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Posts na categoria "Viagens"

Jornada (ao) interior

04 de dezembro de 2012 0

Carpinejar em aventuras pelo Interior. Foto: Adriana Franciosi, ZH

Durante o ano de 2011, o escritor, jornalista e poeta Fabrício Carpinejar dedicou-se a viajar pelo interior do Estado, levantando fatos pitorescos, inusitados, belos, poéticos e cômicos do que via nos municípios em que chegava. O resultado foi uma série de 52 semanas publicada em Zero Hora sob o título de Beleza Interior. A série, que rendeu fãs e desafetos ao autor gaúcho, sai agora em livro pela Arquipélago Editorial. Beleza Interior, a coletânea tem sessão de autógrafos marcada para esta quarta-feira, às 19h30min, na Livraria Cultura (Túlio de Rose, 80). Por e-mail, de São Paulo, Carpinejar concedeu a seguinte entrevista sobre os bastidores da série:

Zero Hora – Seu trajeto para a série não seguiu um traçado necessariamente geográfico, assemelhando-se mais a um ziguezague pelo Estado. Como era feita a escolha das cidades visitadas para a série? Você partiu de um plano com um número predeterminado e depois foi improvisando?
Fabrício Carpinejar
– Parti apenas de Caxias, minha cidade natal, e fui perseguindo histórias divertidas e personagens interessantes. Não havia um mapa traçado previamente. A série foi se fazendo semana a semana, a partir de sugestões de leitores e palpites de amigos. Houve o desejo de abraçar as regiões de modo igualitário. Vivi a adrenalina da aventura: de repente viajar e não achar nada de relevante. Corria o risco de errar. Era um jornalismo romântico, entrar nas cidades, conversar, descobrir se havia algo novo e peculiar, explorar os costumes e me infiltrar nos causos. A curiosidade foi minha bússola. se algo fugia do normal, me interessava. Como em Lagoa dos Três Cantos, uma padaria vendia 1, 6 mil cucas, o mesmo número dos habitantes da cidade?

ZH _ Qual a história da série que mais o marcou?
Carpinejar
– Felicidade, a última protagonista das reportagens, moradora de Livramento. Nunca imaginei que terminaria todo o longo roteiro com uma lavadeira que é pura alegria, de 106 anos, despachada, independente, morando sozinha. Ela é um tapa na cara da preguiça. Um exemplo de como superar as adversidades e não se acomodar na vitimização da velhice.

ZH _ Qual foi a descoberta mais surpreendente que você fez ao longo da série? Algo que não tinha a menor ideia e que encontrou durante as viagens?
Carpinejar
_ Os tipos humanos me comovem. O vendedor de rapadura de porta em porta que sustentou seis filhos na universidade, por exemplo, encarnando a teimosia generosa dos pequenos comerciantes. Tudo me fez crescer, me inspirou, errar o caminho significava desvendar novos pontos. Nossa coragem estava em fugir da cobertura tradicional do jornalismo, enfrentar o mistério e falar com locais que nunca saíram no jornal. Remontamos um On the Road pampiano. Viajei a Alecrim, mais de 400 km, sem saber o que tinha lá, somente pela sonoridade do nome. Localizei um inacreditável festival de canção de terceira idade, onde as pessoas envelhecem com gosto para poder subir ao palco. Fiquei com a impressão de que Beleza Interior nunca teria fim. De pergunta a pergunta, localizaria enredos fantásticos e sobrenaturais. O realismo mágico é monótono diante do Rio Grande do Sul.

ZH _ Em que cidade você viveu a situação mais estranha ou engraçada ao apurar o material?
Carpinejar
– Fui expulso de um salão de beleza em Alegrete, por tentar fazer as unhas. O Nauro Júnior (fotógrafo de Zero Hora) pode testemunhar a meu favor. A dona do espaço disse que não faria unha de homem, isso não cheirava bem. Eu respondi que iria cheirar igual a acetona. Ou quando uma moradora de Alpestre queria que eu depenasse uma galinha. Ou quando fiz concurso de estátua com o chefe da Polícia de Sério. Ou quando ganhei um coelho empalhado de presente de um dos entrevistados e terminei pego por uma blitz do exército contra tráfico de animais.

ZH _ Qual foi a cidade em que o trabalho foi mais difícil, que você demorou mais a encontrar o tom ou o aspecto que gostaria de retratar?
Carpinejar
– Nosso papel não era fazer turismo. Viajávamos – eu, o motorista e o fotógrafo da ZH – para resgatar um estado diferente do habitual, apresentar cidades fora de seus clichês. Evitamos os municípios que são conhecidos, como Gramado, Canela e Nova Petrópolis ou os muito próximos da capital como Canoas, Viamão e Alvorada. Enfrentei dificuldade ao desmistificar localidades, que esperavam o fácil elogio comercial e não entenderam a natureza literária do projeto.

ZH _ Neste mesmo ano você publicou uma coletânea em que convidada autores a escrever contos sobre cidades brasileiras de nomes sugestivos. Este projeto tem alguma relação ou inspiração com as viagens da série “Beleza Interior”?
Carpinejar
_ Houve uma convergência. A antologia Bem-Vindo (leia mais aqui), que reúne dez contistas abordando cidades de batismo poético, surgiu antes de Beleza Interior. Mas é um processo complementar. Mostrar o país a partir da imaginação de seus moradores.

