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Posts com a tag "Literatura Mexicana"

O México como história policial

11 de julho de 2014 1

arrecife

Se uma narrativa começa com a descoberta de um cadáver, é bastante provável que se trate de um história policial. Isso é verdade apenas até certo ponto para Arrecife, romance do mexicano Juan Villoro que ganha edição agora no Brasil (Companhia das Letras, 240 páginas, R$ 39,90. Tradução de Josely Vianna Baptista). Embora não deixe de ser uma história de crime, Arrecife não busca apenas a resolução de um único homicídio, mas a reconstrução do caminho que levou o próprio país a um inferno social e criminal.

Villoro é um um dos grandes autores mexicanos contemporâneos. Pertence a uma geração mais recente que os canônicos Carlos Fuentes, Octávio Paz ou Elena Poniatowzka. Ele e outros autores, como Juan Pablo Villalobos ou Jorge Zepeda Patterson, se distinguem por encarar abertamente como tema a violência endêmica na sociedade mexicana – em certos aspectos bem parecida com a brasileira, situação agravada pela interferência do vizinho Estados Unidos e pela ação do narcotráfico. Cada qual a seu modo, seus livros falam de um México sangrado até o limite do surrealismo, aproveitando para isso o cruzamento de referências, olhares e gêneros.

Em Arrecife, um grupo de personagens alquebrados gravita em torno de um empreendimento hoteleiro chamado La Piramide – um resort de luxo no Caribe que oferece como diferencial a seus hóspedes, turistas endinheirados da Europa e dos EUA, a sensação de perigo que se vive em uma região conflagrada pelo narcotráfico e pela disparidade social. Um programa que inclui sequestros encenados e encontros com guerrilhas falsas compostas por atores contratados.

Até que um dos mergulhadores contratados, o americano Ginger Oldenville, aparece assassinado diante do aquário do hotel, com um arpão nas costas. Quem conduz a narrativa é Tony Góngora, ex-roqueiro aposentado com vazios na memória devido ao abuso de drogas. Contratado para o resort por um amigo de infância e ex-colega de banda – que agora gerencia o local e seu programa de “violência recreativa” –, Tony se vê enredado nas consequências da investigação, que se complicam depois que outro mergulhador, amigo e talvez amante do primeiro, é encontrado morto em alto-mar, e a possibilidade de um pacto suicida entre ambos é sugerida.

É aqui que Villoro marca a diferença entre seu romance e uma novela de crime tradicional. A investigação propriamente dita corre à parte das ações de Tony, e o foco se concentra em sua relação com outros personagens que também veem no La Piramide um ponto de recomeço para desastres passados. À medida que a narrativa enfoca cada vez mais o passado de Tony como roqueiro e bicho-grilo dos anos 1970 aos 1990, mais se imiscui na trama o México infernal do século 21, com os rios de sangue vertidos pelo narcotráfico – que Villoro, inteligentemente, associa ao dos sacrifícios maias, centro de um passado histórico e mítico também regado com sangue.

Carlos Fuentes e o eterno retorno

13 de setembro de 2013 0
O escritor mexicano Carlos Fuentes

O escritor mexicano Carlos Fuentes

Da sacada de um hotel em um país que poderia ser tanto o México quanto qualquer outro, dois homens discutem ideias enquanto observam a sangrenta marcha de uma revolução – que também poderia ser qualquer uma. Em torno desse tênue fio condutor que se tece Federico em Sua Sacada, romance que o escritor mexicano Carlos Fuentes concluiu pouco antes de sua morte inesperada, em maio do ano passado.

Federico em Sua Sacada ( Tradução de Carlos Nougué. Rocco, 316 páginas, R$ 39) é um livro de estrutura complexa. A narrativa se divide em quatro seções, cada uma delas com uma citação irônica do hino nacional mexicano. Essas partes se subdividem em capítulos curtos, que se alternam entre o diálogo de dois homens que conversam de uma sacada ara outra em um hotel e os pontos de vista de uma dezena de personagens cujas ações formam a história de uma revolução popular deteriorada em ditadura e terror. O “Federico” do título é o redivivo Friedrich Nietzsche, que discute com o narrador temas centrais de sua filosofia ilustrados pela ação dos homens e das mulheres que amam e se matam lá embaixo: o eterno retorno, a vontade de poder e a legitimação da violência.

