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Posts na categoria "Enchiridion"

Discussões em alto nível

06 de novembro de 2012 0

Mas, se mesmo assim tudo lhe for desagradável, se considerar a casa mal construída, se o café estiver frio e fraco e a cerveja muito quente, se tudo – enfim - lhe parece errado ou ruim, então eu só lhe peço que se lembre de uma coisa: a casa, afinal de contas, é brasileira. Nela, se há regras para o anfitrião, há também normas para a visita. E que até mesmo quando não se gosta, se pode dizer isso educada e generosamente.

Roberto da Matta, na Conversa para Receber o Leitor que serve de introdução a seu livro A Casa & A Rua: Espaõ, Cidadania, Mulher e Morte no Brasil (tenho uma edição antiga, da Brasiliense, mas a mais recente é da Rocco). Mostrando o caminho a boa parte dos comentrollistas de internet (caminho que eles, é claro, em sua infinita ignorância, ficarão felizes em ignorar).

Galeano, o fim de semana e as olimpíadas

10 de agosto de 2012 0

11 de Agosto
Família

Como se sabe na África negra e na América indígena, a sua família é a sua aldeia completa, com todos os seus vivos e os seus mortos.
E a sua parentela não termina nos humanos.
Sua família também fala com você na crepitação do fogo,
nos rumos da água que corre,
na respiração do bosque,
nas vozes do vento,
na fúria do trovão,
na chuva que beija
e na cantoria dos pássaros que saúdam os seus passos.

12 de Agosto
Atletos e atletas

Em 1928, terminaram as olimpíadas de Amsterdã
Tarzan, vulgo Johnny Weissmuller, foi o campeão da natação, e o Uruguai, campeão de futebol. E pela primeira vez a tocha olímpica, acesa numa torre, acompanhou as jornadas do princípio ao fim.
Mas essas olimpíadas acabaram sendo memoráveis por causa de outra novidade: pela primeira vez, as mulheres participaram.
Nunca antes na história das olimpíadas, da Grécia em diante, se havia visto nada igual.
Nas olimpíadas gregas,  as mulheres eram proibidas de competir, e não podiam nem mesmo assistir aos espetáculos.
E o fundador das olimpíadas modernas, o Barão de Coubertin, se opôs à presença feminina enquanto seu reinado durou:
– Para ela, a graça, o lar e os filhos. Para eles, a competição esportiva
.

Os dois excertos acima são do livro mais recente do escritor uruguaio Eduardo Galeano, Os Filhos dos Dias (Tradução de Eric Nepomuceno, L&PM, 432 páginas, R$ 49). A exemplo do que já fizera na trilogia Memória do Fogo (Os Nascimentos, As Caras e as Máscaras, e O Século do Vento) e no seu livro mais recente, Espelhos, Galeano recupera nesta obra episódios históricos narrados em textos curtos, vinhetas entre a prosa e a poesia. O fio condutor desta obra, contudo, não é uma cronologia histórica linear, como nos anteriores citados, e sim um passeio pelos dias do calendário. Para cada dia do ano, Galeano recupera uma história real relacionada com a data em algum ano da trajetória humana. Os textos se imaginam  no presente a cada data, em uma viagem literária no tempo. O livro é ilustrado com colagens feitas pelo próprio autor.

Deixo com vocês os dois textos relativos a este fim de semana – em que, 84 anos depois, encerra-se outra edição dos Jogos Olímpicos.

As Primeiras Palavras

19 de abril de 2012 5

Já li escritores afirmarem em entrevistas que o mais difícil ao escrever um livro é achar a primeira frase. Acho que é uma declaração válida com mais frequência no jornalismo, pois o lide, o parágrafo inicial de um texto, é, para muitos, uma das últimas coisas que a mente aceita liberar quando se está aflito na frente da máquina ou do terminal. Outros colegas com quem já trabalhei não conseguem escrever nada antes de ter o primeiro parágrafo para orientar-lhe as ideias nos caminhos futuros do texto.

Não é o meu caso. Escrevo muito rápido mesmo para os padrões de um jornalista porque não tenho essa necessidade de iniciar do começo, e sim posso escrever primeiro uma frase que sei que estará lá no meio da matéria e partir dela. Daí muitas vezes o pensamento se organiza para frente e para trás e eu vou completando. Não é um processo isento de falhas, mas nada no jornalismo diário é isento de falhas. E pra mim funciona muito melhor porque quando chego ao momento de redigir o lide, já estou com toda a matéria escrita, e fica mais fácil, assim, pensar numa frase de mais impacto que possa dar conta do que vem depois.

