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As caras de Duas Caras

08 de abril de 2008 10

Antônio Fagundes e Dalton Vigh, personagens de Duas Caras/Divulgação, TV Globo
Mal foram exibidos os primeiros episódios de Duas Caras – a novela das oito que começa às nove na Globo – quando assisti a uma entrevista da atriz Alinne Moraes. E ela fez um paralelo interessante entre o nome da novela e a trama. Geralmente, o título das histórias se relaciona com os protagonistas (Senhora do Destino, Cabocla, Roque Santeiro) ou com os lugares centrais (Belíssima, Kubanacan). Mas o nome Duas Caras evidencia a essência do próprio enredo.

No início, cheguei a pensar que o título era uma referência a Adalberto-Marconi Ferraço (Dalton Vigh), que se submeteu a uma cirurgia plástica no rosto e trocou de nome. Talvez este até seja um dos ganchos, mas a mensagem principal envolve a mudança de personalidade dos personagens.

À época, Alinne Moraes contou no programa Vídeo Show, também da TV Globo, que os personagens passariam ao longo da trama por variações de comportamento. E agora, encaminhando-se para as definições, muitos destes integrantes de Duas Caras já fizeram esta mudança.

Em alguns, a troca do bem para o mal (ou vice-versa) é mais perceptível, em outros ainda apresenta indefinições, com personagens confusos entre os dois lados. Nas duas últimas semanas, aponto 10 personagens como as mais flagrantes inversões de caráter para o bem:

- Marconi Ferraço (Dalton Vigh): o coração do vilão amoleceu. Conhecer o filho e perceber que a noiva é insana e perversa, além de reencontrar o verdadeiro amor na mulher que ele enganou, contribuíram para que Ferraço de vez em quando esboce até um sorriso sincero. Está caminhando francamente para a remissão dos pecados e, quem sabe, talvez receba dos autores uma morte digna com o perdão de todos no final.

- Barretinho (Dudu Azevedo): era um playboy inconseqüente e relaxado que, também motivado pelo amor, manteve-se incansável para provar que não queria apenas se aproveitar da empregada da família. Casou-se, e tornou-se um homem. Trabalhador, inclusive.

- Barreto (Stênio Garcia): ainda está hesitante, mas já deixou de ser um advogado inescrupuloso. O próximo passo é abandonar o racismo. Antevejo que as fotos retiradas do álbum da família são de algum antepassado negro do Barretão. E aí ele vai se derreter na confissão dos erros. Está aprendendo a aceitar e compreender as diferenças na marra.

- Benoliel (Armando Babaioff): era outro adolescente preguiçoso que, a exemplo de Barretinho, trocou de lado pelo amor a uma mulher. E agora é um trabalhador exemplar.

- Bernardo (Nuno Leal Maia): trambiqueiro e malandro, tornou-se um pai orgulhoso e um amante apaixonado. Tudo isso sem perder a comicidade do núcle em que atua.

- Geraldo Peixeiro (Wolf Maya): continua misterioso. Talvez reverta a mudança, mas passou do rancoroso coadjuvante de Juvenal “Justamente” Antena para um não menos sincero trabalhador dedicado ao bem.

- Heraldo (Alexandre Slaviero): completa o trio dos ex-inconseqüentes, junto com Barretinho e Benoliel. Levantou-se do sofá, onde deixava marcas profundas de desleixo, e resignou-se ao trabalho humilde de garçom junto a um ameno e familiar ménage à trois.

- Rudolf Stenzel (Diogo Almeida): também é uma incógnita, e pode retroceder, mas o amor pela jovem Ramona deve concretizar em Rudolf o fim da militância radical nos corredores da universidade em nome do coração apaixonado.

- Débora Vieira (Juliana Knust): a ambiciosa Débora é agora uma arrependida jovem grávida e abandonada que sofre de amor por um homem, convenhamos, despido de qualquer atrativo estético. É uma das mais radicais mudanças da trama.

- Antônio (Otávio Augusto): completa o par com Débora. Passou do indiferente freqüentador de bordéis, de coração frio e desprovido de sentimentos, para o marido atencioso. E começou a tomar banho, pelo menos com mais freqüência.

Outros personagens estão com um pé na cova do mal. Posso estar enganado, mas este trio de bonzinhos mudou de camisa. Talvez voltem, arrependidos, mas por enquanto eles assumiram o papel temporário de vilões enquanto os antigos maus da trama enfileram-se no guichê dos redimidos.

- Juvenal “Justamente” Antena (Antônio Fagundes): Seu Justamente Antena assumiu o papel de patrão do tráfico imaginário. Apregoa ser o dono da favela, persegue o afilhado e outros rivais imaginários, e sustenta um autoritarismo enjoado. Tudo por medo de perder a liderança na favela da Portelinha. Esconde no coração um vilãozinho embrionário pronto para eclodir.

