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Posts com a tag "Sérgio Faraco"

Turismo literário

27 de junho de 2012 3

Algumas excentricidades do mapa brasileiro inspiraram o escritor Fabrício Carpinejar a fazer um convite a colegas das letras: criar histórias de ficção ambientadas naquelas cidades de belos e misteriosos nomes. O resultado está em Bem-vindo: Histórias com as Cidades de Nomes mais Bonitos e Misteriosos do Brasil (Bertrand Brasil, 126 páginas, R$ 25). A coletânea reúne 10 autores e desbrava Saudades, Encruzilhada do Sul, Descalvado, Brejo da Madre de Deus, Milagres, Espera Feliz, Amparo, São José dos Ausentes, Brasília e Ouro Preto. Quem assina o prefácio é o jornalista Roberto Pompeu de Toledo – a partir de um texto dele, Carpinejar teve a ideia para o projeto. O poeta gaúcho pensou, então,no livro que gostaria de ler. Escalou seus contistas preferidos – Lygia Fagundes Telles e Sergio Faraco estão lá – e pediu que escolhessem os endereços para as suas tramas, não necessariamente relacionadas a seus Estados de origem.

Altair Martins e Cíntia Moscovich, no que o organizador classifica como um “bairrismo manso”, optaram por paragens da terra natal: ele ficou com Encruzilhada do Sul, ela selecionou São José dos Ausentes. Cíntia se pautou por dois temas indissociáveis da localidade serrana: a solidão, estampada no nome, e o frio, que a classifica regularmente entre as mais geladas do sul do país. A escritora concebeu para a cidade que jamais visitou o enredo de uma quase inexistente relação entre pai e filho.

– Pensei na solidão maior. O cara está numa solidão desgraçada. O único afeto disponível é o do cachorro – explica.

Paulista de Cravinhos, João Anzanello Carrascoza também se aventurou por um destino desconhecido: Saudades, no Oeste de Santa Catarina, serviu não apenas de cenário. O conto Passos descreve a plenitude e a fugacidade do reencontro de um casal. “Para não me acostumar a tanta ternura – que depois eu iria desejar sempre, e sofreria por não tê-la –, afastei-me”, registra o marido.

– O nome me desafiou a escrever algo que tivesse também a ver com a cidade.Estava dentro da perspectiva literária em que atuo, não fugi do meu trajeto: é o mundo das relações, o mundo familiar,das pessoas frente a frente – define Carrascoza.

Carpinejar consegue vislumbrar novos volumes com a mesma proposta. Trata-se de um livro, segundo ele, que nasce com fertilidade. Na prosa moderna,especialmente a partir do americano William Faulkner, a cidade passa a ser um componente fundamental da literatura de ficção. – É uma maneira de despertar a curiosidade do viajante. E todo leitor é um viajante.

Leia abaixo um trecho de cada conto publicado na antologia:

Encruzilhada do Sul – RS
Diante da igreja de Encruzilhada, Santa Bárbara, a padroeira, Irene olhou para o relógio mas não viu as horas. Ainda não entendia se viera até ali por Luciana ou se por ela própria. O medo e a curiosidade a empurravam, e, no fundo, precisava ser outra e estar onde estava por si mesma.
Unha e Carne, de Altair Martins

São José dos Ausentes – RS
O velho tinha aquele espanto com as coisas do céu. Com a ameaça de furacões e tormentas, com a possibilidade de geada ou neve, com a perspectiva de calor ou rajadas de vento. Dizia:
_ Vai chover.
Ou:
_ Vai fazer frio.
Ou:
_ A pressão atmosférica baixou.

