizer as coisas. Veja uma frase do Nelson Rodrigues: “Nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais“. Não interessa que esteja dizendo uma idiotice. Tecnicamente é perfeita. Não seria eficaz de forma direta: “Só as mulheres normais gostam de apanhar“. Pra complicar mais a coisa, Cervantes tem jogos de palavras e piadas que dependem do contexto cultural da época. Então, se o tradutor não tiver muita paciência pra buscar a forma certa, se não tiver astúcia suficiente pra recriar certas tiradas (e recriar na mesma atmosfera do original, senão o leitor vai perceber aquilo como interferência), vai acabar tendo de explicar piada em nota de rodapé, o que, cá pra nós, é o fim da picada. Enfim, não acho que o tradutor tenha de ser um humorista pra traduzir humor, mas é bom que tenha intimidade com o gênero. Uma tragédia, se o texto não tiver muitas firulas de linguagem, vai oferecer a dificuldade de qualquer tradução. O único perigo é que termos solenes ou neutros no original soem ridículos na língua da tradução. Os trechos dramáticos do Quixote foram bem mais fáceis do que os cômicos.

ZH – O senhor comenta em seu ensaio sobre a tradução que o tempo, no caso do Quixote, talvez seja o fator mais hostil ao trabalho do tradutor. Foi difícil encontrar um léxico que preservasse a fluência e não modernizasse muito o original?
SSó
_ Nesses quatrocentos anos, o espanhol e o português se modificaram muito. Mais: se distanciaram muito um do outro. O português do Brasil inclusive se distanciou do português de Portugal. Então, se eu traduzisse Cervantes para um português arcaico, apenas os especialistas poderiam curtir o texto como realmente se deve. Mas os especialistas não precisam de tradução pra ler Cervantes. Aí começou minha sinuca: como manter o ar antigo do Quixote sem que ele ficasse ilegível para o leitor mais comum, digamos. Como atualizar a linguagem sem soar moderninho? Optei por usar apenas palavras que tivessem entrado no português escrito antes de 1900. Mas nem todas, porque algumas, como “esperto“, uma palavra do século 13, tem um peso hoje que a torna atual demais aqui no Brasil. Exemplos de atualização: Cervantes usa “requebro” no sentido de fazer galanteios, ou “discreto” no sentido de sagaz. Eu uso galanteio, eu uso sagaz. Ele usa “acaçapar“, eu uso esconder, palavra tão antiga quanto, mas mais em forma, não? Não vou dizer que isso não deu trabalho, mas deu muito menos que o humor ou a simples fluência do texto.

ZH – Ainda sobre o fator tempo: o senhor topou com muitos elementos que, passados 400 anos da publicação, hoje parecem incompreensíveis ao leitor moderno? Como os resolveu?
SSó -
Um exemplo bem simples é “Quixote se armou“. Sem consultar o dicionário, a maioria de nós pensa que dom Quixote pegou a espada e a lança. Mas não. Ele vestiu a armadura. Esse caso foi fácil de resolver, mas houve situações cabeludas, como se diz. “Echar una tela”, por exemplo. É uma expressão que quer dizer, literalmente, tecer um pano. Só que significa também fazer amor. Depois de quebrar a cabeça por meses, descobri que temos uma expressão semelhante: pintar a manta. No tempo do meu avô qualquer pessoa sabia o que isso significava. Hoje, a maior parte dos leitores teria de consultar o dicionário. Daí eu preferi usar uma expressão corrente: pintar e bordar. Eu poderia dar dezenas de exemplos como este. O que interessa dizer é que se no original havia uma expressão, eu tratei de encontrar uma correspondente, em vez de traduzir apenas o sentido ou explicar em nota de rodapé.

ZH – É mais tranquilizador ou intimidador trabalhar com um texto sobre o que tanto já se escreveu?
Ssó -
Acho que a resposta certa é intimidador. Mas a verdade é que não me senti intimidado em momento algum. Me senti desafiado, isso sim. Traduzir, como escrever, é um jogo, um grande jogo, um jogo muito divertido. Quanto mais complicado, mais divertido, me entende? Outra coisa é que Cervantes não é nada solene. Na verdade é um tremendo gozador. Daí que me senti muito à vontade. Sabe como é, eu poderia ter tomado uns tragos com ele numa taberna e falado mal do Lope de Vega. Quando terminei, estava um bagaço. Pensei que se tivesse de começar tudo de novo, não teria coragem. Mas duas semanas depois me sentia prontinho pra outra.


Falsos cognatos culturais

15 de novembro de 2012 0

Já li, em diversas formas e versões, a defesa da tese, consenso entre profissionais da tradução, de que a transposição de uma obra de um idioma para o outro envolve não apenas questões linguísticas, mas culturais: não basta encontrar um equivalente semântico no idioma de chegada se não houver uma identidade cultural entre o leitor do original e o da versão traduzida, sob pena de se produzir um ruído, uma estranheza capaz de fazer o leitor ser expelido, ainda que por instantes, do universo autônomo criado pelo autor do livro. Não se trata aqui dos romances autorreferenciais cuja estética se constrói sobre a discussão constante do estatuto ficcional da obra ou sobre a reiteração contínua do caráter literário e não “real” daquele universo engendrado pela prosa. Trata-se sim, de pequenos acidentes abruptos na estrada da leitura, que fazem o leitor se dar conta de que está viajando em uma ficção – e em último caso podem até levar ao mesmo questionamento do estatuto da obra, mas desta vez involuntariamente.

Esses pensamentos algo vadios me ocorreram durante duas recentes experiências de leitura que me mostraram o quanto a construção de uma cena literária, por ser realizada por um autor mergulhado em uma determinada realidade e cultura, pode chegar ela toda como um ruído de tradução quando transposta para um leitor distante – e nesse caso sem que haja qualquer problema na tradução propriamente dita ou nos esforços realizados pelo tradutor para verter o original.

No primeiro caso, durante um breve intervalo ali uma semana antes da Feira do Livro, decidi ler O Guerreiro Solitário, romance policial do sueco Henning Mankell que aguardava sua vez na minha estante há pelos menos uns dois anos. É uma nova aventura do policial recorrente do autor, o policial de meia idade Kurt Wallander, talentoso porém desencantado investigador lotado na delegacia de Yistad. Muito antes da onda deflagrada por Stieg Larsson e sua trilogia Millennium, Mankell já era a prova de rica tradição do romance de crime escandinavo, criando narrativas desconcertantes pela habilidade com que o autor amplia o foco de uma investigação até o limite necessário para que o leitor não se perca, mas dotando-a de uma complexidade que valoriza o esforço dos policiais para desvendá-la. Um pouco como se pode ver também nos livros de Michael Connelly protagonizados pelo veterano do Vietnã residente em Los Angeles Harry Bosch; ou no distrito policial de Edimburgo em que o detetive punk John Rebus é o centro das atenções, na obra de Ian Rankin.

Pois bem, voltando a Wallander (que virou uma elogiada série de TV protagonizada por Kenneth Brannagh, que estou curioso para ver mas ainda não tive tempo nem oportunidade): O Guerreiro Solitário mostra o policial à caça do que pode ser o primeiro “serial killer” sueco: um furioso matador que arranca escalpos das suas vítimas. No princípio Wallander não sabe, mas o leitor sim, que o matador se considera inspirado pelo espírito dos índios norte-americanos, pinta o rosto com tintura de guerra e sempre mata seus alvos com lâminas afiadas, para depois enterrar seus escalpos em  uma oferenda ritual que só faz sentido para ele e sobre a qual não vou falar mais para não entregar o mistério para ninguém.

Pois bem, a determinada altura, Kurt Wallander perde a chave de casa. Fica bastante fácil para o leitor atento perceber em que momento aquilo aconteceu – e, também, quem é o assassino, uma descoberta que a polícia só vai fazer nas últimas páginas, tornando a aparência de suspense da parte da narrativa focada no criminoso algo exasperante. Mas como eu disse: Wallander perdeu sua chave, só se dá conta no meio de um dia atribulado, liga de novo para os locais em que esteve, deixa recados, pede que alguém que achou a guarde, etc… E o leitor sabe que isso será potencialmente perigoso para Wallander, uma vez que ele não perdeu a chave, ela foi subtraída em uma determinada circunstância pelo assassino, meticuloso planejador de seus ataques, que pretende usá-la para inspecionar o apartamento do detetive.

Parte do que a série de aventuras escritas por Mankell faz de melhor é escavar os aspectos em que a aparentemente utópica sociedade sueca desmorona aos poucos. Os crimes investigados pelo detetive são sempre pontas para a discussão de problemas como o aumento da violência contra mulheres e imigrantes, a diversificação da crueldade dos criminosos, a inserção da Suécia no mercado globalizado do crime internacional. É uma sociedade quase sem crimes descobrindo-se aos poucos desagregada. Pois bem, por mais que essa seja a intenção da história, parece simplesmente absurdo para um leitor como eu, morador de uma Capital em um país sul-americano que ostenta um dos quatro maiores índices de homicídio no mundo, que Wallander não encontre a chave e simplesmente deixe isso pra lá. Em Porto Alegre, em São Paulo, no Rio, em Manaus, em praticamente qualquer cidade grande do Brasil, alguém que perdesse a chave sem saber onde provavelmente trocaria a fechadura no máximo dois dias depois, e passa-se uma semana sem que Wallander faça outra coisa que não procurar a tal chave e resignar-se com sua perda. Esse “ruído cultural” talvez tenha outra origem: a colega Bruna Amaral, do blog Intercambiando, com “sete intercâmbios na bagagem”, como diz a apresentação da página, ao me ouvir comentar a estranheza dessa passagem, me alertou para o fato de que na Europa é muito comum que apenas o proprietário de um apartamento possa fazer uma cópia da chave. E que, dependendo do país, isso pode envolver uma senhora burocracia. Não sei se é o caso específico da Suécia, mas se for, de qualquer modo ajusta-se ainda ao meu argumento de base: determinadas circunstâncias culturais podem provocar “ruído de leitura” pela discrepância entre a realidade do autor e o ambiente em que vive o leitor quando a obra é traduzida. Mankell não precisa explicar que tirar uma cópia de chave é difícil um perrengue ou achar estranho que sequer passe pela cabeça de um sueco trocar a fechadura por segurança após perder uma chave, mas quem vive em um país com a violência do Brasil acha tudo isso muito exótico.