Com isso não digo que a primeira frase não é importante, pelo contrário. Ela é essencial, tanto que na literatura as primeiras frases de maior impacto sempre foram alvo de minha particular afeição. Sempre gostei de anotar. por curiosidade e por curtição, as primeiras frases de romances e contos cuja leitura me foi grata, ou até mesmo das obras das quais não gostei mas que prometiam muito pela frase inicial. Há que se dizer que a idéia não é exclusiva minha, a maioria das pessoas que conheço já fez ou ainda faz isso em algum momento, e mesmo a ideia de anotar as primeiras frases de clássicos já foi aplicada no romance Buffo & Spallanzani, pelo mestre Rubem Fonseca. O blogueiro e escritor Sérgio Rodrigues tem uma série inteira no seu Todoprosa sobre “começos inesquecíveis”. Mas isso não impede que, numa época em que o blogueiro aqui está de férias, e portanto atualizando o blog para vocês pelo simples prazer de fazê-lo, ele possa replicar a ideia ao seu modo, como na breve seleção feita abaixo (é breve porque vai que outra hora resolvo dar continuidade acrescentando algumas?).

Últimas instruções de uso deste post: quando a frase é extraída de um romance,  o nome do livro está informado após o nome do escritor. Quando, no caso de um conto, o nome do livro for o mesmo da história, bastará um “idem”. Quando não, o primeiro nome designa o conto, e o ultimo, o nome da obra de onde ele foi retirado. E aqui não transcrevi parágrafos iniciais, e sim as primeiras frases – naquela definição básica que todo mundo aprendeu na escola, a frase como algo que finaliza com o ponto, o que explica porque algumas são mais longas do que outras. Essa minicoletânea também não tem o propósito de afirmar, espero que a dedução seja óbvia, que um bom romance necessariamente precisa ter uma grande primeira frase. Há inícios de romance cujos parágrafo inicial vai crescendo em impacto e beleza pela justaposição do que as frases seguintes têm a dizer/negar sobre a primeira. É apenas um reconhecimento àqueles romances que têm tais frases.

La candente mañana de febrero em que Beatriz Viterbo murió, después de una imperiosa agonia que no se rebajó un solo instante ni al sentimentalismo ni al miedo, noté que las carteleras de fierro de la Plaza Constitución habían renovado no sé qué aviso de cigarrillos rubios; el hecho me doló, pues comprendi que el incesante y vasto universo ya se apartaba de ella y que esse cambio era el primero de una serie infinita.
Jorge Luis Borges (El Aleph - idem)

Tinha ele 6 pés de altura, menos 1 ou 2 polegadas, talvez, forte, espadaúdo, avançava direito para a agente, um pouco curvado, olhar fixo, a cabeça para a frente, como um touro quando vai investir.
Joseph Conrad (Lorde Jim)

Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov era o terceiro filho de um proprietário de terras de nosso distrito, Fiódor Pávlovitch, tão conhecido em seu tempo (dele se lembram, aliás, ainda) pelo seu fim trágico, ocorrido há treze anos, de que falarei mais adiante.
Fiódor Dostoiéwski (Os Irmãos Karamázov)

Faço questão de assegurar com toda a clareza que absolutamente não tenho a intenção de colocar minha pessoa num lugar de destaque ao escrever algumas palavras acerca de mim mesmo e de minhas próprias atividades, antes de iniciar o relato da vida do finado Adrian Leverkünh, a primeira e certamente muito provisória biografia do saudoso homem e genial músico, que o destino terrivelmente assolou, engrandecendo-o e derribando-o
-Thomas Mann (Doutor Fausto).

