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Posts do dia 29 maio 2011

Ressaca do mar destrói rancho, atinge ruas e provoca naufrágio. Um surfista estaria desaparecido

29 de maio de 2011 0

Uma forte ressaca do mar no fim de semana provocou estragos no litoral catarinense. Em Palhoça, na Grande Florianópolis, imóveis à beira-mar foram atingidos, embarcações naufragaram  e parte de um rancho desabou sobre um pescador. As áreas mais afetadas foram as praias de Cima, Ponta do Papagaio e Sonho. No Norte, o mar invadiu ruas e provocou erosão em regiões perto dos balneários. No Sul, um surfista estaria desaparecido.

Por volta de 1h deste domingo, a maré atingiu um rancho na Praia de Cima e parte da estrutura caiu sobre o pescador Manoel Matos, de 45 anos. O homem só conseguiu sair de baixo dos destroços com ajuda de populares e técnicos da Defesa Civil municipal que estavam pela praia. Ele sofreu apenas ferimentos leves.
Na Ponta do Papagaio, uma embarcação de 11 metros, que estava atracada perto da praia, não resistiu à força das ondas e naufragou às 8h de domingo. Segundo a Defesa Civil de Palhoça, na Praia do Sonho, a maré  invadiu ruas e destruiu muros e cercas de casas.




No litoral Norte, ocorreram registros de estragos em Barra Velha. No Centro da cidade, o mar alagou a Avenida Armando Petrelli em vários pontos entre a praia e a Lagoa do Encanto.

Em Laguna, no Sul do Estado, um surfista estaria desaparecido desde a manhã de sábado na Praia do Gi. Mas, segundo o Corpo de Bombeiros, essa informação ainda não está confirmada porque ninguém apareceu para registrar o desaparecimento. Mesmo assim, os bombeiros fizeram buscas na praia, neste domingo.

A ressaca no litoral catarinense foi provocada devido à atuação de um ciclone extratropical no oceano. O fenômeno provocou ventos fortes, consequentemente impactando no tamanho das ondas, que atingiram alturas entre 5 e 6 metros.

A Epagri/Ciram, órgão estadual que monitora as condições climáticas, alerta a permanência de mar agitado pelo menos até terça-feira. Por isso, continua o aviso para evitar a navegação durante o período.



fonte:diario.com.br

Alemão e Zeca: Surfe, glamour e final triste

29 de maio de 2011 3


Era o herói de nossa geração. Todo mundo ficou com
inveja quando ele voltou do Havaí. Foi pioneiro nisso.

Amigo de Alemão caiosobre o respeito dele no mundo do surfe.

 

 


Se ele estivesse por perto e aparecessem duas mulheres,
tu corrias o risco de ficar sem nenhuma.


Amigo de zeca bezerra, sobre o sucesso dele com as mulheres.








Alemão e Zeca tinham hábitos parecidos. Badalavam nas mesmas praias, pegavam ondas nos mesmos lugares, viajavam para as mesmas cidades e compartilhavam a paixão pelo surfe. Até que, ao amanhecer do dia 23, Carlos Chaves Barcellos, o Alemão Caio, 55 anos, matou José Augusto Bezerra de Medeiros Neto, o Zeca Bezerra, 50 anos.
Após entrevistar mais de 15 amigos e familiares (a maioria preferiu o anonimato), Zero Hora mostra quem eram os dois e como se originou a tragédia que enlutou o jet-set gaúcho.





Ocenário desta história é de mar e ondas. Em se tratando de surfe, areia, música alta, balada e mulheres, Alemão e Zeca eram especialistas. Referências na praia na época em que Torres era uma Punta del Este sem sotaque castelhano. Uma era em que o surfe era hábito apenas para jovens charmosos, bem-nascidos e conhecidos – da mídia e entre si. Nesse ambiente, Alemão e Zeca eram reis.

