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Não é Céu

04 mai08:12

NÃO É CÉU: Retrato da Massa Falida

(Homenagem aos adolescentes tardios)

Por Eduardo Frizzo/ eduardo7frizzo@hotmail.com

É Comuna ressabiado que não segue o riscado de qualquer Camarada.

É Trotsky meeiro entre um mural de Siqueiros e a soda da criançada.

É ativista passivo, sem gota de busto altivo ou coloradas vestes.

É reles sonhador, covarde em seu Equador, anti-tributo à Prestes.

É rasura de si, é sempre o mesmo fim, é orgia e Planalto.

É imunda prostituta, é aquele que é truta e cruza os braços num auto.

É só comiseração, Arara da Humilhação, mais Collor do que Guevara.

É um tal de I don’t no, mirrado num please don’t go, credor que estupra e ampara.

É facho de esperança em raquítica criança às margens de certo Altar.

É grito retumbante que habita sua estante – todo Médici em seu ar.

É Presidente Eleito num coração rarefeito que mastiga sofrer.

É Cabeça da Boca, cheirado e porraloca, plinplin no modo de ver.

É ex-tropicálio usado, Brás Cubas acorrentado na Disney da dissonância.

É lágrima de Henfil, imigrante do frio, el fuego de su estância.

É cria da parabólica, é marginal bucólica, é Glauber que não é rocha.

É mais tiví que tevê, é quem breca o auê, é quem não leu mas atocha.

É do sul e do norte, é estatística e morte em filas à la Coimbra.

É gramático incorreto, é de um grupo seleto que se borra e melindra.

É sonho devastado, cachaceiro e mau-olhado, é lamento perdido.

É dia que amanheceu, é Mãe que esqueceu do Filho e do Partido.

Mas é couro que resiste, é mar que insiste, é quem quebra pena e tinteiro.

E é quem têm as forças (e por isso têm as palavras) para destruir todas as travas e um dia se ver inteiro.

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27 abr11:42

NÃO É CÉU: Live and let to die

Eduardo Matzembacher Frizzo/eduardo7frizzo@hotmail.com

Não existem ironias da vida. A vida é uma ironia. Você olha pro céu. É noite. Vê uma porção de estrelas. Quando não sabe o que são, acha bonitas. Cria verruga no dedo apontar pra uma. Liga “Lua Cheia” do Papas pra namorar aos dezessete anos. Tudo lindo,romântico, Sparks. Mas depois descobre que essas estrelas provavelmente não existem mais. É a luz que viaja zilhões de quilômetros e encontra seus olhos. Elas estão mortas. O céu se transforma numa máquina do tempo. Um cemitério de sóis violentos, o que talvez torne tudo ainda mais belo. Mesmo que cruel.

Quando tive Biologia na escola, me ocorreu algo parecido. Lembro que a professora falava em “Teoria Criacionista” e “Teoria Evolucionista”. Na primeira, Deus criou a vida. Na segunda, somos parentes dos macacos. Nunca consegui ligar a primeira com qualquer coisa que pudesse se chamar de “teoria”. Quanto à segunda, achava muito interessante. E angustiante. Mas quem sabe tudo o que é interessante seja angustiante. A angústia é uma porta para a autenticidade. Quando você está perdido, geralmente se encontra. Ou afoga suas mágoas em qualquer coisa que faça sua mente esquecer de esquecer de esquecer. Algo assim.

Mas pensa no take: nasce, cresce, morre. Entre o “nasce” e o “morre”, o “cresce” é que faz toda diferença. Nele tudo acontece. Sexo, vinho tinto, macarrão à bolonhesa e paranóias pra dormir. Tudo reside aí. Tudo o que você deixará além do pó no chão, farelos do seu corpo decomposto, está aí. Lembrança naqueles com os quais conviveu? Provavelmente. Um livro, um disco, um trabalho que por acaso fez? É possível. Mas qual o sentido disso tudo? Estará contido apenas no “cresce”? No amadurecimento das laranjas que, de tão maduras, caem e apodrecem em vermes ao sopé do pé? Ironia, muita ironia.