Aqui estamos de novo sozinhos.
Louis-Ferdinand Céline (Morte a Crédito)

José Palacios, su servidor más antiguo, lo encontró flotando en las águas depurativas de la bañera, desnudo e com los ojos abiertos, y creyó que se habia ahogado.
- Gabriel García Márquez (El General en su Labirinto)

Eu estava num daqueles bairros chinfrins perto da avenida Central, ali pelas quadras que ainda não foram totalmente ocupadas pelos negros.- Raymond Chandler (Adeus, Minha Adorada)

Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro PáramoJuan Rulfo (Pedro Páramo)

Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, foi a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo e nada tínhamos, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário – em suma, o período era em tal medida semelhante ao presente que algumas das suas mais ruidosas autoridades insistiram em seu recebimento, para o bem ou para o mal, apenas no grau superlativo de comparação. - Charles Dickens (Um Conto de Duas Cidades)

O maxilar de Samuel Spade era longo e ossudo, seu queixo um V proeminente sob o V mais flexível da boca.
Dashiell Hammett (O Falcão Maltês)

Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lembrava-lhe sempre o destino dos amores contrariadosGabriel García Márquez (O Amor nos Tempos do Cólera)

Em meus anos mais juvenis e vulneráveis, meu pai me deu um conselho que jamais esqueci: – Sempre que você tiver vontade de criticar alguém – disse-me ele – lembre-se de que criatura alguma neste mundo teve as vantagens de que você desfrutou. – F.S. Fitzgerald (O Grande Gatsby).

Nosso pai era um homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação.- Guimarães Rosa - (A Terceira Margem do Rio)

A tumba era grande, sólida, deveras imponente: uma espécie de templo entre o antigo e o oriental, como se via nos cenários da Aída e de Nabucco, em voga nos teatros de ópera até poucos anos atrásGiorgio Bassani (O Jardim dos Finzi-Contini)

Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente.
- Graciliano Ramos (Angústia)

A narrativa nos manteve suspensos junto ao fogo; e não fosse a observação, demasiado evidente, de que era sinistra, tal como, em essência, deve ser toda história contada em noite de Natal numa casa velha, não me lembra qualquer outro comentário, até que aconteceu alguém dizer que aquele era o único exemplo do qual tivera notícia, onde um tal castigo havia recaído na cabeça de uma criança.Henry James (A volta do Parafuso)

De um hospital particular para doentes mentais, nas proximidades de Providence, em Rhode Island, desapareceu há pouco tempo uma pessoa extraordinariamente singularH.P. Lovecraft (O Caso de Charles Dexter Ward)

Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas, que daqui a pouco chegarão com o mar.
João Ubaldo Ribeiro (Viva o Povo Brasileiro)

Para começar, vamos dar-lhes notícias do protagonista.Norman Mailer (Os Exércitos da Noite)

Tudo no mundo começou com um sim
Clarice Lispector (A Hora da Estrela)

O que mais há na terra, é paisagemJosé Saramago (Levantado do Chão)

Era uma vez e uma vez muito boa mesmo uma vaquinha-mu que vinha andando pela estrada e a vaquinha-mu que vinha andando pela estrada encontrou um garotinho engrachadinho chamado bebê tico-taco – James Joyce (Retrato do Artista Quando Jovem)

Poesia num blog desses? - Carlos Drummond de Andrade e Stalingrado

14 de março de 2012 0

Foto de Stalingrado durante o cerco, em 1943.

Ando para cima e para baixo nos últimos dias com A Rosa do Povo, na nova edição que a Companhia das Letras está lançando para marcar a reedição da obra integral de Carlos Drummond de Andrade. É um livro – bem como os outros de Drummond de sua melhor fase – em que se mergulha e fica por lá. Lemos, relemos, voltamos algumas linhas, porque há uma certa qualidade esquiva que não se abre à primeira leitura, mesmo neste que é o livro por assim dizer mais “engajado” de Drummond, com poemas mais declaradamente ligados à questão social e mostrando um certo namoro do poeta com o Comunismo – o que não deixa de ser compreensível, dado que os poemas foram escritos entre 1943 e 1945, ou seja, Drummond contrapunha a resistência da União Soviética ao avanço do horror nazista.

Um dos principais símbolos desta resistência está completando 70 anos neste 2012: o cerco de Stalingrado, que durou de julho de 1942 a fevereiro de 1943. Impressionado com a férrea resistência soviética em uma batalha que teve aproxidamente dois milhões de baixas como resultado, Drummond escreveu uma ode à cidade cercada. É ela que transcrevemos abaixo no nosso Dia Nacional da Poesia:

Carta a Stalingrado

Stalingrado…
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!

A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.

Carlos Drummond de Andrade. 1943


Poesia num blog desses? Sophia de Mello Breyner Andresen

14 de março de 2012 0

Sophia Andresen em desenho de Arpad Szenes.

