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	<title>Mundo Livro</title>
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	<description>Literatura, livros e leituras, o livro lá fora, o fórum dos livros</description>
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		<title>Pepetela e o outro lado das coisas</title>
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		<pubDate>Fri, 25 May 2012 10:00:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos André Moreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Confrades de Língua Portuguesa]]></category>
		<category><![CDATA[Romance]]></category>
		<category><![CDATA[Romance Histórico]]></category>
		<category><![CDATA[A sul. O sombreiro]]></category>
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		<category><![CDATA[Jane Tutikian]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura angolana]]></category>
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		<description><![CDATA[Jane Tutikian escreve sobre "A Sul. O Sombreiro", novo romance do escritor angolano Pepetela.]]></description>
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<div id="attachment_2420" class="wp-caption aligncenter" style="width: 451px"><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/pepetelafoto.jpg" rel="lightbox[2418]"><img class="size-full wp-image-2420" src="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/pepetelafoto.jpg" alt="" width="441" height="640" /></a><p class="wp-caption-text">O escritor Pepetela. Foto: Sérgio Lima, Divulgação</p></div>
<p><span style="color: #ff0000"><strong>Pepetela </strong></span>situa-se entre os autores que trazem consigo a sina da procura da identidade nacional, o que se coloca já a partir da “cartilha” para guerrilheiros adultos,  <strong><em>As aventuras de Ngunga</em></strong>, (1972). É o autor quem diz : <em>"despojados que fomos da nossa História por séculos de obscurantismo, muitas vezes  nos  sonhando iguais aos outros, mas sempre temerosos da comparação, nada igualava as tradições da Europa a que tínhamos que ficar para sempre agradecidos porque  das trevas nos tirou, quando afinal as trevas vinham de lá..."</em></p>
<p>Pepetela nasceu numa região fronteiriça do reino de Benguela, onde terminava a cidade branca e começava o musseke, portanto produto, como sua própria cultura, da confluência da base africana com a influência euro-ocidental. É a partir desta posição que propõe, através de sua obra, a reescrita da história angolana, com a visão não apenas do ponto de vista da colonização, mas também daquelas populações que a viveram de fato. Trata-se da procura da identidade através da reunião dos elementos dispersos na memória coletiva. É como chegamos ao excelente livro que, agora, lança no Brasil, <strong><em><span style="color: #ff0000">A Sul. O Sombreiro</span></em></strong> (Editora Leya, 364 páginas, R$ 44,90), onde volta, com um diálogo forte, tenso, irônico entre a história e a ficção. É com extrema habilidade que o autor nos conduz  ao princípio da colonização angolana, aos séculos 16 e 17, período do domínio espanhol sobre as terras lusas, construindo a urdidura sobre duas personagens, uma histórica, <strong>Manuel Cerveira Pereira</strong>, administrador do império e conquistador de Benguela, e uma ficcional, <strong>Carlos Rocha</strong>, um negro livre, talvez descendente do navegador <span style="text-decoration: underline"><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Diogo_C%C3%A3o" target="_blank"><strong>Diogo Cão</strong></a></span>.</p>
<p>O primeiro, Pereira,  o legítimo representante da prepotência, da crueldade, da hipocrisia e da ganância do processo de colonização. Sabia como ninguém se movimentar entre conspirações e intrigas na corte, empolgando os reis com as grandes riquezas que lhes poderia oferecer, mas esquecendo-se de referir os lucros que teria com o comércio de escravos ou outros produtos. Na verdade, todos os colonizadores, inclusive os padres jesuítas e franciscanos, acobertados pela missão de converter as populações locais ao cristianismo, ambicionavam enriquecer rapidamente e sem grande trabalho.</p>
<p>O que poderia ser apenas um relato factual, ainda que interessante,  se enriquece com o cruzamento da história com o segundo personagem, <strong>Rocha</strong>, e nisso <strong>Pepetela </strong>é mestre. Esteticamente inquieto, o escritor brinca com a estrutura, no que diz respeito ao ponto de vista, o que está ligado à própria tradição oral africana, e na utilização de uma linguagem que transita  entre o Português e as línguas nacionais angolanas. É através do percurso de <strong>Carlos Rocha </strong>que a tradição emerge, quando, com o fiel <strong>Mulembe</strong> e um mosquete nas costas, abandona Luanda temendo que o pai, um alcoólatra que tudo perdera, o venda como escravo. É <strong>Carlos Rocha</strong>, " o negro branco", quem desvela, aos olhos do leitor, a paisagem africana e suas gentes, seus costumes, a rivalidade entre os reinos  <strong>Ndongo </strong>e <strong>Konga </strong>e os confrontos tribais e, é justamente numa tribo jaca, canibal, que ele encontra<strong> Kandalu</strong>,  a mulher a quem vem a amar e que o coloca  na divisa das diferenças culturais, seja pelo dote, um escravo a ser comido, seja pelo filho, que deveria ser morto no nascimento.</p>
<p>Uma figura que merece destaque é o aventureiro inglês <strong>Battell</strong>, exímio contador de histórias, que, ao voltar para a terra natal, escreve um livro de memórias. Da mesma forma, não há como ignorar o narrador que insiste em interromper a narrativa, para apresentar sua versão, crítica e irônica, da história que, então, se conta.<br />
 É como Pepetela se reafirma  em <em><strong>A Sul. O Sombreiro</strong></em>, como o maior romancista de <strong>Angola</strong> e da tradição angolana, revelando, com olhos críticos jogados no passado,  causas que nos podem iluminar o presente angolano e africano.</p>
<p><span style="color: #ff0000"><strong>Texto de Jane Tutikian, escritora e diretora do Instituto de Letras da UFRGS</strong></span></p>
<p><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/pepetela.jpg" rel="lightbox[2418]"><img class="aligncenter size-full wp-image-2419" src="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/pepetela.jpg" alt="" width="410" height="640" /></a></p>
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		<title>Arranjando mais trabalho</title>
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		<pubDate>Thu, 24 May 2012 14:56:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos André Moreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Autores Gaúchos]]></category>
		<category><![CDATA[Bairrismo? Conta Outra]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Leitura]]></category>
		<category><![CDATA[Resenhas]]></category>

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		<description><![CDATA[Vamos começar a partir da semana que vem uma nova série no Mundo Livro: uma resenha de um livro de contos a cada 15 dias]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[
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<div id="attachment_2416" class="wp-caption aligncenter" style="width: 478px"><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/leitura.jpg" rel="lightbox[2415]"><img class="size-full wp-image-2416 " src="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/leitura.jpg" alt="" width="468" height="640" /></a><p class="wp-caption-text">Obra &quot;Leitura&quot;, de Iberê Camargo</p></div>
<p>Estive em Erechim recentemente, para um encontro intitulado "Partilhando leituras", atendendo ao gentil convite dos organizadores, os professores <strong>Gerson Severo </strong>e <strong>Paulo Bittencourt</strong>, do campus local da<strong> Universidade Federal da Fronteira Sul </strong>(quem quiser ter um relato de como foi, <span style="text-decoration: underline"><a href="http://sinestesicosuffs.blogspot.com.br/2012/05/leituras-resenhas-e-porto-alegre.html" target="_blank">clique aqui, no blog do projeto, e leia um texto escrito por Andrei Vanin</a></span>). Uma das coisas que me foram perguntadas e sobre as quais falei durante a conversa é o critério que usamos para que um livro seja matéria no Segundo Caderno.</p>
<p>Ao responder, comentei que tentamos um equilíbrio entre o interesse jornalístico e o literário. Um livro que se torna um fenômeno precisa ser lido em algum momento. Um autor de reconhecida importância, nacional e internacional. E que, dada a ênfase que a Zero Hora dá ao cenário local, buscamos sempre, quando o espaço, o tempo, as circunstâncias assim permitem, falar de autores locais.  A ideia é achar um equilíbrio entre o autor estrangeiro publicado por editora blockbuster com mídia em massa e o escritor que está começando agora, não tem uma poderosa estrutura de divulgação e tem, portanto, menor possibilidade estatística de receber uma leitura pública em jornal ou revista. Porque a leitura é uma parte essencial do processo de um livro.</p>
<p>Voltei de Erechim com essa explicação na cabeça.  E me lembrei de um projeto que cheguei a acalentar há dois anos e que havia posto na geladeira por um tempo devido ao surgimento do <span style="text-decoration: underline"><a href="http://gauchaodeliteratura.wordpress.com/" target="_blank">Gaúchão de Literatura</a></span>, que no fundo tinha proposta semelhante.Acho que entusiasmado pela acohida recebida em Erechim, resolvi tirá-lo da gaveta.</p>