O segundo episódio foi mais cômico do que propriamente estranho. Já na primeira cena de 1Q84, o best-seller mais recente do japonês Haruki Murakami, que está sendo lançado aqui no Brasil este mês pela Alfaguara, a personagem Aomame está em um táxi sobre uma via expressa elevada, dirigindo-se a um compromisso importante (Aomame é personal trainer e assassina profissional. O compromisso, o leitor saberá páginas adiante, é a eliminação de um alvo). Tem, então, sua atenção despertada por uma música que vem do som de altíssima qualidade instalado no veículo pelo taxista: a composição Sinfonietta, do tcheco Leos Janácek, escrita em 1926 (esta que vocês podem ouvir na janela de Youtube aí embaixo – o texto continua abaixo dela).

Pois bem. Na noite imediatamente anterior ao dia em que li esse trecho em particular, eu havia pegado um táxi e, do som do carro, o que ouvi foi uma versão horrenda em ritmo de pagode de Sunday Bloody Sunday do U2, tocando na Rádio Eldorado – descobri depois, comentando minha profunda perplexidade com colegas de redação, que o crime foi perpetrado por um grupo chamado Sambô, especialista em fazer pagodaços de clássicos do rock – e que, aparentemente, só eu não conhecia.

A determinado momento da narrativa, Aomame desce do táxi em um recuo de manutenção da para escapar do engarrafamento na via expressa e conseguir chegar a tempo de seu “compromisso”. Ao fazer isso, o inesperado do gesto parece criar uma espécie de realidade paralela, em que eventos que ela desconhece aconteceram, os uniformes dos policiais mudaram sem que ela se lembre quando e… duas luas podem ser vistas no céu.

Com tudo isso, o mais fantástico dessa realidade paralela parece mesmo um táxi em que o rádio toca música clássica.


Os Ulisses de Joyce - Tradução e Reação

12 de junho de 2012 14

Como todo mundo a esta altura já sabe, Ulisses, a obra-prima do irlandês James Joyce, ganhou uma terceira tradução que, para mim muito surpreendentemente, está nas listas nacionais de mais vendidos – embora o Brasil seja campeão em tornar algumas coisas hype com um certo atraso. Como temos três traduções ainda em circulação de uma obra considerada para muitos ilegível (mais pro fim da semana farei um post desmistificando essa declaração, a propósito), achei que seria interessante comparar os inícios das três narrativas. A cena que Joyce descreve nesses primeiros parágrafos tornou-se uma das mais famosas da literatura e já estabelece desde o início um tom que percorrerá a obra como um refrão: humor, sátira, a junção do elevado e do profano. Malachi “Buck” Mulligan, beberrão folgado, sobe ao topo da Torre Martello, onde mora com Stephen Dedalus, e, usando a vasilha em que havia preparado sua espuma de barba faz uma imitação debochada da liturgia da missa católica ao entoar solene “Introibo ad Altare Dei” – que significa “Eu me aproximarei do altar de Deus”. Está aí a grande apresentação de Joyce para seu propósito ao longo do livro: pintar os elementos ligados à identidade da Irlanda (como o mar, a terra e o catolicismo) com um tom entre o galhofeiro, representado por Mulligan, e o solene, como o representado pelo depressivo e torturado Dedalus.

Vamos dar uma olhada primeiro na versão mais antiga à disposição, a do filólogo Antônio Houaiss, de 1966, tida como a mais rebuscada das três, pela riqueza vernacular de que o dicionarista Houaiss lança mão ao verter para o português as ousadias linguísticas do genial irlandês. A edição é da Civilização Brasileira – mas o meu exemplar, ao menos, é daqueles de capa azul baratinhos que resultaram de uma colaboração entre a Record e a Altaya nos anos 1990 para produzir uns livros clássicos com capa dura e papel bem leve e que eram inacreditavelmente baratos.

Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan vinha do alto da escada, com um vaso de barbear, sobre o qual se cruzavam um espelho e uma navalha. Seu roupão amarelo, desatado, se enfunava por trás à doce brisa da manhã. Elevou o vaso e entoou:
— Introibo ad altare Dei.
Parando, perscrutou a escura escada espiral e chamou asperamente:
— Suba Kinch. Suba, jesuíta execrável.
Prosseguiu solenemente e galgou a plataforma de tiro.
Encarando-os, abençoou, grave, três vezes a torre, o campo circunjacente e as montanhas no despertar. Então, percebendo Stephen Dedalus, inclinou-se para ele, traçando no ar rápidas cruzes, com grugulhos guturais e meneios de cabeça. Stephen Dedalus, enfarado e sonolento, apoiava os braços sobre o topo do corrimão e olhava friamente a meneante cara grugulhante que o bendizia, equina de comprimento, e a cabeleira clara não tosada, estriada e matizada como carvalho pálido.
Buck Mulligan mirou-se um instante sob o espelho e em seguida recobriu o vaso com vivacidade.
— Ao quartel! – disse peremptório.
Acrescentou, em tom predicante:
– Porque isto, ó bem-amados, é a autêntica Christina: corpo e alma, e sangue e chagas. Música lenta, por favor. Fechar os olhos, cavalheiros. Um instante. Uma pequena complicação com estes corpúsculos brancos. Silêncio, minha gente!
Escrutando de esguelha as alturas, emitiu um longo assobio grave de chamamento, deteve-se depois por instantes numa atenção extãtica, os brancos dentes iguais brilhando aqui e ali em pontos de ouro. Chrysostomos. Dois fortes silvos estrídulos responderam através da calma.
— Obrigado, meu velho — gritou animoso. — A coisa vai. Corte a corrente, sim?
Pulou da plataforma de tiro e olhou sério para o seu observador, arrepanhando pelas pernas as bandas soltas do roupão. A fornida cara sombreada e a soturna queixada oval lembravam um prelado, protector das artes, da Idade Média. Um sorriso divertido abrochou-lhe, calmo, aos lábios.
— A pilhéria que há nisso – disse jovial. – Esse seu nome absurdo, em grego antigo.

É uma versão na qual se nota uma unidade de tom entre as falas de Mulligan e a voz hierática do narrador muitos críticos naquela época e hoje apontam, inclusive, este como um dos equívocos que o pioneiro e desbravador Houaiss cometeu ao traduzir o texto: ignorar a diferença de tons e registros com que Joyce estruturou sua obra, não apenas formalmente como na própria sintaxe. Foi essa uma das coisas que a professora e tradutora Bernardina da Silveira Pinheiro pretendeu resgatar com sua tradução lançada em 2005, pela Objetiva. Ela mesma declarou que muito da prosa de Joyce preservava uma certa coloquialidade (principalmente nos diálogos e nos monólogos interiores dos personagens que deveria ser resgatada) que ela achava que deveria ficar clara na leitura. Até pela diferença com a de Houaiss, era uma versão bastante legível e menos exigente (ainda que Ulisses nunca vá deixar de ser exigente):

Majestoso, o gorducho Buck Muligan apareceu no topo da escada, trazendo na mão uma tigela com espuma sobre a qual repousavam, cruzados, um espelho e uma navalha de barba. Um penhoar amarelo, desamarrado, flutuando suavemente atrás dele no ar fresco da manhã. Ele ergueu a tigela e entoou:
— Introibo ad altare Dei
Parado, ele perscrutou a escada sombria de caracol e gritou asperamente:
— Suba, Kinch! Suba, seu temível jesuíta!
Solenemente, ele avançou para a plataforma de tiro. Olhou à volta e seriamente abençoou três vezes a torre, o terreno à volta e as montanhas que despertavam. Em seguida, avistando Stephen Dedalus, ele se inclinou em direção a ele e fez cruzes rápidas no ar, gorgolejando na garganta e sacudindo a cabeça.  Contrariado e sonolento, Stephen Dedalus apoiou os braços no último degrau da escada e olhou friamente para o rosto sacolejante e gorgolejante que o abençoava, para a cabeça eqüina e os cabelos claros sem tonsura, tingidos e matizados como carvalho descorado.
Buck Mulligan espreitou por um instante por baixo do espelho e depois cobriu o vaso rapidamente.
— De volta pro quartel! – disse implacavelmente.
E acrescentou, em tom sacerdotal:
— Pois isto, meus bem-amados, é a verdadeira cristina: corpo e alma e sangue e feridas. Música lenta, por favor. Fechem os olhos, senhores. Um momento. Um pequeno problema com esses corpúsculos brancos. Silêncio, todos!
Ele olhou de soslaio para cima e soltou um longo e lento assobio de chamada, depois fez por um momento uma pausa em atenção enlevada, com seus dentes iguais e brancos brilhando aqui e ali pontilhados de ouro. Chrisóstomo. Dois fortes assobios estridentes responderam através da calma.
— Obrigado, meu velho – gritou vivamente. — Isto é o bastante. Desligue a corrente, está bem?
Saltou fora da plataforma de tiro e olhou seriamente para o seu observador, juntando em volta das pernas as dobras soltas de seu penhoar. A cara rechonchuda e sombria e a queixada oval e taciturna lembravam um prelado, patrono das artes na idade média. Um sorriso agradável desabrochou em seus lábios.
– A ironia das coisas! – disse ele alegremente. – Seu nome absurdo, um grego antigo!