Já que estamos fazendo essas publicações póeticas em homenagem ao Dia Nacional da Poesia, vamos puxar um pouco o leme para paragens menos óbvias do que o cânone nacional do século XX. Os leitores aplicados de poesia conhecem a obra da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 – 2004), mas seu nome (e que nome) ainda pode soar desconhecido aos ouvidos do assim chamado “leitor comum”. O que é uma pena. Amiga de João Cabral de Melo Neto, Sophia a ele se assemelhava no rigor e na contenção que em nada diminuía o impacto de seus versos, pelo contrário, potencializáva-os. Como escreveu meu colega Roger Lerina em uma resenha de um volume de seus Poemas Escolhidos, publicados no Brasil em 2005, Sophia, “ainda que respirasse o ar de seu tempo, escrevia como se pertencesse a época alguma.”

Mesmo que muitos de seus poemas retratassem uma insatisfação com o mundo moderno contemporâneo,  Sophia foi uma poeta militante, engajada contra a ditadura salazarista nos anos 60 e 70 e deputada de oposição.  Seu trabalho divide-se, portanto, entre versos políticos de melancolia agressiva e temas líricos e ideias que ela revisitou com afinco ao longo de 60 anos de trabalho (o mar, os corais, o vento, a praia, a casa materna no Porto, a cultura helênica). Uma tensão que fica evidente no poema abaixo:

ESTE É O TEMPO

Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam
Sophia de Mello Breyner Andresen

Poesia num blog desses? - Manuel Bandeira

14 de março de 2012 0

O poeta Manuel Bandeira. Foto: Divulgação

Sou um leitor de poesia embora fale pouco de poesia – talvez por achar que a poesia seja tão mais exigente que qualquer juízo sobre ela tenha de ser muito mais bem pensado, talvez até mesmo não expresso. Daí porque escrevo pouco sobre poesia. E daí porque revirei as estantes hoje em busca de poesia boa sem me dar por satisfeito com muita coisa do que fui arrebanhando. O Dia Nacional da Poesia é uma homenagem a Castro Alves, mas repassando as páginas de Castro Alves ainda não topei com nada que tenha me comovido de tal modo que mereça figurar aqui na nossa homenagem poética. Alves é um poeta para ser declamado, além disso. A habilidade que tinha em construir versos que se tornavam vibrantes peça de oratória quando recitados em voz alta é uma das características mais admiráveis de Castro Alves, bem como sua visão militante pela causa abolicionista. Mas seus poemas abolicionistas apresentam visões idealizadas ou mesmo profundamente alteradas dos “escravos” em nome de quem escrevia. Vamos continuar procurando…

Tudo isso para dizer que no fim minha poesia preferida, aquela à qual sempre volto, é a produzida já no período da modernidade brasileira do século XX. Muito da poesia do século XIX parece continuar em circulação mais por pressão do cânone acadêmico do que por sua qualidade ou mesmo pela sua atualidade. Foi no século XX que a poesia nacional forjou nomes incontornáveis que são de fato poetas geniais, na forma e na expressão: Drummond, Quintana, João Cabral, Cecília Meirelles e Manuel Bandeira.

O Bandeira do poema que segue:

Testamento

Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os…
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!… Não foi de jeito…
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde…
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!
Manuel Bandeira, 29-01-1943

Poesia num blog desses? Fernando Pessoa e a chuva

14 de março de 2012 1

"Cai chuva do céu cinzento". Foto de Marcelo Oliveira, Diário Gaúcho

Pedindo licença ao Luis Fernando Verissimo pelo uso de seu genial título de sessão “Poesia numa hora dessas”?, o Mundo Livro explica que hoje é o Dia Nacional da Poesia – e para lembrar a data, vai publicar hoje alguns posts com poemas daqui e de fora. Afinal, pode-se escrever muito SOBRE poesia, mas creio que nada pode marcar de modo mais apropriado o Dia da Poesia do que a leitura de poesia – uma arte necessária e difícil.

E como hoje também o céu praticamente derreteu e caiu inteiro nas ruas de Porto Alegre, como vocês veem na foto acima, achei que seria apropriado começar com o mestre da Língua Portuguesa Fernando Pessoa:

Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não.
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.

Fernando Pessoa, 15-11-1930.