<p>Sabe quantos livros de contos são publicados a cada ano? Eu não sei, mas ajudei o <strong>Rodrigo Rosp</strong> e a <strong>Lu Thomé</strong> a fazer no levantamento prévio dos concorrentes do Gauchão no ano de 2010, e chegamos a uns 60 livros no período de dois anos  - provavelmente deixando passar uns quantos. É uma produção caudalosa que é impossível de acomodar em qualquer lugar, ainda mais no espaço restrito do jornal de papel. Ainda mais que o conto hoje é uma forma literária que passa provavelmente por uma saturação semelhante à que se seguiu ao boom dos grandes contistas dos anos 70 e 80. Muita coisa sendo produzida, etc.</p>
<p>Daí vou tentar dar minha contribuição pessoal aqui no blog. Com este post, anuncio que damos início à série <span style="color: #ff0000"><em><strong>"Bairrismo? Conta outra"</strong></em> </span>- o título é provisório. De 15 em 15 dias publicarei aqui neste espaço uma resenha detalhada de um livro de contos escrito por autor gaúcho de publicação recente.  Vamos às inevitáveis perguntas:</p>
<p><strong>Por que contos?</strong> pelos motivos explicitados anteriormente, contos não parecem ter tanto espaço quanto romances - inclusive no meu próprio trabalho, como percebi analisando o blog. Logo, vamos dar um espaço para essa contarada toda.</p>
<p><strong>Por que de 15 em 15 dias?</strong> Você leria um livro em menos tempo do que isso? Com certeza. Você leria um livro em menos tempo do que isso sem interromper todas as coisas que você precisa fazer numa jornada de oito horas de trabalho e ainda tendo que ler vários outros livros no processo tentando não perder sua vida nisso? Duvido.</p>
<p><strong>Por que no blog e não no jornal? </strong>No blog eu tenho mais espaço e depende só de mim.</p>
<p><strong>Quem é que vai ler isso? </strong>Não sei. Talvez só o autor do livro, talvez nem ele.  Talvez você que tenha curiosidade por saber o que anda sendo produzido.</p>
<p>Fiquem atentos então à semana que vem, quando publicarei a primeira resenha.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
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		<title>17 segundos que duram para sempre</title>
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		<pubDate>Tue, 22 May 2012 20:03:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos André Moreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Romance]]></category>
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		<category><![CDATA[Segundos Fora]]></category>

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		<description><![CDATA[O escritor argentino Martín Kohan fala sobre seu romance "Segundos Fora", que está ganhando edição no Brasil pela Companhia das Letras]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[
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<div id="attachment_2413" class="wp-caption aligncenter" style="width: 541px"><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/segundos.jpg" rel="lightbox[2389]"><img class="size-full wp-image-2413 " style="margin: 10px" src="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/segundos.jpg" alt="" width="531" height="432" /></a><p class="wp-caption-text">Firpo derruba o campeão Jack Dempsey. Pintura de George Bellows (1925)</p></div>
<p><span style="color: #ff0000"><em><strong>Segundos Fora</strong></em></span>, de <span style="color: #ff0000"><strong>Martín Kohan</strong></span>, que está sendo lançado no Brasil pela Companhia das Letras, é um romance de 250 páginas, ou seja, nada excepcional em termos de extensão. O que é fascinante nessa obra - que, embora esteja ganhando oportunidade só agora nas estantes nacionais, é anterior ao romance <strong><em>Ciências Morais</em></strong>, já lançado por aqui (leia texto aqui mesmo no blogue) - é como nessas páginas ele consegue harmonizar não uma, mas quatro histórias que por vezes parecem se desdobrar em quase uma dezena de livros e modos de narrar.</p>
<p>O eixo narrativo de Segundos Fora se desenvolve ao redor da reconstituição de um evento histórico real, a luta de boxe realizada em 1923 entre <strong>Luis Ángel Firpo</strong>, boxeador argentino conhecido como "O Touro dos Pampas", e o campeão mundial dos pesos-pesados, o americano <strong>Jack Dempsey</strong>. A luta tem um significado simbólico na história do esporte na Argentina semelhante às tragédias de 1950 e 1982 no futebol brasileiro, e por um motivo bem simples: Firpo esteve a 17 segundos de ser o novo campeão, depois que um de seus poderosos socos enviou Dempsey não à lona, mas para fora dela – o americano caiu do ringue, como na imagem que ilustra este post,  uma pintura do artista <strong>George Bellows</strong> (1882 – 1925) reconstituindo o episódio. Dado o inusitado do fato, o juiz perdeu a contagem automática que deveria ter sido iniciada com a queda do boxeador, e Dempsey teria ficado 17 segundos fora do ringue, não os 10 regulamentares do esporte. Ao voltar para a luta, Dempsey, que estava melhor na luta, nocauteou o adversário.</p>
<p><em><strong>Segundos Fora </strong></em>tem exatamente 17 capítulos - o equivalente ao tempo que Dempsey teria ficado fora do ringue. Em cada um desses capítulos, a narrativa salta entre diversos pontos de vista: o do atordoado Jack, caindo segundo a segundo; o do árbitro, que, perdido nos próprios pensamentos, deixa escapar o momento da contagem; o do fotógrafo atingido pela queda do campeão. Outro plano narrativo se desenvolve cinquenta anos depois do fato, em um jornal da Patagônia no qual dois repórteres estão trabalhando para uma edição especial de aniversário do periódico, recuperando um evento notável de cada área ocorrido cinquenta anos. O setorista de artes, Ledesma, reconstitui a passagem por Buenos Aires em 1923 de Strauss, para reger um programa em que se prevê uma sinfonia de <strong>Mahler</strong>. A Verani, o homem dos esportes, cabe a histórica luta. E nos jornais do período, ambos e o colega de jornal Roque, o narrador, encontram os indícios de uma morte misteriosa ocorrida na mesma noite da luta, cinquanta anos antes. Outra fatia narrativa ainda lança a história para o nosso tempo, passados anos da época em que Verani e Ledesma, em diálogos hilários, discutem sobre as diferenças entre suas respectivas áreas: Ledesma tentando a todo custo inculcar no aparentemente simplório Verani o gosto pela música clássica – e aqui temos outra camada: digressões musicais-biográficas sobre Mahler e sua amizade com Strauss. .</p>
<p>Por e-mail, <strong>Martín Kohan</strong> concedeu a entrevista que vocês podem agora ler na íntegra aqui no blog:</p>
<p><strong>Zero Hora – <em>Segundos Fora</em> parece referir-se a um tema também presente em seus livros anteriores <em>Duas Vezes Junho </em>e <em>Ciências Morais</em>: a reconstrução de momentos simbólicos da Argentina (a Copa do Mundo, uma escola de elite, uma luta lendária). É seu propósito investigar a mitologia que a Argentina construiu a respeito de si mesma?<br />
 Martín Kohan – </strong>Os mitos me interessam porque são cristalizações de sentido. E porque neles, ainda que exista uma base empírica, a dimensão puramente imaginária prevalece sobre a dimensão estritamente real. Nesse sentido eu os acho particularmente estimulantes para a literatura. Os mitos nacionais me interessam duplamente, porque agregam a tudo isso uma instrumentação pelo Estado que lhes dá função política. Interessa-me escrever na contramão, tratando de revisar e reverter tudo isso: fazer os sentidos estabelecidos chocarem-se com uma outra ordem de significado que começa a produzir o romance.</p>
<p> <strong>ZH – O romance se ocupa de um episódio real: o boxeador nacional Juan-Ángel Firpo poderia ter obtido o título mundial se não fosse dado ao oponente um tempo irregular para a volta ao ringus. É sua maneira de abordar também um sentimento não apenas argentino mas também latino-americano de ser sempre vítima de injustiça ou trapaça?<br />
 Kohan –</strong> Isso é parte dessa mitologia de que falávamos. Uma maneira de ser, ou seja, de nos imaginarmos. Por exemplo, nos imaginamos destinados a um futuro de grandeza. E quando essa grandeza é frustrada, vem a necessidade de ativar a imaginação do espólio, ou ainda das conspirações dedicadas a frear ou frustrar o que deveria ser potência e grandeza. O esporte habitualmente condensa e expressa muitos desses mecanismos de imaginação coletiva nacional. A luta entre <strong>Dempsey</strong> e<strong> Firpo</strong>, e mas precisamente os 17 segundos que Dempsey passa caído fora do ring funcionam exatamente assim. Por isso os elegi como coluna vertebral do romance. </p>
<p> <strong>ZH – Seu romance é um livro múltiplo. Apesar de relativamente curto, fala sobre boxe, Mahler, o passado tumultuado da Argentina, narra eventos separados entre si por 50 anos e também cria grandes diálogos entre dois personagens centrais. Foi para dar conta dessa multiplicidade que o senhor escolheu uma estrutura fragmentada de narrativa?<br />
 Kohan –</strong> Decidi que aquela história deveria ser escrita em épocas diferentes e com diferentes perspectivas. Em vez do relato linear e ordenado das histórias totais, pensei em uma história desmontada, no sentido em que se desmonta um quebra-cabeças, que tem de ser reconstituído. Por isso se sobrepõem na história diversos tipos de investigação: histórica, jornalística, policial, como tentativas para remontar um enredo e um significado que tivessem sido feitos em pedaços.<br />
