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Posts com a tag "Jorge Luis Borges"

E dá-lhe Fierro...

23 de fevereiro de 2012 0

Uma das obras mais importantes da literatura latino-americana, O Gaúcho Martín Fierro, ganhou uma nova edição no Brasil (bilíngue, em português e espanhol). Quem assina a tradução em português é o escritor nascido em Livramento Paulo Bentancur, responsável também por uma introdução crítica da obra e pela biografia comentada de seu autor, o poeta, jornalista e político argentino José Hernández (1834 – 1886). A reedição, a cargo da Sfera Editora de Artes, é uma iniciativa do Ministério da Cultura (MinC) e se destina à distribuição gratuita para escolas, bibliotecas públicas e CTGs.

Lançado em 1872, Martín Fierro, como ficou conhecido, é tratado por muitos especialistas como o livro nacional dos argentinos e patrimônio cultural daquele país, por retratar um personagem heroico, independente e apaixonado por sua terra e seu povo. Trata-se de um longo poema que narra em 13 capítulos a vida de um gaucho da região do pampa que cumpre uma jornada épica marcada por indignação, sofrimento, redenção e esperança. O protagonista é um homem convocado à força para servir ao exército. Revoltado contra as arbitrariedades e injustiças de seus superiores, ele se torna um desertor. Ao voltar para casa, descobre que sua família desapareceu. Na jornada para reencontrar os familiares, em meio à perseguição que sofre do exército, o herói se torna um fora da lei.

Martín Fierro tem sua estrutura articulada na figura do payador que narra sua própria história, e faz uso do idioma espanhol que reproduz foneticamente o linguajar do homem do campo. Em um contexto histórico, Martín Fierro representa a vertente literária argentina que deu voz àqueles que resistiam, em nome da preservação da identidade nacional, ao processo de “europeização” do país imposto pelo governo central de Bueno Aires em uma era (meados do século 19) de grande desenvolvimento econômico do país. Processo esse que tinha como mentor o presidente argentino Domingo Faustino Sarmiento, inimigo político de Hernández e autor de Facundo, outra obra clássica da literatura argentina, para quem o gaúcho do pampa era um “selvagem” que atravancava a processo de “civilização” da nação.

O Martin Fierro era objeto de paixão de um dos principais escritores do Século 20: Jorge Luís Borges, que escreveu sobre ele um ensaio considerado fundamental. O Martín Fierro. A circunstância desse lançamento específico é um bom pretexto para desenterrar dos arquivos do jornal uma entrevista feita em julho de 2006 por Carlos André Moreira e pelo professor Luís Augusto Fischer com o escritor e professor argentino Martín Kohan, que estava em Porto Alegre naquela semana específica para dar um curso sobre a obra de Borges e sua relação com a literatura gauchesca. Como não poderia deixar de ser, durante a conversa, muito se falou do Martín Fierro, como se pode ler nos trechos abaixo:

Zero Hora – Borges argumenta que para existir a literatura gauchesca foi necessário o desenvolvimento urbano em Montevidéu e Buenos Aires. Como aparece isso para ele, que era um tipo urbaníssimo, europeu, mas parecia ter um fascínio pela energia primitiva do pampa?
Martín Kohan –
É complicado este processo, porque a literatura gauchesca variou no século 19. Nem todos os textos são iguais. E há os autores que lançam um olhar culto, apartado do mundo popular e outros que se aproximam mais. Inclusive nas duas partes do poema gauchesco argentino por excelência, o Martín Fierro. A primeira, de 1872, é bem distinta da segunda. Ou seja, nem sequer esse livro, pode ser definido de uma única maneira.

Zero Hora – O senhor definiria a primeira parte como mais pura?
Kohan —
A crítica literária viu na primeira parte a dimensão de um protesto social pela condição do gaúcho como vítima da exploração dos donos da terra, do exército que o leva pela força. Se bem que o autor do poema, José Hernández, estivesse melhor ao lado da classe dominante, não das classes populares. A segunda parte, apenas sete anos posterior, se dirige para um modelo ideológico de integração e de obediência. Os conselhos de Martín Fierro a seus filhos são para que sejam bons trabalhadores, dóceis, que não se queixem, são o contrário da primeira parte. De qualquer maneira, isso chega a Borges já com Martín Fierro unificado como poema nacional e instituído como mitologia da identidade nacional argentina rural. Isto estava ligado ao enfraquecimento da presença e da significação social do gaúcho, como se fosse uma compensação simbólica: quanto menor ameaça aquele personagem representasse, maior seria a recuperação literária e cultural.