Enquanto Federico dialoga com um narrador que muda constantemente de identidade (às vezes é outro Federico, à vezes é um duplo de Fuentes, em outro momento é Dante, uma das figuras centrais do livro), desfilam diante de seus olhos os principais personagens da narrativa, figuras que cumprem uma função alegórica no grande teatro histórico – posição que é marcada mesmo pela escolha dos nomes dos personagens. Dante e Leonardo são irmãos aristocratas em lados opostos. Leonardo é conselheiro do poder constituído, Dante é um dos ideólogos do movimento, ao lado de Aarón Azar, advogado de austeridade sombria, e de Saúl Mendés-Renania, revolucionário que tem abertos na carne estigmas que sangram continuamente. Não demora para que o movimento triunfe, e cada um deles, além de outros personagens que gravitam na história,assumam papéis que resumem o declínio histórico de qualquer revolução real, da francesa à soviética, passando pela mexicana: o traído, o traidor,o mártir,o herói,o tirano

As interrelações entre o trio de líderes reproduzirão, aos poucos, tensões históricas que ora remetem à ruptura de Stalin com Trotsky (quando Aarón vota pela desgraça de seu amigo Dante), ora o conflito entre Danton e Robespierre (Aaron é austero e seco como o “incorruptível” da Revolução Francesa, e o próprio Dante é chamado, às, vezes, de Dantón, um apelido no aumentativo que reproduz no espanhol o nome da “voz da Revolução”. O arco de persoangens, contudo, não é muito desenvolvido, talvez pela própria função alegórica de cada um. A maior exceção talvez seja o sapateiro Basilicato, homem do povo entusiasmado pelo fervor da revolução que vai gradativamente galgando postos na hierarquia do movimento.

Em um romance assumidamente dedicado a transformar o “eterno retorno” de Nietzsche em alegoria, não é de surpreender que temas e inquietações característicos de Fuentes reapareçam neste livro derradeiro. Estão lá acontecimentos suprarreais usados como metáfora para a realidade política latino-americana e a história turbulenta do continente descrita com fartas doses de farsa e sangue – temas comuns ao boom do qual Fuentes foi um dos maiores expoentes e aos quais permaneceu fiel até o fim. Não é um livro fácil,devido à radicalidade de sua experimentação. Também não é um romance coeso,pois,em determinadas passagens, a confusão instaurada pela narrativa parece menos tributária da vontade do autor do que de uma artesania deficiente ou apressada – talvez Fuentes ainda pretendesse trabalhar mais no texto após concluí-lo. Mas serve como um memorável súmula do trabalho de um dos mais combativos autores latino-americanos.

federico

Infância em meio ao sangue

12 de março de 2012 0

Juan Pablo Villalobos. Foto: Renato Parada/ Divulgação

Neste post eu já havia comentado com vocês a leitura de Festa no Covil (Tradução de Andreia Moroni. Companhia das Letras, 96 páginas, R$ 29,50), romance de estreia do mexicano Juan Pablo Villalobos. No segundo caderno de hoje, vocês podem ler uma entrevista que fiz com o autor sobre olhar sarcástico e estranho que ele lança sobre a realidade do México dominado pela violência do narcotráfico. O livro é protagonizado pelo menino Tochtli, de 10 anos, um menino precoce que quase nunca sai de casa e é sempre mantido sob vigilância de um dos brutamontes responsáveis pela segurança do pai. Seu conhecimento do mundo se dá filtrado pela televisão ou pelo contato com as poucas pessoas que conhece. É no entanto essa visão limitada de Tochtli que se torna nossa janela para o universo não apenas do menino, mas do México sob o narcotráfico. Leia abaixo a íntegra da conversa, feita por telefone, de Campinas, onde Villalobos reside (ele é casado com uma brasileira e mora no Brasil desde o ano passado):

