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Carta de uma amiga

24 de janeiro de 2009 8

Amiga:

Conforme  minha promessa, estou enviando um e-mail contando as novidades da minha  primeira  semana  depois de ser transferida pela firma para o Rio de Janeiro.  Terminei hoje de arrumar as coisas no meu novo apartamento. Ficou uma gracinha, mas estou exausta. São dez da noite e já estou pregada.

Segunda-Feira:  Cheguei  na  firma e já adorei. Entrei no elevador quase no mesmo  instante  que  o  homem mais lindo desse planeta. Ele é loiro, olhos verdes  e  o  corpo  musculoso parece querer arrebentar o terno. Lindooooo! Estou  apaixonada.  Olhei  disfarçadamente a hora no meu relógio de pulso e fiz  uma promessa de estar parada defronte ao elevador todos os dias a essa mesma  hora. Ele desceu no andar da engenharia. Conheci o pessoal do setor, todos  foram  atenciosos  comigo.  Até  o  meu  chefe  foi  delicado. Estou maravilhada com essa cidade. Cheguei em casa e comi comida enlatada. Amanhã vou a um mercado comprar alguma coisa.

Terça-Feira:  Amiga! Precisava contar. Sabe aquele homem de quem falei? Ele olhou  para  mim  e  sorriu  quando entramos no elevador. Fiquei sem ação e baixei  a  cabeça.  Como  sou  burra! Passei o dia no trabalho pensando que preciso  fazer um regime. Me olhei no espelho hoje de manhã e estou com uma barriguinha  indiscreta.  Fui  no  mercado  e  só  comprei coisinhas leves: biscoitos, legumes e chás. Resolvido! Estou de dieta.

Quarta-Feira:  Acordei com dor-de-cabeça. Acho que foi a folha de alface ou o biscoito do jantar. Preciso manter-me firme na dieta. Quero emagrecer 2kg até  o fim-de-semana. Ah! O nome dele é Marcelo. Ouvi um amigo dele falando com  ele  no  elevador.  E  ainda tem mais: ele desmanchou o noivado e está sozinho. Consegui  sorrir  para  ele  quando  entrou  no  elevador  e  me cumprimentou. Estou progredindo, né? Como faço para me insinuar sem parecer vulgar? Comprei um vestido dois números menor que o meu. Será a minha meta.

Quinta-Feira:  O Marcelo me cumprimentou ao entrar no elevador. Seu sorriso iluminou tudo! Ele me perguntou se eu era a arquiteta que viera transferida de  Brasília e eu só fiz: “U-hum”… Ele me perguntou se eu estava gostando do  Rio  e  eu disse: “U-hum”. Aí ele perguntou se eu já havia estado antes aqui  e eu disse: “U-hum”. Então ele perguntou se eu só sabia falar “U-hum” e  eu  respondi:  “Ã-hã”.  Será que fui muito evasiva? Será que deveria ter falado um pouco mais? Ai, amiga!

Estou  tão  apaixonada!  Estou  resolvida!  Amanhã vou perguntar se ele não gostaria  de  me  mostrar  o  Rio  de Janeiro no final de semana. Quanto ao resto,  bem…  Ando  com  muita enxaqueca. Acho que vou quebrar meu regime hoje. Estou fazendo uma sopa de legumes. Espero que não me engorde demais.

Sexta-Feira:  Amiga!  Estou  arruinada!  Ontem  à  noite  não  resisti e me empanturrei.  Coloquei bastante batata-doce na sopa, além de couve, repolho e  beterraba.  Menina, saí de casa que parecia um caminhão de lixo. Como eu peidava!  (nossa!  Você não imagina a minha vergonha de contar isto, mas se eu não desabafar, vou me jogar pela janela!).

No  metrô,  durante  o  trajeto  ao  trabalho, bastava um solavanco para eu soltar  um  futum que nem eu mesma suportava. Teve um momento em que alguém dentro  do  trem gritou: “Aí! Peidar até pode, mas jogar merda em pó dentro do  vagão  é muita sacanagem!” Uma senhora gorda foi responsabilizada. Todo mundo  olhava  para  ela, tadinha. Ela ficou vermelha e eu aproveitava cada
mudança  de  cor  para soltar outro. O meu maior medo era prender e sair um barulhento.  Eu estava morta de vergonha. Desci na estação e parei atrás de uma  moça  com  um  bebê no colo, enquanto aguardava minha vez de sair pela roleta.

Aproveitei  e soltei mais um. O senhor que estava na frente da mulher com o bebê  virou-se  para ela e disse: “Dona! É melhor a senhora jogar esse bebê fora  porque  ele  está estragado!”. Na entrada do prédio onde trabalho tem uma  senhora que vende bolinhos, café, queijo, essas coisas de camelô. Pois eu  ia  passando e um freguês começou a cheirar um pastel, justo na hora em que  o futum se espalhou. O sujeito jogou o pastel no lixo e reclamou: “Pó, dona Maria! Esse pastel tá bichado!”