Cultura – Como foi com o “compadrito” para Borges, que não existia mais quando ele começa a escrever sobre ele.
Kohan –
Isto vai pelo mesmo sentido. Como dizia, é um requisito para poder mitificar um tipo: que não exista mais como perigo social real e efetivo. E tem que ver com o que ele pleiteava, a substituição do mundo rural pelo urbano. Porque para Borges, a literatura gauchesca interessa como modelo da produção de uma mitologia nacional. Em 1926, quando Borges já havia começado a publicar, sai um romance, Dom Segundo Sombra, de Ricardo Guiraldes, que aparece como mais uma novela sobre o gaúcho no mundo rural. Borges vai adiante. Ele vê que é preciso criar uma mitologia para a cidade de Buenos Aires que tome como modelo a mitificação rural que a literatura gauchesca já havia feito do gaúcho. Isso tinha muito que ver com as condições históricas e sociais que se apresentavam, que era a chegada maciça de imigrantes à Argentina e sua concentração na cidade. A experiência das classes “criollas” nesse período era a de que sua identidade e até seu idioma estavam ameaçados. Houve um momento ao fim do século 19 em que em Buenos Aires a relação era de quatro estrangeiros para cada um argentino. A sensação de cidade invadida era forte.

Borges no Google

24 de agosto de 2011 0

Uma das comparações mais recorrentes que já ouvi sobre a internet e seu potencial ilimitado de armazenamento remete diretamente à Biblioteca de Babel do conto de mesmo nome escrito por Jorge Luís Borges. Não pude deixar de fazer essa relação ao ver que hoje, no dia em que se completam 112 anos do nascimento de Borges,  o Google, que ostensivamente se apresenta cada vez mais como o bibliotecário da babel virtual, resolveu homenagear o mestre argentino na ilustração de seu logotipo.

Bela ideia. Minha pergunta apenas seria o quanto foi lido de Borges antes de se fazer a ilustração, que mais remete a uma realidade de ficção científica (ou “Borges lido por Enki Bilal“, como bem definiu o Roger Lerina) do que ao universo ao mesmo tempo ancestral e atemporal borgiano.

O tamanho de Borges

14 de junho de 2011 1

A influência de Joyce sobre seu pensamento já é evidente no ensaio “Después de las imágenes”, que reitera sua crença em que as vanguardas espanhola e argentina eram limitadas demais por sua obsessão com a metáfora. Afirmava qeu o poeta deveria fazer mais do que criar metáforas: deveria “alucinar cidades e espaços de uma realidade unificada”; e a cidade que Borges tinha em mente era Buenos Aires, que ainda não fora imortalizada em poesia: “Em Buenos Aires, ainda não aconteceu nada, e sua grandeza não é autorizada por um símbolo ou uma fábula maravilhosa, nem mesmo por um destino individual comparável ao Martin Fierro.
Mas para fazer por Buenos Aires o que Joyce fizera pro Dublin era preciso uma interpretação imaginativa e sustentada do mundo. Essa era a ideia que preocupava Borges nos últimos meses de 1924 e que pode ser encontrada num ensaio sobre o poeta barroco Francisco de Quevedo, cujos conceitos brilhantes ele admirara outrora, mas agora comparava de forma desfavorável a Cervantes: “Em vez da visão abrangente que Cervantes gera através do desdobramento amplo de uma ideia, Quevedo pluraliza visões numa espécie de fuzilaria de lampejos parciais”. Ela ressurge numa resenha das memórias de Ramón Gómez de la Serna, na qual ele observa que o “entusiasmo onívoro” de Ramón individualiza cada objeto, em vez de buscar “uma visão total da vida”, “uma concórdia”, “uma síntese”. Para Borges, Ramón carecia do tipo de princípio unificador que na nova matemática era representado pelo signo do “Alef [sic]“, o número infinito que abrange todos os outros.
Em retrospecto, essa referência ao Aleph é de enorme significação para uma compreensão de Borges como escrtor. O Aleph viria a representar uma aspitação permanente de alcançar a unidade de ser em que o eu poderia se realizar plenamente, ainda que integrado à realidade objetiva do mundo. No devido tempo, essa aspiração seria articulada de forma mais completa em um de seus principais contos, intitulado precisamente “O Aleph” (1945), no qual ele procuraria expressar a totalidade extática do eu e do mundo. Mas, nesse estágio inicial, o Aleph significava uma visão unificadora que lhe permitiria escrever uma obra substancial que, tal como o Ulisses de Joyce, identificaria o autor com o mundo específico que o havia moldado, ao mesmo tempo em que daria uma qualidade universal a sua experiência.

