Texto: Paulo Germano | Fotos e vídeo: Bruno Alencastro
Não foi fácil responder “claro, pode deixar” depois que seu Aílton pediu:
– Por favor, apareçam de novo.
A gente nunca mais apareceria. Seu Aílton, como contamos na reportagem de 15 de janeiro, chega a passar dois meses sem ver ninguém: mora sozinho, sem telefone, sem celular, sem TV, sem internet, isolado em uma imensa praia deserta no extremo sul do litoral gaúcho. Portanto, fica feliz quando consegue conversar.
Não foi por mal que mentimos. Na hora, eu e o fotógrafo Bruno Alencastro, meu companheiro nesses 44 dias de viagem, preferimos responder qualquer coisa minimamente alentadora – e garantir um sorriso naquele rosto acabrunhado – a dizer a verdade, que seria:
– É provável que esta seja a última vez que nos vemos. Porque chegar à sua casa é dificílimo.

Dificílimo. Mais tarde, entrevistaríamos pessoas que nos fariam repensar o conceito de dificílimo. Célio, por exemplo: um rapaz de 20 anos que se dizia feliz por conseguir carregar, para onde fosse, as traves da goleira. Quando queria jogar futebol, ele abria dois buracos nas areias de Arroio do Sal, cravava suas muletas neles, postava-se de joelhos entre as “traves” e pedia aos amigos que chutassem a gol.
Precisava defender de joelhos porque, da canela para baixo, nasceu sem os movimentos.
Visitar seu Aílton, bem, talvez não fosse tão difícil como jogar bola sem a metade das pernas. Nem tão difícil como abandonar uma cobertura de 220 metros quadrados, em Porto Alegre, para viver em uma casinha de madeira na Praia da Gamboa, em Garopaba, como fez o advogado Telmo – que deixou de ser advogado, embora fosse muito bem-sucedido, porque aos 43 anos se irritou com suas próprias metas. Após abrir um bar na casa nova, Telmo tornou-se um exemplo vivo de que é possível, sim, não se conformar com a vida como ela está.

Todo mundo volta diferente de uma viagem. Aliás, esse é o objetivo de uma viagem. Você conhece novos lugares, novas pessoas, novas visões de mundo e, a partir daí, cresce culturalmente ou emocionalmente ou profissionalmente. E nem sempre são lugares belíssimos que lhe proporcionam isso. Um acampamento, por exemplo, não tem nada de belíssimo – e confesso que sempre achei o inferno na Terra esse negócio de acampar. Até conhecer Graveto.
Trata-se de um homem que há dois anos mora no meio do mato, acampado na Lagoinha do Leste, em Florianópolis. Começou a chover violentamente enquanto o entrevistávamos, e a única forma de retornarmos à cidade era enfrentando uma trilha de quatro quilômetros, em uma montanha crivada de pedras resvalantes, de onde a água escorria feito cachoeira. Graveto nos ofereceu barracas, colchonetes, cobertores, comida e roupa limpa para dormirmos ali. Mas precisávamos enviar nosso material para Porto Alegre, então agradecemos a hospitalidade e decidimos ir, mesmo com chuva.

Graveto, que vive com muito pouco, recorreu ao que tinha para isolar da água os equipamentos do Bruno, nosso fotógrafo. Juntou todas as sacolas do acampamento – que certamente lhe fariam falta – e passou 25 minutos embrulhando, com dedicação e zelo comoventes, a câmera e cada uma das lentes. No final, acomodou tudo em um mochilão marrom:
– Deixem a mochila naquele mercadinho do bairro, que eu pego amanhã.
Caímos tombos inesquecíveis no caminho de volta. Era uma trilha difícil – mas não dificílima, porque nesses 44 dias de viagem, conhecendo 44 praias diferentes, percorrendo 5,3 mil quilômetros de caminhonete, aprendemos que dificílimo é outra coisa. Aliás, no verão que vem, prometo visitar seu Aílton, ele vai gostar de bater um papo. E nem é tão difícil chegar à casa dele.





Também há chuveiro por ali, porque Graveto encontrou um olho d’água no morro, meteu um cano terra abaixo e acomodou uma ducha sob as árvores. Portanto, ninguém precisa banhar-se apenas no mar ou na lagoa – aliás, por isso a praia se chama Lagoinha, graças a uma lagoa em formato de S que completa o cenário edênico à beira do Atlântico.


