Entrei  no prédio resolvida a subir os 16 degraus pela escada. Meu azar foi que  o Marcelo ficou segurando a porta, esperando que eu entrasse. Como não me  decidia,  ele me puxou pelo braço e apertou o botão do meu andar. Já no 3º  andar  ficamos  sozinhos.  Cheguei  a  me sentir aliviada, pois assim a viagem  terminaria  mais  rápido.  Pensei  rápido demais. O elevador deu um solavanco  e  as  luzes se apagaram. Quase instantaneamente a iluminação de emergência  acendeu. Marcelo sorriu (ai, aquele sorriso…) e disse que era a bruxa da sexta-feira. Era assim mesmo, logo a luz voltaria, não precisava se preocupar. Mal sabia ele que eu estava mesmo preocupada. Amiga, juro que tentei  prender. Mas antes que saísse com estrondo, deixei escapar. Abaixei e  fiquei  respirando  rápido,  tentando aspirar o máximo possível, como se estivesse  me  sentindo  mal, com falta de ar. Já se imaginou numa situação dessas? Peidar e ficar tentando aspirar o peido para que o homem mais lindo do  mundo não perceba que você peidou? Ele ficou muito preocupado comigo e, se percebeu o mau cheiro, não o demonstrou.

Quando  achei  que a catinga havia passado, voltei a respirar normal. Disse para  ele  que  eu  era  claustrófoba. Mal ele me ajudou a levantar, eu não consegui  prender  o segundo, que saiu ainda pior que o anterior. O coitado dessa vez ficou meio azulado, mas ainda não disse nada. Abaixei novamente e fiquei respirando rápido de novo, como uma mulher em estado de parto. Dessa
vez  Marcelo  ficou afastado, no canto mais distante de mim no elevador. Na ânsia  de  disfarçar,  fiquei olhando para a sola dos meus sapatos, como se estivesse  buscando  a  origem  daquele  fedor  horroroso. Ele ficou lá, no canto, impávido. Nem bem o cheiro se esvaiu e veio outro. Ele se desesperou e  começou  a  apertar  a  campainha de emergência. Coitado! Ele esmurrou a porta,  gritou,  esperneou,  e  eu  lá, na respiração cachorrinho. Quando a catinga  dissipou,  ele  se acalmou. As lágrimas começaram a escorrer pelos meus  olhos.  Ele  me viu chorando, enxugou meus olhos e disse: “Meus olhos também  estão  ardendo…”  Eu  juro  que  pensei  que ele fosse dizer algo bonito. Aquilo me magoou profundamente. Pensei: “Ah, é, FDP? Então acabou a respiração cachorrinho…” Depois disso, no primeiro ele cobriu o rosto com o  paletó. No segundo, enrolou a cabeça. No terceiro, prendeu a respiração, no  quarto,  ele  ficou  roxo. No quinto, me sacudiu pelos braços e berrou: “Mulher!  Pára  de  se cagar!”. Depois disso ele só chorava. Chorou como um bebê  até  sermos  resgatados, 4h depois. Entrei no escritório e pedi minha transferência para outro lugar, de preferência outro País.

Apague este e-mail depois de ler, tá?

Sua amiga, Mariana.

Enviado pela leitora Keilly Amorim

Postado por clicRBS

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Comentários (8)

  • Thais diz: 23 de abril de 2009

    Muito boa, mas.. “Dona! É melhor a senhora jogar esse bebê fora porque ele está estragado!”… Maldade com a criança, vai ficar traumatizada.. Rsss .

  • J. Miguel diz: 8 de março de 2009

    Este e outros textos de humor do mesmo autor podem ser encontrados em
    http://www.komedi.com.br/escrita/leitura.asp?Texto_ID=122

  • CAMPEÃO DO MUNDO 83 diz: 25 de janeiro de 2009

    PO MARIANA, ATÉ EU SENTI O FUTUM LENDO ESSE E-MAIL GIGANTE HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH

  • Tom Cruis. diz: 24 de janeiro de 2009

    Boa !
    Nota 7,589.

  • fernanda diz: 26 de janeiro de 2009

    Muito boa! Já conhecia e rio sempre!!!
    Nota 10! Pobre dessa mulher

  • Jean diz: 25 de janeiro de 2009

    não acredito que li tudo isso…

  • aljandre diz: 25 de janeiro de 2009

    boa mesmo! nota 8,364

  • Maiara diz: 27 de janeiro de 2009

    A-DO-RE-I!!!!

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