Nesta sexta-feira, quando se completam 11 dias do início da revolução contra o regime do ditador Hosni Mubarak, estará sendo jogado o destino do Egito – e, por tabela, do Oriente Médio – nos próximos anos.
A razão é que 4 de fevereiro foi o prazo dado pelo líder oposicionista e Prêmio Nobel da Paz Mohammed El-Baradei para que Mubarak “se vá”.
Mas obedecer a ultimatos não é, por assim dizer, do perfil do ditador de cabelos pintados e rosto maquiado. Na quarta-feira, em resposta à megamanifestação da oposição, que afirma ter reunido 1 milhão de ativistas na Praça Tahrir na véspera, Mubarak colocou em ação uma tropa de choque em trajes civis nas ruas do Cairo. O saldo foi de mais de 3 mil feridos, segundo as agências internacionais.
Até agora, os movimentos de Mubarak têm obedecido a um padrão: a cada demonstração de força da oposição, um contragolpe e uma milimétrica concessão. Depois dos choques que deixaram 130 mortos só no Cairo, na sexta-feira passada, Mubarak dissolveu com uma mão o governo e indicou um vice, Omar Suleiman – não por coincidência, o cabeça do Serviço de Inteligência do Egito –, e com a outra cassou a internet por quatro dias. Na terça-feira, a oposição revidou com a concentração multitudinária na Praça Tahrir, o ditador afirmou que não pretende concorrer a um sexto mandato nas eleições de setembro com uma mão e, com a outra, abriu as portas do inferno atiçando seus apaniguados nas ruas contra a oposição.
A contabilidade final, por enquanto, é favorável a Mubarak. A oposição conseguiu denunciar ao mundo seu regime, mas o jogo do poder dificilmente é ganho com boas intenções. É preciso mais do que argumentos para demover a turba que, ontem e hoje, acometeu sobre ativistas e até correspondentes estrangeiros nas ruas do Cairo. Enquanto isso, para a correspondente Cristiane Amanpour, da rede ABC, Mubarak diz que gostaria de deixar o poder, mas teme que isso acarrete o caos para o país. E se propõe a dialogar com a Irmandade Muçulmana – um grupo religioso moderado e que, segundo alguns, admite não ter mais de 30% dos votos em eleições livres –, apesar de toda a repressão dirigida contra seus ativistas desde os anos 1960.
Uma série de lances decisivos desse xadrez político tem sido jogada nas ruas do Cairo. E, nesta sexta-feira, os manifestantes de oposição prometem superar todos os contingentes já reunidos na Tahrir até o momento. A sexta-feira é também um dia santo para os muçulmanos, no qual se reza em mesquitas e não se trabalha. Resta saber o que ocorrerá hoje no momento em que os fiéis começarem a recolocar seus sapatos para voltar à rua depois das preces.