Pôr essas duas versões lado a lado é elucidativo de como duas traduções às vezes podem variar completamente os detalhes de uma cena ao ponto de duas versões de um gesto descrito no original não parecerem a mesma ação. No fragmento da tradução de Houaiss, Dedalus sobe ao topo da torre seguindo o espalhafatoso Mulligan, sonolento e de saco cheio do colega de moradia inconveniente (estamos apenas começando a descobrir o quanto, nesta cena). Ele apoia os braços “no topo do corrimão”. Já na versão de Bernardina, ele apoia os mesmos braços “no último degrau da escada” – ambas as ações são possíveis, mas não são a mesma coisa. Como a Torre Martello de Sandycove, em Dublin, onde a cena se passa, foi construída para ser um forte defensivo circular, não creio que as escadas por lá tenham corrimão, embora eu nunca tenha ido à tal da torre (que ainda existe e hoje é um museu) e só tenha encontrado fotos externas numa rápida pesquisa no Google. O original menciona que os braços de Stephen estão “on the top of staircase”, o que não ajuda muito, portanto, se algum dos gestis leitores que já esteve na torre em questão quiser dar uma esclarecida, agradeço.

Outro gesto que se torna diferente de acordo com a tradução é a olhada que Mulligan dá depois de sua encenação de bênção logo após Stephen surgir na escadaria. Em Houaiss ele “mira-se um instante sob o espelho” – o que para mim é segurar o espelho de mão em uma posição alçada e olhar-se. Já em Bernardina, ele espreita por baixo do espelho antes de cobrir o vaso de barbear – o que me parece mais condizente com o resto da cena. O espelho está sobre a vasilha e ele o ergue para espreitar por baixo, antes de cobrir a vasilha como se precisasse prender seja lá o que estivesse lá dentro. Outra encenação de brincadeira perfeitamente adequada ao temperamento bufão de Mulligan. Note também a sutil modificação da última frase do trecho. Mulligan mofa de Stephen por seu sobrenome, Dedalus. Houaiss traduz por “em grego antigo” — o que está correto, mas dista do original, no qual Joyce diz textualmente “an ancient Greek”. Dedalus não é apenas um nome “em grego antigo”, mas o DE um grego antigo, Dédalo, o pai de Ícaro, construtor mítico do labirinto (vai aqui mais uma piscadela de Joyce ao leitor, não apenas pelo mito de Odisseu ser grego como pelo fato de que o motivo da cidade como labirinto vai percorrer todo o livro).

Vamos olhar então a terceira versão, a de Caetano Galindo, que está saindo agora, 2012, pela Companhia das Letras:

Solene, o roliço Buck Muligan surgiu no alto da escada, portando uma vasilha de espuma em que cruzados repousavam espelho e navalha. Um roupão amarelo, com cíngulo solto, era delicadamente sustentado atrás dele pelo doce ar da manhã. Elevou a vasilha e entoou:
— Introibo ad altare Dei.
Detido, examinou o escuro recurvo da escada e invocou ríspido:
— Sobe, Kinch. Sobe, seu jesuíta medonho.
Altivo ele se adiantou e subiu na plataforma de tiro redonda. Olhou à volta e abençoou sério por três vezes a torre, o campo em torno e as montanhas que acordavam. Então, percebendo Stephen Dedalus, ele se inclinou em sua direção e fez cruzes rápidas no ar, arrulhando sua garganta e sacudindo a cabeça.  Stephen Dedalus, contrafeito e sonolento, apoiava os braços no alto da escadaria e olhava frio o arrulhante rosto balouçante que o abençoava, equino por seu comprimento, e o cabelo claro intonso, com matiz e textura de pálido carvalho.
Buck Mulligan espiou um instante sob o espelho e então cobriu rápido a vasilha.
— De volta à caserna, disse peremptoriamente.
Acrescentou, em tom sacerdotal:
— Pois isto, ó mui estimados, é a genuína Christina: corpo chagado, alma e sangue. Música lenta, por favor. Fechem os olhos, cavalheiros. Um momento. Probleminha aqui com esses corpúsculos brancos. Silêncio, todo mundo.
Ele olhou de canto ao alto e soltou um longo assobio baixo, um chamado, então suspendeu-se um instante em enlevada atenção, regulares dentes brancos brilhando cá e lá em pontos dourados. Chrysostomos. Dois assovios fortes e estridentes cruzaram a calmaria.
— Obrigado, meu camarada, ele gritou bruscamente. Está mais do que bom. Corte a corrente, por favor.
Saltou da plataforma e olhou sério seu vigia, recolhendo pelas pernas as pregas frouxas do roupão. O rosto roliço na sombra e a mandíbula oval melancólica evocavam um prelado, patrono das artes na Idade Média. Um sorriso agradável rompeu calado seus lábios.
– Brincadeira, ele disse, alegre. Esse teu nome absurdo, um grego antigo!

Galindo parece entender os gestos que havíamos mencionado na comparação entre as duas outras versões da maneira como Bernardina as compreendeu. Ele prefere o topo da escadaria, uma tradução literal, mas Mulligan espia por baixo do espelho. O nome também é o de “um grego antigo”. Galindo também elabora uma versão mais atenta a ressonâncias poéticas no texto. A primeira frase de sua tradução é mais curta em comparação com a Bernardina, tentando talvez emular a brevidade da sentença original de Joyce, e tem apenas duas vírgulas, ao contrário das quatro que truncavam a versão de Houaiss. Em vários momentos ele ordena as palavras de modo a conseguir repetições de sons, aliterações, rimas internas. Se ele não tem como preservar “mild morning air”, tasca um “cíngulo solto”. Sem o “long low whistle” do original, ele vai de “regulares dentes brancos brilhando”. Parece também uma versão que busca uma síntese entre as duas, não hesitando em usar alguns vocábulos raros (como o cíngulo em questão) ou em limar os travessões que separam as falas das indicações narrativas (algo que o original de fato não tem). Mas também consegue ser mais plástico e musical em uma descrição passível de entendimento com atenção.

Para termos de comparação, o original de Joyce:

Stately, plump Buck Mulligan came from the stairhead, bearing a bowl of lather on which a mirror and a razor lay crossed. A yellow dressing gown, ungirdled, was sustained gently-behind him by the mild morning air. He held the bowl aloft and intoned:
— Introibo ad altare Dei.
Halted, he peered down the dark winding stairs and called up coarsely:
— Come up, Kinch. Come up, you fearful jesuit.
Solemnly he came forward and mounted the round gunrest.
He faced about and blessed gravely thrice the tower, the surrounding country and the awaking mountains. Then, catching sight of Stephen Dedalus, he bent towards him and made rapid crosses in the air, gurgling in his throat and shaking his head. Stephen Dedalus, displeased and sleepy, leaned his arms on the top of the staircase and looked coldly at the shaking gurgling face that blessed him, equine in its length, and at the light untonsured hair, grained and hued like pale oak.
Buck Mulligan peeped an instant under the mirror and then covered the bowl smartly.
— Back to barracks, he said sternly.
He added in a preacher’s tone:
— For this, O dearly beloved, is the genuine Christine: body and soul and blood and ouns. Slow music, please. Shut your eyes, gents. One moment. A little trouble about those white corpuscles. Silence, all.
He peered sideways up and gave a long low whistle of call, then paused awhile in rapt attention, his even white teeth glistening here and there with gold points. Chrysostomos. Two strong shrill whistles answered through the calm.
— Thanks, old chap, he cried briskly. That will do nicely. Switch off the current, will you?
He skipped off the gunrest and looked gravely at his watcher, gathering about his legs the loose folds of his gown. The plump shadowed face and sullen oval jowl recalled a prelate, patron of arts in the middle ages. A pleasant smile broke quietly over his lips.
— The mockery of it, he said gaily. Your absurd name, an ancient Greek.

E dá-lhe Fierro...

23 de fevereiro de 2012 0

Uma das obras mais importantes da literatura latino-americana, O Gaúcho Martín Fierro, ganhou uma nova edição no Brasil (bilíngue, em português e espanhol). Quem assina a tradução em português é o escritor nascido em Livramento Paulo Bentancur, responsável também por uma introdução crítica da obra e pela biografia comentada de seu autor, o poeta, jornalista e político argentino José Hernández (1834 – 1886). A reedição, a cargo da Sfera Editora de Artes, é uma iniciativa do Ministério da Cultura (MinC) e se destina à distribuição gratuita para escolas, bibliotecas públicas e CTGs.

Lançado em 1872, Martín Fierro, como ficou conhecido, é tratado por muitos especialistas como o livro nacional dos argentinos e patrimônio cultural daquele país, por retratar um personagem heroico, independente e apaixonado por sua terra e seu povo. Trata-se de um longo poema que narra em 13 capítulos a vida de um gaucho da região do pampa que cumpre uma jornada épica marcada por indignação, sofrimento, redenção e esperança. O protagonista é um homem convocado à força para servir ao exército. Revoltado contra as arbitrariedades e injustiças de seus superiores, ele se torna um desertor. Ao voltar para casa, descobre que sua família desapareceu. Na jornada para reencontrar os familiares, em meio à perseguição que sofre do exército, o herói se torna um fora da lei.