Faz 25 anos hoje que morreu, em Genebra, o escritor argentino Jorge Luis Borges. Naquela época, sua obra já havia alcançado fama e reconhecimento, mas as inúmeras querelas em que se envolveu ao longo de seus quase 90 anos haviam deixado suas marcas em sua reputação como figura humana. Seu nome não era consenso na Argentina ainda dominada pela força do Peronismo, ao qual havia se oposto. Também no restante da América Latina sua pessoa provocava reações perplexas: era admirado pelo que havia escrito, mas seu flerte com os regimes ditatoriais do continente, em especial o de Videla na Argentina e o de Pinochet no Chile, levantavam contra ele as restrições de praxe. Não apenas na América Latina, a bem dizer. A esse respeito, leiam a narrativa que o inglês Christopher Hitchens faz em seu livro de memórias Hitch 22 (Nova Fronteira) de uma entrevista que realizou com Borges em 1978, quando cobria a Copa do Mundo na Argentina. Hitchens encontrou aquele que para ele era um ídolo, teve o prazer de ler para ele ao longo da tarde e, já no momento da despedida, ouviu seu herói literário elogiando o regime que fazia uma multidão de opositores desaparecer. A maneira como Hitchens constrói e colore tal narrativa é brilhante.

Pois hoje, duas décadas e meia após sua morte, fica claro que, à medida que o homem se distancia no tempo, mais gigantesca se torna sua presença no panorama literário do continente. Borges está mais presente do que nunca em qualquer questionamento sério que se faça sobre os rumos da literatura na contemporaneidade, para a qual apontou ainda na primeira metade do século 20 com seus contos magistrais e suas leituras acuradas da própria tradição literária. Borges é o tema não apenas da biografia Borges: uma Vida, de Edwin Williamson, de onde foi retirado o trecho acima (Companhia das Letras), ou em um dos episódios mais saborosos da biografia de Hitchens. Ele está nas Entrevistas da Paris Review recentemente relançadas pela própria Companhia das Letras (entrevistado na Biblioteca Nacional, em Buenos Aires, da qual foi por anos diretor); teve praticamente toda sua obra reeditada pela mesma editora; teve três volumes de diálogos com Osvaldo Ferrari lançados em formato bolso pela Editora Hedra (Sobre os Sonhos e Outros Diálogos; Sobre a Amizade e Outros Diálogos e Sobre a Filosofia e Outros Diálogos); foi objeto de um ensaio de Luís Augusto Fischer em Machado e Borges (Arquipélago Editorial), um de Ana Cecília Olmos (Por que ler Borges, Editora Globo) e de outro de Beatriz Sarlo, em Borges: um Escritor na Periferia (Iluminuras). Neste último, a principal crítica em atividade na Argentina , na qual defende que “Borges quase perdeu sua nacionalidade” e “no atual estado das coisas, a imagem de Borges é mais poderosa que a da literatura argentina, ao menos de um ponto de vista europeu.” É verdade. Borges é hoje tomado muitas vezes como o protótipo ideal de um “autor do mundo”, um autor não de uma literatura em particular, mas da literatura, ponto.

A biografia de Williamson, embora minuciosa (e para este leitor em particular bastante polêmica, uma vez que busca na vida do autor as chaves para sua ficção, o que é, na minha opinião, um caminho certo para o desastre), é uma entre um grande número de obras dedicadas à vida do autor. Em 2009, saiu  Olhar De Borges: Uma Biografia Sentimental, de Solange Fernandes Ordoñez, filha de um advogado amigo de Borges por anos. Há também uma fotobiografia: Borges: uma biografia em Imagens, de Alejandro Vaccaro, outro de seus biógrafos. Quem garimpar em sebos ainda pode encontrar muita coisa lançada na esteira do centenário de nascimento de Borges, comemorado em 1999, entre eles o depoimento de Maria Esther Vásquez, sua amiga pessoal, na biografia Esplendor e Derrota (na qual faz duras críticas à viúva de Borges, Maria Kodama).

Hoje faz 25 anos que morreu Borges. E sua presença é tão avassaladora que quase nem se nota.

Roubando uma ideia - ou "A perdição da semana"

04 de outubro de 2010 2

Este post nasce de uma ideia assumidamente roubada, mas evoco em minha defesa o fato de que esperei bastante para ver se o verdadeiro dono ia usar antes de catar pra mim. No ano passado, a editora do Segundo Caderno, Cláudia Laitano, também conhecida como “a chefe”, lembrou em seu blog o título de um dos romances mais conhecidos de Antônio Carlos Resende: Magra, mas não Muito, as Pernas Sólidas, Morena, como um título que já encerra em si a descrição de uma mulher por quem o narrador se encanta – e, no caso desse livro em particular, se perde. Vocês podem ler o post completo aqui. Cláudia comentava ali o quanto a fascinavam as descrições feitas na literatura por personagens homens para as mulheres com as quais estão obcecados. A Cláudia também sapecou uma descrição de Capitu aos olhos do Bentinho apaixonado e prometeu dar seguimento à série.