São José dos Ausentes, de Cíntia Moscovich

Saudades – SC
Entramos, em silêncio, era tão bom estarmos juntos de novo, o toque de minha mão em seu ombro dizia, claramente, acima de qualquer gentileza, Esta é minha mulher e estou aqui por ela, e eu sabia que, deixando-me fechar a porta, quando então se sentaria no sofá para conversarmos um instante, ela, seguindo à frente, dizia, Este é o meu homem e ele voltou pra mim.
Passos, de João Anzanello Carrascoza

Milagres – BA
E, de repente, experimentou uma urgência em revolver sua história, abandonada nalgum recôndito escuro da oficina, em meio ao lixo acumulado atrás da bancada, na admirável bagunça daqueles intermináveis dias e noites, em que, sintonizando programas de música antiga no rádio, relembrava, calças curtas, suaves mãos afagando seus cabelos anelados, o silêncio dos pastos infindos, o latido do Peralta na mata… E depois… a solidão… a amargura…
Milagres, de Luiz Ruffato

Brasília – DF
– O futuro esta aqui – ele diz, enchendo o peito. – Um novo país está nascendo nesta cidade.
Eu balanço a cabeça, enquanto como o meu pão de queijo e bebo o meu café.
– Um país onde todos terão oportunidade, onde ninguém mais passará fome, ninguém mais precisará pedir esmola nas ruas. Um país de gente feliz, um país de paz e prosperidade. Um país, enfim, que é o país com que todos nós, os brasileiros, um dia sonhamos.
Eu balanço a cabeça.

Você Verá, de Luiz Vilela

Descalvado – SP
Morávamos agora em Descalvado depois da mudança com o piano no gemente carro de boi e o caminhão com a cachorrada e mais a Leocádia e a Maria. No fordeco que o meu pai ganhou numa rifa seguimos nós, o pai, tia Laura e minha mãe comigo no colo. O carcereiro guiando, o único que sabia guiar.
Que se Chama Solidão, de Lygia Fagundes Telles

Amparo – SP
A casa do França cheirava a medicamento, disso também me lembro. Ele e a irmã padeciam de uma forma severa de asma. Respiravam assobiando, usavam bombinhas, não podiam com nenhum tipo de poeira. No futebol, ele ia sempre parar no gol por falta de fôlego. Foi, é possível afirmar com grande chance de acerto, um adolescente atormentado e infeliz. Numa receita válida para todos nós, vivia dizendo que a saída era dar o fora da cidade o quanto antes.
Noites Antigas de Amparo (Mentiras da Memória), de Marçal Aquino

Espera Feliz – MG
Foi numa quinta-feira úmida de 1997 que Hélvia pegou o primeiro ônibus do dia e retornou à sua cidade natal para se matar.
Aos 39 anos, 21 vividos em diferentes lugares do país e do mundo, ela estava convicta de sua decisão de voltar para aquele município modesto, situado em pleno maciço da Serra de Caparaó, na Zona da Mata mineira, a quase mil metros acima do nível do mar.

Espera Feliz, de Maria Esther Maciel

Brejo da Madre de Deus – PE
Mesmo assim, Francisco engatinhava em torno da rede onde o morto sentara pela última vez. Ia e voltava, zanzando como abelha na colmeia. Reconhecia a semelhança entre o cheiro silvestre do mel e a carne exalando os primeiros odores da putrefação. Catava os papéis incompreensíveis que jamais leria, escritos num saber alheio à sua existência de empregado doméstico, e guardava-os com sofreguidão. Parecia um Noé salvando espécies do dilúvio: mamíferos, batráquios, aves e répteis.
Sob Fina Camada de Terra, de Ronaldo Correia de Brito

Ouro Preto – MG
Da cama com dossel onde dormia, eu olhava ao redor e tinha a visceral sensação de pertencer eu mesmo a remotas estações que, no entanto, remanesciam palpáveis, vivas, como se a qualquer momento uma das portas fosse abrir-se para dar passagem ao padre Rolim, ao jovem Maciel, a Toledo Piza, Silvério dos Reis ou o soturno Barbacena, patéticos personagens daquele drama mineiro.
Epifania na Cidade Sagrada, de Sergio Faraco

