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Houve uma vez um verão...

08 de fevereiro de 2013 7

Texto: Paulo Germano | Fotos e vídeo: Bruno Alencastro

Não foi fácil responder “claro, pode deixar” depois que seu Aílton pediu:

– Por favor, apareçam de novo.

A gente nunca mais apareceria. Seu Aílton, como contamos na reportagem de 15 de janeiro, chega a passar dois meses sem ver ninguém: mora sozinho, sem telefone, sem celular, sem TV, sem internet, isolado em uma imensa praia deserta no extremo sul do litoral gaúcho. Portanto, fica feliz quando consegue conversar.

Não foi por mal que mentimos. Na hora, eu e o fotógrafo Bruno Alencastro, meu companheiro nesses 44 dias de viagem, preferimos responder qualquer coisa minimamente alentadora – e garantir um sorriso naquele rosto acabrunhado – a dizer a verdade, que seria:

– É provável que esta seja a última vez que nos vemos. Porque chegar à sua casa é dificílimo.

Dificílimo. Mais tarde, entrevistaríamos pessoas que nos fariam repensar o conceito de dificílimo. Célio, por exemplo: um rapaz de 20 anos que se dizia feliz por conseguir carregar, para onde fosse, as traves da goleira. Quando queria jogar futebol, ele abria dois buracos nas areias de Arroio do Sal, cravava suas muletas neles, postava-se de joelhos entre as “traves” e pedia aos amigos que chutassem a gol. Precisava defender de joelhos porque, da canela para baixo, nasceu sem os movimentos.

Visitar seu Aílton, bem, talvez não fosse tão difícil como jogar bola sem a metade das pernas. Nem tão difícil como abandonar uma cobertura de 220 metros quadrados, em Porto Alegre, para viver em uma casinha de madeira na Praia da Gamboa, em Garopaba, como fez o advogado Telmo – que deixou de ser advogado, embora fosse muito bem-sucedido, porque aos 43 anos se irritou com suas próprias metas. Após abrir um bar na casa nova, Telmo tornou-se um exemplo vivo de que é possível, sim, não se conformar com a vida como ela está.

Todo mundo volta diferente de uma viagem. Aliás, esse é o objetivo de uma viagem. Você conhece novos lugares, novas pessoas, novas visões de mundo e, a partir daí, cresce culturalmente ou emocionalmente ou profissionalmente. E nem sempre são lugares belíssimos que lhe proporcionam isso. Um acampamento, por exemplo, não tem nada de belíssimo – e confesso que sempre achei o inferno na Terra esse negócio de acampar. Até conhecer Graveto.

Trata-se de um homem que há dois anos mora no meio do mato, acampado na Lagoinha do Leste, em Florianópolis. Começou a chover violentamente enquanto o entrevistávamos, e a única forma de retornarmos à cidade era enfrentando uma trilha de quatro quilômetros, em uma montanha crivada de pedras resvalantes, de onde a água escorria feito cachoeira. Graveto nos ofereceu barracas, colchonetes, cobertores, comida e roupa limpa para dormirmos ali. Mas precisávamos enviar nosso material para Porto Alegre, então agradecemos a hospitalidade e decidimos ir, mesmo com chuva.

Graveto, que vive com muito pouco, recorreu ao que tinha para isolar da água os equipamentos do Bruno, nosso fotógrafo. Juntou todas as sacolas do acampamento – que certamente lhe fariam falta – e passou 25 minutos embrulhando, com dedicação e zelo comoventes, a câmera e cada uma das lentes. No final, acomodou tudo em um mochilão marrom:

– Deixem a mochila naquele mercadinho do bairro, que eu pego amanhã.

Caímos tombos inesquecíveis no caminho de volta. Era uma trilha difícil – mas não dificílima, porque nesses 44 dias de viagem, conhecendo 44 praias diferentes, percorrendo 5,3 mil quilômetros de caminhonete, aprendemos que dificílimo é outra coisa. Aliás, no verão que vem, prometo visitar seu Aílton, ele vai gostar de bater um papo. E nem é tão difícil chegar à casa dele.

VÍDEO: nossos melhores momentos

08 de fevereiro de 2013 0

Texto: Paulo Germano | Vídeo: Bruno Alencastro

Bueno, depois de 44 dias de viagem, 44 praias visitadas, 5,3 mil quilômetros percorridos, 500 fotos publicadas e 60 posts escritos, encerramos hoje a expedição Verão Off Road. Ainda estamos preparando um texto mais coxudo sobre  as impressões da viagem, mas por enquanto clique aqui para assistir ao vídeo (belíssimo, modéstia à parte) que resume nossos melhores momentos.

Abraços e muito obrigado!

E começa a retrospectiva...

07 de fevereiro de 2013 5

Difícil dar essa notícia, mas sejamos diretos: nossa viagem termina amanhã. Não chorem, senão choraremos também.