 <strong><br />
 ZH – O senhor também inclui uma trama que parece saída de um romance policial: a morte misteriosa de um homem em um hotel em 1923 e as investigações de dois jornalistas sobre o caso, décadas mais tarde. Essa foi sua maneira de abordar, ainda que obliquamente, a "busca por culpados" da qual a sociedade argentina tem se ocupado nos últimos anos?<br />
 Kohan –</strong> Não pensei a questão criminal do romance em relação aos temas políticos dos últimos anos. Eu a pensei em outra direção: o contraste de um mundo refinado e contido, o da música clássica, com o mundo da violência popular transformada em espetáculo, que é o caso do boxe. No meio, um assassinato. Sobre qual lado recairão as suspeitas? Onde deve se encontrar o culpado?<br />
 <strong><br />
 ZH – Seu livro fala de música e boxe, duas formas de arte, uma dedicada à beleza e outra à violência. Misturar ambas no romance é uma indicação de o senhor vê um pouco de uma na outra?<br />
 Kohan –</strong> Às vezes vejo essos mundos mesclados, contaminando-se, comunicando-se. Mas outras vezes eu os vejo em uma oposição inconcilável: o mundo da assim chamada alta cultura só percebe ferocidade na cultura popular, e o mundo popular só encontra exclusão e elitismo no mundo da alta cultura. Escrevi <em><strong>Segundos Fora</strong></em> a partir da premissa da incomunicabilidade, através desses dois personagens, Ledesma e Verani, tentando se entender e entrar em acordo. Mas que no fim falam sem se escutar ou se ouvem sem se entender. <br />
 <strong><br />
 ZH – Pela perspectiva do leitor, parece que o senhor se divertiu muito ao escrever os diálogos entre Ledesma e Verani, que chegam a ter autonomía dentro de la narrativa. Quando elaborou o plano do livro já tinha tal circunstância em mente ou os diálogos foram ganhando terreno na estrutura à medida que escrevia?<br />
 Kohan –</strong> Eles faziam parte de um plano prévio, como quase tudo que escrevo. E isso pela questão de que falávamos antes: a hipótese de que diferentes culturas "diálogam" ou que os diferentes mundos culturais "conversam". Determinei que uma parte do romance se converteria essa metáfora em uma cena literal: um diálogo verdadeiro, onde a sedução é verdadeira, a tensão é verdadeira, o mal-entendido é literalmente um mal-entendido.<br />
 <strong><br />
 ZH – O livro inclui uma descrição detalhada da queda de Jack Dempsey e salta entre vários pontos de vista: o do boxeador caído, o do fotógrafo e do juiz que testemunham a queda. Também há uma detalha reconstrução da vida de Mahler e sua amizade com Richard Strauss. Qual o retalho foi o mais difícil de agregar a essa cortina?<br />
 Kohan –</strong> Cada parte teve para mim sua dificuldade e seus atrativos. E associo dificuldade com atrativo, diria até que os uno. Porque me interessa a literatura que apresenta desafios ao leitor.</p>
<p><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/segundosfora.jpg" rel="lightbox[2389]"><img class="aligncenter size-full wp-image-2414" src="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/segundosfora.jpg" alt="" width="427" height="640" /></a></p>
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		<title>A enganosa simplicidade de Dalton Trevisan</title>
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		<pubDate>Mon, 21 May 2012 16:17:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos André Moreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Nacional]]></category>
		<category><![CDATA[Dalton Trevisan]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Prêmio Camões]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma resenha antiga de um livro de contos de Dalton Trevisan, ganhador do Prêmio Camões de 2012]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[
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<p>O <strong>Prêmio Camões de Literatura </strong>é concedido anualmente desde 1989 a um escritor considerado luminar da literatura em português – seja português, brasileiro, angolano, moçambicano, cabo-verdiano... Já foi concedido ao longo desses mais de 20 anos a nomes como<strong> José Saramago, João Cabral de Melo Neto, Rubem Fonseca, Lobo Antunes, Ferreira Gullar, Eduardo Lourenço</strong>. A 24ª edição do Prêmio, em 2012, foi anunciada hoje para o mestre contista paranaense <span style="color: #ff0000"><strong>Dalton Trevisan</strong></span> (<a href="http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-lazer/segundo-caderno/noticia/2012/05/dalton-trevisan-vence-o-premio-camoes-2012-3765013.html" target="_blank">leia mais aqui</a>), que vai receber pela distinção a bolada de 100 mil euros. O presidente do júri, o brasileiro <strong>Silviano Santiago</strong>, disse que a comissão resolveu conceder o prêmio a Dalton Trevisan por unanimindade.</p>
<p>Imagino que você saiba quem é o <strong>Dalton Trevisan</strong>. Imagino que você deveria saber, ao menos, mas se não sabe, qualquer pretexto para visitar a obra do homem é válido. Há várias edições recentes de seus livros mais marcantes, tanto pela Record quanto pela L&amp;PM, e ele de tempos em tempos despacha uma obra nova lá de seu recanto sombrio em Curitiba, de onde só sai para passeios discretos e onde não permite que sua intimidade seja devassada.</p>
<p>Como <strong>Dalton Trevisan</strong> tem um estilo particular que ele cultiva como uma obsessão, qualquer livro pode ser um bom ponto de entrada para seu universo artístico. Por isso, aproveitando a concessão do prêmio, vou republicar aqui uma resenha escrita pelo jornalista <strong>Leandro Sarmatz </strong>para o livro <span style="color: #ff0000"><em><strong>234</strong></em></span> em <strong>1997</strong>. É uma oportunidade também de variar o estilo desse blogue de quase-um-só.</p>
<p><span style="color: #0000ff"><span style="font-size: medium"><strong>Mão torta, olho vesgo, coração danado</strong></span></span><br />
 <strong>Texto de Leandro Sarmatz</strong></p>
<p><em><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/234.jpg" rel="lightbox[2410]"><img class="alignleft size-full wp-image-2411" style="margin: 10px" src="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/234.jpg" alt="" width="200" height="309" /></a>Joãozinho mata Maria — uma corruíra de sangue cantando no jardim. Pega um porrete e bate bem forte. Depois bebe, o cachacinha. Bebe e toca viola. Maria estrebucha bonitinha, a poça vermelha indo parar no ralo. João olha pra baixo. Quase nem sinal de vida da coitada. Tava grávida. Sofria dos nervos. Morreu suspirando: "Ai, que surra bem gostosa!".</em></p>
<p>O parágrafo acima é uma imitação fuleira das ministórias do curitibano<strong> Dalton Trevisan</strong>, que está lançando mais uma daquelas reuniões de contos e haicais crudelíssimos, o conciso <em><strong>234 </strong></em>(que é o número de histórias no livro). A arte de <strong>Dalton Trevisan</strong>, com o passar dos anos cada vez mais osso, a cada livro mais seca, menos rebarbativa, parece estarrecedoramente simples. Igualmente fácil (e ilusório) parece pegar emprestado seus tiques - os diminutivos, o clima trágico de bolero paranaense, a violência conjugal. Engano. Como <strong>Tchékhov</strong>, como <strong>Beckett</strong>, como o <strong>Kafka</strong> de <em><strong>Contemplação</strong></em>,<strong> Dalton Trevisan</strong> ilude o leitor com a sua difícil facilidade.</p>
<p>E olha que neste <em><strong>234 </strong></em>o homem até fornece umas pistas para a compreensão de sua obra. A poética enxuta vem em forma de <em>haicai daltontrevisaniano</em> (!): "<em>O melhor conto você escreve com tua mão torta, teu olho vesgo, teu coração danado</em>". Então é isso, pensa reconfortado o leitor do <strong>Vampiro de Curitiba</strong>. Agora tá fácil de manjar: DêTê escreve como quem tá morrendo, com a precariedade do bilhete de suicida. Será? Não será? O certo é que <em><strong>234</strong></em> radicaliza a empresa iniciada em <em><strong>Ah, É?</strong></em> e <strong><em>Dinorá</em></strong>, os dois últimos livros de <strong>Dalton</strong> (ambos de 1994) - estão lá os amantes torturados, os velhotes safados, as menininhas vorazes. Mas estão lá também a crítica a moderna Curitiba ("Pode vir alguma coisa boa de Curitiba?", pergunta) e a obsessão dos últimos livros: o tema da traição de Capitu em Dom Casmurro.</p>
<p>Algumas das histórias de <em><strong>234 </strong></em>podem ser lidas em seqüência, como um quase interminável conto cruel desfiado a cada página. Um puzzle. Fragmentadas, lidas ao acaso, as histórias quase fornecem argumento para aqueles que acham <strong>Dalton Trevisan </strong>um artista da fome, tributário de uma estética mínimalista. Não é. Que culpa ele tem de ter conseguido chegar no essencial? Não o "essencial" de <strong>Rubem Fonseca</strong>, por exemplo, em que a violência descrita com minúcia acaba tomando uma feição barroca, graças aos inúmeros detalhes biológicos que aparecem. O essencial de Dalton é mais exato: a linguagem não enfeita nem o gol de placa que é a história de um verdadeiro Jó brasileiro, logo nos primeiros contos do livro. "O Senhor conhece um tipo azarado?", começa o sofredor a relatar. Esqueça a piedade, o coitadismo nacional. Não há um pingo de tinta de impressão gasto em capitulação. É cruel, sim. Mas sem alarde.</p>