Faraco, reedições e lágrimas

28 de setembro de 2011 1

Sergio Faraco tem duas novas edições de livro saindo do prelo. A L&PM vai botar outra vez no mercado a coletânea Contos Completos, reunindo toda a obra contística do autor, e um de seus livros mais conhecidos, A Dama do Bar Nevada – acrescido, nesta edição, do subtítulo Cenas Urbanas. Ambos os livros vêm com quatro contos inéditos, é o que diz a editora no material de divulgação que enviou, embora não esclareça se os inéditos são os mesmos para os dois livros (pela lógica, teria que ser. Lançar quatro inéditos no Dama no Bar Nevada e deixá-los de fora do Contos Completos tornaria incompleto este volume de completos, se é que me explico). A notícia, ainda assim, é ótima, uma vez que Faraco, um dos maiores contistas do Brasil, não lança nenhum conto novo há uma década, desde Rondas de Escárnio e Loucura (nesse período ele lançou vários livros temáticos, sobre sinuca e automóvel, por exemplo, coletâneas de crônicas, organizou antologias e fez até uma cronologia minuto a minuto do que aconteceu a bordo do Titanic em sua primeira e única trágica viagem). Uma pena, dada a qualidade que Faraco obtém em sua prosa, resultado de uma obsessão minuciosa pela clara expressão da escrita (como se pode ler neste trecho de um depoimento concedido por Faraco ao professor Ruy Carlos Ostermann)

A notícia chega, por coincidência, ao mesmo tempo que a jovem jornalista e colaborada deste blog Maria Rita Horn me enviou um e-mail com um texto seu chamando atenção para um detalhe de outro livro de Faraco, Lágrimas na Chuva, que recentemente também saiu em nova edição, em formato pocket (leia uma entrevista com o autor sobre o livro aqui neste link). Aproveito para juntar as duas coisas e publico abaixo a resenha enviada pela Maria Rita:

E era tudo verdade
Maria Rita Horn

Curiosidade, às vezes fantasia, outras indiferença. Pequena marca de uma página onde impera o espaço em branco, os agradecimentos de um livro já atraíram minha atenção de diferentes maneiras.
Em Lágrimas na Chuva – Uma Aventura na URSS, livro autobiográfico de Sergio Faraco, a dedicatória “Para Jaime” é a prova antes da dúvida, um não fictício que me passou quase despercebido.
A saída do Brasil para um curso na antiga União Soviética, a perseguição dos colegas de curso no Instituto Universal de Ciências Sociais, em Moscou, a paixão pela russa Nina, o hospício, a fuga de volta ao país natal. Na narrativa do livro, tão improvável quanto essa sucessão biográfica de fatos é Jaime, o amigo dominicano de Faraco que se oferece despropositadamente em tempos difíceis. Pés que servem de apoio na neve, costas que sustentam o corpo fraco. Jaime não pede nada em troca além de que Faraco seja forte e não tome as pílulas.
… Eu não sabia que ainda era capaz de chorar. A emoção, contudo, era o desafogo de outros sentimentos. Como não me dera conta de que estava, à minha frente, com o cálice no ar, o amigo que tanto buscara?“, disse o autor no ano-novo que passou em um hospital, ao lado do amigo, mas longe de todo o resto que importava.
Mais de 20 capítulos depois, retomei aquela confissão de carinho que estava ali, nas primeiras páginas. Aquela despercebida. Tão fantasticamente contada e dolorida, a experiência de Faraco parece mesmo invenção. Mas “Para Jaime” não é inventado. É como se fosse Faraco a provocar os incrédulos: “E não é que é tudo verdade?

Lágrimas de bolso

06 de junho de 2011 3

Faraco na Rússia. Foto: Arquivo Pessoal

Lágrimas na Chuva, de Sergio Faraco, foi uma das experiências de leitura mais viscerais que tive na década passada. De 2002, o volume contém as memórias do período em que, nos anos 1960, Faraco passou internado em um hospício soviético para ser “reeducado” no bom caminho da revolução por meios estritamente científicos e “progressistas”: medicamentos e psiquiatrismo radical. Faraco não estava louco, apenas havia manifestado tendências ao “individualismo” que o tornavam uma figura não muito bem enquadrada na União Soviética para a qual havia ido como militante do partido comunista para fazer um curso (a foto acima, do arquivo pessoal do autor, foi tirada naqueles anos). Enquanto estava por lá, estourou o golpe de 1964 no Brasil, o que impediu o retorno de todos os que haviam viajado, afinal, voltar ao Brasil dos militares com um carimbo da União Soviética no passaporte era pedir pra ser preso. Enquanto esperavam as coisas se acalmarem e ouviam muito catecismo revolucionário, Faraco foi tendo cada vez mais dúvidas sobre a ideologia de fundo da utopia comunista, dúvidas que não hesitava, com seu jeito franco e desabrido, de manifestar nas assembleias e reuniões – e que lhe valeram uma internação no Kremlovski Bolnitso, um hospital mental que na prática, como a maioria dos manicômios, era ele próprio uma fábrica de insanos.