Ainda estamos refletindo sobre o texto de encerramento que postaremos aqui, mas por enquanto queremos relembrar com vocês seis vídeos que, na nossa opinião, se destacaram nesses 44 dias de estrada. Por favor, assistam e digam qual foi o melhor.

Nossa ideia é mostrar para os nossos filhos: “Vejam, os leitores escolheram este aqui!” Faremos isso assim que tivermos filhos (não teremos filhos juntos, obviamente: cada um terá os seus, não custa esclarecer). Obrigado, pessoal!

Nossa equipe aposta em um cassino de Punta del Este. E se dá mal:

No Uruguai, Piriápolis tem fantasmas, lendas... e os testículos do touro:

A praia de nudismo uruguaia. E seu exemplo para outros balneários:

150 quilômetros intocados pelo homem. E a solidão de seu Aílton:

O veraneio de antigamente em Bujuru. E a vendinha que nunca vende:

A Praia dos Naufragados, em Florianópolis. E sua beleza inabitada:

Em casa. E no meio do mato

06 de fevereiro de 2013 47

Texto: Paulo Germano | Fotos: Bruno Alencastro

Graveto é o anfitrião do mato. Não seria exagero dizer que é o melhor anfitrião do mundo.

As pessoas vivem o diabo para acampar na Lagoinha do Leste, uma praia exuberante de acesso dificílimo escondida atrás das montanhas, no sul de Florianópolis. Não há nada na Lagoinha além da natureza em seu estado mais bruto – e além de Graveto, um ex-soldado do Exército que vigiava as fronteiras do Brasil na Amazônia e que, há dois anos, decidiu morar ali. Sozinho. Dentro de uma barraca.

O acampamento dele, claro, é um luxo se comparado às gambiarras dos aventureiros de feriadão. Por isso, as pessoas vibram quando Graveto aceita recebê-las – e ele topa sempre receber qualquer um. Seu maior prazer é justamente esse.

– Sempre gostei do mato, por isso me instalei aqui, na encosta de uma montanha. E aqui me sinto útil, aqui posso ajudar muita gente – afirma Guilherme Petry, 53 anos, magro e com a pele curtida feito um graveto.

Na semana passada, três estudantes argentinas passavam maus bocados acampadas na Lagoinha. Depois de uma chuvarada, as barracas inundaram, as roupas se encharcaram, a comida minguou – e comprar mais comida era impossível, porque a única maneira de chegar à cidade é caminhando pelas montanhas, em uma trilha de 50 minutos que ficara intransitável com tanta chuva.

Gabriela de Uribe, Lucía Chappel e Rocio Caputo, todas de 18 anos, todas de aparência frágil e delicada, foram pedir socorro no acampamento de Graveto, onde uma festinha com feijoada e violão avançava à revelia do mau tempo. É que o homem já tinha hóspedes: um casal de mochileiros também argentinos, um grupo de gaúchos e um rapaz de Florianópolis. Todos haviam montado suas barracas como se fossem puxadinhos do anfitrião.

Quando as três garotas chegaram, ganharam café e cobertores para se aquecer. Graveto sempre tem cobertores, tendas, colchões, comida e bebida sobrando com o único propósito de ajudar viajantes em apuros. Enquanto agradecia, Lucía contava que o trio chegara à Lagoinha após 14 caronas desde Buenos Aires:

– Nossa ideia era conhecer realmente o mundo. Pode ser mais difícil do que viajar de maneira confortável, mas é muito mais bonito. E mais real.

Então, as três acabaram instaladas ali, nas imediações de Graveto. Afinal, a “casa” do ex-soldado é relativamente grande: um teto e quatro paredes de lona preta abrigam uma barraca (o quarto dele), uma cozinha com fogão à lenha, prateleiras de madeira, além de uma sala com luminárias – que, na verdade, são garrafões de plástico com velas dentro (foto abaixo). O piso, claro, é a areia da praia.

Também há chuveiro por ali, porque Graveto encontrou um olho d’água no morro, meteu um cano terra abaixo e acomodou uma ducha sob as árvores. Portanto, ninguém precisa banhar-se apenas no mar ou na lagoa – aliás, por isso a praia se chama Lagoinha, graças a uma lagoa em formato de S que completa o cenário edênico à beira do Atlântico.

Banheiro, bom, aí é no mato mesmo. O fato é que Graveto gasta toda sua aposentadoria apenas em comida e algumas tralhas para viver com o mínimo de conforto – e para oferecer conforto a quem lhe aparece. No inverno, quando ninguém se arrisca a acampar naquele fim de mundo, resta a companhia dos seus quatro gatos.

– Bato um papo com os gatinhos e, honestamente, não troco essa vida por nada. Os gatos me protegem de tudo quanto é rato e cobra. O que mais eu posso querer? – questiona o anfitrião do mato.