<p><em><strong>234 </strong></em>também tem alguns poemas de DêTÊ. É drummondiano, o<strong> Drummond </strong>pornô, menor, de <em><strong>O Amor Natural</strong></em>. Tem ecos rilkeanos. Um exemplo: "<em>Botão de rosa / ó pura contradição / volúpia de ser o beijo de ninguém / sob tantos lábios</em>". Dalton só parece cansativo quando se presta a deplorar o atual estado de coisas de sua Curitiba natal. Parece babar a própria bile, o que é incomum em se tratando de um autor que, à <strong>Flaubert,</strong> parece querer pairar absoluto e invisível sobre a obra. Nos contos ele consegue. Nas próximas obras, se continuar aparando as arestas de sua literatura, <strong>Dalton Trevisan </strong>vai escrever um livro de umas poucas palavras. Vai desconcertar meio mundo. Poucos, aliás pouquíssimos, conseguem ler um bilhete de suicida impunemente.</p>
<p><strong>Um conto do livro <em>234</em>:</strong></p>
<p>"<em>Bebedeira e ruindade, João expulsa de casa a família. Ao chegar doidão do boteco, atropela mulher e filhos. Mata um por um se não fugirem. Sempre de faquinha na cinta. Vive em guerra, ninguém sabe por quê. Estavam na cozinha comendo pinhão. Mais o Tito, dia de quebrarem milho na roça. Ele entra de faquinha na mão. Veio matar toda a família. Correm para fora a mulher e as crianças. Ele encara feio o vizinho e ameaça dar um talho. O outro saca o facão: 'Epa, diabo. Não me conhece'."</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Em poder das Farc</title>
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		<pubDate>Fri, 04 May 2012 21:21:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Larissa Roso</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[memória]]></category>
		<category><![CDATA[Colômbia]]></category>
		<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
		<category><![CDATA[Farc]]></category>
		<category><![CDATA[História contemporânea]]></category>
		<category><![CDATA[Ingrid Betancourt]]></category>
		<category><![CDATA[Memórias]]></category>
		<category><![CDATA[Mundo contemporâneo]]></category>
		<category><![CDATA[Não Há Silêncio que Não Termine]]></category>
		<category><![CDATA[Política internacional]]></category>

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		<description><![CDATA[Caso do jornalista francês Roméo Langlois faz lembrar cativeiro que Ingrid Betancourt narrou em livro]]></description>
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<p><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/silencio.jpg" rel="lightbox[2407]"><img class="aligncenter size-full wp-image-2408" src="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/silencio.jpg" alt="" width="299" height="448" /></a>Desaparecido em 28 de abril, na Colômbia, enquanto trabalhava na cobertura de uma operação do Exército contra o narcotráfico, o jornalista francês <strong>Roméo Langlois</strong> está, provavelmente, em poder das <strong>Forças Revolucionárias Armadas da Colômbia (Farc)</strong>. Repórter do canal de televisão France 24 e do jornal <strong>Le Figaro</strong>, Langlois, se a forte suspeita se confirmar, é o nome que interrompe a breve trégua dos guerrilheiros, que haviam manifestado recentemente a intenção de não mais manter civis em cativeiro.</p>
<p>Todo episódio envolvendo reféns das <strong>Farc</strong> faz lembrar o tormento de<span style="color: #ff0000"><strong> Ingrid Betancourt</strong></span>, figura controversa que se tornou a face mais conhecida do drama de quem é encarcerado na selva. Libertada em 2008, a ex-deputada e ex-senadora que, à época de sua captura, concorria à presidência da república tem evitado entrevistas. <span style="color: #ff0000"><em><strong>Não Há Silêncio que Não Termine – Meus Anos de Cativeiro na Selva Colombiana</strong></em></span> (Tradução de Antonio Carlos Viana, Rosa Freire D'Aguiar, Dorothée de Bruchard e José Rubens Siqueira. Companhia das Letras, 560 páginas, R$ 46), publicado no Brasil em 2010, é um relato pungente sobre os seis anos passados – perdidos, para ser mais exata – em acampamentos precários no meio do mato. É também um dos livros mais tocantes que já li, num período especialmente difícil que enfrentava. Tenho certeza de que vai estar para sempre entre os meus títulos preferidos.</p>
<p>A seguir, um trecho das memórias de <strong>Ingrid</strong>. <em><strong>Não Há Silêncio que Não Termine </strong></em>começa assim:</p>
<p><em>Tomei a decisão de fugir. Era minha quarta tentativa, mas depois da última vez as condições de detenção tinham se tornado ainda mais terríveis. Eles haviam nos instalado numa jaula construída com tábuas de madeira e folhas de zinco à guisa de telhado. O verão estava chegando, fazia mais de um mês que não tínhamos tempestades à noite. Ora, uma tempestade era indispensável para nós. Eu localizara uma tábua meio podre num canto de nosso cubículo. Empurrando-a fortemente com o pé, consegui rachá-la o suficiente para criar uma abertura. Fiz isso numa tarde, depois do almoço, enquanto o guarda cochilava em pé, equilibrado sobre seu fuzil. O barulho o assustou. Ele se aproximou, nervoso, e deu a volta na jaula devagar, como um animal selvagem. Eu o acompanhava pelas fendas que separavam as tábuas, prendendo a respiração. Ele não conseguia me ver. Parou duas vezes, chegando a grudar o olho num buraco, e por um instante nossos olhares se cruzaram. Deu um pulo para trás, assustado. Depois, para disfarçar, plantou-se bem na entrada da jaula; estava indo à forra, pois não tirava mais os olhos de mim</em>."</p>
<div id="attachment_2409" class="wp-caption aligncenter" style="width: 324px"><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/ingrid.jpg" rel="lightbox[2407]"><img class="size-full wp-image-2409" src="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/ingrid.jpg" alt="" width="314" height="448" /></a><p class="wp-caption-text">Ingrid Betancourt libertada após seis anos na Selva. Foto: Fernando Vergara, AFP</p></div>
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		<title>Deve ter no sebo...</title>
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		<pubDate>Fri, 04 May 2012 08:00:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos André Moreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[mercado editorial]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Mercado livreiro]]></category>
		<category><![CDATA[Momento Sebo]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>

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		<description><![CDATA[Fomos aos sebos da cidade para ver se encontrávamos algumas encomendas especiais. De quebra, traçamos o perfil dos sebos na atualidade na Capital]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[
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<div id="attachment_2402" class="wp-caption aligncenter" style="width: 555px"><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/traca.jpg" rel="lightbox[2401]"><img class="size-full wp-image-2402" style="margin: 10px" src="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/traca.jpg" alt="Interior da Livraria Traça, na Osvaldo. Foto: Bruno Alencastro" width="545" height="361" /></a><p class="wp-caption-text">Interior da Livraria Traça, na Osvaldo. Foto: Bruno Alencastro</p></div>
<p>Desde muito cedo Porto Alegre formou a cultura de uma cidade ligada a seus sebos. Um dos maiores intelectuais do Estado, <strong>Sérgio da Costa Franco</strong>, recorda que desde sua juventude nos anos 1940 a cidade tinha sebos notáveis bastante frequentados:</p>
<p>– Desde aquela época havia sebos de destaque na cidade. Na duque com Marechal Floriano tinha a Livraria Liceu. Tinha outro também mais abaixo, descendo a marechal Floriano, entre a hoje Salgado e a Riachuelo. O Pedro Garcia, escritor, tinha uma livraria ali – relembra.</p>
<p>Franco argumenta que um dos motivos para a proliferação de sebos na cidade é seu caráter de centro universitário.</p>
<p>– O Sebo existe principalmente nas cidades em que há universidade. É a loja de livro velho que fazia as obras circularem. O estudante comprava barato o livro que outro estudante que já havia usado havia vendido. – comenta Franco, ele próprio um antigo frequentador de sebos, hábito que foi abandonando pela falta de espaço em suas estantes para mais livros.</p>
<p>Porto Alegre é uma cidade de sebos – ou seja, com alternativas para o leitor recuperar as obras que o mercado deixou cair no esquecimento pela ausência de reedições. Nem a <strong>Câmara Rio-Grandense do Livro </strong>tem um número oficial de quantas lojas de livros usados existem, mas os próprios livreiros arriscam umas 25. Também não há uma associação específica, não por falta de tentativas:</p>
<p>– Já se tentou fundar uma, mas a ideia nunca vingou. Acho que livreiro é meio desunido – comenta<strong> Ivo Alberto Almansa</strong>, proprietário desde 1980 da <strong>Martins Livreiro</strong> da Rua da Praia.</p>
<div id="attachment_2403" class="wp-caption aligncenter" style="width: 555px"><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/abaco.jpg" rel="lightbox[2401]"><img class="size-full wp-image-2403 " src="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/abaco.jpg" alt="" width="545" height="361" /></a><p class="wp-caption-text">Vitrine da Ábaco Livros. Bruno Alencastro: ZH</p></div>