ZH –  Uma das características mais marcantes de Festa no Covil é a voz de Tochtli, o protagonista, com um olhar infantil sobre um universo em cujas brechas e frestas se percebe algo brutal. Como o senhor chegou a essa voz narrativa?
Villalobos –
Quando comecei a escrever, tinha bastante claro o que queria contar, a trama da história, mas não estava seguro justamente quanto à voz. Uma das dúvidas que tive quando comecei a escrever a história foi de que perspectiva deveria narrá-la. Estive tentando narrar pela perspectiva do pai, Yolcault, o chefão do tráfico, ou pela de Mazatzin, o professor do menino, dois olhares adultos, mas essas tentativas não me convenceram. Não me convenceram do ponto de vista estilístico, inclusive do tom que essas vozes teriam, e nem do resultado que estava obtendo com a visão de mundo dessa casa, esse palácio que é uma espécie de metáfora do narcotráfico no México. E de repente quando ainda buscava uma voz para me ajudar a narrar a história, surgiu a primeira frase do livro, que se manteve igual a partir dali. Gostei muito de como essa frase soava, e me parecia que havia ali a possibilidade de explorar a visão infantil. Por um lado me interessava um mundo narrado por um menino que carece de moral, porque as crianças ainda não têm uma visão de mundo completa, e por isso tampouco emitem juízos morais, o que era muito importante para o romance. E depois também havia a possibilidade de recorrer ao humor, inclusive o politicamente incorreto, porque um menino pode dizer e achar engraçadas coisas brutais, que para um adulto constituiriam um problema.

ZH – Com essa voz o senhor também queria trabalhar a ambivalência entre o que um adulto mostra e o que ele se ilude que uma criança ainda não sabe?
Villalobos –
Sim, claro. No fim das contas, Festa no Covil é um romance de iniciação. É uma história na qual Tochtli vai desvendar os mistérios de sua casa descobrindo de alguma maneira as últimas informações que seu pai lhe oculta. Porque Tochtli, no começo do romance, sabe de algumas coisa ques acontecem em sua casa. Não todas, mas ele não é totalmente inocente. Digamos que no transcurso do romance, ele vai acabar de descobrir o que o seu pai é. Então há estre jogo entre o personagem vai descobrindo os segredos do que se passa na casa, particularmente nos quartos supostamente vazios da mansão, que Tochtli vai abrindo para descobrir o que há por trás delas.

ZH – A leitura de seu livro lembrou, guardadas as devidas proporções, uma exposição de Fernando Botero que está em cartaz em Porto Alegre: Dores da Colômbia. Em seu livro, um garoto conta episódios que vão se tornando mais brutais. Na exposição, Botero, com suas figuras lúdicas, gordinhas, retrata horrores e massacres com uma atmosfera infantil. O senhor conhece esses trabalhos? Concorda com essa comparação?
Villalobos –
Não tive a oportunidade de ver os quadros dessa exposição ao vivo, só em fotografias, em internet, mas conheço a obra de Botero. Creio que o fenômeno do narcotráfico é um fenômeno latino-americano. Bom, é um fenômeno mundial, claro, mas as grandes zonas produtoras de coca estão na América Latina: no Peru, na Colômbia, na Bolívia, também na América Central e no México por serem via de passagem até o principal mercado, os Estados Unidos. Sendo o narcotráfico um problema panamericano, surgiram várias manifestações culturais ou artísticas como tentativa de refletir sobretudo a violência associada ao narcotráfico, o efeito do narcotráfico. Temos toda uma literatura que trata do tema, que começou primeiro na Colômbia, nos anos mais duros do narcotráfico por lá. A Colômbia ainda enfrenta o narcotráfico, mas nada que se compare ao que acontecia há 15 ou 20 anos. Hoje o foco da violência do tráfico se transplantou para o México e para lá também se transplantou essa literatura sobre o narcotráfico. Mas não apenas na literatura, há pintores, artistas conceituais que estão trabalhando também com esse tema da violência. Em geral, creio que é uma reação natural dos artistas dessas sociedades para contribuir com a reflexão sobre o fenômeno.

