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O incorreto deu certo

27 de abril de 2008 1

Divulgação
Autor Aguinaldo Silva revela detalhes e fala da reta fi nal de Duas Caras.

Em entrevista ao Pioneiro, em janeiro deste ano, Aguinaldo Silva disse que queria fazer de Duas Caras uma novela politicamente incorreta. A pouco mais de um mês do fim da trama, ele mostra que cumprirá mesmo a promessa. Há poucos dias, surpreendeu o público ao afirmar que a mocinha chegará ao final do folhetim nos braços do vilão que a fez sofrer no começo da história.

Desde 1º de outubro, quando Duas Caras estreou, o autor vem mexendo com a opinião dos telespectadores, fazendo-os mudar de idéia sobre os personagens a todo instante. Agora, quando a novela se aproxima da reta final, Silva se diz satisfeito com o rumo tomado pela trama.

– É a novela que mostrei mais segurança. Sofri pressões extremas para mudá-la e transformá-la numa novela convencional. Agora, junto com o público, tenho certeza de que estava certo em não aceitar – disse o novelista, por telefone, ao Pioneiro, semana passada.

Confira a seguir os principais trechos da conversa.

Pioneiro: Como tem sido a reação do público em relação ao final feliz da Maria Paula (Marjorie Estiano) e do Ferraço (Dalton Vigh)?
Aguinaldo Silva: Havia uma pesquisa no site da novela, na qual votaram mais de 1 milhão de pessoas. Comecei a acompanhar a lenta evolução do Ferraço em direção ao primeiro lugar. Ele disputava com o Claudius (CacoCiocler), que, no começo, era absoluto, e com o Narciso (Marcos Winter). Aos poucos, ele (Ferraço) passou o Narciso. Eu calculava que, quando ele salvasse o filho (Renato) do afogamento, as pessoas passariam a torcer por ele. Mas estranhamente isso aconteceu muito antes.

Pioneiro: O público está cansado de ver o mocinho terminar sempre com a mocinha?
Silva: Acho que é o contrário. O público está cansado de vilões que são empedernidos até o final. Na vida real, já tem tanta vilania que as pessoas estão ansiando por alguém que se arrependa. Uma outra coisa muito forte é a coisa familiar. O filho quer que os pais voltem a viver juntos. Isso é muito forte no inconsciente das pessoas.

Pioneiro: É por isso que ele vai sofrer antes de conquistar a Maria Paula?
Silva: Ele não pode simplesmente sair dessa história sem pagar pelo que fez. Ele tem que ser condenado, ser preso. Só depois disso é que ele tem o direito de ficar com a Maria Paula e o filho. Sempre achei que   no final o Ferraço morreria. Essa mudança é recente.

Pioneiro: O Ferraço fez o caminho inverso da Célia Mara (Renata Sorrah), que no começo tinha a simpatia do público e agora não…
Silva: Confesso que sempre tive uma profunda simpatia pela “outra”, e a Célia Mara é a outra na vida do João Pedro (Herson Capri), que era marido da Branca (Susana Vieira). Houve um momento em que eu percebi que, na verdade, o que a outra quer é tomar o lugar da original. Ela tem inveja da verdadeira. Aí percebi que a Célia Mara não é uma pessoa boa. Ela é má. A Branca é uma pessoa honesta, objetiva, direta, positiva, e aquela mulher (Célia Mara) fica atrapalhando a vida dela.

Pioneiro: Durante a novela, teve alguma história que precisou ser mudada em relação à sinopse inicial?
Silva: Tive que interromper a história da Alzira (Flávia Alessandra) porque a pole dance (dança sensual em torno de uma barra de ferro) causou um certo estresse lá em Brasília (a novela teve o horário de exibição reclassificado). Ela ia dançar na boate, ser descoberta, virar uma grande estrela, dessas que sai na capa de todas as revistas, o Juvenal (Antonio Fagundes) ia se apaixonar por ela e no final os dois acabavam juntos. Agora retomei essa história e vou levá-la até o fim. É muita hipocrisia, porque o Brasil é um país que mostra, às cinco horas da tarde, a Mulher Melancia, que é uma das coisas mais imorais que já vi em toda a minha vida. Por que não pode a Alzira dançar? Ninguém fica ofendido com aquilo e fica com a Flávia Alessandra?

Pioneiro: E quem é o sufocador?
Silva: Mais ou menos no capítulo 195 (previsto para 14 de maio), o Waterloo (Jackson Costa), que é o capanga do Ferraço, vai ser preso depois de atacar a Bijou (Débora Nascimento). Ele vai jurar que não é
o sufocador, mas vai preso e os ataques cessam. Só que, no último capítulo da novela, acontece um ataque do sufocador com ele preso. O (verdadeiro) sufocador vai tirar a máscara, e os telespectadores vão saber quem é ele, mas os personagens da novela não (risos).

Pioneiro: Outra personagem que está mexendo com o público é a Sílvia (Alinne Moraes). Você esperava que ela chegasse ao ponto de ser odiada pelos telespectadores?
Silva: Na medida em que o Ferraço foi se adocicando, precisei que alguém fosse piorando, e escolhi a Sílvia. Tem dois personagens nessa novela nos quais eu joguei tudo sem saber se ia funcionar ou não. Um era a Sílvia, que, se a Alinne não fosse tão maravilhosa quanto está sendo, não funcionaria. E o outro foi o Renato (Nicolas Prattes). Eu precisava daquele menino intenso e dúbio como ele é, e eu pensava: “se o ator não souber fazer isso vai ser um desastre”. Desde a estréia do Selton Mello eu não via um ator infantil tão prodigiosamente bom.

Postado por Pioneiro/clicRBS

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Comentários (1)

  • Lincoln diz: 30 de abril de 2008

    Duas Caras é uma novela mau caráter. Mentirosa e parcial em sua abordagem política, cheia de péssimos exemplos no convívio social. O movimento estudantil é mostrado de uma forma canalha. Macieira, personagem de Wilker, é um insulto a todos aqueles que se sacrificaram porque acharam que poderiam fazer do Brasil um país mais justo. Ninguém chama a polícia ao saber de um crime. Chamam o paladino do autoritarismo e da truculência, Juvenal Antena, ou resolvem por si mesmos. Lamentável.

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