Três coisas sobre Stefan Zweig

24 de fevereiro de 2012 0

No dia 23 de fevereiro de 1942, o intelectual e escritor judeu Stefan Zweig e sua esposa Charlotte foram encontrados mortos na casa em que residiam, em Petrópolis. Zweig havia encontrado no Brasil um refúgio da guerra em 1940, após o Anschluss, a anexação de sua Áustria natal à Alemanha nazista, e se encantou pelo país de tal modo que redigiu um ensaio-panfleto apaixonado: Brasil: um País do Futuro (criando a expressão que nos últimos 70 anos foi uma espécie de assombração do destino nacional). Sua morte foi na época e até hoje é considerada suicídio, embora o contexto permitisse cogitar também o homicídio. A carta de despedida deixada por ele, no entanto, parece bater o martelo em favor da autoaniquilação. Sobre Zweig, três coisas:

Nota: Este post havia sido automaticamente programado para entrar no ar ontem, data redonda da morte de Zweig, mas fiz alguma barbeiragem e não notei que ele não havia sido publicado .Por isso corrijo o problema agora.

1 – Brasil, um País do Futuro, teve uma reedição recente em formato bolso pela editora gaúcha L&PM. Com tradução de Kristina Michahelles. É um ensaio que discorre do Descobrimento até a sociedade brasileira que ele havia encontrado naquele momento e argumenta por que o país tinha potencial para ser uma espécie de farol nos tempos que viriam, em especial pelo que considerava a “forma básica natural das relações humanas”, a polidez (fico imaginando o que ele diria hoje). Leia um trecho:

É a frota portuguesa sob o comando de Pedro Álvares Cabral, que partiu da foz do Tejo em março de 1500, a fim de repetir a viagem inesquecível de Vasco da Gama em torno do Cabo da Boa Esperança rumo à Índia, aquele “feito nunca feito” decantado por Camões em Os Lusíadas. Diz-se que ventos adversos desviaram os navios da rota de Vasco da Gama ao longo da costa africana para tão longe, até a tal ilha desconhecida – pois é Ilha de Santa Cruz o nome que se dá a essa costa, cuja extensão ainda é ignorada. Sem levar em conta as viagens de Alonso Pinzon, que chegou às proximidades do rio Amazonas, e a duvidosa viagem de Vespúcio, o descobrimento do Brasil parece ter caído nas mãos de Portugal  e Pedro Álvares Cabral apenas graças a uma singular combinação de ventos e ondas. Mas os historiadores há muito tendem a não mais acreditar nesse “acaso”, pois Cabral levava consigo o piloto de Vasco da Gama, que conhecia muito bem o caminho mais curto, e a lenda dos ventos adversos cai por terra com o testemunho de Pero Vaz de Caminha, que estava a bordo e confirmou expressamente que a frota continuou viagem de Cabo Verde “sem haver tempo forte ou contrário”. Portanto, como nenhuma tempestade os desviou tanto para Oeste que viessem parar no Brasil, em vez de contornar o Cabo da Boa Esperança, deve ter sido uma determinada intenção ou – o que é ainda mais provável – uma ordem secreta do rei que fez com que Cabral resolvesse tomar o rumo para Oeste. Isso reforça a probabilidade de que a Coroa portuguesa já tivesse conhecimento secreto da existência e da situação geográfica do Brasil bem antes do descobrimento oficial. Este ainda é um grande mistério, cujos documentos desapareceram para todo o sempre por causa da destruição dos arquivos com o terremoto de Lisboa, e o mundo provavelmente nunca saberá o nome do primeiro e verdadeiro descobridor do Brasil. Parece que, logo depois do descobrimento da América por Colombo, um navio português foi enviado para conhecer esta nova parte do globo, voltando com novas notícias. Ou então – e também para isso existem determinados indícios – já antes da audiência de Colombo a Coroa portuguesa tinha maior ou menor certeza desse país no longínquo Ocidente. Mas o que quer que soubesse, Portugal cuidava para não entregar o ouro ao vizinho invejoso. Na era dos descobrimentos, a Coroa tratava cada nova notícia sobre descobertas náuticas como segredo de Estado militar ou comercial, cuja divulgação para potências estrangeiras era punida com a pena de morte. Mapas, portulanos, rotas náuticas, relatórios de piloto eram trancados na Tesouraria de Lisboa, como ouro e pedras preciosas, e principalmente nesses casos uma divulgação prematura era inadequada, pois segundo a bula papal Inter Caetera todas as regiões até o limite de cem milhas a oeste de Cabo Verde pertenciam de direito aos espanhóis. Um descobrimento oficial depois daquela zona, naquele momento, apenas teria aumentado o patrimônio do vizinho, não o próprio. Portanto, não era do interesse de Portugal
anunciar antecipadamente uma tal descoberta (se é que de fato aconteceu). Antes, era preciso ficar legitimamente assegurado que aquele nova terra não pertenceria à Espanha, e sim à Coroa portuguesa, e isso Portugal, com evidente previdência, garantiu por meio do Tratado de Tordesilhas, que em 7 de junho de 1494 – ou seja, pouco depois do descobrimento da América – ampliou a zona portuguesa das cem léguas originais para 370 a oeste de Cabo Verde, exatamente o necessário, portanto, para abranger a até então supostamente ainda não-descoberta costa do Brasil. Se isso foi um acaso, então combinou estranhamente com o inexplicável desvio de Pedro Álvares Cabral de sua rota original.
Essa hipótese defendida por alguns historiadores de um conhecimento prévio do Brasil e de uma instrução secreta do rei dada a Cabral para desviar tanto para oeste a fim de que ele lá descobrisse “milagrosamente”, como escreveu ao rei da Espanha, as novas terras, ganha muito em credibilidade pela forma com que o cronista da frota, Pero Vaz de Caminha, relatou ao rei a descoberta do Brasil. Ele não manifesta nenhuma surpresa ou admiração de ter topado inesperadamente com terras novas, mas registra secamente o fato como algo muito natural. Da mesma forma, o segundo cronista, desconhecido, manifesta apenas “che ebbe grandíssimo piacere”. Nenhuma palavra do triunfo, nenhuma das suposições usuais entre Colombo e seus sucessores de que, com isso, se tivesse chegado à Ásia – nada mais do que a fria notícia que mais parece confirmar um fato conhecido do que anunciar um novo. Assim, a fama de Cabral de ter sido o primeiro a descobrir o Brasil – a qual já é colocada em dúvida pela chegada de Pinzon ao norte do Amazonas – pode vir a ser modificada com futuros documentos que vierem a ser achados. Enquanto nos falta esse documento, aquele dia 22 de abril de 1500 vigora como o ingresso dessa nova nação na História do Universo.