O estranho é que pra vida ser irônica, teria de ter um narrador que assim a fizesse. Do contrário, o termo não serviria. Talvez não sirva. Não há qualquer evidência de narrador. Ao menos até o momento. Vejamos o tempo, portanto. Detém a perspectiva do sujeito: o cidadão sente seu transcorrer. Detém a perspectiva naturalista: o tempo existe antes de você sentir seu transcorrer. Qual é a mais válida? Diria que ambas. Mas real, cruel e violenta como uma mulher berrando TPMs, somente a natural. Antes mesmo de seus pais transarem e nove meses depois você nascer, o tempo estava aí. No primeiro milionésimo de segundo após o Big Bang, o tempo passou a existir. E o passado do tempo? Não existe: não há tempo.

Fato é que tudo é muito estranho. Esses dias, um camarada largou essa num churrasco: “imagina se tem gente nos observando lá do céu”. Respondi que ele andava assistindo muito Big Brother. Ele retrucou: “pode até ser, mas sempre há a possibilidade”. “Sempre há a possibilidade”: essa frase ficou girando na minha cabeça. Possibilidade de vida pós-morte, possibilidade da validade da “Teoria Criacionista”, possibilidade de que, em duas horas, eu escreva o romance que venho matutando há anos – e que é até agora somente um matutar. Sempre existem possibilidades. Mas e realidades? Não sei. Talvez seja também uma possibilidade e vivamos na Matrix.

Quanto mais estudo, mais asno me sinto: confissão. Quanto mais sei, menos sei que sei: outra confissão. Quanto mais vivo, menos sei o motivo de fazer tudo o que faço: terceira e última confissão. Invejo pessoas plenas de objetivos. Sabe aquele sujeito que parece realizado após passar num concurso? Pois é. Invejo ele. Mas também me atrevo a dizer que esse senso de realização da criatura é uma capa. Uma rolha. Cobertura de nega maluca batumada. Lá na massa do bolo, a coisa não é bem assim. Existem furinhos. Furinhos de vazio. Furinhos de nada que você nem percebe ao mastigar. Mas estão ali, ponteando seus dentes, estalando mínimos e audíveis somente pra ouvidos de pastor alemão. Essa é a verdade: pra suportar o vazio, cobrimos sua presença com outra, negando a ausência que nos constitui.

Assim é que o niilismo não me parece algo sem nexo. Niilista é aquele que diz que não há mais nada a não ser o nada. Tudo se equivale a nada. Não há peso, medida ou INMETRO. Nenhuma metafísica se sustenta, nenhum valor detém contornos reais. Tudo? Que nada!: nada. Mais ou menos isso. Mas quem sabe essa seja a mola propulsora de tudo que talvez possamos construir. A partir do momento em que você sabe desse nada, vê que tem todo um mundo pra trazer à tona. Pode se sentir mal, inicialmente. Pode se desesperar, amansar crises na cachaça, certamente. Mas depois desse momento, algo de autêntico se instalará. A angústia precede a autenticidade. É normal. Algo como você tomar um pé na bunda, passar por dias de choro em pleno Carnaval e sair, noites depois, renovado e feliz disso tudo. Vai saber se no fundo não é disso que fala toda “corno music”.

“O Guaíba esverdeou”, diz a manchete da Zero. “Grandes coisa!”, resmungo ao derrubar café no piso branco. Deixe que as algas trabalhem. Deixe que eu escreva. Deixe que as estrelas permaneçam mortas, belas em seu brilho. Deixe que escutem Papas pra pegar a moça de dezessete. Deixe que carros voem no quebra-molas na frente da minha casa. Deixe, simplesmente deixe. Preocupações? Claro, existem. Projetos? Devem estar sempre presentes. Do contrário, entoaremos o mantra idiota do “carpe diem” dia após dia. Mas enquanto tudo desmorona e eu mesmo morro um pouco a cada hora, pensando na vida, no Universo e tudo o mais, meu lema será: LIVE AND LET TO DIE. Cruel? Pode ser. Mas não mais que tudo. Não mais que a ironia de existir. E ainda assim saber: não existe jeito ou maneira das coisas serem mais belas. Esse é meu humor. Essa é minha conclusão.

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18 abr16:35

NÃO É CÉU: Não somos salsichas!