ZH – Em 2006 o presidente Felipe Calderón declarou guerra aos narcotraficantes no México, e as estatísticas divulgadas desde então mostram que a violência no país teve um salto estratosférico. Como o senhor vê a situação de seu país atualmente, um quadro que é o tema central de seu romance?
Villalobos –
Comecei a escrever o romance em 2006, justo no ano que começou essa nova escalada de violência. A violência do narcotráfico no México já se estende por mais de um século. Há registros datando a eclosão dos primeiros episódios no final do século 19. Mas nunca havia ocorrido violência em níveis tais como os que vemos hoje em dia. Nos seis anos de mandato de Calderón, que terminam no final deste ano, houve 47 mil mortes associadas ao narcotráfico, de acordo com as estatísticas oficiais. Além disso, houve uma expansão da violência. Antes o narcotráfico estava associado a certas zonas do país, estados tradicionalmente ligados ao tráfico, principalmente na região de fronteira dos Estados Unidos. Agora houve uma disseminação da violência, no norte, no sul, no centro do país. Mesmo que seja cedo para avaliar o resultado a longo prazo dessa iniciativa do presidente Calderón de declarar guerra ao narcotráfico, o certo é que a curto prazo foi um desastre. E é certo também que estão cada vez mais claras, ao menos para os mexicanos bem-informados, as razões que o presidente teve para empreender essa guerra. Calderón assumiu o poder com um gravíssimo problema de legitimidade porque havia ganhado as eleições por uma margem muito estreita, meio ponto percentual – tão estreita que muitos dizem que ele na verdade não ganhou. Então, uma parte importante do país não acreditava em sua vitória. E ele tomou a decisão de apoiar-se no exército, levar o exército às ruas e declarar essa guerra para legitimar seu poder. O que é muito grave e teve uma eficácia muito duvidosa.

ZH –  Tochtli só chama o chefão Yolcault de “pai” no fim do romance, após uma série de episódios traumáticos que vive e que destroem o que restava das fantasias que ele acalentava sobre sua vida. Seu romance é também uma leitura da perda de inocência do México com a guerra, a violência e com essa própria crise de legitimidade do poder que o senhor citou?
Villalobos –
Para mim, e creio que para qualquer autor, é difícil assumir as possíveis metáforas ou interpretações a partir da própria obra. É verdade que há críticos que falaram desse palácio em que vivem Tochtli e Yolcault como uma metáfora do que está passando no México, ou leem a história como o processo que o México seguiu na guerra ao narcotráfico. Quando escrevi a história não pensei nisso, mas também aceito que é uma leitura válida. Para mim o importante enquanto escrevia a história era justamente o processo de aprendizagem de Tochtli, que ao final é um processo de aprender a sobreviver no ambiente em que esse menino teve que crescer. Um ambiente particularmente violento e especial, não tem nada que ver com o modo que crescem com outros meninos. Para começar, porque Tochtli nem sequer tem contato com outras crianças, apenas com adultos. E, salvo o professor, os adultos com quem ele tem contato são capangas, assassinos, prostitutas. O que vemos no livro é uma espécie de educação sentimental que Tochtli tem para aprender a aceitar quem é seu pai e para entender esse mundo em que ele se move. Mas evitei cair em moralismos, porque Youcault, apesar de ser quem é, o romance o retrata como um pai que se preocupa com seu filho, que o protege e o ama, mesmo sendo um criminoso.

ZH – Ao mesmo tempo, a relação de proteção de Yolcault com seu filho é ambivalente. Ao mesmo tempo que lhe oculta algumas coisas, pode chamar o filho a testemunha o espancamento de um membro do bando considerado traidor.
Villalobos –
Digamos que Yolcault está tentando administrar esse processo de aprendizagem do filho. As coisas que ele esconde, esconde por segurança. Não mostra o quarto em que estão guardadas as armas do covil, as pistolas e rifles, porque crê que não seria seguro para o menino saber. Ao mesmo tempo, permite que o filho esteja presente numa conversa que tem com um político para tratar de negócios escusos. Ou também, como você disse, um dia chama o filho para que veja como se castiga um traidor. O pai está mostrando algumas coisas e ocultando outras seguindo uma ideia do que é melhor para o filho. Está cumprindo um projeto de ensino profundamente machista – e evidentemente essa é uma crítica à educação masculina que recebemos no México, que, apesar de ter mudado nos últimos anos, segue sendo muito machista. Uma educação que é a de todos os países latinos. O que é curioso, porque as sociedades latinas são sociedades matriarcais, mas os homens recebem uma educação machista que reserva para a mulher apenas funções de apoio.


