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Mulheres de cara lavada como uma atitude libertadora

14 de maio de 2014 2

Adriana Franciosi, BD

Tenho pensado muito sobre esses pequenos movimentos de valorização da beleza real, em detrimento à aparência montada, exigência que recai essencialmente sobre as mulheres ditas contemporâneas, múltiplas e incansáveis.

Há aquelas que não saem sem maquiagem de jeito nenhum, outras que sequer aparecem de cara lavada para seus parceiros de vida inteira – e, paralelamente, leio que homens preferem mulheres com pouca ou nenhuma maquiagem, segundo um estudo das universidades britânicas Bangor e Aberdeen, e acreditam que mulheres supervalorizam o fato de poderem pintar a face. Eis um simples exemplo entre a dificuldade de correlação entre a expectativa e a realidade.

Se ir à padaria sem um batonzinho ou máscara para cílios pode provocar espanto em algumas moças, o que dizer, então, da campanha de celebridades com cara lavada que não param de pipocar por sites e revistas? Chegamos a um ponto em que aparecer como se é virou um ato de coragem, uma atitude louvável.

Sim, existe uma pitada de rebeldia em mostrar aos outros como se veio ao mundo, uma tentativa de protestar contra a chatice de todas as exigências que recaem sobre a aparência feminina. É triste chegarmos a esse ponto, eu sei.

Acabamos por construir uma imagem superficial do que é ser uma mulher bonita – como se a beleza pudesse ser tão reducionista e facilmente medida por indicadores precisos.

Aos poucos, começamos a adotar esse mesmo modelo de exigência uniformizadora, a fim de esconder pequenas (ou grandes) imperfeições no nosso comportamento. E fazemos isso sistematicamente.

Vivemos em uma era que expressar a identidade (e dá-lhe Facebook e Instagram) com boas pitadas de narcisismo é quase obrigatório e, fazendo isso, não nos damos conta que, em vez de nos diferenciarmos, estamos seguindo exatamente a mesma premissa de todo mundo: não preciso ser, só devo parecer e, assim, faço com que me percebam como idealizei.

Por outro lado, a ideia da cara lavada é simbólica, ela expressa um desejo de desvelamento, de sinceridade, de exposição franca e direta.

Há, sim, uma ação afirmativa na ausência de Photoshop. Somos todos imperfeitos, deliciosamente imperfeitos, e precisamos começar a jogar isso na cara uns dos outros. Até porque não há maquiagem capaz de nos esconder de nós mesmos.

Comentários (2)

  • Luiz diz: 14 de maio de 2014

    Muito bom!

  • Isabela diz: 14 de maio de 2014

    Belo texto. Sou uma mulher que sai para o trabalho sem maquiagem, não por não gostar, mas por não achar importante. Prefiro estar com as sobrancelhas bem aparadas, em dia com o dentista, brincos, enfim. Prefiro me enfeitar de outras formas, e hoje acabei até desenvolvendo alergia de determinados produtos. Acho que temos que valorizar o que somos por dentro, ao invés de aparentarmos o que não somos.
    Meu noivo sempre me disse que não preciso de maquiagem para ficar mais ou menos bonita.

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