<p>Uma característica dos sebos é que, diferentemente das pequenas livrarias, a internet serve hoje mais como aliada do que ameça. Enquanto as pequenas livrarias lutam e se diversificam para resistir à grande concorrência exercida pelas redes gigantescas de megalivrarias e seus sites com descontos muitas vezes difíceis de igualar, os sebos se congregaram em redes virtuais que abriram novas possibilidades aos comerciantes e aos leitores. A principal delas é a Estante Virtual (<a href="http://www.estantevirtual.com.br" target="_blank">www.estantevirtual.com.br</a>), seguida pela mais recente Livronauta (<a href="http://www.livronauta.com.br" target="_blank">www.livronauta.com.br</a>). Embora tais redes não incluam o acervo integral de seus associados, elas facilitaram e ampliaram o contato entre quem vende e quem quer comprar. Isso mudou inevitavelmente o perfil do consumidor em sebos.</p>
<p>– Nós perdemos aquele "cliente" regular que vinha ao sebo pesquisar uma compra ou encomendar. Mas ao mesmo tempo, vendemos cada vez mais para fora de Porto Alegre: tanto para o interior do Estado quanto para alguém lá no Nordeste que está procurando um livro e achou na rede virtual – comenta o dono da <strong>Mosaico</strong>,<strong> Guilherme Matzenbacher</strong>, que continua: – imagino que no futuro será engraçado pesquisar acervos e bibliotecas ou mesmo os próprios sebos. Se antes em sebos se achavam muitos exemplares com carimbo de livrarias daqui, do Interior, de Santa Maria, de Novo Hamburgo, vai se encontrar lá em Fortaleza bibliotecas com bom número de livros comprados no Rio Grande do Sul.</p>
<p>A nova realidade virtual não deixa de representar um desafio e um enigma. Como muito do contato com o leitor não se dá mais na loja, as próprias livrarias têm de descobrir meios de cativar o leitor além do preço.</p>
<p>– Meus conhecimentos de 35 anos de balcão de livraria não valem muito nesse universo novo – reconhece Almansa.<br />
 Às vezes cabe ao livreiro ser mais do que um atendente, ser o próprio pesquisador do cliente.</p>
<p>– Várias vezes faço isso: o cliente me liga e diz: me procura um livro tal, por favor – comenta <strong>Letícia Cartell</strong>, da <strong>Sapere Aude</strong>.</p>
<div id="attachment_2404" class="wp-caption aligncenter" style="width: 555px"><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/sapere.jpg" rel="lightbox[2401]"><img class="size-full wp-image-2404   " src="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/sapere.jpg" alt="" width="545" height="361" /></a><p class="wp-caption-text">Interior da Sapere Aude. Foto de Bruno Alencastro</p></div>
<p>Sabendo que os sebos de Porto Alegre ganham pontos pelo caráter afetivo, fizemos para a edição especial de aniversário da Zero Hora um <strong>Segundo Caderno </strong>editado por <strong>Jorge Furtado</strong>. Pedimos a quatro intelectuais que sugerissem livros que vinham procurando há algum tempo, sem sucesso. Munidos da lista, percorremos 15 sebos da cidade – os maiores ou mais tradicionais. O resultado de nossos dois dias percorrendo sebo no método tradicional do pé no chão (deixamos as pesquisas virtuais para depois de uma recorrida aos sebos tradicionais) foi o seguinte:</p>
<p> <strong>* <em>As Confissões de Nat Turner</em>, de William Styron – sugestão de Tabajara Ruas. </strong><br />
 Romance sobre uma rebelião de escravos, escrito pelo mesmo autor de <em><strong>A Escolha de Sofia</strong></em>. Foi o de percurso mais fácil. Fazendo o circuito dos sebos a pé, encontramos exemplares em cinco sebos:<br />
 <strong>– Traça</strong> (Osvaldo Aranha, 966, Bom Fim): <strong>dois exemplares</strong>, um da edição da Expressão e Cultura, de 1968, com tradução de Vera Neves Pedroso, a R$ 15, e uma reedição da mesma tradução pela Rocco, de 1985, a R$ 12.<br />
 <strong>– Sapere Aude</strong> (Lopo Gonçalves, 33): <strong>um exemplar </strong>da edição de 1985, da Rocco, a R$ 8.<br />
 <strong>– Rino/Nova Roma</strong> (General Câmara, 428): <strong>um exemplar</strong> da edição de 1968 da Expressão e Cultura a R$ 10.<br />
 <strong>– Beco dos Livros da Rua da Praia</strong> (Andradas) – <strong>três exemplares: </strong>um da edição de 1968 da Expressão e Cultura a R$ 17,20; um da edição de Rocco, de 1985, a R$ 9 e um exemplar de uma terceira edição, pela portuguesa Distri Editora, também de 1985, traduzida por Inês Bussi, a R$ 5.<br />
 <strong>– Beco dos Livros da Riachuelo</strong> (Riachuelo, 1496) – <strong>Um exemplar </strong>da edição de 1968, a R$ 10.<br />
 <strong><br />
 * <em>Guerra em Surdina</em>, de Boris Schnaiderman – sugestão de Tabajara Ruas.</strong><br />
 Um texto sobre a experiência do autor como combatente da FEB na II Guerra Mundial, mas a batalha para encontrá-lo também não chegou a ser extremamente árdua. Havia exemplares em quatro sebos:<br />
 <strong>– Ladeira Livros </strong>(General Câmara, 385): <strong>um exemplar</strong> da edição mais recente, de 2004, da Cosac Naify, a R$ 30.<br />
 –<strong> Ábaco Livros</strong> (Osvaldo Aranha, 426): <strong>dois exemplares</strong> da 3ª edição pela Brasiliense, de 1995, a R$ 10 cada um.<br />
 <strong>– Ventura Livros</strong> (Fernandes Vieira, 627, loja 2): <strong>um exemplar </strong>da mesma edição da Brasiliense a R$ 10.<br />
 <strong>– Livraria Erico Verissimo </strong>(Jerônimo Coelho, 377): <strong>um exemplar </strong>de uma edição da Brasiliense de 1985, a R$ 15.</p>
<p> <strong><em>* Trainspotting</em>, de Irvine Welsh – sugestão de Daniel Galera<br />
 </strong>A tradução de um livro cult feita pelo próprio Galera e por Daniel Pellizzari esgotou sem que houvesse reedição. É um livro difícil, de acordo com os próprios livreiros. na nossa peregrinação, só achamos um:<br />
 <strong>– Ponto dos Livros</strong> (Venâncio Aires, 449, loja 6): <strong>um exemplar</strong> a R$ 30, já reservado.<br />
 – Havia também um exemplar em alemão na<strong> Ladeira Livros</strong>, a R$ 18.</p>
<div id="attachment_2405" class="wp-caption aligncenter" style="width: 555px"><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/pontodoslivros.jpg" rel="lightbox[2401]"><img class="size-full wp-image-2405" src="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/pontodoslivros.jpg" alt="" width="545" height="361" /></a><p class="wp-caption-text">Interior da Ponto dos Livros. Foto de Bruno Alencastro</p></div>
<p>Os demais livros, <em><strong>A Queda do Anjo</strong></em>, de<strong> Yukio Mishima</strong>, sugestão de Galera; <em><strong>Hospício é Deus</strong></em> e<em><strong> O Sofredor do Ver</strong></em>, ambos de<strong> Maura Lopes Cançado</strong>, sugestão de <strong>Manoela Sawitzki</strong>; e <em><strong>História da Música Ocidental</strong></em>, de Jean &amp; Brigitte Massin, e <em><strong>Beethoven: um compêndio</strong></em>, sugestão de<strong> Celso Loureiro Chaves</strong>, não foram encontrados. A pesquisa de Zero Hora se estendeu aos seguintes sebos, que você já pode anotar para pôr na agenda:</p>
<p><strong>– Ábaco Livros</strong> (Osvaldo Aranha, 426)<br />
 <strong>– Beco dos Livros </strong>da Rua da Praia (Andradas)<br />
 <strong>– Beco dos Livros da Riachuelo</strong> (Riachuelo, 1496)<br />
 <strong>– Beco dos Livros da Rua da Ladeira </strong>(General Câmara, 409)<br />
 <strong>– Erico Verissimo </strong>(Jerônimo Coelho, 377) <br />
 <strong>– Espaço Cultural Qorpo Santo </strong>(Viaduto Otávio Rocha, loja 1)<br />
 <strong>– Martins Livreiro </strong>(Riachuelo, 1279)<br />
 <strong>– Mosaico </strong>(Riachuelo, 1264)<br />
 <strong>– Ponto dos Livros </strong>(Venâncio Aires, 449, loja 6): <br />
 <strong>– Rino/Nova Roma </strong>(General Câmara, 428).<br />
 <strong>– Sapere Aude </strong>(Lopo Gonçalves, 33).<br />
 <strong>– Só Ler da Senhor dos Passos </strong>(Senhor dos Passos 266)<br />
 <strong>– Só Ler da Andradas </strong>(Andradas, 870)<br />
 <strong>– Traça </strong>(Osvaldo Aranha, 966, Bom Fim)<br />
 <strong>– Ventura Livros </strong>(Fernandes Vieira, 627, loja 2)</p>
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		<title>Reencontros de leitura</title>
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		<pubDate>Tue, 01 May 2012 18:33:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos André Moreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Autores Gaúchos]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Destaquinho]]></category>
		<category><![CDATA[Horror]]></category>
		<category><![CDATA[Egotrips de leitor]]></category>
		<category><![CDATA[Josué Guimarães]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Fantástica]]></category>
		<category><![CDATA[memória]]></category>
		<category><![CDATA[O Cavalo Cego]]></category>

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		<description><![CDATA[Um texto sobre "O Cavalo Cego" - livro de contos de Josué Guimarães]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[