Como já passou mais de um ano e o projeto lá no Agora Eu Era ficou só nesse primeiro post, assumo eu a incumbência por aqui, declinando uma vez por semana belas e fascinantes descrições de mulheres magnéticas, exuberantes, misteriosas, por vezes lascivas, mas sempre um ímã para a perdição de um pobre homem menos esperto do que se considera, como os casos dos livros que virão por aí no futuro. Fica o convite a vocês que apontem suas próprias descrições para a seção “Perdição da Semana”.

Como a Cláudia inaugurou o projeto há um ano com Machado de Assis, aqui eu teria que encontrar alguém de igual calibre. E coincidentemente me veio o candidato ideal enquanto folheava a nova edição de O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges, pela Companhia das Letras, para um comentário que queria fazer – e ao qual devo voltar em texto futuro. O segundo conto do livro, Ulrica, é, segundo o próprio Borges, o único exemplo de tratamento do tema amoroso em sua prosa (tema que, não obstante, era comum em sua poesia). Em um congresso na cidade inglesa de York, o intelectual colombiano Javier Otárola encontra a norueguesa Ulrica e vive com ela um romance breve porém intenso que conjuga o fascínio físico com o intelectual. Um caso que o marca profundamente, uma vez que ele narra a história de algum ponto no futuro. E é assim que Javier descreve Ulrica em seu relato, equilibrando a erudição e a paixão – e não escapando, mesmo em se tratando de Borges, de uma generalização que a mim me pareceu ingênua, vocês vão notar qual:

“Foi então que olhei para ela. Uma linha de William Blake fala de moças de suave prata ou de furioso ouro, mas em Ulrica estavam o ouro e a suavidade. Era leve e alta, de traços afilados e olhos cinza. Menos que seu rosto me impressionou seu ar de tranquilo mistério. Sorria com facilidade e o sorriso parecia distanciá-la. Vestia-se de preto, o que é raro nas terras do Norte, que procuram alegrar com cores o ambiente apagado. Falava um inglês nítido e acentuava levemente os erres. Não sou observador; essas coisas fui descobrindo pouco a pouco.
Ulrica, de Jorge Luis Borges. em O Livro de Areia (Companhia das Letras, 2009, p.18)

Nova descrição na semana que vem.

Os Alephs

08 de setembro de 2010 4

O que Jorge Luis Borges viu no Aleph (trecho retirado da nova edição da Companhia das Letras, com tradução de Davi Arrigucci Jr.):

“Na parte inferior do degrau, à direita, vi uma pequena esfera furta-cor, de um fulgor quase intolerável. No início, julguei-a giratória; depois compreendi que esse movimento era uma ilusão produzida pelos vertiginosos espetáculos que encerrava. O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava aí, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (a lâmina do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu a via claramente de todos os pontos do universo. Vi o mar populoso, vi a alvorada e a tarde, vi as multidões da América, vi uma teia de aranha prateada no centro de uma negra pirâmide, vi um labirinto truncado (era Londres), vi intermináveis olhos imediatos perscrutando-se em mim como num espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu, vi num pátio interno da rua Soler as mesmas lajotas que trinta anos antes vi no corredor de uma casa em Fray Bentos, vi cachos de uva, neve, tabaco, veios de metal, vapor de água, vi convexos desertos equatoriais e cada um de seus grãos de areia, vira em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, o altivo corpo, vi um câncer no peito, vi um círculo de terra seca numa calçada onde antes havia uma árvore, vi uma chácara de Adrogué, um exemplar da primeira versão inglesa de Plínio, a de Philemon Holland, vi ao mesmo tempo cada letra de cada página (quando menino, eu costumava me maravilhar com o fato de que as letras de um volume fechado não se misturarem nem se perderem no decorrer da noite), vi a noite e o dia contemporâneos, vi um poente em Querétaro que parecia refletir a cor de uma rosa em Bengala, vi meu quarto sem ninguém, vi num escritório de Alkmaar um globo terrestre entre dois espelhos multiplicado infindavelmente, vi cavalos de crina redemoinhada numa praia do mar Cáspio ao alvorecer, vi a delicada ossatura de uma mão, vi os sobreviventes de uma batalha enviando cartões-postais, vi numa vitrine de Mirzapur um baralho espanhol, vi as sombras oblíquas de algumas samambaias no chão de um jardim de inverno, vi tigres, êmbolos, bisões, marulhos e exércitos, vi todas as formigas que existem na terra, vi um astrolábio persa, vi numa gaveta da escrivaninha (e a letra me fez tremer) cartas obscenas, incríveis, precisas, que Beatriz enviara a Carlos Argentino, vi um adorado monumento na Chacarita, vi a relíquia atroz do que deliciosamente havia sido Beatriz Viterbo, vi a circulação de meu sangue escuro, vi a engrenagem do amor e a transformação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a Terra, e na Terra outra vez o Aleph e no Aleph a Terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto, e senti vertigem e chorei, porque meus olhos tinham visto aquele objeto secreto e conjectural cujo nome os homens usurpam mas que nenhum homem contemplou: o inconcebível universo.”