Essa temporada no inferno é narrada com o tom e a medida justa próprias de um dos maiores escritores do Brasil: com honestidade, mas sem deixar de lado uma profunda autoanálise. Com a emoção e o pudor unidos de tal forma que a obra jamais resvala para o sentimentalismo, e ainda assim é um relato comovente. Quando recebi, semana passada, o e-mail da L&PM anunciando que o livro está ganhando uma edição de bolso, não resisti a vir aqui e republicar esta entrevista concedida por Faraco em 2002 à setorista de livros do jornal na época, Cíntia Moscovich. No período da entrevista, publicada em agosto de 2002 no caderno Cultura, Faraco estava ainda com o trabalho do livro em processo, publicando-o em capítulos no jornal A Notícia, de São Luiz Gonzaga – só mais tarde as memórias seriam reunidas em livro.

Zero Hora – Como surgiu a idéia de escrever as memórias da época em que o senhor viveu na Rússia?
Sergio Faraco -
De volta ao Brasil, em 1965, quis escrevê-las, mas minhas emoções ainda estavam muito cruas e desordenadas. No final de maio fui preso pela Interpol. Enquanto estive recolhido à sede da organização, os policiais entraram em meu apartamento e apreenderam todos os meus papéis, inclusive a parte da história que, mal ou bem, eu começara a desenvolver. Usaram-na para me interrogar e aquelas páginas, para mim, tornaram-se pouco menos do que malditas. No ano seguinte, em Uruguaiana, publiquei meus primeiros contos. Meu tio, Eduardo Faraco, que foi reitor da UFRGS, mostrou-os a Erico Verissimo, que me escreveu uma carta, convidando-me a visitá-lo em Porto Alegre. Eu o fiz. Ele me perguntou se não pensava escrever sobre minha estada na União Soviética. Respondi que tinha essa intenção, embora minha experiência não fosse edificante. Ele ficou pensativo, depois disse que, se era assim, talvez fosse ainda menos edificante narrá-la enquanto vivíamos, no Brasil, sob uma ditadura militar. Ele tinha razão.

ZH – E o que o levou a retomar a história?
Faraco -
Dos anos 70 aos 90 não a retomei, foi a época da minha ficção, mas ela estava lá, palpitando, fazendo-se lembrar a cada instante como um outro corpo dentro do meu corpo. Tinha eu o direito de matá-la? Ou de permitir que morresse com minha morte? No filme de Ridley Scott Blade Runner, o andróide Roy Batty, na agonia da morte, evoca sua atuação em remotas paragens do universo: “Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam. Naves de ataque em chamas perto da borda de Orion. Vi a luz do farol cintilar no escuro na Comporta Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva“. Então me compenetrei de que aquilo que eu tinha visto, num quintalejo de angústias terrestres, haveria de se perder pelos meus defeitos de escritor, mas não por ter deixado de narrá-lo. Era a vez da minha história, por isso eu tinha parado de escrever contos, que eram, afinal, as histórias dos outros.

ZH – Por que o sr. decidiu publicá-la em capítulos no jornal A Notícia, de São Luiz Gonzaga?
Faraco –
Fui para Moscou cursar o Instituto Internacional de Ciências Sociais, que pertencia ao PCUS. Tive muitos problemas, sobretudo depois que os russos me confinaram num quarto de hospital, de novembro de 1964 a fevereiro de 1965. Escrever era como viver aquilo outra vez, era como se me flagelasse. Eu começava e, acabrunhado, desistia. Ocorreu-me, então, esse expediente: escrever e, ao mesmo tempo, publicar semanalmente o que escrevia. Publicando, não podia parar, seria uma vergonha. Escolhi A Notícia porque é um jornal bonito, bem-feito, tem tradição – acaba de completar 68 anos – e sua circulação regional não esvaziaria o livro que viesse a ser editado. Sem a parceria de A Notícia, eu jamais teria escrito os 30 e tantos capítulos que já escrevi.