Martín Fierro tem sua estrutura articulada na figura do payador que narra sua própria história, e faz uso do idioma espanhol que reproduz foneticamente o linguajar do homem do campo. Em um contexto histórico, Martín Fierro representa a vertente literária argentina que deu voz àqueles que resistiam, em nome da preservação da identidade nacional, ao processo de “europeização” do país imposto pelo governo central de Bueno Aires em uma era (meados do século 19) de grande desenvolvimento econômico do país. Processo esse que tinha como mentor o presidente argentino Domingo Faustino Sarmiento, inimigo político de Hernández e autor de Facundo, outra obra clássica da literatura argentina, para quem o gaúcho do pampa era um “selvagem” que atravancava a processo de “civilização” da nação.

O Martin Fierro era objeto de paixão de um dos principais escritores do Século 20: Jorge Luís Borges, que escreveu sobre ele um ensaio considerado fundamental. O Martín Fierro. A circunstância desse lançamento específico é um bom pretexto para desenterrar dos arquivos do jornal uma entrevista feita em julho de 2006 por Carlos André Moreira e pelo professor Luís Augusto Fischer com o escritor e professor argentino Martín Kohan, que estava em Porto Alegre naquela semana específica para dar um curso sobre a obra de Borges e sua relação com a literatura gauchesca. Como não poderia deixar de ser, durante a conversa, muito se falou do Martín Fierro, como se pode ler nos trechos abaixo:

Zero Hora – Borges argumenta que para existir a literatura gauchesca foi necessário o desenvolvimento urbano em Montevidéu e Buenos Aires. Como aparece isso para ele, que era um tipo urbaníssimo, europeu, mas parecia ter um fascínio pela energia primitiva do pampa?
Martín Kohan –
É complicado este processo, porque a literatura gauchesca variou no século 19. Nem todos os textos são iguais. E há os autores que lançam um olhar culto, apartado do mundo popular e outros que se aproximam mais. Inclusive nas duas partes do poema gauchesco argentino por excelência, o Martín Fierro. A primeira, de 1872, é bem distinta da segunda. Ou seja, nem sequer esse livro, pode ser definido de uma única maneira.

Zero Hora – O senhor definiria a primeira parte como mais pura?
Kohan —
A crítica literária viu na primeira parte a dimensão de um protesto social pela condição do gaúcho como vítima da exploração dos donos da terra, do exército que o leva pela força. Se bem que o autor do poema, José Hernández, estivesse melhor ao lado da classe dominante, não das classes populares. A segunda parte, apenas sete anos posterior, se dirige para um modelo ideológico de integração e de obediência. Os conselhos de Martín Fierro a seus filhos são para que sejam bons trabalhadores, dóceis, que não se queixem, são o contrário da primeira parte. De qualquer maneira, isso chega a Borges já com Martín Fierro unificado como poema nacional e instituído como mitologia da identidade nacional argentina rural. Isto estava ligado ao enfraquecimento da presença e da significação social do gaúcho, como se fosse uma compensação simbólica: quanto menor ameaça aquele personagem representasse, maior seria a recuperação literária e cultural.

Cultura – Como foi com o “compadrito” para Borges, que não existia mais quando ele começa a escrever sobre ele.
Kohan –
Isto vai pelo mesmo sentido. Como dizia, é um requisito para poder mitificar um tipo: que não exista mais como perigo social real e efetivo. E tem que ver com o que ele pleiteava, a substituição do mundo rural pelo urbano. Porque para Borges, a literatura gauchesca interessa como modelo da produção de uma mitologia nacional. Em 1926, quando Borges já havia começado a publicar, sai um romance, Dom Segundo Sombra, de Ricardo Guiraldes, que aparece como mais uma novela sobre o gaúcho no mundo rural. Borges vai adiante. Ele vê que é preciso criar uma mitologia para a cidade de Buenos Aires que tome como modelo a mitificação rural que a literatura gauchesca já havia feito do gaúcho. Isso tinha muito que ver com as condições históricas e sociais que se apresentavam, que era a chegada maciça de imigrantes à Argentina e sua concentração na cidade. A experiência das classes “criollas” nesse período era a de que sua identidade e até seu idioma estavam ameaçados. Houve um momento ao fim do século 19 em que em Buenos Aires a relação era de quatro estrangeiros para cada um argentino. A sensação de cidade invadida era forte.

Tradução e Reação - 14

12 de outubro de 2011 9

O Grande Gatsby é um clássico contestado da literatura norte-americana. Clássico porque, escrito nos anos 1920, é considerado a obra-prima do autor e um grande e emocionante  retrato dos Estados Unidos da Era do Jazz. Contestado porque nem todos veem em Gatsby um livro tão fenomenal assim - mais de um crítico já se referiu ao livro do americano Scott Fitzgerald como uma obra que, apesar de sua popularidade, parece um esboço para o romance monumental que ele deveria ter sido. Em um livro que compila a recepção crítica de O Grande Gatsby (F. Scott Fitzgerald’s The Great Gatsby: série Bloom’s Guides), o crítico Harold Bloom comenta que, logo após o lançamento do livro, Fitzgerald recebeu manifestações de apreço entusiasmadas de Gertrude Stein, Edith Wharton e T. S. Eliot, mas que a maioria dos demais comentaristas do livro foi francamente hostil. Como Bloom descreve (tradução deste seu blogueiro):

“As vicissitudes da reputação do livro formam uma instrutiva ilustração dos problemas em causa no julgamento literário. Como o livro é hoje lido de forma diversa da abordagem utilizada pelos resenhistas seus contemporâneos (na verdade, de uma maneira impossível para eles), deve-se concluir que o tempo é um pré-requisito para a perspectiva necessária em julgamentos críticos? Que um contemporâneo nunca poderá ver tanto em uma obra quanto a geração seguinte? Que é necessário chegar a uma distância grande o bastante do período retratado para que as questões de realismo nos detalhes externos não interfiram?”

Não deixa de ser bastante irônico que a pressa ou a má vontade de muitos julgamentos tenha acompanhado desde o início um livro que já começa com uma profissão de fé contra os juízos apressados. Para aqueles que não leram ou não lembram, embora o título do livro se refira a Jay Gatsby, um self-made man que – após enriquecer com uma série de negócios nem de todo lícitos – tenta usar sua fortuna para reconquistar um amor perdido, quem narra a história é outro personagem, Nick Carraway, um jovem do Meio-Oeste tragado pelo universo feérico e decadente de Gatsby e de sua amada Daisy, prima do narrador. E as primeiras frases d’O Gatsby, sem favor algum entre os mais famosos começos da literatura, são ditas por Nick para apresentar seu temperamento pouco afeito ao juízo de quem cruza seu caminho. Ao mesmo tempo, o personagem explica nesse breve introito as circunstâncias que fazem dele o narrador perfeito da história que será contada a seguir: sua impassibilidade e hesitação para proferir as próprias opiniões o tornam um ímã para as confissões mais disparatadas dos tipos mais diversos. Assim, ele será a testemunha de todos os lados envolvidos na história: Gatsby, que por meio da ostentação de sua fortuna em festas extravagantes tenta se reaproximar da jovem por quem foi apaixonado anos antes; Daisy, fútil e displiscente, inconformada com o casamento em que está aprisionada; Tom, seu marido, o playboy de caráter duvidoso, hipócrita e despreocupado. Embora Gatsby seja o personagem que move a narrativa, é pelos olhos do jovem Nick Carraway que o leitor acompanha a melancólica trajetória de todos esses personagens até a inevitável tragédia – porque sim, Gatsby é também uma das melhores apropriações contemporâneas do espírito da tragédia.

Pois foram justamente essas primeiras palavras ditas por Nick na abertura do romance que escolhemos para uma comparação entre diferentes edições da obra em português. Comecemos então pela mais conhecida versão de O Grande Gatsby na nossa língua, a de Brenno Silveira, datada de 1962 e desde então reeditada por um bom número de casas publicadoras: Civilização Brasileira, Record, Globo, Abril Cultural, Record/Altaya – essa, inclusive, é a edição que eu tenho, da coleção Mestres da Literatura Contemporânea, capa dura de cor azul escura, comprada numa banca de revistas em 1995 (a banca do Fausto, na Cidade Baixa, esquina da República com a Lima e Silva, um lugar que eu ainda frequento, embora provavelmente isso não interesse a vocês). Vamos então à abertura do romance na versão de Brenno:

“Em meus anos mais juvenis e vulneráveis, meu pai me deu um conselho que jamais esqueci:
– Sempre que você tiver vontade de criticar alguém – disse-me ele, – lembre-se de que criatura alguma neste mundo teve as vantagens de que você desfrutou.
Ele nada mais disse, mas sempre fomos comunicativos de uma maneira bastante incomum e reservada, e eu compreendi que ele queria dizer muito mais do que isso. Por conseguinte, sinto-me inclinado a guardar para mim todos os meus juízos, hábito esse que fez com que muitas naturezas curiosas se abrissem comigo, mas que também me tornou vítima de muitos maçadores inveterados.
A mente anormal percebe-a rapidamente e sente-se atraída por essa qualidade, quando ela aparece numa pessoa normal, e, assim, aconteceu que, na universidade, eu fui injustamente acusado de ser um político, por saber guardar as mágoas secretas de indivíduos violentos, desconhecidos.”