A festa do menino mimado

17 de fevereiro de 2012 1

Neste post, publicado no Mundo Livro em abril de 2010, eu listava um bom número de romances publicados naquela época nas quais o protagonista e a voz narrativa eram entregues a uma criança. Ali eu também arriscava algumas hipóteses sobre por que um narrador infantil pode representar um grande artifício técnico para um escritor. Com a devida bondade de vocês, reproduzo abaixo o centro dessa argumentação em particular, explicarei mais tarde a razão:

…esse recurso continua eficiente como nunca em produzir um olhar ao mesmo tempo sincero e carregado de estranhamento – já de saída dois objetivos bastante desejáveis da boa literatura. Muitas vezes, escondem-se das crianças as circunstâncias mais dramáticas do núcleo familiar. Mas, como entes dotados de curiosidade implacável, elas terminam por ter contato com o mundo que os pais tentaram manter distante. É também comum crianças serem ignoradas – o que lhes dá uma posição singular: veem sem ser vistas ou consideradas, e absorvem como esponja o mundo que os cerca. Há ainda outro fator: a menos que enunciado por uma criança, o registro de admiração e encantamento parece inviável na atual ficção – por demais consciente de seu próprio status como criação simbólica. Para a criança, as impressões do mundo têm o sabor de novidade real, e colaboram na criação da credibilidade da narrativa perante os leitores mais cínicos.

Outro ponto a ser levado em consideração é que crianças absorvem o mundo sem elaborar determinadas sínteses só possíveis aos adultos, e por isso seu olhar é perfeito para retratar com sutileza situações de horror. Cenas de brutalidade exasperante podem ser descritas com as elipses naturais da incompreensão infantil, o que torna ainda maior o impacto no no leitor adulto.

Explico agora por que resolvi reproduzir esse trecho. Porque mesmo que isso que escrevi aí em cima seja um equívoco no que diz respeito à generalidade da teoria literária, enquadra perfeitamente o tipo de percepção que se tem do mundo construído pelo escritor mexicano Juan Pablo Villalobos em seu primeiro romance, Festa no Covil (Tradução de Andreia Moroni. Companhia das Letras, 96 páginas, R$ 29,50). A obra, um romance com extensão de novela, é narrada pela voz de Tochtli, um menino inteligente filho de um chefão do narcotráfico mexicano.

Tochtli é “coelho” no idioma asteca – a maioria dos personagens do livro tem nomes que remetem à cultura ancestral mexicana. Como um coelho eternamente entocado, Tochtli quase nunca sai de casa e é sempre mantido sob a vigilância de um dos brutamontes responsáveis pela segurança do pai. Seu conhecimento do mundo se dá filtrado pela televisão ou pelo contato com as poucas pessoas que conhece (ele estima que umas 13 ou 14 no início do livro). As principais são seu preceptor, um intelectual de esquerda mexicano, outrora rico e agora caído em desgraça, e o próprio pai, Youlcault, chamado de “El Rey”, na imprensa. Um homem que enriqueceu além de qualquer medida com negócios escusos que tenta, ainda que sem muita perseverança, manter escondidos do filho.

O que torna a voz narrativa de Tochtli tão desconcertante é justo essa tensão entre o que se esconde e se revela no mundo que o cerca. O garoto, considerado precoce, sabe bem mais do que aparenta sobre o que o pai gostaria de esconder dele.  Quartos ditos vazios na mansão em que ambos moram estão na verdade abarrotados de armas, e Tochtli é trazido para testemunhar um interrogatório a um “traidor” do bando por Youlcault, mas é poupado de ver a execução. Que ele, em tese, ao menos intelectualmente, já sabe bem como é, como revela este trecho, que mescla exatamente todos os elementos que havíamos mencionado anteriormente, a voz ingênua que trata de coisas brutais com o distanciamento curioso próprio da infância:

Na verdade existem muitos jeitos de fazer cadáveres, mas os mais usados são com os orifícios. Os orifícios são buracos que você faz nas pessoas para o sangue vazar. As balas de revólver fazem orifícios e as facas também podem fazer orifícios. Se o seu sangue vaza, chega uma hora que o coração ou o fígado param de funcionar. Ou o cérebro também. E você morre. Outro jeito de fazer cadáveres é com os cortes, que também são feitos com as facas ou com facões e guilhotinas. Os cortes podem ser pequenos ou grandes. Se são grandes, separam partes do corpo e fazem cadáveres em pedacinhos. O mais normal é cortar a cabeça, mas na verdade você pode cortar qualquer parte. É por culpa do pescoço. Se a gente não tivesse pescoço seria diferente. Podia ser que o normal fosse cortar o corpo ao meio para ter dois cadáveres. Mas a gente tem pescoço, e essa é uma tentação muito grande.