Eduardo Matzembacher Frizzo/eduardo7frizzo@hotmail.com*

Existem mulheres e mulheres. Existem homens e homens. Se as pessoas fossem iguais, que graça teria a vida? Toda pureza é burra. Toda pretensão de superioridade é besta. Boa é a pluralidade. Boa é a diversidade. Legal é você gostar de Godard e conhecer alguém que detém vocação apenas para “Velozes e Furiosos” – e mesmo assim, por um motivo ausente de quaisquer explicações (pra quê explicar uma emoção?), sentir algo mais que empatia pela cidadã. Alguns falarão que “afinidade estética” é fundamental. Eu rebaterei: não necessariamente. Já vi casais completamente antônimos em seus gostos que se davam às mil maravilhas. Do mesmo modo, conheci casais praticamente iguais (livros, filmes, músicas, profissões, manias pra dormir: tudo, absolutamente tudo igual) que viviam em pé de guerra. A única regra da atração é a ausência de regras.

O estranho é que nos quesitos “atração” e “relacionamento”, temos uma sede e uma fome de regras e receitas que beira o ridículo. Quem nunca ouviu a seguinte frase: “homens são de Marte e mulheres são de Vênus?”. Me falaram, inclusive, que se trata do título de um livro – o qual de maneira alguma quero ler. Quem nunca folheou uma Cláudia (a revista, não as geografias corporais das “Cláudias” espalhadas pelo mundo – as quais me interessam bem mais que a revista) e leu: “o Universo Feminino blábláblá”? E quem jamais se deparou com a expressão “Universo Masculino”? Para mim, o único Universo possível é o Universo que habito. Os demais, ou são paralelos (ao melhor estilo Stephen Hawking) ou são lengalengas criadas por marqueteiros com o único intuito de encher sua cabeça de porcarias.

Mas o pior de tudo isso, é que você identifica claramente as mulheres adeptas de “práticas mulherzinhas” e os homens abobados em “discursos homezinhos” – aqueles que a VIP lança todo mês, por exemplo. O Facebook é um terreno fértil para proceder com tais pesquisas. Geralmente a moça que se filia à “mulherzinhices”, recheará seu mural com coisas como: “solteira sim!, sozinha nunca”; “homens ligam, meninos mandam mensagem”; “batatinha quando nasce se esparrama pelo chão (…) – Caio F. Abreu”; etc. (ad infinitum). Por outro lado, o rapaz que se quer “homezinho” irá abarrotar seus posts com imagens de carros, “humor troll”, fotos que dizem “olha!: pego todas!” ou trechos de músicas da seguinte estirpe: “eu bebo sim! / e tô vivendo / tem gente que não bebe / e tá morrendo – Velhas Virgens”. O que isso quer dizer? Muita coisa. Contudo, calma!: não sentarei a ripa em ninguém. “Cada um faz o que quer, pelo menos penso assim”, já falava o Xirú Missioneiro. Mas o que questiono é: por que as pessoas não buscam uma autenticidade ao invés de vestir a primeira “capa de personalidade” que lhes oferecem – e que geralmente detém matizes “fofuxas” ou “masculinérrimas”?

Tal fenômeno quem sabe tenha relação com algo que denominarei a partir da sigla VM – isto é: “Vício Manualesco”. O VM está em todos os lugares. Queremos manuais pra tudo. Quer enriquecer? Tem manual. Quer se suicidar? Tem manual. Quer reconquistar sua ex? Tem manual. A contemporaneidade traz consigo uma tendência que busca uma total “economização da vida”. “Que diacho é isso?”, perguntará algum leitor. Respondo: somos de um tempo no qual se crê que tudo pode ser medido em estatísticas e que receitas/regras para se conquistar o que quer que seja efetivamente existem e funcionam. Quem duvidar da realidade do VM, olhe a lista de livros mais vendidos da Veja (aquela revista semanal de piadas). Ou ligue a televisão e veja programas como aquele em que homens passam numa esteira (dessas de supermercado) para serem “escolhidos” por mulheres que tem de “conquistar” em alguns minutos (como se fossem caixas de sabonete ou garrafas de cerveja, os rapazes). Como o povo gosta disso? Não sei. Só sei que o resultado pode ser visualizado na “Mulher Samambaia”: a “coisificação do humano” (processo pelo qual a pessoa se torna coisa).