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<p><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/cavaloxcego.jpg" rel="lightbox[2397]"><img class="aligncenter size-full wp-image-2398" src="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/cavaloxcego.jpg" alt="" width="345" height="590" /></a>Quanto eu tinha 15 anos, já era um adolescente que gostava de ler, mas não havia ainda dedicado praticamente nada de meu tempo à leitura de autores rio-grandenses (a própria categoria "autores rio-grandenses" não passava muito pela minha cabeça na época, meu colégio ao menos não chegou a abordar isso), com exceção do <em><strong>Tempo e o Vento</strong></em> - que eu havia lido mais por causa da série de TV que passara uns anos antes do que por indicação do colégio - e de <em><strong>A Balada do Falso Messias</strong></em>, de <strong>Moacyr Scliar</strong>.  Até que um dia uma professora distribuiu na aula algumas provas de vestibular da UFRGS e da UFSM para vermos como era. E a parte de literatura vinha cheia de perguntas sobre uma gente que eu nunca tinha ouvido falar: <strong>José Clemente Pozzenato, Tabajara Ruas, Pedro Geraldo Escosteguy e Josué Guimarães</strong>. Se eu tivesse que responder aquela prova valendo, estaria ralado.</p>
<p>Cabreiro com o que identifiquei como uma lacuna, resolvi, na saída do colégio, passar na Biblioteca Pública de São Gabriel (desde sempre um dos meus ambientes favoritos: ficava no andar de cima de um casarão antigo na praça central da cidade, com uma sala cheia de estantes em janelas que davam para a rua) e pegar o primeiro livro que eu achasse de algum daqueles nomes. Topei então com <span style="color: #ff0000"><em><strong>O Cavalo Cego</strong></em></span>, de <span style="color: #ff0000"><strong>Josué Guimarães</strong></span> – na verdade, eu topei com um monte de livros de <strong>Josué Guimarães</strong>, todos bem longos: <em><strong>Dona Anja, Camilo Mortágua</strong></em>, os dois de<em><strong> A Ferro e Fogo</strong></em>. Peguei <em><strong>O Cavalo Cego</strong></em> porque era o mais curto.</p>
<p>A leitura de <em><strong>O Cavalo Cego </strong></em>me faria voltar reiteradas vezes à biblioteca para apanhar os outros livros maiores que eu havia deixado para trás. Embora não tenha sido uma leitura de estreia, aquele magrinho livro de contos com pouco mais de 150 páginas havia sido uma espécie de iniciação.</p>
<p><em><strong>O Cavalo Cego </strong></em>reúne seis contos unidos pela temática do fantástico e do sobrenatural, mas nada a ver com a atual profusão de zumbis e vampiros planejados para adolescentes. Era um horror adulto, no qual a morte, embora muitas vezes vista como não sendo um fim definitivo, era motivo de melancolia e sofrimento, físico ou emocional. Li os seis relatos numa rapidez assombrosa, e durante muito tempo conservei as histórias e os episódios comigo.  O conto que dá título ao livro era uma narrativa contata por um velho combatente das revoluções gaúchas a um homem mais jovem, um pesquisador ou repórter<strong>;<em> A Visita,</em></strong> que abre o livro, era a lírica despedida entre um idoso e sua mulher já falecida. <em><strong>Uma Noite de Chuva </strong></em>tinha ares de <em>Além da Imaginação</em> ao narrar o horror de um homem que teme ter perdido a esposa em um acidente de carro. <em><strong>A Travessia </strong></em>focava uma chacina sobrenatural em outra das revoluções pampeanas. <em><strong>Renato, Meu Amor</strong></em>, era uma narrativa que explorava a perversidade infantil – na época soou bastante perturbadora.</p>
<p>Dia desses, um sábado em que passeava no centro da cidade, encontrei o livro em um sebo da <strong>Rua dos Andradas</strong>, a R$ 6 reais. A mesmíssima edição, com uma capa perturbadora de uma janela aberta em fundo preto com uma fantasmagórica figura entrevista através dela (essa que ilustra o post lá em cima). Tomado de carinho por aquela lembrança afetiva e incentivado pelo preço, comprei o exemplar e levei para casa.</p>
<p>De cara, uma surpresa: havia outro conto do qual eu havia me esquecido. Chamava-se <em><strong>O Elevador</strong></em>, e ao ver o título me lembrei de que fora a história que mais demorei a vencer naquela época. A releitura do livro foi ainda mais rapidamente assombrosa do que a daqueles meus juvenis anos. E embora desta vez eu visse muitos problemas nas histórias que haviam arrebatado o leitor ainda inexperiente que eu era na adolescência (a linguagem talvez o maior deles. Josué escrevia bem, com uma linguagem tomada de empréstimo de sua atividade jornalística, mas às vezes sua prosa perdia o brilho justamente por isso), conseguia também entender de cara <em>o que</em> havia me atraído tanto naquele primeiro contato.</p>
<p>Josué era um fabulista imaginativo, e conseguia colorir as descrições do que seus personagens viam e faziam de modo dinâmico, deixando na mente de seu leitor imagens vívidas. <em>A Travessia</em> narrava a dramática tentativa de uma tropa perseguida de atravessar o vau de um rio em busca de refúgio dos inimigos que os perseguiam. A descrição da fome, do cansaço e das condições desumanas da marcha forçada eram mesmo das que marcam:</p>
<p>– Vi matarem três bois. Jorrava tanto pus das feridas causadas pelas cangas durante a marcha que prefiro morrer de fome a enfiar na boca essa porcaria.</p>
<p><em>A Travessia </em>e <em>O Cavalo Cego </em>me pareceram as narrativas mais bem realizadas nesta segunda leitura. <em>A Visita </em>revelou-se mais sentimental do que eu me lembrava. Calcado em diálogos, era um conto que parecia ter envelhecido muito mal, embora ainda preservasse certa ternura. Eu não me lembrava mais da história detalhada de<em> Uma Noite de Chuva</em>, mas ela me foi voltando à medida que eu lia e me dei conta de que a tentativa de estender o suspense para a revelação final se alongava em demasia. <em>Renato, Meu Amor</em>, ao contrário, parecia ainda muito bem estruturado. <em>O Elevador </em>era um conto que buscava estranhamento com um episódio que foge à lógica cotidiana, mas que parecia mais um exercício do que uma realização.</p>
<p>O livro era ruim? Não, nada disso, ainda é um belo livro. Talvez a segunda leitura não dissesse tanto sobre o que o livro era, mas sobre o leitor que me tornei - até porque O Cavalo Cego de fato não me parece figurar com destaque no próprio conjunto da obra de Josué. <em>A Ferro e Fogo, Camilo Mortágua</em> e <em>Os Tambores Silenciosos</em> talvez ocupassem os meus primeiros lugares, se me pedissem para fazer uma lista. Mas a coletânea ainda tinha as virtudes evidentes que me fizeram gostar dela da primeira vez, ainda que eu guardasse um retrato mais colorido dela na memória devido ao papel que teve na minha formação como leitor. Imagino que seja assim que nos afeiçoamos todos – a pessoas e livros.</p>
<p><strong>P.S.: </strong>O dia começou com uma nota curiosa. Comprei o livro já faz algum tempo, e vinha protelando a escrita deste texto – tanto que nesse meio tempo a <strong>L&amp;PM</strong> lançou uma nova edição, cuja capa vocês podem ver abaixo. Hoje, ao me preparar para vir para a Zero Hora, decidi, por um impulso, que seria um bom modo de aproveitar o feriado: finalmente falar do que havia pensado durante a releitura. Procurei o exemplar na estante na estante e trouxe para a redação. Ao chegar aqui, <span style="text-decoration: underline"><a href="http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-lazer/segundo-caderno/noticia/2012/05/morre-nydia-guimaraes-viuva-do-escritor-josue-guimaraes-3744278.html" target="_blank">fui informado de que a viúva do escritor, Nydia Guimarães, faleceu nesta madrugada</a></span>. Um toque quase tão sobrenatural quanto os do livro.</p>
<p style="text-align: center"><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/cavalocego.jpg" rel="lightbox[2397]"><img class="aligncenter size-full wp-image-2399" src="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/05/cavalocego.jpg" alt="" width="360" height="592" /></a></p>
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		<title>Coisas para fazer no fim de semana</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Apr 2012 23:17:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos André Moreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Este blog]]></category>
		<category><![CDATA[Festipoa Literária]]></category>
		<category><![CDATA[Mundinho Literário]]></category>
		<category><![CDATA[Eventos literários]]></category>
		<category><![CDATA[Odisseia de Literatura Fantástica]]></category>

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		<description><![CDATA[Sábado de dois grandes eventos literários em Porto Alegre]]></description>
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<p><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/03/logo-texto-vermelho-fundo-preto.jpg" rel="lightbox[2395]"><img class="aligncenter size-full wp-image-2385" src="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/03/logo-texto-vermelho-fundo-preto.jpg" alt="" width="448" height="253" /></a></p>
<p>Neste sábado, coincidem o último dia da <span style="color: #ff0000"><strong>FestiPoa Literária</strong> </span>e o segundo (e também último) dia da<span style="color: #ff0000"><strong> Odisseia de Literatura Fantástica</strong></span>, uma tentativa de pôr a literatura de gêneros (não confundir com "gênero" no sentido maculino/feminino) no mapa de Porto Alegre. A programação da FestiPoa pode ser lida no site oficial da festa, <a href="http://www.festipoaliteraria.com/?pg=11592" target="_blank">aqui</a>. A da Odisseia, o mesmo, no portal do evento, <a href="http://odisseialitfan.wordpress.com/programacao/" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>Que bola dividida, hein, escolher entre alguns dos eventos que se sobrepõem na programação. Este seu blogueiro, por exemplo, viverá seu dia de maratonista participante.</p>