O que a narrativa mostrará a Tochtli com o andamento da história, que envolve o desejo intenso do menino de ter como animal de estimação um Hipopótamo-Pigmeu da Libéria, é que uma coisa é saber tudo sobre a morte, outra é sua realidade.

O fascínio de Frida Kahlo

10 de novembro de 2011 0

O autor mexicano Francisco Haghenbeck. Foto: Adriana Franciosi

Francisco Haghenbeck, 46 anos, já se acostumou a ser uma surpresa para seus leitores. No exterior, suas obras saem em um bom número de países com a identificação F.G. Haghenbeck na capa (de Francisco Gerardo, seu nome completo). As iniciais e o sobrenome alemão muitas vezes predispõem os leitores a pensar que ele é alemão, inglês ou americano – ainda mais porque parte de sua obra flerta com a literatura noir. Mas o livro que tornou Haghenbeck internacionalmente conhecido não poderia ser  mais mexicano. Haghenbenck é autor de O Segredo de Frida Kahlo (Planeta), um romance no qual mistura realismo mágico, biografia e gastronomia para contar a vida de Frida por meio de uma faceta menos conhecida mas, segundo ele, fascinante da pintora mexicana: seus livros de receitas. Haghenbeck parte do do acidente real de bonde no qual a pintora Frida Kahlo ficou gravemente ferida e, a partir daí, imagina o encontro da artista com a Morte, que se torna sua madrinha, e para quem ela preparará um  banquete especial a cada Dia dos Mortos, a tradicional festa mexicana..

Haghenbeck é autor de thrillers e argumentista de histórias em quadrinhos como Crimson: A Marca do Vampiro (Pandora Books), e autografa amanhã às 20h30min o romance sobre Frida Kahlo. Antes, às 19h, fala sobre a relação entre Frida e a gastronomia na Sala dos Jacarandás do Memorial do Rio Grande do Sul, com mediação de Ivete Brandalise. Na praça, ele respondeu a três perguntas de Zero Hora:


Mundo Livro – Frida Kahlo é hoje provavelmente a pintora mais famosa do mundo. Em alguns países, é até mesmo mais conhecida do que seu companheiro Diego Rivera, um dos grandes nomes da arte mexicana. A que o senhor atribui isso?
Francisco Haghenbeck –
Provavelmente o motivo não é sua arte, mas sua vida. Ela teve uma vida passional e muito intensa, suportou dores e sofrimentos, conheceu grandes personalidades de seu tempo, e fez dessa vida o objeto de sua arte. Era também alguém que tinha o grande dom de reunir pessoas em volta de si.

Mundo Livro – E o que o levou a escrever um livro sobre ela?
Haghenbeck -
Isso é uma coisa curiosa, porque eu nunca fui um grande fã da pintura de Frida, nunca apreciei muito seu trabalho como artista. Cresci em uma casa em que havia um quadro de Diego Rivera, e por meio da história dele fui conhecer a história dela. Até que certo dia encontrei um livro de receitas escrito por Frida Kahlo. Minha esposa é uma chef, e lemos o livro juntos, e por ali fiquei fascinado pela vida de Frida. Foi pela vida de Frida que passei a entender sua obra. Meu livro anterior, Trago Amargo, já misturava gastronomia e r0mance, é um noir em que cada capítulo é um coquetel. E meu editor perguntou: já que gostas tanto dessa coisa de gastronomia, por que não voltas a isso no próximo livro? A descoberta do livro de receitas de Frida me deu o pretexto que queria.

Mundo Livro – Abordar um personagem tão popular é de alguma forma um desafio para a criação romanesca?
Haghenbeck -
Fiquei cinco anos cozinhando o livro na minha cabeça. O que é surpreendente em Frida é que sua vida foi a de um personagem. Ela parece um personagem criado para um romance, com tudo o que viu e viveu: o acidente, as dores crônicas, a paixão por Diego, o comunismo, seu encontro com Trotsky. O difícil é mais ajustar seu romance a essa vida, e por isso busquei o tom do realismo mágico. de certo modo, a morte é um dos grandes personagens desse romance, a relação de Frida com a morte – como a maioria dos mexicanos, Frida celebrava na cozinha a vida, para esquecer da morte