Por isso tudo é que a cada dia me torno mais chato. Cansa você conhecer pessoas que ao invés de buscar uma autenticidade na vida, querem apenas a segurança de uma boa profissão que lhes garanta um consumo elevadíssimo vida afora e carteira adentro. Cansa você conversar com indivíduos que não sabem debater, mas somente esgotar a garganta em monólogos que de razoáveis não tem nada. E cansa mais ainda a “tendência água com açúcar” que tentam nos enfiar goela abaixo em livros ao estilo Nicholas Sparks – como se a vida pudesse se esgotar nas “fofuras” de um romance de bordas tão adocicadas que parecem favo de mel (amor é “(500) dias com ela”, não “Querido John” – isso pra ficar nas recentes plagas cinematográficas). Então afirmo: não existe “Universo Masculino”, não existe “Universo Feminino”, não existe um manual de regras/receitas para qualquer coisa na vida, não existem pontos certos para nada. A existência repousa na diversidade, a vida só é vida na pluralidade e a certeza só é certeza na dinâmica da construção/desconstrução inscrita em cada segundo.

Temos que parar de buscar fórmulas pra tudo. Temos que parar de rotular as pessoas. Temos que buscar a autenticidade tatuada em nossos silêncios e os amores mais improváveis que cruzam conosco em cada esquina. Precisamos celebrar a incerteza. Precisamos da aventura do caos. Chega de medo. Chega de “cagaços de descer ladeira abaixo” – como aquela música do Paralamas. Não existe “mulher ideal”. Não existe “homem ideal”. O que existem são pessoas plenas de qualidades e defeitos que procuram a felicidade em todas as horas de suas vidas. A “economização da vida” e a “coisificação do humano” constituem processos totalmente ausentes de sensibilidade/humanidade e completamente apegados a sensos patéticos/reducionistas que buscam uma síntese da vida em 140 caracteres (como no Twitter). E se “filosofar é aprender a morrer”, como disse Montaigne, a única maneira de superarmos essas etiquetas que querem grudar em nossos traseiros é uma consciência plena disso.

Chega de “celebrar a estupidez humana” – como cantou Renato Russo. Busquemos algo real. Quanto mais autênticos formos, mais chances teremos de alcançar alguma felicidade. (Se a pessoa quer viver de rótulos e modismos, ótimo!: todos detêm o direito de pegar carona numa “Highway to Hell” e achar que isso é excelente. Mas que ao viver dessa forma, ao menos detenha noção do que está fazendo, pois liberdade só é liberdade com a consciência da escolha que implica.) Vamos abandonar os manuais. Percebamos que a beleza não reside apenas em “love songs” de “sertanejos new generation”, mas também nos versos da Hilda Hilst. Vivamos na busca de novos livros, novos filmes, novas canções e novos amores. Não somos salsichas!, não somos produtos nascidos em uma linha de montagem! Morte aos padrões! Morte ao VM! Abandonemos caminhos que nos disseram únicos, que nos disseram certos, que nos disseram sem retorno. E mais do que tudo, vamos abrir nossas mentes e corações para a celebração da vida e da incerteza, já que é aí e só aí que encontraremos o pulsar do Universo contido na beleza de cada instante da existência.

E como não sei de que modo findar essas linhas ranzinzas, concluo: this is it.

*  Eduardo Matzembacher Frizzo é estudante, professor universitário, advogado e Mestre em Desenvolvimento pela UNIJUÍ

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09 abr16:04

NÃO É CÉU: A Casa Abandonada

Eduardo Matzembacher Frizzo/ eduardo7frizzo@hotmail.com

Foi estranho ver inscrições de “seja bem vindo” e “obrigado pela preferência” em uma casa abandonada perto do Colégio Teresa Verzeri. Poderia ser apenas uma visão corriqueira potencializada pelo meu olhar leonino. Mas por qual motivo isso me trouxe uma sensação tão bizarra, mesclando desapego, desorientação e pena? Tento pensar e me foge a lógica. Decido escrever para organizar a cabeça.

É possível que essa casa seja algo como o mundo atual. Nas residências alguns metros adiante, cercas elétricas, vidros pretos, carros importados e tudo o que a vida de quem tem dinheiro pode proporcionar. Naquela casa, duas frases sem nexo frente à realidade na qual se encontravam: mato crescendo no pátio e a angústia bordada nas paredes num misto de quebra-costela e ameaça de morte. Tudo bem que alguns digam que a realidade dos dias de hoje nos proporciona mil facetas, mil amores, mil oportunidades em cada palavra dita. Mas a pergunta que deve ser feita, é para quem essas mil facetas e oportunidades podem surtir algum efeito.