<p><strong>Neste sábado,  às 10h30min, no Auditório Luís Cosme da Casa de Cultura Mario Quintana</strong>,  participo como mediador de uma mesa de debates entre o escritor e crítico <strong>Miguel Sanches Neto</strong> e o professor<strong> João Cezar de Castro Rocha</strong> sobre <em><strong>A Consciência da Crítica Literária Brasileira</strong></em>.</p>
<p><strong>Depois, à tarde, às 15h, no Memorial do Rio Grande do Sul</strong> (ainda bem que é tudo no Centro), vou mediar outro debate, entre<strong> Taize Odelli</strong> e <strong>Luiz Ehlers</strong>, sobre <strong>Crítica literária e o Fantástico</strong>.</p>
<p>Com o cachê nababesco que receberei pelos dois eventos, seguramente  devo superar os R$ 170 mil dos quais o Gabriel O Pensador abriu mão. Quem quiser protestar por isso vaiando o blogueiro, será bem vindo nas duas palestras. Espero vocês leitores lá</p>
<p style="text-align: center"><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/04/odisseia.jpg" rel="lightbox[2395]"><img class="aligncenter size-full wp-image-2396" src="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/04/odisseia.jpg" alt="" width="500" height="183" /></a></p>
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		<title>Crimes revisados</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Apr 2012 19:30:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos André Moreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Destaquinho]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>
		<category><![CDATA[literatura argentina]]></category>
		<category><![CDATA[Contos policiais]]></category>
		<category><![CDATA[literatura policial]]></category>
		<category><![CDATA[Mistério]]></category>
		<category><![CDATA[Rodolfo Walsh]]></category>
		<category><![CDATA[Variações em Vermelho]]></category>

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		<description><![CDATA[Um texto sobre "Variações em Vermelho", livro que reúne contos policiais do escritor argentino Rodolfo Walsh]]></description>
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<p><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/04/vermelho.jpg" rel="lightbox[2393]"><img class="aligncenter size-full wp-image-2394" src="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/04/vermelho.jpg" alt="" width="295" height="448" /></a>Antes que a escola americana de policiais acostumasse os leitores – e mais adiante os cinéfilos e telespectadores – a detetives durões que mergulham no uísque e desbaratam os crimes com os punhos, o romance policial mais “tradicional” era protagonizado por tipos excêntricos, observadores geniais que resolvem o caso na base do raciocínio, mas que seriam triturados em um simples passeio na rua. É a essa linhagem que pertence o peculiar <strong>Daniel Hernández, </strong>revisor editorial que por vezes colabora com a polícia em casos desconcertantes, como os reunidos em <span style="color: #ff0000"><em><strong>Variações em Vermelho</strong></em></span>, do escritor argentino <span style="color: #ff0000"><strong>Rodolfo Walsh </strong></span>(Tradução de Sergio Molina e Rúbia Prates Goldoni, Editora 34, 240 páginas).</p>
<p>Repórter iluminado e escritor de precisão clínica, Walsh (1927 – 1977) é um nome de ponta das letras latinoamericanas, embora sua produção ficcional tenha sido abreviada pelos esforços dedicados à militância política contra duas ditaduras argentinas e pelo seu assassinato pelas forças de repressão. Militante da esquerda peronista, Walsh é também autor de um clássico do jornalismo investigativo: <em><strong>Operação Massacre</strong></em>, que reconta uma chacina ordenada pela ditadura do general Aramburu em 1955. O livro ganhou edição recente no Brasil pela Companhia das Letras. Emboscado em 1977, já na ditadura dos militares que ele próprio denunciou veementemente, Walsh foi assassinado e seu corpo nunca foi encontrado.</p>
<p>À parte sua atividade jornalística como autor de contundentes romances-reportagens, Walsh construiu uma carreira como contista – no ano passado a mesma 34 editou <em><strong>Essa Mulher e Outros Contos</strong></em>” Fascinado pelo gênero policial, editou antologias e criou seus próprios contos de mistério e crime – os cinco protagonizados pelo revisor Daniel Hernández, um tipo pacato, tímido e extremamente míope (um alter ego bem pouco disfarçado do próprio autor), foram reunidos em <em><strong>Variações em Vermelho</strong></em>, publicado em 1953, quando Walsh contava apenas 26 anos.</p>
<p>As debilidades físicas de Hernández não o tornam um investigador menos eficaz. Já no título <em><strong>Variações em Vermelho </strong></em>remete, não por acidente, ao <em><strong>Estudo em Vermelho</strong></em> de Sherlock Holmes, marcando sua filiação a um tipo de literatura protagonizada mais pelo cérebro do detetive do que por suas armas ou seus músculos. As histórias protagonizadas por Daniel Hernández são exemplos inventivos do policial de feição mais “clássica” – do tipo que o lingüista <strong>Tzvetan Todorov</strong>, que vem este ano a Porto Alegre para o  <strong>Fronteiras do Pensamento</strong>, classifica como “romance-jogo”. Mais do que narrativas, são desafios intelectuais que o autor lança ao leitor, criando tramas de crime que flertam com o quebra-cabeça, exigindo do detetive não apenas o esclarecimento de quem cometeu o assassinato, mas também de como ele pôde ser cometido.</p>
<p>
A primeira e mais longa das cinco novelas, <em><strong>A Aventura das Provas de Prelo</strong></em>, apresenta Hernández e o que um revisor editorial teria a dizer à polícia em uma investigação de homicídio. Um revisor é encontrado morto debruçado sobre a escrivaninha de trabalho em sua casa. Uma garrafa de uísque sobre a mesa e a arma usada para esfacelar a cabeça da vítima, oculta sob o braço do cadáver, parecem reforçar a hipótese de suicídio – praticamente confirmada com a descoberta de um caso conjugal da mulher da vítima. A chave para a solução do crime será descoberta por Daniel, colega de trabalho do defunto, ao examinar as provas impressas de um livro que o morto se dedicava a revisar.</p>
<p>Daniel é o típico investigador diletante, disposto a colaborar com o policial de carreira encarregado dos casos – o delegado Jiménez, também recorrente nas cinco histórias. Como diz o próprio Walsh no prefácio: <em>“...de todas as faculdades de que D.H. se valeu na investigação de casos criminais eram faculdades desenvolvidas ao máximo no exercício diário de sua profissão: a observação, a minuciosidade, a fantasia (tão necessária, v.g., para interpretar certas traduções ou obras originais e sobretudo essa estranha capacidade de colocar-se simultaneamente em diversos planos que o revisor tarimbado exerce quando vai atentando, em sua leitura, para a limpeza tipográfica, o sentido, a boa sintaxe e a fidelidade da versão.”</em></p>
<p>Walsh também acena com uma piscadela ao construir o mistério de modo a que os mais atentos dentre seus leitores teriam condições de solucioná-los antes do fim se sua imaginação corresse na mesma direção que a do autor.  O argentino cria exercícios clássicos da literatura de crime. No conto que dá nome ao livro, um assassinato parece ter sido cometido sem que o autor do crime tivesse entrado ou saído do atelier trancado de um artista. <em><strong>Assassinato à Distância </strong></em>encontra Hernández  imerso em uma tarefa aparentemente impossível: provar que um suicídio ocorrido muito tempo antes foi na verdade um homicídio. Em <strong><em>A Sombra de Um Pássaro</em></strong>, a chave para a morte de uma esposa infiel, um crime sem testemunhas, pode estar no pátio da casa vizinha. O quinto conto é também uma ousadia formal: cinco páginas, breves, com a história narrada em frases curtas e repetitivas que lembram um poema ou uma canção.</p>
<p>Não apenas na primeira narrativa, estreitamente ligada ao ofício do personagem Hernández, mas nas demais, Walsh faz de seu investigador um leitor atento dedicado a ler as pistas de crimes cometidos na realidade. E provoca o leitor do livro a ser tão ágil e atilado quanto o investigador.</p>
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		<title>As Primeiras Palavras</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Apr 2012 14:48:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos André Moreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Enchiridion]]></category>
		<category><![CDATA[Prazer da Leitura]]></category>
		<category><![CDATA[Citações comparadas]]></category>
		<category><![CDATA[Leitura]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Trechos]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma pequena coletânea de grandes primeiras frases da literatura]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[
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<p style="text-align: center"><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/04/estante.jpg" rel="lightbox[2390]"><img class="aligncenter size-full wp-image-2391" src="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/files/2012/04/estante.jpg" alt="" width="540" height="416" /></a></p>
<p>Já li escritores afirmarem em entrevistas que <strong>o mais difícil ao escrever um livro é achar a primeira frase</strong>. Acho que é uma declaração válida com mais frequência no jornalismo, pois o lide, o parágrafo inicial de um texto, é, para muitos, uma das últimas coisas que a mente aceita liberar quando se está aflito na frente da máquina ou do terminal. Outros colegas com quem já trabalhei não conseguem escrever nada antes de ter o primeiro parágrafo para orientar-lhe as ideias nos caminhos futuros do texto.</p>