Talvez seja uma virtude da tradução de Brenno, talvez seja resultado da prosa original de Fitzgerald, límpida e sutil, mas é interessante notar que essa tradução, escrita nos anos 1960, não parece ter envelhecido em nada – não há o uso de torneios estilísticos ou sintáticos que soem datados. É uma versão que pode ser tranquilamente lida ainda hoje, o que talvez explique sua longevidade ao longo de meio século. Vamos agora dar uma olhada em uma versão mais recente feita por Roberto Muggiati para a editora Record – casa que já teve em catálogo por muitos anos a própria tradução de Silveira apresentada acima. A tradução foi publicada pela primeira vez em 2007 e este ano saiu em nova edição, de bolso (a da capa amarelinha que vocês veem aí embaixo):

“Em meus anos mais jovens e vulneráveis meu pai me deu um conselho que ficou na minha cabeça até hoje.
‘Sempre que tiver vontade de criticar alguém’, me disse, ‘lembre-se de que nem todas as pessoas neste mundo tiveram as vantagens que você teve’.
Nada mais disse, mas sempre fomos comunicativos de um modo incomum bastante reservado, e percebi que ele queria dizer muito mais do que aquilo. Assim, inclino-me a guardar para mim todas as opiniões, um hábito que fez muitas naturezas curiosas se abrirem comigo e que também me transformou na vítima de não poucos chatos contumazes. A mente anormal é rápida em detectar e se apegar a essa qualidade quando ela se manifesta numa pessoa normal e por isso ocorreu que na universidade fui injustamente acusado de ser político por ter acesso às mágoas secretas de homens turbulentos e desconhecidos.”

A diferença básica reside na escolha de termos de sonoridade um tantinho mais contemporâneas que a tradução de Silveira, como a substituição de “maçadores inveterados” por “chatos contumazes” ou de “assim” em lugar de “por conseguinte”. Note-se também a ligeira mudança de tom no conselho do pai. Na tradução de Brenno, é mais assertivo: “criatura alguma neste mundo teve...”. Na de Muggiati, mais ameno, apelando para a negação antes do que para a afirmação: “nem todas as pessoas neste mundo tiveram“. A mudança é importante porque correspondente a uma diminuição de escala. “Criatura alguma neste mundo” é claramente uma hipérbole que dota a admoestação de um certo exagero. “Nem todas as pessoas tiveram” é uma afirmação mais neutra e mais direta. Vamos olhar agora para a edição da Companhia das Letras traduzida pela escritora e jornalista Vanessa Barbara, sobre quem vocês podem ler mais no post anterior.  Essa tradução em particular sai pela coleção Penguin, da Companhia:

“Em meus anos mais vulneráveis de juventude, meu pai me deu um conselho que jamais esqueci:
– Sempre que tiver vontade de criticar a alguém – ele disse –, lembre-se de que ninguém teve as oportunidades que você teve.
Ele não falou mais nada, mas sempre fomos excepcionalmente comunicativos de uma forma contida, e entendi que ele queria dizer muito mais. Como consequencia, adquiri o hábito de me abster de todos os julgamentos, um costume que me garantiu o acesso a diversas naturezas curiosas e também me fez vítima de alguns maçantes inveterados. A mente anormal detecta e se apega muito rapidamente a essa qualidade quando ela se manifesta em alguém normal, e por isso ocorreu de, na faculdade, me acusarem injustamente de ser um homem político, só porque eu guardava as angústias secretas de homens extravagantes e desconhecidos.”

Nova versão, nova mudança de escala, que se aproxima mais da solução encontrada por Brenno Silveira do que da escolhida por Muggiati: “Ninguém teve as oportunidades…” Volta a hipérbole. Outra mudança que adquire seu grau de relevância é a troca, na última frase, de um dos adjetivos que qualificam os “homens” que confidenciam a Nick suas angústias/mágoas secretas, para usar termos de ambas as traduções. É ponto pacífico que todos esses homens são “desconhecidos“, adjetivo repetido em todas as versões. Já o primeiro termo muda: para Brenno, são homens “violentos“. Para Muggiati, “turbulentos“. E para Vanessa, “extravagantes” – um termo curioso de ser empregado porque retira a agressividade presente nas demais escolhas. Um extravagante é um excêntrico, uma pessoa estranha, esquisita, que foge do comum, mas não necessariamente é uma pessoa agressiva, violenta ou turbulenta – embora nada impeça que seja. Veremos o original ao fim deste post que já está enorme, mas posso antecipar que a palavra usada por Fitzgerald é “wild” – “selvagem”, “em estado natural”, “incultivado”, “bárbaro”, “indisciplinado”, “incivilizado”. Ou seja, uma palavra que parece, a este leitor, casar melhor com as ressonâncias agressivas das escolhas anteriores. Vamos ver, então, a segunda tradução recentemente lançada, a de William Lagos – sobre quem também vocês podem ler no post anterior – para a série pocket da L&PM:

Quando eu era mais jovem e mais vulnerável, meu pai me deu um conselho que muitas vezes volta à minha mente.
– Sempre que tiver vontade de criticar alguém — recomendou-me –, lembre primeiro que nem todas as pessoas do mundo tiveram as vantagens que você teve.
Ele não falou mais nada a respeito desse assunto, mas durante toda a vida nós sempre mantivemos um nível de relacionamento muito acima da média, embora guardássemos uma certa reserva com relação aos sentimentos; e eu compreendi que ele queria dizer muito mais do que as palavras significavam à primeira vista. Em consequência, sou inclinado a adiar meus julgamentos até conhecer melhor as pessoas, um hábito que me desvendou muitas naturezas interessantes, mas também fez com que eu me transformasse em vítima de um certo número de pessoas especializadas na arte de aborrecer os outros. A mente anormal rapidamente detecta e se prende a esta qualidade quando ela surge em uma pessoa normal, e o que aconteceu foi que, na universidade, muitas vezes me acusaram injustamente de agir como um político, somente porque eu tinha acesso às mágoas secretas de homens desconhecidos, que encontrava ao acaso nas conversas.

A versão de Lagos é a que mais altera, como se pode ver, o ritmo do texto. O próprio trecho é mais longo que a média dos demais, as frases são deliberadamente mais extensas, o tradutor usa mais palavras para expressar as ideias do original – bem mais sintéticas, algo facilitado pela concisão natural do idioma inglês.  Notem também que desapareceu o termo que havia motivado nossa reflexão anterior, os “homens” que confessam a Nick suas “mágoas secretas” continuam sendo “desconhecidos”, mas o termo referente a “wild” desapareceu, substituído pela interpolação “que encontrava ao acaso nas conversas”, que não está no original. Os “macantes inveterados” ou “chatos contumazes” agora também são “pessoas especializadas na arte de aborrecer os outros”. É uma questão de voz. A versão de Lagos parece buscar um Nick Carraway um tanto mais formal que as demais – e talvez por já haver lido esse livro tantas vezes com um Carraway menos formal, tanto em tradução quanto no original, a leitura inicial me causa alguma estranheza.

No blog da Denise Bottmann, tomei conhecimento da existência ainda de outra tradução, assinada por Fernanda César para a Editora Europa-América e publicada em Portugal, em 2000, em uma parceria entre a brasileira Abril e a portuguesa Controljornal. Vamos a ela:

Quando eu era mais novinho, e mais vulnerável, o meu pai deu-me um determinado conselho que ainda hoje me anda às voltas na cabeça.
– De cada vez que te apetecer criticar alguém – disse-me –, lembra-te sempre de que nem toda a gente neste mundo gozou algum dia das vantagens que tu tens tido.
E mais não disse. Mas fomos sempre invulgarmente comunicativos, se bem que de modo algo reservado, e percebi que ele queria dizer muito mais do que disse. Tornei-me, em consequência disso, propenso a reservar todos os juízos, hábito que atraiu a mim muitas índoles curiosas e fez de mim, igualmente, a vítima de não poucos chatos de carreira. A mente anormal é ágil a detectar e a ater-se a esta qualidade, quando ela se revela numa pessoa normal, e assim aconteceu que, quando andava na universidade, vim a ser injustamente acusado de me meter em política, só porque conhecia as angústias secretas de pessoas impulsivas anónimas.

Notem que essa tradução, como seria de se esperar, tem uma dicção muito mais lusitana, com o uso de termos que para os primos do outro lado do oceano são comuns, como “apetecer“. O uso do diminutivo, “quando eu era mais novinho“, lido pelos olhos de um brasileiro pode soar inadequadamente infantil, mas a incorporação de sufixos diminutivos é de uso muito mais amplo em Portugal, saibam os que não sabiam. O termo lá do final relativo aos homens virou “impulsivos” e pela primeira vez o “desconhecidos” deu lugar a outra palavra: “anônimas“. Todas, no fim das contas, pautaram-se pela fidelidade ao original, e não estou aqui apontando uma em detrimento da outra, apenas partilhando alguns exercícios comparativos de leitura. E vocês, o que pensam?

Ah, sim, faltava ainda a transcrição do original em inglês para os que quiserem comparar com as versões apresentadas:

In my younger and more vulnerable years my father gave me some advice that I’ve been turning over in my mind ever since.
“Whenever you feel like criticizing any one,” he told me, “just remember that all the people in this world haven’t had the advantages that you’ve had.”
He didn’t say any more, but we’ve always been unusually communicative in a reserved way, and I understood that he meant a great deal more than that. In consequence, I’m inclined to reserve all judgments, a habit that has opened up many curious natures to me and also made me the victim of not a few veteran bores. The abnormal mind is quick to detect and attach itself to this quality when it appears in a normal person, and so it came about that in college I was unjustly accused of being a politician, because I was privy to the secret griefs of wild, unknown men.