Será que quem nasce em uma família transfigurada pelo vício, pela pobreza, pela falta de afeto que a miséria causa, pode ter essas varetas fincadas no seu caráter? Será que realmente sentimos algo além de pena hipócrita do menino que bate no vidro do restaurante no qual jantamos aos risos? Será que comentar com a esposa dentro do carro acerca da triste realidade daquele garoto, após dar uns trocados para ele, é realmente comiseração, compadecimento com esse ser humano?

O fato é que a pobreza é o câncer do capitalismo. Mas no corpo capitalista o câncer é o centro do sistema. Ou seja: quanto mais pobreza, mais saudável o sistema. Da mesma forma ocorre com o lixo que todos os dias produzimos, fruto de um consumismo que nos faz recorrer a compras e mais compras que só nos proporcionam um gozo imediato para após instalar a insatisfação. Melhor dizendo: com nossas lixeiras abarrotadas de marcas multicoloridas e nossas mentes que enxotam a inteligência em prol de mastigações e papinhas intelectuais e estéticas, todo o sistema funciona perfeitamente bem, toda a estrutura está mais que sadia.

O idêntico ocorre com a pobreza. Essas “vidas desperdiçadas”, para usar a expressão de Zygmunt Bauman, são apenas o produto residual humano que provém dessa lógica que tantos abençoam. Poderíamos até nos perguntar para onde vai o dinheiro que pagamos em impostos, porque o governo não toma soluções aqui e ali – e coisa e tal. Mas a pergunta correta não está para os atos governamentais e sim para os nossos próprios atos, porque aqueles são apenas a conseqüência alargada destes.

Talvez por conta disso que cruzar por essa casa abandonada perto do Colégio Teresa Verzeri, tenha me provocado aquela estranheza.

Foto: Flávio Neves, Agencia RBS

Enquanto muitas crianças grávidas de futuro freqüentavam a escola, outras tantas crianças grávidas de dor não poderiam ver perspectiva de amanhã para além das próximas horas de suas vidas. Não que eu tenha visto crianças na casa abandonada, não que minhas palavras se direcionem apenas para a infância. Mas é que em um país que traz na sua bandeira as positivistas inscrições de “ordem e progresso”, não deixa de ser curioso haver uma casa abandonada próxima de uma escola com inscrições de “seja bem vindo” e “obrigado pela preferência”.

Se a ordem realmente existisse para além da vontade daqueles que detém o poder, talvez algum progresso se daria. Mas como a ordem de maneira alguma existe fora das arestas do consumo, cada vez menos acredito em um futuro digno para o Brasil e muito menos para o mundo. Então é que tenho de buscar os olhos daquele garoto que bateu na vidraça do restaurante enquanto eu me empanturrava de pizza e bebia um bom vinho tinto seco. Caso contrário, nada faz sentido e muito menos a escrita tem alguma razão.

Por isso é que o homem não é o lobo do homem, como queria Thomas Hobbes: seria depositar muita confiança na nossa espécie a comparação com qualquer cão, seja selvagem ou domesticado. Por isso é que combater a miséria é apenas dar paracetamol para a dor de cabeça na expectativa de que ela jamais volte. Por isso é que acreditar na juventude também não traz mais nenhuma esperança. Aqueles que podem conquistar algo e mudar a situação, ou se preocupam com seus umbigos ou se preocupam com o esquecimento completo de tudo aquilo que é de algum modo importante, assim como fazemos com o isolamento dos detentos e dos doentes mentais – indesejáveis para nosso filminho à Hollywood da década de cinqüenta.

Mas o mais estranho é nos acharmos feitos à imagem e semelhança de Deus – seja lá o que isso signifique. O estranho é acharmos que respingos de ética podem forrar um chão de sofreres. E mais bizarro ainda é sermos o eterno país do futuro, o que talvez esteja para o intuito de sorrir desdentado ao samba enquanto alguns poucos sangram nossa mais-valia.

Afinal das contas, Nei Lisboa já profetizou: “cada povo tem o novo que merece”.

* Eduardo Matzembacher Frizzo é estudante, professor universitário, advogado e Mestre em Desenvolvimento pela UNIJUÍ

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02 abr17:51

NÃO É CÉU: O Efeito Gangorra

Eduardo Matzembacher Frizzo /eduardo7frizzo@hotmail.com*

João era um menino de uma perna só. Nascera assim. Quando o médico percebeu que nem o toco da perna ele tinha, falou pra mãe:

- Olha, vai ser complicado ele viver desse jeito…

Ela, meio arrebentada da barriga pra baixo, olhou pro médico e resmungou:

- De qualquer modo é complicado.