2 – Lotte & Zweig é o nome de um romance que o escritor Deonísio da Silva acabou de lançar (Leya, 128 páginas, R$ 39,90), reconstituindo os últimos meses de vida do autor e de sua esposa no Rio de Janeiro. Leia um trecho:

Vou me matar hoje. Aguardo apenas a noite chegar. A escuridão será a ponte entre o dia e a longa e misteriosa treva da qual tão pouco sabemos por evitar estudá-la, ainda que estudemos assuntos dos quais jamais trataremos.
A morte é mais certa do que o nascimento. os seres vagam potencialmente no universo, mas muitos não chegam a nascer. os que nacem, porém, morrem!
Sou um judeu austríaco que, vagando pelo mundo como folha ao vento ou nave ao lé, veio parar no Brasil, onde espera que enterrem seus ossos. A linda e jovem judia polonesa, minha segunda esposa, que dorme aqui no outro cômodo de nosso bangalô petropolitano, vai morrer também. Ela tem poucos amigos, de sua existência quase ninguém sabe nada. Por enquanto.
Meu nome é Stefan Zweig. Faz dois anos que moro no Brasil, depois de ter vivido em mutos lugares. O último deles foi Nova York, onde cheguei em 1941, vindo de Londres, onde estava exilado, como estive sempre nos últimos anos.
Nasci na Áustria. Meus pais, ricos e cultos, me deram boas escolas. Não apenas no meu país, mas também na França e na Alemanha. Tenho dois diplomas: de Filosofia e de Letras.
Sou amigo de gente fina, figuras solares deste mundo que ora despenca e mergulha na escuridão. Algumas dessas personalidades todos conhecem. Romain Rolland, Rainer Maria Rilke, Thomas Mann e Sigmund Freud. Deste último recebo cartas caudalosas, que deveriam me ajudar a viver melhor, pois, depois de Marx, é ele quem melhor entende o mundo de hoje.
Sou um dos escritores mais lidos do mundo, meus livros são apreciados por milhões de leitores em diversas línguas, minha fama alcançou o mundo inteiro.
Comecei minha vida literária com um livro de versos. É comum que os escritores publiquem seus livros na língua materna. Isso parece óbvio, vale para todo mundo, menos para nós, judeus, e para os exilados. Nós somos exilados eternos ou eternos exilados, como melhor aprouver. ninguém é mais exilado do que judeu, pois ninguém fica exilado a vida inteira. Nós nascemos e morremos exilados.

