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Lembrando Ulisses

02 de fevereiro de 2010 3

Já que estamos no dia 2 de fevereiro, data que marca não apenas o nascimento do escritor irlandês James Joyce (em 1882) como a publicação da primeira edição, em Paris, de sua obra Ulisses (editada pela lendária Sylvia Beach da mais lendária ainda Shakespeare & Co. depois de uma porrada de rejeições editoriais de outras “boas casas do ramo”), vai lá o trecho inicial do romance, na tradução mais recente para o português, de Bernardina da Silveira Pinheiro. Imagino que a maioria aí esteja ciente do que trata o livro, considerado a suprema obra do modernismo literário e o romance mais revolucionário do Século XX. Em uma linguagem que vai do cômico ao poético, com neologismos e monólogos que intercalam atos e pensamentos dos personagens, Joyce escreveu o épico moderno: 24 horas de um dia comum na vida
do judeu Leopold Bloom, um sujeito banal que atravessa a cidade de Dublin e encontra durante essa jornada com um jovem e atormentado poeta, Stephen Dedalus, de formação católica e ex-aluno de um seminário jesuíta. A tradução de Bernardina desmente, um pouco, a fama de ilegível do texto, recuperando alguns elementos de coloquialidade e humor presentes no original e deixando de lado a algo rebarbativa riqueza vocabular da versão de Antônio Houaiss. Divirtam-se:

Majestoso, o gorducho Buck Mulligan apareceu no topo da escada, trazendo na mão uma tigela com espuma sobre a qual repousavam, cruzados, um espelho e uma navalha de barba. Um penhoar amarelo, desamarrado, flutuando suavemente atrás dele no ar fresco da manhã. Ele ergueu a tigela e entoou:
– Introibo ad altare Dei.
Parado, ele perscrutou a escada sombria de caracol e gritou asperamente:
– Suba, Kinch! Suba, seu temível jesuíta!
Solenemente ele avançou para a plataforma de tiro. Olhou à volta e seriamente abençoou três vezes a torre, o terreno à volta e as montanhas que despertavam. Em seguida, avistando Stephen Dedalus, ele se inclinou em direção a ele e fez cruzes rápidas no ar, gorgolejando na garganta e sacudindo a cabeça. Contrariado e sonolento, Stephen Dedalus apoiou os braços no último degrau da escada e olhou friamente para o rosto sacolejante e gorgolejante que o abençoava, para a cabeça eqüina e os cabelos claros sem tonsura, tingidos e matizados como carvalho descorado.
Buck Mulligan espreitou por um instante por baixo do espelho e depois cobriu a tigela rapidamente.
– De volta pro quartel! – disse implacavelmente.
E acrescentou em tom sacerdotal:
– Pois isto, meus bem-amados, é a verdadeira cristina: corpo e alma e sangue e feridas. Música lenta, por favor. Fechem os olhos, senhores. Um momento. Um pequeno problema com esses corpúsculos brancos. Silêncio, todos.
Ele olhou de soslaio para cima e soltou um longo e lento assobio de chamada, depois fez por um momento uma pausa em atenção enlevada, com seus dentes iguais e brancos brilhando aqui e ali pontilhados de ouro. Crisóstomo. Dois fortes assobios estridentes responderam através da calma.
– Obrigado, meu velho – gritou vivamente. – Isto é o bastante. Desligue a corrente, está bem?
Saltou fora da plataforma de tiro e olhou seriamente para o seu observador, juntando em volta das pernas as dobras soltas de seu penhoar. A cara rechonchuda e sombria e a queixada oval e taciturna lembravam um prelado, patrono das artes na idade média. Um sorriso agradável desabrochou em seus lábios.
– A ironia das coisas! – disse ele alegremente. – Seu nome absurdo, um grego antigo!
Ele apontou com o dedo num gesto amigável e se encaminhou para o parapeito rindo consigo mesmo. Stephen Dedalus se aproximou, acompanhou-o e a meio caminho cansado se sentou na beira da plataforma de tiro, observando-o enquanto ele apoiava o espelho no parapeito, molhava o pincel na tigela e passava a espuma na face e no pescoço.
A voz alegre de Buck Mulligan prosseguia.
– Meu nome também é absurdo: Malachi Mulligan, dois dátilos. Mas soa helênico, não soa? Saltitante e radioso como o próprio cervo. Nós precisamos ir a Atenas. Você vem se eu conseguir que a tia me dê vinte libras?
Ele pôs o pincel de lado e, rindo com prazer, gritou:
– Será que ele vem? O jesuíta subnutrido!
Parando, ele começou a fazer a barba com cuidado.
– Diga-me, Mulligan – falou Stephen tranqüilamente.
– Sim, meu anjo?
– Quanto tempo Haines vai ficar nesta torre?
Buck Mulligan mostrou um rosto barbeado por cima do ombro direito.
– Meu Deus, ele não é horrível? – disse francamente. – Um saxão enfadonho. Ele não acha que você seja um cavalheiro. Meu Deus, esses malditos ingleses! Estourando de dinheiro e indigestão. Porque ele vem de Oxford. Você sabe, Dedalus, você tem o verdadeiro estilo de Oxford. Ele não consegue entender você. Ó, meu nome para você é o melhor: Kinch, a lâmina-de-faca.
Ele raspou cautelosamente o queixo.
– A noite inteira ele esbravejou em sonho a respeito de uma pantera negra – disse Stephen. – Onde é que está o estojo da arma dele?
– Um miserável lunático! – disse Mulligan. – Você ficou apavorado?
– Fiquei – Stephen disse energicamente e com um medo crescente. – Aqui no escuro com um homem que eu não conheço esbravejando e ameaçando aos gemidos atirar numa pantera negra. Você salvou homens de afogamento. Porém eu não sou um herói. Se ele ficar aqui eu estou fora.
Buck Mulligan franziu a testa ao olhar para a espuma em sua navalha. Ele saltou de seu poleiro e começou a dar apressadamente uma busca nos bolsos de sua calça.
– Droga! – bradou guturalmente.
Ele veio para a plataforma de tiro e, enfiando a mão no bolso superior de Stephen, disse:
– Faça-nos empréstimo de seu traponasal para limpar minha navalha.
Stephen suportou que ele puxasse para fora e exibisse erguido por uma das pontas um lenço amarrotado e sujo. Buck Mulligan limpou a lâmina da navalha cuidadosamente. Em seguida, lançando um olhar por cima do lenço, disse:
– O traponasal do bardo! Uma nova cor artística para os nossos poetas irlandeses: verdemeleca. A gente quase pode sentir o gosto, não é?