ZH – Quanto de verdade – ou pelos menos de fatos realmente acontecidos – e quanto de ficção existe nas memórias?
Faraco –
Em dadas passagens, terá prevalecido minha interpretação pessoal, que talvez não coincida com a de outras pessoas que, naqueles anos, estiveram ao meu lado, mas tais desencontros são normais, são humanos, e Lawrence Durrell lhes deu um belo cartograma no Quarteto de Alexandria, marcadamente em JustineBaltasar e . Se eu pudesse inventar, seria fácil. Ao contrário, tem sido difícil porque escrevo acorrentado ao que os meus olhos viram e o meu coração sentiu.

ZH – Há uma lenda que reza que, no final dos anos 60, o senhor andava em Alegrete com os cadernos desse diário debaixo do braço. É verdade? Quanto tempo lhe tomaram essas memórias?
Faraco
- Se contarmos as primeiras tentativas, trago-as debaixo do braço há 37 anos. A versão atual, que por certo é a última, comecei a escrevê-la em janeiro deste ano e o primeiro capítulo saiu em A Notícia no início de fevereiro. Ainda não terminei, faltam-me os capítulos finais, que narram o que me aconteceu no retorno ao Brasil.

Escritores bem na foto

29 de março de 2011 3

Vai lá mais declaração da série “confissões sinceras de um setorista”: na maioria das vezes, ilustrar o material que acompanha uma resenha literária ou entrevista com um escritor é um problema. Basicamente isso se dá por dois motivos que conduzem a uma única circunstância, a de que fotos de escritores, na media, não costumam ser imagens daquelas que se pode estourar numa página inteira de um jornal sem parecer que tem só um carão na página – poucos escritores são reconhecíveis imediatamente pela foto, também, o que só aumenta a dificuldade do desafio.

O primeiro motivo para isso é que escritores são pessoas cujo labor artístico não se presta necessariamente a altos voos imagéticos, seu trabalho não está associado à sua imagem física nem pode ser reencenado em frente ao público ou à câmera sem cair na mesmice (por isso temos tantas fotos de escritores na frente do computador, imagem clichê que substituiu o retrato na frente da máquina de escrever e o instantâneo do autor com a caneta na mão sobre o papel). O segundo é que escritores, pelo menos a maioria dos que já encontrei profissionalmente, e eu encontrei um bom número ao longo deste anos, não se sentem muito confortáveis tirando fotos. Existe uma razão para que modelos ganhem dinheiro parados na frente de uma câmera: há algo na imagem daquelas pessoas (o que poderia ser um fascínio natural ou o equivalente de talento no ofício) que consegue se transportar para a imagem estática de uma fotografia e ainda irradiar luz, carisma, personalidade ou aquele “não sei o quê” que faz da imagem algo belo, dinâmico, com um encanto próprio. Já outras pessoas não parecem tão bem assim quando fotografadas pelo simples fato de que não nasceram para isso ou não desenvolveram tal instinto. Muitos escritores são pessoas tímidas, retraídas, com problemas para se soltar diante de a) uma câmera, b) jornalistas e c) estranhos. E às vezes numa entrevista o repórter e o fotógrafo representam essas três coisas juntas.

Então foto de escritor nunca fica boa? Não, pequeno gafanhoto, não foi isso que eu disse. Há autores que de fato têm, naturalmente, a capacidade de sair bem na foto, e há, por outro lado, o talento do fotógrafo para captar não apenas o escritor mas parte de seu universo artístico e pessoal com uma imagem criativa que se vale da composição da imagem, da iluminação, do cenário circundante para tornar especial um retrato de um escritor  que não seja apenas a velha “foto-do-autor-no-computador-ou-com-um-exemplar-do-livro-na-mão“. E ao longo deste anos em que acompanhei fotógrafos de ZH em entrevistas com escritores variados, pude ver in loco a produção de muitas dessas imagens bacanas. Às vezes o tema do livro, seu mote central, mesmo uma pequena atmosfera  sugeria uma ideia ao fotógrafo – muitas vezes premido pela urgência de ter de sair em meia hora para acompanhar outra pauta. Mesmo assim, cabe ao fotógrafo fazer o entrevistado sentir-se bem o bastante para expressar naturalidade e não aquela postura travadaça de quem preferia estar arrancando o siso sem anestesia. E ainda dar uma ideia geral não apenas do livro em questão mas – quando a foto fica boa – de um universo particular do autor. Difícil? Claro que é difícil, e é isso que torna ainda melhores os bons profissionais na matéria