3 - Esta descobri na última hora, por meio de um comentário feito no Facebook pela jornalista Josélia Aguiar, titular do blog da Folha de S. Paulo Livros Etc…: No site, da Biblioteca Nacional de Israel, você pode ler a última carta de Stefan Zweig, justamente a mensagem de adeus que torna tão forte a hipótese de seu suicídio. O original da carta está em alemão manuscrito com a letra do escritor, enquanto o site oferece uma tradução para o inglês. Traduzo abaixo um trecho. Quem quiser ver a íntegra, está aqui:

Mas um homem começar tudo de novo após  60 anos de vida exige forças especiais, e minha própria força foi exaurida depois de anos vagando sem lar. Eu prefiro  assim, terminar minha vida no momento certo,  de pé, como um homem para quem o trabalho cultural sempre foi a sua mais pura felicidade e liberdade pessoal – o mais precioso dos bens desta terra.

O conto segundo H.P. Lovecraft:

19 de maio de 2011 0

Quanto a como eu escrevo um conto: não há um único modo. Cada um de meus contos tem uma história diferente. Uma ou duas vezes, eu literalmente relatei um sonho; mas usualmente eu começo com uma atmosfera ou uma ideia que gostaria de expressar, e a reviro em minha mente até que eu possa pensar em uma boa maneira de incorporá-la em alguma sequência de ocorrências dramáticas capaz de ser relatada em termos concretos. Costumo fazer uma lista mental das condições ou situações básicas melhor adaptáveis a essa atmosfera, ou ideia, ou imagem, e então começo a especular a respeito das explicações lógicas e naturais de uma certa atmofera ou ideia ou imagem nos termos das condições e situações básicas escolhidas.

O mestre do horror psicológico H.P. Lovecraft no ensaio Notas sobre a escrita de ficção de horror. O trecho acima foi traduzido meio na corrida por mim mesmo. O ensaio na íntegra pode ser lido, em inglês, aqui.


Dois olhares sobre as mulheres e o amor

13 de maio de 2011 0

Revisando algumas anotações antigas, encontro dois trechos diferentes de dois autores brasileiros falando sobre o mesmo tema e defendendo pontos de vista opostos sobre as expectativas de ambos os sexos sobre o amor — e no fim os dois podem estar certos, porque o ponto de vista é a realidade do que estamos vendo, não do objeto visto, e estará sempre certa dependendo do contexto…

Eu não tinha pensado nisso. Mas ela me fez pensar, nisso e em outras coisas. Comecei a refletir: “É por isso que as mulheres fazem de mim o que bem entendem: eu me apaixono por pessoas, pinturas, palavras, livros ou qualquer outra coisa e demoro demais a me desapaixonar. Elas vestem e despem suas paixões com a maior facilidade e de um minuto a outro. E tem mais: elas saem da paixão seguras e rebolantes, eu deixo pedaços de mim em cada paixão que termina e saio dela desorientado e inseguro como um bêbado”.
Isaías Pessotti, no romance Aqueles Cães Malditos de Arquelau

As mulheres, pensava eu enquanto caminhava pela rua escura, não sabiam amar como os homens. Nós, os homens, havíamos inventado o romantismo e o suicídio por amor, por elas tínhamos coragem de ser palhaços, assassinos, ladrões. Pensei nos suicidas que conhecia. Mas não havia nenhum homem, todos eram mulheres que por amor haviam cortado os pulsos, tomado barbitúrico, ateado fogo às vestes, pulado na frente do trem, pulado da janela, se enforcado no basculante, só mulheres. O único homem que lembrei foi o Werther. Esse não valia. As mulheres sabiam amar sim.
Rubem Fonseca, no conto  O Balão Fantasma, que abre o livro O Buraco na Parede.