Alemão, alegre e agitado herdeiro de uma das mais tradicionais famílias gaúchas, era vanguardista desde jovem. Ganhou a primeira prancha e o primeiro troféu no surfe com 11 anos, em 1968, quando estudava no Colégio Anchieta, de Porto Alegre. Tinha carro antes de tirar carteira. Tinha Fusca quando outros andavam a pé, Opala seis cilindros quando os outros estavam em lata velha, caminhonete quando os outros tentavam o primeiro carro zero. A sua família era dona de imóveis valiosos em Porto Alegre, em áreas como as avenidas Independência, Quintino Bocaiúva, grande parte no Moinhos de Vento.







Que o Havaí
seja aqui
Craque, mesmo, Alemão era no surfe. Começou a acumular medalhas e passou a adolescência migrando entre os paraísos do esporte: Rio, Saquarema (RJ) e Silveira (praia de Garopaba, Santa Catarina, onde a família tinha uma casa). Foi nessa época que ele cruzou com Zeca pela primeira vez, casualmente em todos esses lugares. A diferença é que, de família abonada, Alemão foi disputar nas altas ondas do Havaí quando nenhum gaúcho fazia isso. Mentiu aos pais que faria Oceanologia em San Diego (EUA) e, em 26 de novembro de 1976, foi surfar na praia havaiana de Sunset Beach.
Alemão ganhou vários campeonatos no RS. Os contemporâneos recordam que, quando ele estava “na parada” (competindo), ficava difícil.





– Era o herói de nossa geração. Todo mundo ficou com inveja quando ele voltou do Havaí. Foi pioneiro nisso. Alemão e Zeca surfavam, mas não se davam. Cada um tinha sua turma. O Alemão, na Guarita (Torres). O Zeca, em Atlântida, mas nas festas se cruzavam – recorda um surfista de 50 anos, amigo de Alemão e Zeca, hoje empresário do ramo imobiliário.







Menino
do Rio

Zeca Bezerra, mesmo sem ter sobrenome tão conhecido como Alemão Chaves Barcellos, era cobiçado pela mulherada praiana. Seus cabelos loiros cacheados faziam sucesso desde quando estudava no Colégio Estadual Julio de Castilhos, em Porto Alegre, quando o “Julinho” era referência nacional em qualidade. Era um adolescente que não levava desaforo para casa, temido e invejado pelos colegas. Também pegava onda desde guri, recorda o irmão Manoel, dois anos mais velho.




– Enquanto todos estavam de planonda de isopor, ele já deslizava numa prancha de fibra, grande. Sempre foi pioneiro, inclusive na asa-delta. Desbravou Garopaba na época em que esse Alemão tinha casa por lá.
Filho do conhecido radialista Godoy Bezerra, Zeca foi morar no Rio de Janeiro quando o pai se tornou comentarista de uma rádio carioca, em 1973. Voltou dois anos depois a Porto Alegre, concluiu o Ensino Médio e, no final dos anos 70, retornou ao Rio, tendo a beleza como passaporte para o mundo fashion.

Namoro com
atriz de novela

Quando Menino do Rio, de Caetano Veloso, estourava nas rádios nos Anos 80, Zeca acumulava as carreiras de modelo, surfista e bon-vivant. Um playboy, no bom sentido.

Jovem de porte avantajado – 1m86cm, segundo seu portfólio de modelo –, corpo sarado, começou a surfar no Arpoador. Morava no Leblon e era levado a tiracolo pela irmã, Jane Bezerra, miss Rio Grande do Sul (em 1975), disputada nos editoriais de moda.

Logo Zeca passou a estrelar suas próprias campanhas. A mais famosa delas, um comercial dos cigarros Hollywood, no qual contracenava com o então ator iniciante Victor Fasano, os dois descendo uma cachoeira. Zeca fez também editoriais de moda no Exterior.

– Ele era lindo, logo ganhou o mundo – recorda a irmã, Jane.





Um colega, hoje cinquentão, confessa ter tido, não poucas vezes, inveja de Zeca, que era “bola certa” com as mulheres.
– Nunca vi nada igual. Se ele estivesse por perto e aparecessem duas mulheres, tu corrias o risco de ficar sem nenhuma e ele, com as duas. Era o maior galã, fez ponta em novela...