<p>Não é o meu caso. Escrevo muito rápido mesmo para os padrões de um jornalista porque não tenho essa necessidade de iniciar do começo, e sim posso escrever primeiro uma frase que sei que estará lá no meio da matéria e partir dela. Daí muitas vezes o pensamento se organiza para frente e para trás e eu vou completando. Não é um processo isento de falhas, mas nada no jornalismo diário é isento de falhas. E pra mim funciona muito melhor porque quando chego ao momento de redigir o lide, já estou com toda a matéria escrita, e fica mais fácil, assim, pensar numa frase de mais impacto que possa dar conta do que vem depois.</p>
<p>Com isso não digo que a primeira frase não é importante, pelo contrário. Ela é essencial, tanto que na literatura as primeiras frases de maior impacto sempre foram alvo de minha particular afeição. Sempre gostei de anotar. por curiosidade e por curtição, as primeiras frases de romances e contos cuja leitura me foi grata, ou até mesmo das obras das quais não gostei mas que prometiam muito pela frase inicial. Há que se dizer que a idéia não é exclusiva minha, a maioria das pessoas que conheço já fez ou ainda faz isso em algum momento, e mesmo a ideia de anotar as primeiras frases de clássicos já foi aplicada no romance <em><strong>Buffo &amp; Spallanzani</strong></em>, pelo mestre <strong>Rubem Fonseca</strong>. O blogueiro e escritor <strong>Sérgio Rodrigues</strong> tem uma série inteira no seu <span style="text-decoration: underline"><a href="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/" target="_blank">Todoprosa</a></span> sobre "começos inesquecíveis". Mas isso não impede que, numa época em que o blogueiro aqui está de férias, e portanto atualizando o blog para vocês pelo simples prazer de fazê-lo, ele possa replicar a ideia ao seu modo, como na breve seleção feita abaixo (é breve porque vai que outra hora resolvo dar continuidade acrescentando algumas?).</p>
<p><strong>Últimas instruções de uso deste post: </strong>quando a frase é extraída de um romance,  o nome do livro está informado após o nome do escritor. Quando, no caso de um conto, o nome do livro for o mesmo da história, bastará um “idem”. Quando não, o primeiro nome designa o conto, e o ultimo, o nome da obra de onde ele foi retirado. E aqui não transcrevi parágrafos iniciais, e sim as primeiras frases - naquela definição básica que todo mundo aprendeu na escola, a frase como algo que finaliza com o ponto, o que explica porque algumas são mais longas do que outras. Essa minicoletânea também não tem o propósito de afirmar, espero que a dedução seja óbvia, que um bom romance <em>necessariamente </em>precisa ter uma grande <em>primeira frase</em>. Há inícios de romance cujos parágrafo inicial vai crescendo em impacto e beleza pela justaposição do que as frases seguintes têm a dizer/negar sobre a primeira. É apenas um reconhecimento àqueles romances que <em>têm </em>tais frases.<br />
 <em><br />
 La candente mañana de febrero em que Beatriz Viterbo murió, después de una imperiosa agonia que no se rebajó un solo instante ni al sentimentalismo ni al miedo, noté que las carteleras de fierro de la Plaza Constitución habían renovado no sé qué aviso de cigarrillos rubios; el hecho me doló, pues comprendi que el incesante y vasto universo ya se apartaba de ella y que esse cambio era el primero de una serie infinita.</em> - <strong>Jorge Luis Borges </strong>(<em><strong>El Aleph </strong></em>- idem) <br />
 <em><br />
 Tinha ele 6 pés de altura, menos 1 ou 2 polegadas, talvez, forte, espadaúdo, avançava direito para a agente, um pouco curvado, olhar fixo, a cabeça para a frente, como um touro quando vai investir.</em> - <strong>Joseph Conrad</strong> (<em><strong>Lorde Jim</strong></em>)<br />
 <em><br />
 Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov era o terceiro filho de um proprietário de terras de nosso distrito, Fiódor Pávlovitch, tão conhecido em seu tempo (dele se lembram, aliás, ainda) pelo seu fim trágico, ocorrido há treze anos, de que falarei mais adiante.</em> - <strong>Fiódor Dostoiéwski</strong> (<em><strong>Os Irmãos Karamázov</strong></em>)<br />
 <em><br />
 Faço questão de assegurar com toda a clareza que absolutamente não tenho a intenção de colocar minha pessoa num lugar de destaque ao escrever algumas palavras acerca de mim mesmo e de minhas próprias atividades, antes de iniciar o relato da vida do finado Adrian Leverkünh, a primeira e certamente muito provisória biografia do saudoso homem e genial músico, que o destino terrivelmente assolou, engrandecendo-o e derribando-o </em>-<strong>Thomas Mann</strong> (<em><strong>Doutor Fausto</strong></em>).<br />
 <em><br />
 Aqui estamos de novo sozinhos.</em> - <strong>Louis-Ferdinand Céline </strong>(<strong><em>Morte a Crédito</em></strong>)<br />
 <em><br />
 José Palacios, su servidor más antiguo, lo encontró flotando en las águas depurativas de la bañera, desnudo e com los ojos abiertos, y creyó que se habia ahogado. </em>- <strong>Gabriel García Márquez </strong>(<strong><em>El General en su Labirinto</em></strong>)</p>
<p><em>Eu estava num daqueles bairros chinfrins perto da avenida Central, ali pelas quadras que ainda não foram totalmente ocupadas pelos negros.- </em><strong>Raymond Chandler </strong>(<em><strong>Adeus, Minha Adorada</strong></em>)<em><br />
 </em></p>
<p><em>Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo</em> - <strong>Juan Rulfo </strong>(<em><strong>Pedro Páramo</strong></em>)<em><strong><br />
 </strong></em></p>
<p><em>Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, foi a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo e nada tínhamos, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário - em suma, o período era em tal medida semelhante ao presente que algumas das suas mais ruidosas autoridades insistiram em seu recebimento, para o bem ou para o mal, apenas no grau superlativo de comparação</em>. -<strong> Charles Dickens</strong> (<em><strong>Um Conto de Duas Cidades</strong></em>)<br />
 <em><br />
 O maxilar de Samuel Spade era longo e ossudo, seu queixo um V proeminente sob o V mais flexível da boca.</em> - <strong>Dashiell Hammett </strong>(<em><strong>O Falcão Maltês</strong></em>)</p>
<p><em>Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lembrava-lhe sempre o destino dos amores contrariados</em> - <strong>Gabriel García Márquez </strong>(<em><strong>O Amor nos Tempos do Cólera</strong></em>)</p>
<p>Em meus anos mais juvenis e vulneráveis, meu pai me deu um conselho que jamais esqueci: - Sempre que você tiver vontade de criticar alguém - disse-me ele - lembre-se de que criatura alguma neste mundo teve as vantagens de que você desfrutou. - <strong>F.S. Fitzgerald </strong>(<em><strong>O Grande Gatsby</strong></em>).</p>
<p><em>Nosso pai era um homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação</em>.- <strong>Guimarães Rosa </strong>- (<em><strong>A Terceira Margem do Rio</strong></em>)</p>
<p><em>A tumba era grande, sólida, deveras imponente: uma espécie de templo entre o antigo e o oriental, como se via nos cenários da Aída e de Nabucco, em voga nos teatros de ópera até poucos anos atrás</em> - <strong>Giorgio Bassani </strong>(<em><strong>O Jardim dos Finzi-Contini</strong></em>)<br />
 <em><br />
 Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente.</em>- <strong>Graciliano Ramos </strong>(<em><strong>Angústia</strong></em>)</p>
<p><em>A narrativa nos manteve suspensos junto ao fogo; e não fosse a observação, demasiado evidente, de que era sinistra, tal como, em essência, deve ser toda história contada em noite de Natal numa casa velha, não me lembra qualquer outro comentário, até que aconteceu alguém dizer que aquele era o único exemplo do qual tivera notícia, onde um tal castigo havia recaído na cabeça de uma criança.</em> - <strong>Henry James </strong>(<em><strong>A volta do Parafuso</strong></em>)</p>
<p><em>De um hospital particular para doentes mentais, nas proximidades de Providence, em Rhode Island, desapareceu há pouco tempo uma pessoa extraordinariamente singular</em> -  <strong>H.P. Lovecraft </strong>(<em><strong>O Caso de Charles Dexter Ward</strong></em>)<br />
 <em><br />
 Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas, que daqui a pouco chegarão com o mar.</em> - <strong>João Ubaldo Ribeiro </strong>(<em><strong>Viva o Povo Brasileiro</strong></em>)</p>
<p><em>Para começar, vamos dar-lhes notícias do protagonista.</em> - <strong>Norman Mailer </strong>(<em><strong>Os Exércitos da Noite</strong></em>)<br />
 <em><br />
 Tudo no mundo começou com um sim</em> - <strong>Clarice Lispector </strong>(<strong><em>A Hora da Estrela</em></strong>)</p>
<p><em>O que mais há na terra, é paisagem</em> - <strong>José Saramago </strong>(<em><strong>Levantado do Chão</strong></em>)</p>
<p>Era uma vez e uma vez muito boa mesmo uma vaquinha-mu que vinha andando pela estrada e a vaquinha-mu que vinha andando pela estrada encontrou um garotinho engrachadinho chamado bebê tico-taco - <strong>James Joyce</strong> (<em><strong>Retrato do Artista Quando Jovem</strong></em>)</p>
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