>>> Leia aqui os demais posts da série “Tradução e Reação”

Traduzindo Fitzgerald

12 de outubro de 2011 4

Robert Redford como Gatsby no filme de 1974

Duas editoras nacionais estão colocando no mercado novas traduções para o clássico de F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby. Pela Companhia das Letras, em sua coleção Penguin, a escritora e jornalista Vanessa Barbara apresenta a sua versão. Para a L&PM, o tradutor William Lagos também finalizou uma nova tradução, publicada agora na série L&PM Pocket. São dois tradutores com carreiras diversas. Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista, autora de O Livro Amarelo do Terminal, uma radiografia do terminal rodoviário de São Paulo, e coautora de O Verão do Chibo (Alfaguara). Já traduziu, entre outros, Três Vidas, de Gertrude Stein, e Afluentes do Rio Silencioso, de John Wray. Já William Lagos, “nom-de-plume” de Luis Humberto William Lagos Teixeira Guedes, tem 67 anos e já traduziu 279 livros para cerca de vinte editoras, vertendo obras do alemão, do inglês, do francês, do italiano e do espanhol. Em seu portfólio constam  versões de obras de Arthur Conan Doyle, Edgar Allan Poe, Raymond Chandler, Balzac, Voltaire, Jack London e uma pá de outros.

Aproveitando a circunstância da chegada às livrarias desses dois novos Gatsby, enviei duas perguntas a cada um dos tradutores, e publico abaixo as respostas de ambos sobre o desafio e o prazer de traduzir o livro:

Mundo Livro –  Diferentemente de outros autores de língua inglesa e de outros romances, o Gatsby é um livro que já teve um bom número de traduções no Brasil e não está exatamente fora de circulação. Ter tantas outras edições da obra para comparação ajuda ou de alguma forma dificulta o trabalho do tradutor?

Vanessa Barbara – Sempre ajuda. Consultei bastante as traduções em francês e em espanhol, além dos trabalhos acadêmicos sobre o Gatsby, que não são poucos. Há sempre dúvidas em uma ou outra passagem, e é importante saber como outras pessoas resolveram aquele trecho.

William Lagos – Quanto ao fato de haver outras traduções, simplesmente ignorei, não consultei qualquer uma, coisa que nunca faço, portanto para mim a existência de obras paralelas é indiferente. Apenas faço o melhor possível, o mais rápido possível, o mais limpo possível, o mais fiel possível ao original… E tenho certeza de que a qualidade do meu trabalho foi superior à da maioria das outras, embora, como lhe disse, não tenha consultado qualquer referência.  Como adendo, não leio o livro de antemão antes de traduzir, vou fazendo página por página, à medida em que o texto se desenrola e, se descubro algum engano, o computador permite corrigir facilmente, não é como quando iniciei, traduzindo na máquina datilográfica, em que as correções requeriam substituição de páginas.  De qualquer modo, para uma boa tradução, o que interessa é o domínio do português, muito mais que do da língua-origem. Sem querer parecer pretensioso, este é o meu método de trabalho e esta a melhor resposta que lhe posso dar.

Mundo Livro –  Quais as maiores dificuldades oferecidas pelo Grande Gatsby a um tradutor?

Vanessa Barbara – Achei as longas descrições de Fitzgerald bem duras de traduzir, foi difícil achar um jeito de ficarem fluidas em português. Além disso, como se trata de um livro sobre uma geografia que não conhecemos – os americanos não devem ter esse problema -, demorou um pouco para se localizar, tanto que tive que fazer um mapa (está no blog da Companhia: http://www.blogdacompanhia.com.br/2011/09/a-cartografia-de-o-grande-gatsby/)

William Lagos – Não encontrei qualquer dificuldade em Gatsby, é um inglês bastante fácil, coerente e tradicional, tanto no ponto de vista ideológico, como na linguagem empregada.  Há gíria, mas raramente obscenidades. Lembro que foi fácil, rápido de agradável…  No último livro que traduzi, de Brian D’Amato, Nas Cortes do Sol, tive de empregar todo o meu vocabulário obsceno, havia correspondência para tudo e a instrução foi ser fiel ao original.

>>> No próximo post, retomamos nossas comparações tradutórias usando as três versões correntes do Gatsby.


O horror de Maupassant em tradução

30 de abril de 2011 0

A vida de Maupassant teve um final triste; antes de completar trinta anos, já era sifilítico. Quando estava com trinta e nove anos, a doença já lhe afetara o cérebro, e o escritor terminou seus dias em um manicômio, depois de haver tentado o suicídio. A história de horror mais terrível de sua autoria, o Horla, apresenta uma complexa relação com a enfermidade do autor, e com as consequências da mesma. Talvez o anônimo protagonista do livro seja um sifilítico, à beira da loucura, embora nada na narrativa de Maupassant autorize, diretamente, tal inferência. Narrada em primeira pessoa, O Horla apresenta-nos mais dados do que somos capazes de interpretar, uma vez que não entendemos bem o narrador, não sabemos se podemos confiar em suas impressões, das quais recebemos poucas abonações (ou mesmo nenhuma).

O trecho acima é de Harold Bloom, em sua obra Como e Por que Ler, analisando O Horla, uma das obras-primas do conto, urdida por um dos mestres da forma, o francês Guy de Maupassant. A história está no livro que a editora porto-alegrense Artes e Ofícios lança hoje às 17h na Palavraria (Vasco da Gama) como parte da programação para comemorar seus 20 anos de atividade. Guy de Maupassant: A Horla, A Cabeleira, A Mão, O Colar (112 páginas, R$ 27) apresenta quatro contos clássicos de Maupassant (1850 — 1893), com organização de Paola Felts Amaro e Adriane Sander.

Maupassant foi um dos primeiros escritores a perceber que os melhores contos eram os mais concisos, e que nem sempre um enredo linear é o mais eficiente em termos de impacto no leitor. Assumindo o ponto de vista do leitor, Maupassant, em uma linguagem correta e sóbria, mas sem a exuberância de seu mestre Flaubert, burilou seus enredos e tornou modelo o conto sem ornamentos, com uma história confinada em limites estritos que provocariam um efeito intenso de miniaturização da vida — nesse sentido, Maupassant tinha muito a ver com outro mestre da narrativa curta, Edgar Allan Poe, e sua teoria de que um conto deveria provocar no leitor uma “unidade de efeito”. Desconheço particularmente se Maupassant deixou por escrito alguma consideração sobre a obra de Poe, mas ele poderia ter tido contato com a obra do americano (Poe, que morreu um ano antes de Maupassant nascer, teve contos traduzidos para o francês por Baudelaire ainda em 1848, portanto seria possível que Maupassant o tivesse lido).

Maupassant morreu demente aos 43 anos, destruído pela sífilis, como vimos no trecho acima. E apesar da vida relativamente breve, espanta sua produção extensa e de altíssima qualidade.  Talvez o caso de Maupassant seja ainda mais assombroso porque discípulo de Flaubert, herdou dele a obsessão pela revisão incansável dos próprios textos, e só foi se considerar um ” escritor profissional” depois dos 30 anos. Em uma década, portanto, mesmo revisando seus escritos com a obsessão de um ourives, Maupassant produziu seis romances, três centenas de contos e um número quase igual de crônicas na imprensa.

Nesse conjunto, O Horla é uma pequena gema. Narra, em primeira pessoa e em forma de diário, o progressivo enlouquecimento de um gentil-homem normando que certo dia, da varanda de sua casa, em frente ao rio, vê passar um veleiro com bandeira do Brasil (é sério). Por brincadeira, o protagonista decide fazer uma saudação ao navio, tomado pela alegria da bela manhã, e com isso atrai para junto de si uma criatura obsessiva e invisível que começa a atormentá-lo durante o sono e a encher seu peito de uma angústia inexplicável. O ser sobrenatural, chamado O Horla, é uma criatura mística brasileira (cuma?) que, assemelhando-se a um vampiro, suga progressivamente a vitalidade daqueles que ataca. A espiral ascendente de insanidade em que o narrador mergulha termina com horror e tragédia.

As tradutoras da nova versão de O Horla incluída no livro da Artes e Ofícios estarão na Palavraria hoje para discutir os desafios da tradução. O que me pareceu um belíssimo pretexto para retomar nossa série de comparação entre traduções, comparando diferentes versões do conto publicadas no Brasil. Vamos começar com um trecho traduzido por Gustavo Feix com a supervisão de Paola Felts Amaro (logo do início do conto porque não queremos antecipar o final para quem ainda não leu a história):

12 de maio
Há alguns dias, tenho um pouco de febre e me sinto indisposto; na verdade, sinto-me triste.
De onde vêm essas influências misteriosas que transformam em abatimento nossa felicidade e nossa confiança em aflição? Seria possível dizer que o ar, o ar invisível, está repleto de Forças Ocultas, cuja proximidade misteriosa suportamos? Acordo cheio de alegria, com uma vontade de cantar trancada na garganta. Por quê? Desço até a margem do rio e, de repente, depois de uma caminhada leve, volto desolado, como se algum infortúnio estivesse me esperando em casa. Por quê: Seria um arrepio frio que, deslizando por minha pele, teria deixado meus nervos em frangalhos e entristecido minha alma? Seria a forma das nuvens, ou a cor do dia, a cor das coisas, tão variável, que, passando pelos meus olhos, teria confundido meus pensamentos? Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que tocamos sem conhecer, tudo o que pegamos sem apalpar, tudo o que encontramos sem distinguir, tem sobre nós, sobre nossos órgãos, e através deles, sobre nossas ideias, sobre nosso próprio coração, efeitos rápidos, surpreendentes e inexplicáveis.