Ao completar sete anos, João ganhou uma perna de pau. Presente do pai. Era uma perna pobre. Mas era alguma coisa. Antes da perna de pau, João se arrastava que nem cobra. Com a cara colada no chão, via coisas que outras pessoas jamais enxergariam. Havia tardes de janeiro em que gostava de analisar os vincos entre as lajotas pra comparar se os da direita eram simétricos aos da esquerda. Esquecia que o sol brilhava e que na praça em frente crianças iam pra cima e pra baixo na gangorra que o Vereador Nelson instalara no inverno passado.

Quando João ganhou a perna de pau, o pai lhe disse:

- Filho: essa perna sou eu que estou te dando, mas tu tens que agradecer pro Vereador Nelson que mora na Zona Leste. Por isso amanhã vamos lá. E vamos caminhando, só pra provar pro Vereador que essa perna agora te faz uma criança normal.

O Vereador Nelson estava sentando na varanda com um charuto gordo no canto da boca.

- Agora és um menino normal!

- Sim, doutor! E graças ao senhor agora ele é um menino normal!

- Graças a mim não, meu caro! Quem fez isso foi Deus!

João tentou sorrir. Mas não conseguiu. Culpa dos cabelos pretos lambidos. Mas como sentiu o pai lhe dar um cutucão nas costas, forçou um “obrigado” e um riso em colchete pra não ouvir desaforos.

Naquela noite, quando todos foram dormir e João estava só no quarto, sem a perna de pau que tirara pra conseguir pegar no sono, decidiu se arrastar até a porta e abri-la devagarzinho. Era uma noite clara. A gangorra permanecia parada em suas tintas foscas à

Foto: Gilberto Tadday, Zero Hora

luz amarela dos postes. João sentiu vontade de ir lá. Mas não com a perna de pau. Queria fazer o caminho das cobras.

A calçada estava gelada e a rua quente. Ele nunca reclamara dessas sensações. Gostava de perceber que se as pessoas comuns andavam com duas pernas, ele andava com o corpo todo. Sabia que mesmo sem uma perna poderia subir em uma das pontas da gangorra. Mas certamente ficaria no chão e mais nada. Teria de haver mais alguém para o Efeito Gangorra se concretizar. Como não havia ninguém, notou a falta de sentido da sua jornada e com algum pesar se arrastou pra casa.

Quando atravessava a rua, rosto manchado de terra e grama, uma caminhonete atropelou João. Certamente o motorista pensou que era um cachorro. Não fez questão de parar. Mas ele atropelara João, o qual, antes de morrer, olhou uma última vez para a gangorra e lembrou das palavras do Vereador Nelson:

- Graças a mim não, meu caro! Quem fez isso foi Deus!

Encontraram o corpo de João pelas sete da manhã. O pai lamentou o fato de não ter chaveado a porta. A mãe disse que aquilo era muito complicado. O Vereador Nelson pronunciou um extenso discurso que ninguém ouviu pela forte chuva que caia no zinco da funerária. O enterro de João foi de tardezinha e todos esqueceram da sua vida de sete anos.

Permanece só a gangorra meio capenga e podre. Talvez esteja iluminada por esse entardecer cor-de-rosa do dia dois de abril. Se em quarenta e oito horas apenas uma pessoa subir em uma das suas extremidades, nada acontecerá. Ninguém brinca sozinho.

O Efeito Gangorra exige companhia.

* Eduardo Matzembacher Frizzo é estudante, professor universitário, advogado e Mestre em Desenvolvimento pela UNIJUÍ

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02 mar14:45

NÃO É CÉU: "O Jogo"

Eduardo Matzembacher Frizzo/eduardo7frizzo@hotmail.com*

Acordou do amor. Queria lembrar os braços dele. Não conseguia. Queria lembrar as mãos, os cabelos. Não conseguia. Lembrava um rosto estranho que quanto mais próximo, mais distante ia. Havia aprendido jogos que escondem cartas debaixo da manga. Mas sempre fora às claras. Se uma briga for madrugada adentro, com pratos voando pela janela, ótimo. Mas se as coisas forem feitas como se faz nos escritórios, tornando o sentimento uma questão corporativa, chamava a conta. Relações não são contratos, ainda que a conveniência dite as normas de tudo.