O que Paulo Coelho viu no Aleph (trecho retirado do romance mais recente do Mago, publicado pela editora Planeta)

“Estou olhando para a luz, para um lugar sagrado, e uma onda vem em minha direção, me enchendo de paz e amor, embora essas duas coisas quase nunca andem juntas. Estou vendo a mim mesmo, mas ao mesmo tempo ali estão os elefantes com trombas erguidas na África, os camelos no deserto, as pessoas conversando em um bar de Buenos Aires, um cachorro que atravessa a rua, o pincel que se move nas mãos de uma mulher que está prestes a terminar um quadro com uma rosa, neve se derretendo em uma montanha na Suíça, monges entoando cânticos exóticos, um peregrino chegando diante da igreja de Santiago, um pastor com suas ovelhas, soldados que acabam de despertar e se preparam para a guerra, os peixes no oceano, as cidades e as florestas do mundo – tudo tão claro e tão gigantesco, tão pequeno e tão suave.
Estou no Aleph, o ponto onde tudo está no mesmo lugar ao mesmo tempo.
Estou em uma janela olhando para o mundo e seus lugares secretos, a poesia perdida no tempo e as palavras esquecidas no espaço. Aqueles olhos estão me dizendo coisas que nem sequer sabemos que existem mas que estão ali, prontas para serem descobertas e conhecidas apenas pelas almas, não pelos corpos. Frases que são perfeitamente compreendidas ainda que não sejam pronunciadas. Sentimentos que exaltam e sufocam ao mesmo tempo.
Estou diante de portas que se abrem por uma fração de segundo e logo tornam a se fechar, mas que permitem desvelar o que está escondido atrás delas — os tesouros, as armadilhas, os caminhos não percorridos e as viagens jamais imaginadas.
— Por que está me olhando desta maneira? Por que seus olhos estão me mostrando tudo isso?
Não sou em (sic) quem está falando, mas a menina, ou mulher, à minha frente. Nossos olhos se transformaram em espelhos de nossa alma — talvez não apenas de nossa alma, mas de todas as almas de todas as criaturas que naquele momento estão caminhando, amando, nascendo e morrendo, sofrendo ou sonhando neste planeta.
— Não sou eu… acontece que…
Não consigo terminar a frase, porque as portas continuam se abrindo e revelando seus segredos. Vejo mentiras e verdades, danças exóticas diante do que parece ser uma imagem de deusa, marinheiros lutando contra o mar violento, um casal sentado em uma praia olhando o mesmo mar, que parece calmo e acolhedor. As portas continuam se abrindo, as portas dos olhos de Hilal, e começo a ver a mim mesmo, como se já nos conhecêssemos há muito, muito tempo…”

Mestres fora dos moldes

02 de julho de 2008 3

Quem leu a central do Segundo Caderno de hoje deve ter acompanhado a entrevista feita pelo nosso colega Rodrigo Breunig com o professor, crítico e escritor Luís Augusto Fischer. Fischer lança hoje às 19h na Livraria Cultura do Shopping Bourbon Country sua coletânea Machado e Borges: e outros ensaios sobre Machado de Assis, uma série de estudos nas quais Fischer aprofunda, com rigor acadêmico, sua obsessão de leitor com o gênio de Machado. Como espaço de jornal é um saco e a gente está sempre cortando material, vai abaixo a íntegra da entrevista, muito boa, diga-se de passagem. Divirtam-se