Foi também nesse início dos Anos 80 que Zeca aderiu a duas paixões. A primeira foi a atriz Maria Zilda Bethlem, então estrela de novelas da Globo como Vereda Tropical, com quem namorou por dois anos. A segunda foi o voo livre. Zeca, junto com o campeão mundial Pedro Paulo Guise Carneiro Lopes (o famoso Pepê, morto em um acidente no Japão), impulsionou os voos de asa-delta na Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro.

– O Zeca era mais voador, o Alemão, mais do surf – resume Marcelo Amarante, o Kaneka, criador do blog carioca Lendas do Surf.







Empresário
da noite
Amigos lembram que Alemão Caio e Zeca eram parecidos inclusive no estilo de vida. Trocavam muito de atividade e estavam sempre recebendo alguma força da família.

Na época em que Zeca morava no Rio, Alemão começou a investir na noite porto-alegrense. Teve um bar nas proximidades da Avenida Independência e depois se tornou sócio de uma das filiais da pizzaria Fratello Sole, na Rua Marques do Pombal. O negócio foi montado em um casarão que pertencia à família.







– Ele entrou com a casa, uma herança. O sócio, com a grife e o serviço. Foram 10 anos, até que a sociedade foi rompida. Aí o Alemão montou, no mesmo local, outra pizzaria, a Charlie. Depois que largou essa pizzaria, ficou vivendo de bicos, alguma coisa na publicidade. O Alemão também tinha o programa Realce, na TV, sobre surf das antigas – lembra a ex-mulher, Ivanise Menezes Chaves Barcellos, a Didi, com quem Alemão foi casado 12 anos.





O casamento, em 21 de novembro de 1998, foi no Country Club e chamado “festa do ano” nas colunas sociais. Alemão e Ivanise já namoravam há 13 anos quando se casaram (embora com alguns “acidentes de percurso” no namoro). Eles se conheciam do surfe – ela, adepta do morey boogie, típica garota de praia. Ela afirma que, quando conheceu Alemão, ele já usuário de cocaína, “mas coração não vê defeito, né? E a gente se juntou e teve filho”, relata.







Alemão chegava às 23 horas na pizzaria. Muito conhecido, ele usava da boa lábia para captar clientes.
– Não sabia fazer uma massa de pizza, mas trazia pessoas. E também os amigos para beber um barril de chope, depois que fechava o restaurante – relembra Ivanise.

Quando a obra no conduto Álvaro Chaves afastou os clientes da pizzaria, Alemão passou o controle para a mulher. Acabaram repassando o ponto porque perdiam dinheiro, apesar de investimentos da família dela. O imóvel, que era da família Chaves Barcellos, ficou com ele.






Foi por essa época, nos Anos 90, que Alemão começou a se endividar. Em 1997, ele pagou um empréstimo de R$ 24 mil com cheques sem fundos. Foi condenado à revelia a pagar a dívida. Acrescida de juros e correção, a conta chega agora a R$ 80 mil e ainda não teria sido paga, confidencia o credor. Ivanise confirma que o ex estava cheio de dívidas. A situação melhorou quando a família vendeu a Galeria Chaves. Ele recebeu R$ 1,2 milhão, segundo Ivanise, e gastou R$ 500 mil pagando parte do que devia.






Reencontro
e ciúme
Enquanto Alemão se via às voltas com débitos, Zeca voltava ao Rio Grande do Sul. Depois de quase duas décadas no Rio, dois casamentos e um casal de filhos, o ex-modelo foi morar no sítio da família em São Sebastião do Caí. Ali se dedicou à fruticultura. Tempos depois, comprou uma propriedade na região do Ninho das Águias (em Nova Petropólis, na Serra), se tornando um dos raros brasileiros a ter uma rampa para salto de asa-delta montada no pátio da própria casa.
Um dos irmãos de Zeca, Silvino, recorda de ter ido jantar na Fratello Sole e que Zeca chegou a bater papo com Alemão, algumas vezes, na pizzaria. Um amigo dos dois resume a relação:

