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Glória Perez: a mulher por trás da autora

02 de agosto de 2009 0

Divulgação, TV Globo

Pontualmente às 17h, Gloria Perez, autora de Caminho das Índias, abre a porta de
seu apartamento, em Copacabana, no Rio, com um largo sorriso no rosto. Produzida, bem-humorada e com brilho nos olhos, a autora dos 45 pontos no Ibope, hoje a maior audiência da televisão brasileira, me mostra seu escritório. Ali é o local de trabalho (ela mora no mesmo bairro).

Gloria me convida para ir à varanda, onde a vista do Forte e, lógico, do mar azul de Copa, são deslumbrantes. Oferece um cafezinho, preparado na hora por ela mesma, e o papo flui. Gloria, do lado de dentro da cozinha, eu, do lado de fora. Ficamos separados por uma bancada, onde fica um laptop. Numa mesa de vidro, uma imensa tela de computador exibe a foto de Daniela Perez. A TV permanece ligada o tempo inteiro.

No computador portátil, Gloria Perez escreve sozinha, diariamente – e em pé – 32 páginas da trama que mostra para o Brasil uma cultura desconhecida, encantadora
e cheia de contrastes. Durante mais de uma hora de conversa, falamos de tudo um pouco. Com direito a muitas gargalhadas e pausas quase dramáticas. Essa espécie
de sacerdotisa do horário nobre me mostrou um lado seu que poucos conhecem: o da avó orgulhosa de seus netos (presentes num portaretratos) até a mulher que namora.

Esperava encontrar a escritora de folhetins vitoriosos passando por mais uma dificuldade em sua vida. Afinal, Glória faz quimioterapia para combater um linfoma, já retirado da tireoide. Me surpreendi, porém, ao ver uma mulher cheia de vida e disposição, que coloca as pernas em cima da mesa, tamanha a descontração.

O tema Índia
- Estive com a Globo lá em Cannes, na França, durante a MIPCOM (feira internacional onde TVs do mundo todo apresentam seus produtos) e houve uma festa indiana. Quando vi aquelas mesas, aquelas roupas, fiquei encantada com a mistura que tinha ali na minha frente, do milenar com o futuro. Então, pensei: ‘Tenho que falar disso’.

Namoro, sim!
- Lógico que eu namoro! No momento, estou só. Você acha que alguém namora fazendo novela? É difícil. Não precisa interromper, mas tem que ser um romance muito firme para durar enquanto você está escrevendo um folhetim, porque tem que acertar o relógio pela sua rotina. E não é nada fácil.

Vaidade
- Senti que as pessoas valorizam muito essa coisa da queda do cabelo, eu não valorizei. Tenho três perucas, de tons diferentes. Uma mais curta, uma média
e uma longa, na qual faço rabo de cavalo e tudo.

TV e cinema
- A TV, a novela brasileira, fizeram a crônica da vida brasileira, o que o cinema não fez. Se você pegar uma novela da década de 1970, vai ver exatamente
como era o Brasil naquela época. Já no cinema isso não acontece. Quem retrata o
cotidiano da vida brasileira são as novelas.

Mudanças na trama
- Agora é que vou começar a escrever a novela que não estána sinopse. A sinopse acaba no momento em que Bahuan (Márcio Garcia) volta para a Índia e fica entre casar com uma mulher milionária ou tentar reconquistar o amor de Maya (Juliana Paes). O  meu jeito de escrever não é nada previsível. Não sou daquelas pessoas que sabem exatamente o que vai acontecer. Gosto muito de me surpreender,
acabar um capítulo e eu mesma não saber como vou resolver aquilo, porque é
um jogo comigo mesma, me diverto com tudo isso.

Yvone, a psicopata
- Quando criei Yvone (Letícia Sabatella), queria mostrar uma psicopata não assassina, porque essa personagem ninguém mostrou ainda. Os psicopatas estão aí. Como diz a Ana Beatriz Barbosa (autora do livro Mentes Perigosas), o perigo mora ao lado.

Guilherme de Pádua
- Não pensei em Guilherme de Pádua quando criei a Yvone. Ele é um psicopata
assassino, armou a mão da mulher, planejou, emboscou e assassinou minha filha porque não apareceu em dois capítulos e achou que estava saindo da novela. Só um psicopata faz isso e depois fala disso da maneira que um psicopata fala: com trivialidade. Para um psicopata, as outras pessoas são apenas um meio para conseguir um objetivo. Guilherme de Pádua e Paula Thomaz (hoje, Paula Nogueira Peixoto) mataram, deram pêsames à família e foram dormir tranquilamente.
A polícia acordou os dois. São coisas que só psicopatas fazem, só alguém completamente desvinculado de sentimentos, de empatia com outro ser humano, é capaz de fazer.

O fim de Caminho das Índias

- Esperem por grandes emoções. Posso adiantar que Duda (Tania Khalill) não vai morrer no parto, como estão espalhando. A família de Opash (Tony Ramos) não vai ficar na miséria, nem Zeca (Duda Nagle) vai ficar paralítico. Imagina, também disseram que Raul (Alexandre Borges) vai matar Yvone. Isso não existe.

Quimioterapia
- Já fiz três das seis sessões de quimio que eu preciso fazer. A ideia que eu tinha da quimio era muito negativa, de uma coisa assustadora, dolorosa. Mas é igual a ler uma bula de remédio. Quando você vê os efeitos colaterais do remédio, já se imagina sentindo todos eles. Não é bem assim.

Prazo de validade
- Não é que você passe a ver a vida de outra maneira, mas essas coisas sempre lembram que temos prazo de validade. Às vezes, a gente esquece disso e é bom ficar alerta. Sempre dei muito valor às pequenas coisas, mas passei a dar um pouco mais, a me preocupar com os que vêm depois de mim. Sempre convivi muito com essa ideia de que a gente tem prazo de validade, sempre.

Postado por TV + Show, Zero Hora

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