Zero Hora – Como surgiu sua vontade de investir mais na aproximação entre Machado e Borges?
Luís Augusto Fischer –
Talvez tenha sido numa das leituras que fiz do Literatura e subdesenvolvimento, artigo do Antonio Candido de grande inspiração, em que ele menciona que Machado não conseguiu ser lido fora do país em sua época, mas Borges sim. Ele não estende o comentário, mas aí deve ter entrado em ação a minha relativa intimidade com a obra dos dois, que eu leio regularmente há muitos anos, mais de 20, quase 30. Além disso, eu já ministrei cursos aproximando os dois, sempre a partir da idéia de formação de uma literatura tal como Candido define; com essa perspectiva armada, fica relativamente fácil ver que Machado é para o Brasil o que Borges é para a Argentina: são dois autores que lêem a tradição nacional respectiva e, apreciando criticamente o que já foi feito, rejeitam as restrições nacionalistas, sem nunca perderem de vista a matéria local com que trabalham. Fácil de dizer, assim de longe, mas difícil de executar artisticamente; e foi o que eles fizeram.

ZH – Um seus dos pontos de comparação dos dois é a “desconfiança no realismo”.
Fischer
– O caso é, como eu tento explicar com certo detalhe, que os dois poderiam ter enveredado por um caminho realista mais óbvio, acompanhando cada um a sua geração (Machado com os naturalistas do final do século 19, Borges com os neo-realistas dos anos 1930); mas nenhum deles enveredou por esse trilho, ao mesmo tempo mais fácil e mais perecível. Por quê? Mistérios da criação, em parte, mas em outra parte opção consciente, em consonância notável com o melhor do pensamento crítico de cada época. Machado por assim dizer parece que leu Freud (não leu, ao que tudo indica), no sentido de ter percebido esse novo abismo entre o autor e os personagens, abismo que não se restringe à figura do narrador tradicional, aquela voz que conta a história sem aparecer. Borges também não deve ter lido, pelo que consigo saber dele, mas igualmente faz sua literatura freqüentar esses novos desvãos, que têm tudo a ver com a (simplifiquemos) crise do sujeito burguês. É por aí a conversa.

ZH – O senhor lança a reflexão de que se Machado tivesse sido só contista “talvez sua sorte fosse outra” fora do Brasil. Essa sorte pode estar mudando, não?
Fischer
– Sim, já está mudando, porque agora o Machado contista parece estar ficando mais legível fora daqui, dada a evidência de traduções novas que começam a aparecer nos países centrais do Ocidente. E o caso é que também o romancista parece estar ficando mais compreensível, agora, talvez porque a mistura de ideário burguês iluminista com sociedade despreocupadamente desigual esteja ficando mais generalizada: no século 19, talvez só o Brasil praticasse essa patifaria de ter uma constituição liberal e ao mesmo tempo manter vivo o escravismo, mas hoje, em certa medida, até mesmo os antigos paladinos do liberalismo, como a Inglaterra, mantêm práticas sociais que excluem explicitamente certos grupos sociais, como é o caso dos imigrantes indesejados. Quer dizer: ok, Machado cresce por sua qualidade de texto, de invenção estilística, cada vez mais visíveis _ e nunca esqueçamos que ele escreveu num dialeto inculto do Ocidente, o português _, mas sobretudo porque ele terá sido o primeiro a flagrar criticamente o que era a realidade da vida burguesa na periferia do Ocidente, onde o couro comia literalmente a fantasia de igualdade proclamada pela ideologia burguesa.

ZH _ Em entrevista recente à Folha de S. Paulo, Roberto Schwarz disse que querer saber se Capitu traiu ou não o marido em Dom Casmurro, querer saber “se fulana foi ou não foi com beltrano”, é “uma curiosidade um pouco boba e malsã”. Essa curiosidade pode mesmo obstruir uma leitura mais funda da obra?
Fischer
_ Para o leitor mais superficial, esse pequeno mistério da Capitu vale ouro, ainda hoje, e contra isso não há o que fazer, e em certo sentido é até desejável que permaneça, porque assim mesmo é que se criam leitores, lato sensu, dentre os quais pode brotar o leitor de qualidade. A vantagem é que Machado tem substância para muito mais, e o leitor exigente ultrapassa essa pinimba da traição e vai encontrar uma larga e profunda interpretação do Brasil e do mundo daquela época ali, nas mesmíssimas páginas.