ZH _ Há alguma cidade que, finda a série, você gostaria de ter ido mas não foi?
Carpinejar _
Nossa, haveria cancha para mais quatro séries, no mínimo. Escrevi sobre 52, mas fizemos vídeos de mais de 70 cidades. Uruguaiana é uma delas. Victor Graeff, outra. Bah, o mapa do estado está dobrado em minha mesa como se fosse minha camisa predileta.

O nonagenário Kerouac

12 de março de 2012 1

O escritor Jack Kerouac. Foto: L&PM, Divulgação

Apresentação do Autor

NOME: Jack Kerouac
NACIONALIDADE: Franco-americana
LOCAL DE NASCIMENTO: Lowell, Massachussetts
DATA DE NASCIMENTO: 12 de março de 1922
INSTRUÇÃO (escolas frequentadas, cursos especiais, diplomas e anos):
Escola de Lowell (Mass.); Escola Masculina Horace Mann; Universidade de Columbia (1940-1942); New School for Social Research (194-1949). Ciências Humanas, nenhum diploma (1936-1949) Ganhei um A de Mark van Doren em Inglês na Columbia (curso sobre Shakespeare). – Levei pau em Química na Colúmbia. – Tirei média 92 na Horace Mann (1939-1940). Joguei futebol americano no time principal da universidade. Também pratiquei atletismo, beisebol e xadrez.
CASADO: Não
FILHOS: Não
RESUMO DAS PRINCIPAIS OCUPAÇÕES E/OU EMPREGOS
Tudo. Especificando: auxiliar de cozinha e lavador de pratos em navios, empregado de posto de gasolina, limpador de convés, jornalista esportivo (Lowell Sun), guarda-freios ferroviário, condensador de roteiros da 20th Century Fox em Nova York,  balconista de lanchonete, funcionário nos pátios de manobras de estradas de ferro, também carregador de mala na estação ferroviária, apanhador de algodão, ajudante de empresa de mudanças, aprendiz de laminação de metal no Pentágono em 1942, vigia de incêndios florestais em 1956, operário da construção civil (1941).
FAÇA UM BREVE RESUMO DE SUA VIDA, POR FAVOR
(…) Meu primeiro romance formal foi
The Town and the City, escrito na tradição de trabalho longo e revisão, de 1946 a 1948, três anos, publicado pela Harcourt Brace em 1950. – Então descobri a prosa “espontânea” e escrevi, digamos, The Subterraneans em três noites – escrevi On The Road em três semanas –
Li e estudei sozinho a vida inteira. – Estabeleci o recorde de falta às aulas da faculdade de Columbia para ficar no meu quarto escrevendo uma peça diária e leondo, digamos, Louis Ferdinand Céline, em vez dos “clássicos” do curso.
Sempre tive minhas próprias ideias. — Sou conhecido como “vagabundo maluco e anjo” com uma “cabeça desnuda e inesgotável” de “prosa”. Também poeta, Mexico City Blues (Grove, 1959). — Sempre considerei escrever meu dever na Terra. E também pregar a bondade universal, que críticos histéricos não foram capazes de descobrir sob a frenética atividade de minhas histórias verídicas sobre a geração beat. — Na verdade, não sou um beat, mas sim um estranho e solitário católico, louco e místico…

A apresentação acima, parcialmente condensada, está inclusa no volume Cenas de Nova York e Outras Viagens, que a L&PM está publicando agora como parte de uma nova série da editora, a Coleção 64 páginas, livros de… bem, 64 páginas, nos quais são reunidos textos e contos de autores consagrados em um volume de bolso finito que custa cinco pilas. Os primeiros exemplares da coleção incluem seletas de contos de Edgar Allan Poe, Bukowski e Machado de Assis, as novelas O Diabo, de Leon Tolstói, e O Retrato, de Gógol, e até uma antologia de tirinhas da turma da Mônica. O centro do projeto é fazer livros curtos cujo preço possa ficar em cinco reais.

O volume de Jack Kerouac especificamente traz essa apresentação bastante pessoal, três narrativas de viagen retiradas do livro Viajante Solitário (que a L&PM também têm em catálogo na coleção Pocket) e o poema Rimbaud, que havia sido publicado originalmente na Revista 80, uma revista de cultura e ensaios que a L&PM pôs em circulação… bem, nos anos 80.

Hoje completam-se 90 anos, como vocês veem na data de nascimento do currículo acima, 90 anos do nascimento de Keroauc, um escritor cuja influência avassaladora gerou imitadores e seguidores passionais no último meio século – para o bem e para o mal, uma vez que a postura místico-beatnik-libertária se vale a pena como estilo de vida nem sempre resulta na melhor das literaturas. Kerouac, entretanto, mesmo em seus momentos mais vagabundos e menos iluminados, continua transbordando uma força e um vigor agressivo – melhores características de uma literatura que fazia da linguagem um processo ao mesmo tempo xamânico e musical. Literatura libertária que amava as amplidões e as máquinas velozes como atalhos entre os infinitos caminhos. Mesmo que tenha morrido como uma caricatura do avesso de sua brilhante juventude, Kerouac e seus livros dos anos mais férteis permanecem um chamado à paixão, à boemia e ao sentimento numa era em que as máquinas parecem ter virado o fio e limitado o horizonte.