- Célia Mara (Renata Sorrah): era uma Amélia, sem a menor vaidade. Ou a Geni apedrejada. Perdia ônibus na chuva, quebrava o salto nas tampas de bueiro, rachava a unha fatiando pepino…um horror. Dava pena. Mas agora é uma vingativa e rancorosa diretora de universidade, com um coração de pedra.

- João Batista (Júlio Rocha): começou bonachão. Apaixonou-se. Mas quando vestiu o terno e foi trabalhar para o Ferraço, transformou-se em um gigolô mesquinho e ameaçador.

Acredito que o processo de mudança acelere em quem está indeciso, e se consolide em quem já trocou de lado. Mesmo que críticas pontuais à trama ou ao desempenho de alguns atores sejam justas, é possível reconhecer que a relação entre o nome da novela e a própria trama, em Duas Caras, é uma baita sacada. Simples e bem sucedida.

>>> Veja os horários da novela na programação do hagah

Postado por Eduardo Cecconi

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Comentários (10)

  • Poliana diz: 8 de abril de 2008

    Vamos combinar que pra bem sucedida falta muuuuito.
    Na real, as novelas da Globo foram boas, né?
    Ultimamente vem um lixo após o outro…sempre fui noveleira, mas confesso que com essas novelinhas que estão passando agora, mil vezes melhor ler um livro ou faxinar a casa. Acredito que os autores perderam a conotação de senso de realidade, foco em problemas sociais e preferem acender seus holofotes sobre os besteróis brasileiros. Me desculpem, mas está muito pior que novela mexicana.

  • Celo Carvalho diz: 8 de abril de 2008

    Acho que as pessoas deveriam se preocupar menos com as novelas, pois, à exemplo do futebol, alienam as pessoas, desviam a atenção delas dos problemas sociais do país. Não apregôo deixarem de assistir novelas e futebol (que eu inclusive gosto), mas vamos ser menos “fanáticos”, no caso das novelas, é tudo ficção, nada daquilo é real, portanto, há coisas muito mais importantes para se preocupar.

  • Joel diz: 8 de abril de 2008

    Como é engraçado ver comentários criticando quem assiste novela. Porque eles lêem o blog então, já que não gostam do tema? No Espiadinha era a mesma coisa. Mas sobre Duas Caras: o grande mistério agora é sobre o sufocador. Acho que não é nenhum dos possíveis candidatos. Aposto minhas fichas no segurança do Ferraço (não sei o nome). E acho também que o Juvenal acaba ficando com a Branca. No primeiro capítulo da novela, rolou uma troca de olhares entre eles. No mais, bela leitura dos perosnagens.

  • João diz: 8 de abril de 2008

    Isso não é meio ÓBVIO?
    Ou a TV emburrece mesmo?

  • Myrna Rodrigues diz: 8 de abril de 2008

    Eu justamente acho muito ruins essas mudanças de caráter da água para o vinho. O Aguinaldo Silva exagerou dessa vez e essa é uma prova de que a audiência não lá muito boa forçou váááárias mudanças na trama.

  • Sara Stuker diz: 8 de abril de 2008

    Parabéns Eduardo Cecconi!! Adorei teu post mesmo que não assista a novela com frequência,concordo com a sacada do título…
    Nomes muito óbvios enchem a paciência mesmo antes de começar a trama… Valeu!!

  • Ricardo diz: 8 de abril de 2008

    Excelente leitura da trama e personagens, Eduardo, é uma pena que em nome de sei lá o que, a direção empilha erros de sequência clamorosos e o roteiro parece ser escrito por vários roteiristas, num revezamento, trocando a dia cada, protagonizando cenas inverossímeis, como a pronta recuperação do personagem Barretinho após um longo período de coma, ou a muito mal armada história do sufocador, que apesar do mistério, é tão incoerente que perde a graça. Assim parece que pensam que somos tolos .

  • camilo diz: 8 de abril de 2008

    Tem que constar a Branca, que além de ser uma jararaca, é protegida do autor, ou seja, na verdade é a mais egoísta mas a trama faz com que a novela e o Brasil achem ela uma santa

  • Thiago diz: 8 de abril de 2008

    MAS BAH, DEPOIS DE ENCHEREM O SACO FALANDO Q BBB ERA PERDA DE TEMPO E TAL, AGORA PEGAM NO PÉ DAS NOVELAS! PESSOALZINHO MAIS CHATO ESSE. SE UM DIA CRIAREM UM BLOG FALANDO DOS FILMES Q PASSAM NA GLOBO, CAPAZ DE ENCHEREM O SACO TBM! ERA ISSO.

  • Fabiana Santos diz: 8 de abril de 2008

    Eduardo, obrigada por “traduzir” a novela Duas Caras pra nós, agora entendo um pouco mais o que está se passando. Espero ler comentários sobre a Beleza Pura que pra meu espanto não apareceu no ranking das mais vistas. Abraços.

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