ZH _ Por mais que se lamente e que os anos passem, não temos edições confiáveis da obra de Machado de Assis. O que temos, como o senhor diz, são algumas edições com mais escândalos e algumas com menos. Neste ano do centenário de morte de Machado tem aparecido muita coisa. Que tal até aqui?
Fischer
_ Não li tudo, nem todas as edições, o que restringe o alcance do comentário. Começo pelo negativo: não é boa a edição das poesias completas pelo Cláudio Leal (editora Record), porque não fez mais que juntar o que se conhecia, sem peneirar vários equívocos que o tempo foi acumulando e sem explicar nada do que precisa. Na parte crítica, do que foi lançado recentemente, tem um livro muito interessante de Gabriela Kvacek Betella, que estou lendo ainda, Narradores de Machado de Assis (Nankin/Edusp), um trabalho de linha schwarziana sobre os dois últimos romances machadianos. Tem o livro do sempre interessante John Gledson, Por um novo Machado de Assis (Cia. das Letras); e tem a bela antologia de crônicas A Economia em Machado de Assis: O Olhar Oblíquo do Acionista (Jorge Zahar), organizada pelo, quem diria, Gustavo Franco, aquele mesmo. Um pouco antes saíram dois livros imperdíveis: um do Hélio de Seixas Guimarães, Os Leitores de Machado de Assis: o Romance Machadiano e o Público de Literatura no Século 19, cujo subtítulo diz tudo, e A Formação do Nome: Duas Interrogações sobre Machado de Assis, de Abel Barros Baptista, este um estudo desconstrucionista com que não concordo mas que é muito inteligente. Perdoada a imodéstia, posso dizer ainda que todos os romances do Machado receberão edição bem sólida pela L&PM, com notas e textos de apoio sobre o autor e a época, num trabalho que conta com dez competentes estudiosos do autor, que eu estou coordenando.

ZH _ Como o senhor escreve, Machado “matou a charada de sua época”. Quem vai matar a charada de nossa época?
Fischer _
Em romance, no que alcanço ver, Paul Auster, mais que outros. No Brasil, quem mais me entusiasma como reflexão estética sobre nosso tempo é o Chico Buarque. Mas isso é opinião de contemporâneo, quer dizer, muito limitada.

Herbert Quem?

10 de janeiro de 2008 0

Juro que foi pura coincidência. Eu já havia começado este texto antes das notícias sobre a internação do Saramago. Primeiro, quero que me façam um favor. Leiam o trecho abaixo, retirado do ótimo Por que ler os clássicos (que está ganhando nova edição, formato bolso, pela Companhia das Letras), do mestre italiano Italo Calvino, sobre outro mestre, o argentino Jorge Luis Borges. Tentem reter com vocês a idéia central e o nome próprio que aparece no fim do trecho. Depois a gente continua.

O que mais me interessa anotar aqui é que nasce com Borges uma literatura elevada ao quadrado e ao mesmo tempo uma literatura como extração da raiz quadrada de si mesma: uma literatura potencial , para usar um termo que será desenvolvido mais tarde na França, mas cujos prenúncios podem ser encontrado em Ficciones, nos estímulos e formas daquelas que poderiam ter sido as obras de um hipotético Herbert Quain.

Vamos adiante. Calvino aplica seu raciocínio a Borges, mas podemos ser mais amplos e levar o mote mais longe: a literatura é um jogo sofisticado entre adultos vivos e mortos. Logo, não é raro topar com casos em que a admiração de um autor por outro levou a que um deles encampasse para si elementos da obra daquele que admirava, e aqui não se fala do plágio sobre o qual discorremos a pouco na tradução. Fala-se do intercâmbio pelo qual a leitura que um grande artista faz da obra de outro é ela mesma uma obra artística de vulto. E não estou estou falando de crítica, estou falando de livros nos quais outros livros de outros autores são revisitados de algum modo: personagens rearranjados (Proust escreveu sobre Bouvard e Pècouchet, de Flaubert, por exemplo). Mundos que são glosados por outros artistas em suas próprias obras (amigos de H.P. Lovecraft, como Clark Ashton Smith e August Derleth escreveram histórias passadas em sua fictícia Arkham) ou, do modo mais simples, o próprio escritor vira personagem (como, entre centenas de exemplos, Colm Tóibin fez com Henry James em O mestre e Michael Cunningham fez com Virginia Woolf em As horas).

Pedi para que vocês mantivessem o trecho de calvino na cabeça por dois motivos: o primeiro porque Borges foi ele próprio um ponto alto desse tipo de jogo, com contos que eram como resenhas de livros reais e imaginários, histórias protagonizadas por escritores orientais antigos que de fato existiram e outros artifícios literários desconcertantes. E porque Borges foi ele próprio o elo inicial de um dos mais profícuos jogos literários do gênero. justamente a existência (ou não) do escritor irlandês Herbert Quain, o nome citado por Calvino.