Agora, vamos dar uma olhada na tradução de Léo Schlafman para a coletânea As Grandes Paixões: contos de Guy de Maupassant, da Editora Record, publicada em 2005. As Grandes Paixões traz 23 histórias divididas em quatro seções temáticas: As pequenas manobras, Por trás da máscara, A loucura e a alienação e, por último, As libertinas ingênuas. A editora não se preocupa em apresentar, no volume, uma mínima biografia do tradutor (também responsável pela seleção e por um ensaio que abre o volume), por isso informo eu aqui: Schlafman é jornalista, tradutor e ensaísta, autor de A Verdade e a mentira, livro de ensaios publicado pela Civilização Brasileira. Na seção que Schlafman denominou A Loucura e a Alienação, é óbvio, está incluído o Horla — não em uma, mas em duas versões, uma primeira redação, sem data, e a versão considerada definitiva, de 1887. Embora o enredo básico fale de uma criatura que pula do barco para a vida do narrador, a estrutura é completamente outra: na versão primitiva  a história não é narrada em forma de diário, e sim de depoimento, pois o narrador está preso em um manicômio quando o conto começa e relata seu caso a um grupo de alienistas, algo que foi eliminado na segunda versão, melhor e mais longa. O trecho que escolhemos não estava lá na primeira versão, então vamos com a tradução de Schlafman para a considerada definitiva:

12 de maio
Há alguns dias tenho andado com febre. Sinto-me doente, ou melhor, triste.
De onde vêm estas influências misteriosas que transformam nossa felicidade em desânimo e nossa confiança em angústia? Parece que o ar, o ar invisível, está cheio de Forças desconhecidas de que sentimos a vizinhança misteriosa. Acordo cheio de alegria, com vontade de cantar — Por quê? — Desço até a beira da água  e, súbito, depois de curto passeio, volto para casa desolado, como se alguma infelicidade me aguardasse. — Por quê — Algum um arrepio de frio, roçando minha pele, abalou meus nervos e tornou minha alma sombria? Será a forma das nuvens, ou a cor do dia, tão variável, que, passando diante de meus olhos, perturbou meu pensamento? Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que tocamos sem apalpar, tudo o que encontramos sem distinguir, tem sobre nós, sobre nossos órgãos, e por intermédio deles, sobre nossas ideias, sobre nosso próprio coração, efeitos súbitos, surpreendentes e inexplicáveis
.

Vocês podem ver que o trecho, embora conserve a estrutura, traz algumas diferenças importantes, como a própria supressão de duas frases constantes da primeira tradução: “a cor das coisas” e “tudo o que tocamos sem conhecer” — esta última fundida com o elemento seguinte. O ritmo escolhido pelo tradutor é também mais conciso, o que resulta em um trecho um pouco mais curto que o primeiro. Vamos dar uma olhada, agora, na tradução de Amilcar Bettega para o mesmo trecho, incluído na coletânea 125 Contos de Guy de Maupassant, naquela coleção da Companhia de volumões trazendo compilações extensas de contos por autor (Truman Capote, Scott Fitzgerald, Rubem Fonseca, entre outros) ou tema (Contos de Horror do Século XIX, Contos de Fadas, Contos de Amor do século XIX, por exemplo). Este volume também inclui a primeira versão de O Horla:

12 de maio
Faz alguns dias que tenho um pouco de febre; sinto-me indisposto, ou melhor, sinto-me triste.
De onde vêm essas influências misteriosas que transformam nossa felicidade em desalento e nossa confiança em aflição? Diria que o ar, o ar invisível está repleto de Potências incognoscíveis, a cuja vizinhança misteriosa somos submetidos. Acordo cheio de alegria, com vontade de cantar. Por quê? Desço o longo da margem do rio e de repente, após um curto passeio, retorno angustiado, como se alguma desgraça me esperasse em casa. Por quê? Será um arrepio de frio que, roçando minha pele, abalou meus nervos e entristeceu minha alma? Será a forma das nuvens, ou a cor do dia, a cor das coisas, tão variável, que, passando diante de meus olhos, perturbou-me o pensamento? Sabe lá! Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que roçamos sem conhecer, o que tocamos sem apalpar, o que encontramos sem distinguir, terá tudo isso sobre nós, sobre nossos órgãos e, por meio deles, sobre nossas ideias e mesmo sobre nosso coração, efeitos repentinos, surpreendentes e inexplicáveis?

Nota-se já nesta terceira comparação que os tradutores dos três textos transformam afirmações em interrogações e escolhem o passado do verbo ser na sequência de perguntas “será um arrepio” de acordo com seu melhor juízo sobre o ritmo e a propriedade do que querem para a tradução. O tom escolhido por Amilcar parece tão ágil quanto os demais, mas aquele “Potências incognoscíveis” de algum modo me soa estranho. Impressão pessoal, não técnica. Vamos agora dar um olhada na tradução incluída no volume Bola de Sebo e Outros Contos, reunião de 14 histórias em uma edição barata em papel-jornal publicada na coleção Clássicos Globo, de 1987 (quando a Globo já não era mais a Editora Livraria do Globo, de Porto Alegre, e seu catálogo havia sido adquirido pela empresa jornalística Globo do Rio). A tradução é de Mario Quintana (no volume que tenho, Casemiro Fernandes e Justino Martins aparecem identificados como tradutores no fim de alguns contos, levando à conclusão de que Quintana é o tradutor dos demais que não trazem o nome do responsável no fim (provavelmente as histórias traduzidas pelos outros dois foram acrescentadas para “engordar” nos anos 1980 o volume original traduzido por Quintana pelo menos duas ou três décadas antes, na época em que a Globo ainda era a “Globo da Rua da Praia”). Vejamos:

12 de maio
Há alguns dias que ando com um pouco de febre: sinto-me doente, ou antes, sinto-me triste.
De onde vêm essas influências misteriosas que transformam em desânimo o nosso bem-estar, e a nossa confiança em desespero? Dir-se-ia que o ar, o ar invisível, está cheio de Potências Incognoscíveis, de cuja misteriosa vizinhança nós sofremos a influência? Desperto cheio de alegria, com desejos de cantar. — Por quê? Desço até a margem do rio; e, súbito, após um curto passeio, regresso desolado, como se alguma desgraça me esperasse em minha casa. — Por quê: — Foi um frêmito de frio que tangenciando minha pele desequilibrou meus nervos e ensombreceu minha alma? Foi a forma das nuvens, ou a cor da atmosfera, a cor das coisas, tão variável, que, passando por meus olhos perturbou meu pensamento? Pode-se lá saber? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que roçamos sem conhecer, tudo o que tocamos sem palpar, tudo o que encontramos sem distinguir, causa em nós, em nossos órgãos e, por meio destes, em nossas idéias, em nosso próprio coração, efeitos súbitos, surpreendentes e inexplicáveis.

Com mais uma tradução no cotejo (adoro essa palavra) fica mais fácil explicar a sensação que tive com o “potências incognoscíveis” escolhido por Amilcar. É uma opção que não me causa estranheza nenhuma nesse trecho de Quintana, com uma dicção mais formal, com um certo sabor do seu tempo (é a única a se valer de uma mesóclise, por exemplo, e a única a chamar “arrepio” de “frêmito”). Já na de Amilcar, que de modo geral aproxima mais a linguagem de seu leitor de hoje, parece deslocado. Vamos para mais uma tradução, então,  de Celina Portocarrero para a coletânea Os Melhores Contos Fantásticos, organizada por Flávio Moreira da Costa para a Nova Fronteira em 2006 para a coleção de antologias temáticas “escolha de mestre”. O interessante é que no ano seguinte, 2007, quando publicou a coletânea Os Melhores Contos de Loucura, Moreira da Costa publicou no volume o texto Um Louco, de Maupassant, e a primeira versão d’O Horla, para não repetir a que já havia saído na coletânea anterior.

12 de maio
Estou com um pouco de febre há alguns dias; sinto-me adoentado, ou talvez me sinta triste.
De onde vêm essas influências misteriosas que transformam em desânimo nossa felicidade e nossa confiança em angústia? Dir-se-ia que o ar, o ar invisível, está cheio de forças desconhecidas,cuja misteriosa proximidade nos afeta. Acordo cheio de alegria, com vontades de cantar em minha garganta — Por quê? — Desço o curso da água  e de repente, depois de um curto passeio, volto desolado, como se alguma infelicidade me aguardasse em casa. — Por quê — Algum um arrepio de frio, roçando minha pele, abalou meus nervos e tornou minha alma sombria? Será a forma das nuvens, ou a cor do dia, tão variável, que, passando diante de meus olhos, perturbou meu pensamento? Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que tocamos sem apalpar, tudo o que encontramos sem distinguir, tem sobre nós, sobre nossos órgãos, e por intermédio deles, sobre nossas ideias, sobre nosso próprio coração, efeitos súbitos, surpreendentes e inexplicáveis.

Não deixo de notar que só agora, nessa versão, voltou um elemento cujo sumiço havia me intrigado lá no início. Na tradução de Gustavo Feix para a Artes e Ofícios, o narrador diz que acorda cheio de alegria e “com uma vontade de cantar trancada na garganta” — e essa menção à garganta é sistematicamente limada nos trechos posteriores até chegarmos a este. Quem sabe ler francês pode conferir que a menção à “garganta” está no original, como se comprova na transcrição abaixo do mesmo trecho no original francês, então não sei a razão pela qual os demais tradutores resolveram, se me permitem o trocadalho, cortar a garganta do personagem:

12 mai.
J’ai un peu de fièvre depuis quelques jours; je me sens souffrant, ou plutôt je me sens triste.
D’où viennent ces influences mystérieuses qui changent en découragement notre bonheur et notre confiance en détresse? On dirait que l’air, l’air invisible est plein d’inconnaissables Puissances, dont nous subissons les voisinages mystérieux. Je m’éveille plein de gaieté, avec des envies de chanter dans la gorge. – Pourquoi? – Je descends le long de l’eau; et soudain, après une courte promenade, jê rentre désolé, comme si quelque malheur m’attendait chez moi. – Pourquoi? – Est-ce un frisson de froid qui, frôlant ma peau, a ébranlé mes nerfs et assombri mon âme? Est-ce la forme des nuages, ou la couleur du jour, la couleur des choses, si variable, qui, passant par mes yeux, a troublé ma pensée? Saiton? Tout ce qui nous entoure, tout ce que nous voyons sans le regarder, tout ce que nous frôlons sans le connaître, tout ce que nous touchons sans Le palper, tout ce que nous rencontrons sans Le distinguer, a sur nous, sur nos organes et, par eux, sur nos idées, sur notre coeur lui-même, des effets rapides, surprenants et inexplicables.