– Alemão e Zeca tinham uma certa rivalidade. Não de competição, mas daquela coisa da areia, de um ser mais famoso que o outro. Ainda agora os dois surfavam. Estavam meio barrigudos, fora de forma, mas vez que outra pegavam onda.
A cordialidade acabou há um ano e oito meses, quando Ivanise se separou de Alemão. Formada em Letras e Educação Física, com várias rodas de amigos, Ivanise reencontrou Zeca num bate-papo pela internet. Os dois se conheciam desde os Anos 70, da praia. Uma amiga providenciou o telefone e Zeca ligou. Ele morava em Nova Petrópolis, veio a Porto Alegre e os dois começaram a se ver. O romance engatou e virou assunto no Facebook e nas rodas de surfistas veteranos.

Ricardo Garcia, o Rato, 52 anos, administrador de empresas e surfista, morador de Torres, recorda da noite em que Zeca decidiu assumir Ivanise publicamente. Estava no bar Nova Iorque 72, em Porto Alegre, e ligou para o amigo, em Torres.
– Adivinha quem está aqui, perto de mim? A Didi... E solteira! Tô nessa – comemorou o Zeca.
Os amigos dizem que Alemão ficou “mordido de ciúme”. Talvez não ligasse se fosse com um desconhecido, mas logo com o Zeca... A ferida da separação ainda não estava curada.

– Nunca curou. Ele só falava na Didi, o tempo todo. A gente aconselhava a esquecer, arrumar outra... Te conforma, pedíamos. E o Alemão, nada. Perdeu para ele mesmo, para os fantasmas dele – diz um amigo.

Alemão era conhecido pelo ciúme. Nos Anos 80, inquiria a namorada até quando ela saía com os primos.
Ivanise diz que viveu dois anos maravilhosos ao lado de Zeca. Sem rotinas: comida japonesa, tailandesa, Ninho das Águias, esqui aquático em Torres... Ele tinha planos de vender a casa na Serra e só morar em Torres, com ela, na casa de praia dos pais dela.








A tragédia
se avizinha
E o que era um romance de velhos garotos, unidos pelo amor à praia, virou drama. Em abril de 2010, Alemão invadiu o apartamento da ex-mulher, na Rua Marquês do Pombal. Portava um revólver que fora furtado cinco anos antes em Guaíba, conforme rastreou a Polícia Civil. No quarto de Ivanise, deixou cartas de despedida, em tom suicida. Policiais concluíram que ele disparou duas vezes contra um espelho, depois deitou-se na cama, e começou a atirar contra o próprio corpo. Foram dois tiros de raspão no abdômen, e um terceiro que se alojou no pulmão, que levaram à sua internação no hospital Mãe de Deus.

Recuperado do ferimento, Alemão ligou para a enteada, avisando que teria mais armas e daria um tiro no atual namorado da ex-mulher. Alemão foi denunciado à Justiça.

Em 11 de janeiro deste ano, numa audiência judicial, ficou decidido que Caio poderia visitar o filho de nove anos, de 15 em 15 dias, durante seis horas, acompanhado de uma pessoa que Ivanise determinasse. Conforme ela, Alemão não visitou o filho.

– Zeca registrou queixa por ameaça, contra o Alemão. A gente pediu: volta para a montanha, te cuida. Mas ele preferiu continuar em Torres –lamenta Manoel, um dos irmãos mais velhos de Zeca.

Desde julho de 2010, Alemão Caio não podia dirigir. Estava com a carteira de motorista suspensa por excesso de pontos. Estava de carro quando foi para Torres atrás da ex-mulher. Alemão passou a madrugada de segunda-feira, 23 de maio, acordado, vigiando a casa de Ivanise. Quando ela abriu a porta, ele a esfaqueou, subiu um andar e matou Zeca, com nove facadas. Zeca foi enterrado junto ao túmulo do pai. Trágico epílogo para uma história que começou com música e festa, três décadas atrás.







Por Humberto trezzi - Zero Hora

humberto.trezzi@zerohora.com.br

*Colaborou José Luís Costa