Como no ano passado me diverti bastante montando esta galeria de fotos de montagem da Feira do Livro, me ocorreu esta semana que eu poderia fazer o mesmo com algumas das imagens mais legais que os fotógrafos de Zero Hora já registraram daqueles que fazem a literatura do Estado. São 15 fotos recentes (todas de 2005 para cá) de autores ainda em atividade – a exceção, claro, é a imagem de Moacyr Scliar que aqui vai como homenagem. Vejam abaixo como é possível até mesmo descobrir um olhar novo sobre os clichês da imagem de escritor que falamos há pouco: o computador, a estante de livros, o livro nas mãos.

Daniel Pellizzari, o Mojo, em sua casa, em 2005, na época do lançamento de Dedo Negro com Unha. Foto de Genaro Joner

Cíntia Moscovich, em seu gabinete – e com seu material de ciclismo, em  2005. Foto de Eduardo Liotti

Charles Kiefer em sua casa em 2005, quando do lançamento de A Poética do Conto. Foto de Júlio Cordeiro

Sérgio Faraco em sua casa, na época em que lançava um livro sobre Sinuca, em 2005. Foto de Adriana Franciosi

Manoela Sawitzki em 2006, no estúdio fotográfico de Zero Hora, quando estreava a montagem de sua peça Calamidade. Foto de Júlio Cordeiro

Moacyr Scliar em 2006, no Mercado Público de Porto Alegre, para onde o levamos na época do lançamento de Os Vendilhões do Templo. Foto de Emílio Pedroso

Luiz Antonio de Assis Brasil em 2006, na PUCRS, na época do lançamento do romance Música Perdida. Foto de Adriana Franciosi

Lya Luft em sua casa em Porto Alegre, em 2008, quando havia recém lançado o livro de contos O Silêncio dos Amantes. Foto de Daniel Marenco

Fabrício Carpinejar em 2008, em Caxias do Sul, para o lançamento da coletânea de crônicas Canalha!. Foto de Ricardo Wolffenbüttel

Michel Laub à janela do apartamento de seus pais em Porto Alegre, em 2009, na época do lançamento de O Gato Diz Adeus. Foto de Tadeu Vilani

João Gilberto Noll em 2009, pouco depois de haver recebido o Fato Literário e quando preparava o lançamento de seus livros infanto-juvenis Sou Eu e O Nervo da Noite. Foto de Genaro Joner.

E já que falávamos de janelas, o professor, poeta, tradutor e helenista Donaldo Schüler em 2009. Foto de Tadeu Vilani

Carlos Urbim, em 2009, depois de ser eleito patrono da Feira do Livro do Porto Alegre. Foto de Adriana Franciosi.

Cláudia Tajes durante um passeio pelo bairro Ipanema em 2010. Foto de Tadeu Vilani

Carol Bensimon em janeiro deste ano, também em Ipanema, quando começava a publicar em ZH os contos da série Pelo Menos 8 Pessoas Ficaram em Porto Alegre Neste Verão. Foto de Genaro Joner