Em tempo: pelo que eu me lembre, acho que ainda há pelo menos duas outras versões desse conto. Uma delas está com certeza em um volume chamado Contos Fantásticos: O Horla e Outras Histórias, da L&PM, e a segunda é provável que esteja em Contos Aterrorizantes, da coleção Leitura Jovem da Leitura XXI, mas eu não tenho exemplares de nenhum dos dois para transcrever aqui, então se encontrar,volto e atualizo este post.

Em tempo 2: Havia me equivocado na primeira redação deste texto quanto ao crédito da tradução da edição mais recente, da Artes & Ofícios. O tradutor, como agora está ali corrigido, é Gustavo Feix. Paola Felts Amaro foi a supervisora da tradução.

Zamyátin e Nós

16 de julho de 2010 3

Este post vai aqui publicado depois de comentário feito pelo leitor Yuri Alhnati no post sobre O Mestre e Margarina, podem conferir ali embaixo. Vamos ver, primeiro, se vocês matam de que livro estamos falando:

1) Sociedade rigidamente controlada por um estado totalitário que impõe a seus cidadãos uma vida despersonalizada e mantém a todos em vigilância constante.
2) O cenário é um mundo no qual noções básicas da civilização ocidental, como liberdade e individualidade, são banidas e consideradas não apenas inconvenientes mas infamantes.
3) O protagonista é um funcionário técnico inicialmente alienado que, no meio dessa hierarquia desumana, encontra e se apaixona por uma mulher cujo amor será redenção e ruína ao mesmo tempo
4) A narrativa é dominada pela sombra de uma figura sinistra que oprime o povo enquanto exige ser chamado por um epíteto queridinho.

É 1984, de George Orwell?

Não, o palpite é bom, mas não é.

As frases acima foram escolhidas conscientemente para alimentar a confusão. Elas servem para definir elementos de 1984, mas foram colocadas ali com o intuito de sublinhar a dívida que o clássico de Orwell (e, por tabela, praticamente tudo o que se derivou dele, como sua adaptação cinematográfica, ou Brazil, de Terry Gilliam,  ou uma dezena de séries de TV que vão de Logan’s Run a Aeon Flux, por exemplo) tem com um precursor menos conhecido da literatura de ficção científica, o romance Nós, do russo Yevgeny Zamyátin, o cidadão da pintura ali de cima (um retrato feito por Bóris Kustodiev). O livro foi concluído em 1921 – mais de duas décadas antes de 1984, que é de 1948.

Narrado em primeira pessoa em uma prosa que vai gradualmente do patético iludido para o desencanto, Nós é contado por D-503, um engenheiro que vive em um mundo futurista no qual a liberdade foi abolida, a mecânica e a matemática regem a ideologia e as pessoas, chamadas “cifras” ou “números”, têm nomes que mais parecem identificações de série. Controlando tudo, está uma figura sinistra que auto-intitula O Benfeitor, que forjou o UnEstado que domina aquele mundo remanescente de uma guerra de séculos. Funcionário do departamento responsável pela criação de um foguete destinado às estrelas, D-503 vai conhecer I-330, uma enigmática mulher parte de uma célula de resistência. E só aí perceberá o quanto o véu da alienação em que vivia, parte imposição do Estado e parte seu próprio conformismo, escondia as imperfeições daquele mundo que deveria ser de pura ordem. Como vocês vêem, quem leu 1984 ou mesmo viu o filme achou a trama de Nós bem mais do que vagamente familiar.

Zamyátin viveu de 1884 a 1937 e era um satirista. Seus livros eram visões humorísticas de seu tempo, que lhe granjearam uma reputação razoável no final dos anos 1910. Sim, esse é o primeiro choque de quem lê o livro: o modelo para o sombrio 1984 é um livro irônico, eivado de humor e poesia. Lançado menos de uma década depois do triunfo dos bolcheviques, Nós só poderia ter o destino que teve: foi banido. Aliado de primeira hora dos bolcheviques mas radicalmente contra a censura exercida por eles, Zamyátin logo caiu em desgraça e foi proibido de publicar não só esse como qualquer livro futuro. Devido a essa contingência, Nós, contrabandeado pela mulher do escritor para o exterior, foi levado para um amigo em Londres e veio a ser publicado primeiro em inglês, depois em francês e, finalmente, anos depois, em russo – numa tradução que, sem os originais, precisou se valer de uma segunda tradução da edição original inglesa (complicado, não?). Nós circulou bastante na Inglaterra, e era conhecido por Orwell quando este começou a escrever sua própria distopia. Zamyátin conseguiu escapar do horror soviético por interferência de Górki, que conseguiu a permissão de Stálin para que ele fosse viver no exílio, em Paris, onde morreu na pobreza.

Nós teria também inspirado o Admirável Mundo Novo, de Huxley, mas nesse caso Huxley não só nunca confirmou como sempre negou a influência. E no jogo eterno das inspirações literárias, é provável que o próprio Nós tenha resultado da leitura de Zamyátin do conto The New Utopia, de Jerome K. Jerome, publicado no fim do século 19 e que apresenta uma visão de mundo parecida satirizando o comunismo: o plano de uma Londres em que todo mundo se veste igual, com uniformes cinzas e com o cabelo curto e pintado de preto, cercada por um muro e no qual o amor individual é perigoso para o avanço da utopia estatal totalitária.

Fiquei sabendo da existência desse livro em um artigo publicado por Sérgio Augusto nos longínquos anos 1990 na revista Caros Amigos. Passei anos procurando alguma edição em português, sem sucesso – se houve alguma tradução, era tão antiga que havia sumido do mapa há muito tempo. Precisei então, pedir a uma conhecida que na época morava em Londres que comprasse a edição da Penguin Books para mim (e a capa é exatamente esta que ilustra este post). desde então já li e reli esse livro um bom par de vezes. Dada a trajetória tumultuada do romance, e o fato de que sua primeira edição na verdade foi a tradução em inglês, não chego a considerar uma heresia traduzir o livro da versão em inglês, e por isso, como uma palhinha aos fiéis leitores do Mundo Livro, deixo uma tradução exclusiva do primeiro capítulo (se alguma editora aí fora se interessou em editar o livro, pense em mim com carinho para traduzí-lo, por favor):.

Registro 1

Proclamação

As Mais Sábias Linhas

Um Poema Épico

Eu estou tão-somente copiando aqui, palavra por palavra, o que foi impresso hoje na Gazeta Estatal:

Daqui a 120 dias, a construção do INTEGRAL será finalizada. Aproxima-se a grande, a histórica hora em que o primeiro INTEGRAL será lançado ao espaço. Mil anos atrás, nossos heróicos ancestrais subjugaram o planeta inteiro ao poder do UnEstado. Cabe a vocês executar uma tarefa ainda mais gloriosa: finalizar, por meio do vidro, da eletricidade, do hálito de fogo do INTEGRAL, a indefinida equação do universo. Cabe a vocês colocar o benéfico jugo da razão ao redor dos pescoços dos seres desconhecidos que habitam outros planetas – e que ainda vivem, provavelmente, no estado primitivo conhecido como liberdade. Se não entenderem que estamos levando a eles uma felicidade matematicamente infalível, seremos obrigados a forçá-los a ser felizes. Mas antes de pegar em armas, devemos verificar o que as palavras podem fazer.
Em nome do Benfeitor, todos os Números do UnEstado, por meio deste, estejam informados do que segue:
Todos os que se sentirem capazes de fazê-lo são solicitados a compor tratados, poemas épicos, manifestos, odes, ou outras composições a respeito da beleza e da grandeza do UnEstado.
Esta será a primeira carga transportada pelo INTEGRAL
Vida longa ao UnEstado! Vida longa aos Números! Vida Longa ao Benfeitor!

Enquanto escrevo sinto as faces arderem. Sim: determinar completamente a integral da colossal equação do universo. Sim: desdobrar a parábola selvagem, planificá-la tangencialmente, aplainá-la em uma linha sem desvios. Porque a linha do UnEstado é uma linha reta. A grande, divina, precisa, sábia linha reta – a mais sábia de todas as linhas.
Eu, D-503, construtor do INTEGRAL, sou apenas um dos matemáticos do UnEstado. Minha caneta, acostumada a gráficos, é débil para criar a música da assonância e da rima. Devo tentar anotar – nada mais – o que eu vejo, o que eu penso – ou, para ser mais exato, o que nós pensamos (o que é o correto: nós, e que este NÓS seja o título destes registros). Mas isto, seguramente, derivará de nossas vidas, da vida matematicamente perfeita do UnEstado, e, se é assim, não será, de acordo com nossos parâmetros, não importa o que eu pense, um épico? Será; eu acredito e eu sei que será.
Sinto minhas faces arderem enquanto escrevo. Esta é provavelmente a sensação que tem uma mulher quando sente pela primeira vez em si o pulso de uma nova pessoinha, ainda minúscula e cega. Sou eu, e ao mesmo tempo não sou eu. E pelos longos meses seguintes ela terá de nutri-la com sua própria essência, seu próprio sangue, e então… tirá-la dolorosamente de si e deposita-lá ao pé do UnEstado.

Mas eu estou pronto. Como todos nós, ou quase. Eu estou pronto.