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Entrevista completa com a psicóloga Cristianne Sá Bez

01 de janeiro de 2016 0
Betina Humeres

Betina Humeres

 

* Por Cris Cordioli
Sabe quando batemos um papo tão legal com uma pessoa que sentimos vontade de compartilhar a experiência com os mais chegados? Pois foi exatamente o que ocorreu comigo ao terminar minha entrevista com a psicóloga Cristianne Sá Bez. Curti tanto que transcrevo a conversa na integra com vocês. Boa leitura!

Por que temos tanta dificuldade de nos encontrarmos?
Eu trabalho há mais de 20 anos com psicologia de consultório, psicologia clínica, e essa questão de autoestima é um ponto básico, fundamental, para todos que entram no processo do autoconhecimento. Para refletir, a autoestima vai estar presente. No início, escondidinha, porque estamos falando da nossa essência, de como nascemos, da nossa identidade, do amor, do desamor, da aceitação e da não aceitação que temos de nós mesmos. Da visão que temos de nós mesmos.

Qual o primeiro passo para se perceber a necessidade de uma reflexão sobre quem somos?
Eu faço um exercício com uma certa frequência no início das minhas sessões que é muito simples, mas ao mesmo tempo muito complexo. Eu peço para as pessoas fazerem listas. A primeira lista é o que eu faço no meu dia a dia que eu não gosto de fazer? E depois o que eu faço no meu dia a dia que eu gosto muito de fazer? E depois eu coloco ao lado daquilo que eu listei como eu gosto de fazer, qual a sequência que eu faço. E a mesma coisa com o que eu não gosto de fazer. E é assustador, porque temos a tendência de fazer mais coisas que não gostamos do que aquilo que gostamos. E quanto a gente vai olhar por que que faz essas escolhas, em geral, tem aí uma satisfação para o outro, para aquele que eu quero que me olhe, que me aceite. E muito, muito menos, eu faço aquilo que eu gosto de fazer com certa frequência. Quando olhamos para esse exercício, enxergamos uma necessidade muito grande de nos ouvirmos, O que eu gosto de fazer e por que eu faço tão pouco? E a dança faz um resgate, principalmente o Stiletto, que é eu comigo, eu com o meu corpo, eu com os meus sentimentos, eu com a minha sensualidade, eu com a minha sexualidade, gênero, com meu tipo fisiológico, com a minha genética, tudo eu, então é um encontro muito legal. É uma forma muito legal de paramos e nos sentirmos.

E a dança vira instrumento desse autorreconhecimento?
Com a dança, vem o processo de sairmos um pouco da racionalização das coisas da vida, para entrar um pouco mais no sentir as coisas da vida. Ela trabalha a autoestima, o se olhar, o se analisar, se aceitar. Esse se olhar é sequência de qualquer mudança que a gente queira fazer. Para fazer novas escolhas eu preciso me conhecer. A dança traz um contato muito forte, porque é muito verdadeira, comigo e com o meu corpo, o corpo que me representa, a dança, ela é radical. Então o Stiletto faz com que a pessoa se encontre com todas essas coisas.

E quais os maiores desafios dessa busca pelo eu?
O que eu percebo de mais complicado é que quando se fala de autoestima, nós estamos falando do se gostar, mas a ponta de origem disso tudo é que eu considero nosso grande equívoco. Partimos do princípio que o outro precisa nos aprovar. Então tudo o que fazemos é para fora. É a roupa da moda, é o tipo de vida, é fala, a expressão que é melhor aceita, é o que o externo solicita. E cobramos isso uns dos outros. Mas isso não é a nossa essência, é o que achamos que o outro quer de mim. Quando paramos para trabalhar a autoestima de verdade, temos que olhar para a nossa essência, não para o que o outro espera de nós, mas para aquilo que eu sou hoje, com minha maturidade do jeito que ela está, e me perguntar aonde eu estou indo, pra onde que eu quero ir, e fazer os processos de mudanças que vão me levar para mais perto disso, que eu almejo. Isso é trabalhar a autoestima.

E por que as pessoas encontram certa dificuldade durante o processo?
É tão difícil porque o processo nos faz entrar em contato inclusive com nossas sombras. Porque, quando olhamos para fora, enxergamos superficialmente o que o outro deseja de nós, mas quando olhamos para dentro, vemos aquilo que também não é legal em nós. E é um processo doloroso. Queremos ser amados e aceitos por todo mundo. Quando fazemos este processo de autorreflexão percebemos que talvez nem todas as pessoas nos amem, nem todas as pessoas nos aceitem, porque tem muita coisa ainda para acertar em nós. Temos muitos limites, muitas coisas para nos descobrir, para depois fazer o processo de transformação. É um processo dolorido, sofrido, extremamente corajoso. E ficamos escolhendo situações mais rápidas, aparentemente mais fáceis, mas que não se sustentam porque o outro não vai nos dar a segurança que precisamos encontrar em nós mesmos. É uma ilusão nossa.

A vergonha, na maioria das vezes, acaba atrapalhando o autoconhecimento que vem através da exposição, não?
Na nossa sociedade existem muitos conceitos e “pré-conceitos” que definem o que é certo ou errado, o que é bom ou é ruim, mas poucas vezes a gente se pergunta se aquilo que a sociedade diz que é bom faz bem. Compramos pacotes prontos porque não nos conhecemos o suficiente. É difícil dizer o que eu quero, como eu quero, o que eu gosto, inclusive com a nossa sexualidade. Os relacionamentos são muito embutidos, pouco nos mostramos, quando na verdade nós temos que mostrar a nossa essência. Quando somos chamados para experiências mais irracionais, que são mais do emocional, mais do mundo lúdico, como o que a dança faz, somos convidados a experimentar como uma criança experimenta, sem julgamento “ah, vamos lá ver se é legal”, como eu vou me jogar no chão e me olhar no espelho e não pensar “meu Deus, que coisa ridícula”, isso é imposto pela passagem do tempo, por sermos adultos, os murinhos que usamos para nos proteger, isso não tem nada de independente, tem mais de medo e insegurança do que qualquer coisa. A nossa criança interior gosta disso, de ser chamada. Posso não gostar ou posso gostar muito. E isso não tem peso. É a experiência. A gente se ilude muito com essas cerquinhas que montamos. Quando a gente tenta transpor, ou se propõe a transpor, logo isso tudo fica muito pequeno. E aí nos divertimos mais, e isso é percebido por quem nos rodeia. As pessoas ficam muito mais interessantes quando são o que são, sem fazer tipo ou ficarem preocupadas, armando situações, fazendo caras e bocas e buscando tipos físicos para conquistar o outro, e se aceitam como são. Não existe nada mais atraente do que estar do lado de pessoas felizes.

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