Lições de Mestre

03 de outubro de 2007 2

Faraco no Encontros com o Professor, out/2006/Carlos Carvalho / DivulgaçãoSou muito exigente comigo mesmo na hora de escrever ficção. Um conto meu geralmente tem umas oito páginas, que eu reescrevo, no mínimo, umas 40 vezes. Faço a primeira versão a mão, depois passo para o computador e só então começo a retocar. Suprimo algumas coisas, arrumo frases muito compridas, acrescento coisas que percebo estarem faltando. Em seguida, imprimo outra vez aqueles retoques, e assim vou continuando a retrabalhar o texto. Faço isso também com as crônicas que publico no jornal Zero Hora. O leitor leva um minuto para lê-las, mas como eu escrevo para o jornal de 15 em 15 dias, certamente passo 14 dias trabalhando nelas. Gosto de trabalhar até ficar absolutamente satisfeito – não no sentido de achar o texto necessariamente bom, mas de saber que cheguei ao meu último limite, quer dizer, melhor não posso fazer. Tenho um conto que se chama Um Dia de Glória. É um conto absolutamente comum, nem é bom, um conto razoável apenas. Comecei a escrevê-lo quando minha filha mais velha tinha seis meses, mas não consegui encontrar o final. Estava em algum lugar da minha cabeça aquele desfecho, mas eu não achava. Enquanto isso, fazia outras coisas, mas sempre que retomava esse conto encontrava-me diante da mesma dificuldade. Só vim a terminá-lo quando minha filha já estava fazendo residência médica. Faço rascunho até de e-mail e de cartão de Natal. Atualmente, estou me correspondendo com o crítico de arte Jacob Klintowitz, que reside em São Paulo. Devo ter enviado umas cinco ou seis mensagens para ele até agora, e de todas elas fiz rascunho. A intenção principal por trás desse cuidado todo é que quero ser bem compreendido, então preciso me exprimir da forma mais clara possível. Parei de escrever contos há alguns anos. Às vezes, penso que fiquei sem escrever contos (…) como uma forma de me preparar para escrever Lágrimas na Chuva. O fato de este livro ter sido bem recebido me impede de escrever a continuação. Acho que seria uma espécie de anticlímax depois da leitura de Lágrimas na Chuva. Tenho uns sete capítulos escritos, mas fiquei por ali. Não sei se vale a pena.

 O trecho acima é de uma entrevista concedida pelo escritor Sergio Faraco ao professor Ruy Carlos Ostermann em outubro de 2006 e que consta do livro Encontros com o Professor: Cultura Brasileira em Entrevista, volume 2, que Ostermann e alguns dos entrevistados autografam nesta quinta no StúdioClio (José do Patrocínio, 698), às 19h30min. É uma coletânea com algumas das mais destacadas entrevistas realizadas pelo jornalista Ruy Carlos Ostermann no projeto Encontros com o Professor, realizado há três anos periodicamente no próprio StúdioClio. Uma obra que, como o professor Ruy ao conduzir uma entrevista, abre o espaço para que o entrevistado seja o centro do programa. Ruy Ostermann é autor dos breves perfis dos 14 entrevistados, de uma introdução refletindo sobre o clima intimista dos encontros, propícios a revelações e confissões dada a cumplicidade estabelecida entre entrevistador e entrevistado. Depois disso, a palavra é toda dos entrevistados, o livro suprime as perguntas e intervenções do entrevistador e alinhava o discurso do entrevistado em um depoimento subdividido em temas.

Também constam do volume (Tomo Editorial, 130 páginas, R$ 25) os escritores Moacyr Scliar, Armindo Trevisan, José Antônio Pinheiro Machado e o também cartunista Ziraldo. Da área da música, Renato Borghetti, Bebeto Alves e a dupla responsável pelo espetáculo Tangos & Tragédias, Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky. Completam o elenco de entrevistados os jornalistas Paulo Gasparotto, Luiz Carlos Merten e Tânia Carvalho, o escultor Xico Stockinger, o cineasta Jorge Furtado e a presidente da Fundação Theatro São Pedro, dona Eva Sopher. São bate-papos marcados pela espontaneidade. Além de Faraco compartilhando seu fazer literário e as experiências na União Soviética que renderam o belo Lágrimas na Chuva, temos Ziraldo falando da infância em Caratinga, de sua família, da sua paixão por coletes. Ou, por exemplo, Borghettinho contando que, autodidata, se tornou o primeiro integrante da família a se dedicar à música.

Uma última curiosidade: a entrevista foi realizada em 2006, e portanto nessa época o contato entre Faraco e o crítico citado no trecho, Jacob Klintowitz provavelmente visava à produção do livro Antologia de Contistas Bissextos, também da L&PM, lançado no mês passado, reunindo narrativas curtas de gente que se dedica esporadicamente ao gênero.