Quain vem a público no livro de contos Ficções (1944), de Borges, um dos grandes clássicos da prosa em qualquer época – que ainda tem edições antigas da Globo em catálogo e as novas da Companhia das Letras. O conto Exame da obra de Herbert Quain é um dos construídos no estilo que notabilizaria Borges: em vez de um caudaloso romance de fantasia, um conto no qual o autor escrevia uma breve resenha crítica sobre o livro que havia imaginado mas não escrito. O resultado é magistral:

Herbert Quain morreu em Roscommon; comprovei sem espanto que o Suplemento Literário do Times mal lhe dedica meia coluna de piedade necrológica, em que não há epíteto laudatório que não venha corrigido (ou seriamente admoestado) por um advérbio. O Spectator, em seu número pertinente, é sem dúvida menos lacônico e talvez mais cordial, mas equipara o primeiro livro de Quain – The God of the Labyrinth – a um de mrs. Agatha Christie e outros aos de Gertrude Stein: evocações que ninguém julgará inevitáveis e não teriam deixado alegre o defunto.

O Quain fictício criado por Borges é um autor de língua inglesa cujo primeiro livro foi um romance policial e daí para diante se entregou a experiências narrativas de segmentar um enredo para cobrir todas as possibilidades possíveis de uma história e as várias identidades que um personagem pode assumir. O conto-resenha continua esmiuçando detidamente os livros fictícios do hipotético “Quain” (em espanhol como em português é clara a semelhança entre o sobrenome em sua pronúncia inglesa e as palavras “quem” e”quién”): um romance contado em reverso e cujos capítulos retratam hipotéticas vésperas da primeira cena; um livro em dois atos nos quais os personagens do primeiro retornam no segundo com identidades trocadas e uma coletânea de contos.

A idéia de Quain e de sua poderosa obra inexistente causou profunda impressão no próprio José Saramago, a ponto de ser retomada em um de seus melhores romances, O ano da morte de Ricardo Reis. Esse livro por si só já se apresenta como um instigante jogo intelectual: narra a volta a Lisboa do médico Ricardo Reis no mesmo ano da morte de Fernando Pessoa. Os apaixonados por literatura reconhecem o jogo porque Ricardo Reis é um dos heterônimos criados por Pessoa. Reis desembarca de um navio de bandeira inglesa e, ao desfazer sua mala já no hotel em que se hospeda, percebe que manteve consigo um exemplar do livro The god of the labyrinth, de um escritor irlandês chamado Herbert Quain, que retirara na biblioteca do navio e não devolvera:

Pôs o livro na mesa-de-cabeceira para um destes dias o acabar de ler, apetecendo, é seu título The god of the labyrinth, seu autor Herbert Quain, irlandês também, por não singular coincidência, mas o nome, esse sim é singularíssimo, pois sem máximo erro de pronúncia se poderia ler, Quem, repare-se Quain, Quem, escritor que só não desconhecido porque alguém o achou no Highland Brigade, agora, se lá estava em único exemplar, nem isso, razão maior para perguntarmos nós, Quem. O tédio da viagem e a sugestão do título o tinham atraído, um labirinto com um deus, que deus seria, que labirinto era, que deus labiríntico, e afinal saíra-lhe um simples romance policial, uma vulgar história de assassinato e investigação, o criminoso, a vítima, se pelo contrário não preexiste a vítima ao criminoso, e finalmente o detective, todos três cúmplices da morte, em verdade vos direi que o leitor de romances policiais é o único e real sobrevivente da história que estiver lendo, se não é como sobrevivente único e real que todo o leitor lê toda a história.

Como se vê, Saramago recupera Quain e o tema no qual Borges o havia inserido inicialmente, o de uma reflexão sobre o que são as narrativas de mistério e o mistério de todas as narrativas. Um contexto semelhante ao que Jorge Reis-Sá, um escritor português de safra mais recente, usará ao transformar as linhas inexistentes do inexistente Herbert Quain em epígrafe para seu romance recentemente lançado no Brasil pela Record, Todos os dias – e aqui temos outra vez um diálogo com o próprio Saramago que vai além da utilização de Quain, mas também no título que ecoa o alegórico Todos os nomes. Diz a epígrafe de Quain, apresentando o mote do livro: “A vida sempre acontece tarde demais“.

O retorno de Quain na obra de Jorge Reis-Sá é apropriado no momento em que Todos os dias é também uma narrativa que, embora não de corte policial, se estrutura em uma surpresa que, revelada ao fim do livro, reformula todo o entendimento que se teve do que foi lido até ali. Mas essa surpresa eu não vou revelar, vão lá ler o livro – que eu li, a propósito, por indicação da Priscilla, que tivemos de volta no blog esta semana, e portanto este post é a ela dedicado.