Mas como pedir o fim? Chegar com um “acabamos”? Seguir os conselhos da Cláudia ou da Nova? Nada parecia real. Tudo tinha o cheiro dos argumentos dele: ironias que detinham coices, coices que detinham afagos e afagos adiados pelo horário e pela filha que morava noutra cidade.

O dia era cor de chumbo quando deu partida no carro. Havia neblina por detrás dos morros. Talvez aquilo dissesse algo: a neblina também era cinza. Mas ela sabia que coisas não dizem nada além delas mesmas. Entrar nesse jogo de relacionar tudo com tudo, seria idêntico ao pôquer no qual se encontrava sua vida. Esqueceu ou tentou esquecer esses detalhes, ignorando as piscadelas que a memória queria escavar.

Como manhã e domingo, com certeza ele estaria dormindo. Pela madrugada havia enchido a cara, dado fiasco ao cantar no palco de um pub qualquer e transado com “alguém fim de festa”. Mas havia acontecido ou era algo tão sem lógica quanto a neblina dos morros? Não passava de suposição. Mas toda loucura têm raiz naquilo que se supõe.

Quando chegou, desligou o motor e o suor das mãos. Desceu, caminhou pela calçada que separava o jardim da porta. Ao apertar a campainha pela primeira vez, ninguém atendeu. Esperou, apertou novamente. Ninguém. Colou o polegar no botão e foi aí que ouviu uns passos perto da porta.

“Sim?”, disse um homem nos seus setenta anos, vestindo bermuda xadrez e camiseta de campanha de vereador. “O senhor mora aqui?”, perguntou. “Sim.”, respondeu o velho com cara sonada, cabelos brancos espetados pelo travesseiro, braços com manchas roxas, rosto molhado pelo tapa frio d’água.

Ela franziu a testa, olhou para baixo e depois para o número da casa. 985. Não era engano. Há um ano freqüentava aquele lugar. Final de semana sim, final não. Até nos dias da semana, quando o trabalho gerava o despudor do pós-trabalho e o remédio para a tristeza era sexo e cerveja, às vezes estava ali.

“A senhora deseja alguma coisa?”, quis saber o outro, coçando olhos de sono com costas de mãos transparentes. “Não…”, disse rouca, “acho que me enganei de número…”.

Voltou devagar, pela calçada, separando o jardim da porta. Já não queria o fim. Queria um começo. Imaginava um recomeço sem conhecimento seguro, exato do quê. Por que ele não estava na casa lilás 985? Por que saiu de lá de uma hora para outra? Puxou o celular da bolsa. Telefone dele desligado. Entrou no carro como entrando num lugar pela primeira vez. Sabia só que era manhã e domingo e tudo cinza. A neblina dos morros era falta de cor como seu carro cinzento. O mais, ausente. Por qual motivo não estava? E o celular desligado? Tudo era mudez. Fumaça em lâmpada fosca. Carta debaixo da manga. Suspensão na véspera de um golpe.

Quem sabe seu amar tivesse estancado, de tanto guardado, de um guardar avarento, sem porque, tudo jogado. Quem sabe nem árvores existissem e tudo não passasse de mera coincidência que brota da mesma forma que feijão do algodão dos jardins de infância de abandono espontâneo. Quem sabe tivesse demorado demais e tudo se tornara pálido, cartas marcadas, previsível. O amor, como um blefe, envelhecera antes de descer à mesa do jogo.

Conhecer todas as regras, cinzenta.

* Eduardo Matzembacher Frizzo é estudante, professor universitário, advogado e Mestre em Desenvolvimento pela UNIJUÍ

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27 fev18:29

NÃO É CÉU: Petições para o universo

Eduardo Matzembacher Frizzo/eduardo7frizzo@hotmail.com*

Uma pessoa importante (para o ser humano que aqui fala) disse que Petições para o Universo existem e funcionam. De início, não entendi ou cri, vez que o ceticismo é a linha mestra das minhas concepções de vida e de mundo. Mas resolvi tentar.

Imaginei vários familiares, amigos e amigas de ontem e de hoje, namoradas que nunca mais vi, assinando a petição. Delineei os fatos, os fundamentos e os pedidos. Busquei um arrazoado nada jurídico, mas pleno do pulsar da existência e de um querer profundo.

Protocolei no Cartório do Cosmo via imaginação consciente. A petição foi recebida e devidamente encaminhada ao juízo competente. Para não deixar margens de erro, repeti o processo três vezes. Poderia ocorrer algum equívoco cartorário e o aceite inexistir, afinal.

O resultado? Desejos começaram a se tornar metas e metas começaram a se tornar rumos. A engrenagem das coisas, visíveis e invisíveis, movimentou-se. Não sei de despachos ou notas de expediente provenientes dessa lide. Nem sei se se trata de um litígio, visto não haver parte contrária.

O que sei e vejo de forma clara, é que quando começamos a dançar no ringue desse boxe dos dias, movidos por ímpetos de mudança, horizontes novos se abrem, dependendo nossos passos unicamente da persistência na direção de outros paradigmas. Jabes ou cruzados de esquerda podem até buscar nosso rosto. Se acertarem, porém, o sangue terá um gosto doce na boca.

Talvez esses movimentos não sejam certos. Talvez a “vontade de mudança” seja pura “ânsia de incerteza”.

Mas o fato, real e incontestável, é que somos capazes de vencer qualquer campeonato pelos estádios da vida, sejam eles em algum lugar como a futura Arena Gremista ou em um simples campo de várzea. Não interessa o cenário: interessa o protagonista.

Podemos e devemos, movidos por coisas, pessoas ou idéias que sentimos férteis e fortes no âmago do coração e na parte detrás da cabeça, correr atrás da felicidade. Precisamos disso. Quando os ares de um lugar ou as respirações de algumas conversas parecem não mais consentir com nossos sentires, o final da insônia pede outros quartos. Não adianta persistir no que é cômodo – seria sintoma de fraqueza e sinal de tristes horas. O que faz sentido é esquecer que existem chaves e simplesmente abrir todas as portas.

Do futuro, sei apenas a incerteza. Do amanhã, só me cabe o amanhecer. Do hoje, tenho a boca cheirando à café. Do agora, os dedos dançando pelas trilhas das teclas. Mas do tempo, esse sim, sinto o caráter implacável, as garras da destruição de tudo, do esmorecer da pele, voando em meus cabelos e ressentindo mortal, sempre mortal, a coragem e a liberdade que me escorrem veia por veia nesse exato instante.

A saúde, o amor, o trabalho, o bem-estar de uma casa morna, a palidez de um copo d’água gelada: tudo flui em raios da nossa presença para transformar em chuva o que era estiagem. Apontados para o porvir, esses jatos de querer quem sabe possam ser comparados à supernovas, estrelas próximas da morte que espalham no espaço a matéria da qual somos compostos quando enfim explodem. Não há destruição: o que existe é superação de muros que em algum momento, completamente bobos, julgamos intransponíveis.

Mas qual foi o juízo que recebeu minha petição? Não será a própria petição um atestado de falta de juízo? E se o Cartório do Cosmo esqueceu o encaminhamento? As próximas etapas dirão, já que sei da inexistência de um processo esquematizado e fechado quando se trata do Universo. Pode até haver recurso, tribunal superior ou corte interestelar, mas desde que os motivos de pedir sejam condignos com os pedidos, certamente o sucesso estará estampado na próxima página.

Resta então prosseguir. Resta agradecer à pessoa importante (aquela do início do texto) e falar para ela o quanto ela é essencial para mim, despertando-me para o novo desde o primeiro momento em que toquei seu rosto e sua boca. Mais que isso, falar o quanto “justiça” e “injustiça” são conceitos tolos próximos da dignidade e dos sorrisos do porvir presentes nas Petições para o Universo.

Já fez a sua? Se não, só mais um recado: nessas instâncias cósmicas, provavelmente somos advogados, promotores, autores, réus e juízes ao mesmo tempo e no mesmo espaço. Não há indício de poder quando todo poder brota das nossas mãos, pensamentos e compassos do coração.

Afinal, todos sabem ou deveriam saber: somos aqueles que desejamos ser – e as Petições para o Universo, provas da força do nosso querer.

* Eduardo Matzembacher Frizzo é estudante, professor universitário, advogado e Mestre em Desenvolvimento pela UNIJUÍ

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