A vida no Matadeiro

05 de fevereiro de 2013 13

Texto: Paulo Germano | Fotos: Bruno Alencastro

Muitos dizem que a Praia do Matadeiro, no sul da Ilha, é a mais espetacular de Florianópolis. De fato, o negócio é um desbunde – aquele azul intenso do mar lambendo as pedras, escoltado por uma cadeia de montanhas verdes, derruba o queixo de qualquer um.

Ninguém pode chegar de carro ao Matadeiro. Só a pé. Ou de barco. Esse nome, Matadeiro, bom, não carrega a história mais linda do mundo. É que os antigos caçadores de baleias capturavam os animais na praia ao lado, a Armação – nomeada assim devido à estrutura que era instalada na orla para caçar os mamíferos. Depois, as baleias eram mortas ali. Por isso, Matadeiro.

O bar e o mar

04 de fevereiro de 2013 52

Texto: Paulo Germano | Fotos: Bruno Alencastro

De saco cheio, era como Telmo se sentia. Cansado de tudo, meio deprimido.

Advogado de respeito, vivia de terno e gravata, tinha uma coleção de relógios e morava em uma cobertura de 220 metros quadrados em Porto Alegre. Achava sua vida um porre – a crise da meia idade se abatera sobre ele. Decidiu morar em uma casa de madeira, de frente para o mar, 19 metros quadrados na encosta de um morro na Praia da Gamboa, em Garopaba, sul de Santa Catarina. Vendeu o apê. Largou o trabalho.

Em sua primeira noite na casa nova, tirou do pulso o relógio que usava – e nunca mais tornaria a colocá-lo, até porque todos os seus 15 relógios acabariam destruídos pela maresia. Não queria saber de horário para acordar, nem para almoçar, tampouco lhe interessavam os carrões que comprava todo ano, só queria paz, descanso, natureza, nada de escritório nem rotina nem compromissos.

– Eu só pensava no meu pai. Ele trabalhou a vida inteira sem parar e, quando enfim conquistou um bom patrimônio, não tinha condições físicas de aproveitá-lo – recorda hoje, aos 65 anos, o ex-advogado Telmo Soares Martins, que desde os 43 vive na Gamboa.

Ele lembra do dinheiro se esgotando – depois de cinco anos morando na praia, viu-se obrigado a pensar em uma fonte de renda. O que poderia fazer? O que poderia dar certo naquela casa de madeira, isolada no alto de um morro, rodeada pelo verde da mata, de frente para um mar cristalino, em uma praia tão pequena, mas tão cheia de jovens, tão cheia de charme, tão cheia de pessoas que, como o próprio Telmo, só buscavam lazer?

Um bar.

Ou uma boate. Ou ambos.

Telmo já havia anexado um pavimento sobre a casa, também já tinha espichado a área da sala. Fã de rock’n’roll, amante da vida noturna – “sempre sofri para trabalhar cedo” –, instalou luzes coloridas, um globo espelhado, faixas de pano em frente à varanda e, lá de baixo, na beira da praia, quem olhava para o morro pensava (e talvez ainda pense):

– É cabaré.

Não era.

– Fumam maconha.

Telmo nega.

Com o nome D’Tudo 1 Pouco, o local virou ponto de encontro para moderninhos do litoral. E o nome do bar faz sentido porque, quase todo dia, nativos e pescadores se juntam à turma para tomar um trago, às vezes seguido de dança – pode ser no embalo do rock, do pop, até do sertanejo, e os públicos vão se emaranhando feito cipós em meio àquele mato com vista para o Atlântico.

Não dá para ganhar muito dinheiro, Telmo admite, mas diz que é fácil viver com pouco na Gamboa. Recorda dos tempos de advogado, quando comprava sacolas de roupa e nunca usava tudo. Tinha uma coleção de canetas que, no frigir dos ovos, não servia para nada.

– Naquela época, segui o rumo que a vida me apresentou, mesmo que nem fosse meu rumo preferido. Mas deu tempo de fazer uma nova escolha. Meu lugar é aqui. Porque aqui, bom, aqui eu tenho tudo – conclui ele.

» Leia também: a história do artista plástico que chegou a ver o diabo, mas encontrou a paz na Gamboa.

O diabo ficou na cidade

04 de fevereiro de 2013 7

Texto: Paulo Germano | Fotos: Bruno Alencastro

Henrique surtou, teve um troço.

Olhou para o médico segurando aquela injeção e, depressivo que estava, sem dormir durante dias, mergulhado em problemas financeiros, afetivos e familiares, enxergou o demônio – o diabo em pessoa, com chifres e rabo. O horror, aquele médico. Henrique disparou consultório afora, gritando e descendo 17 andares de escada, alcançou as ruas de São Paulo, cortou a frente dos carros, correu e correu e correu até desabar em casa.

A situação de Henrique Schucmann, artista plástico de Erechim radicado na capital paulista, era preocupante antes de conhecer a Praia da Gamboa, em Garopaba. Tratava-se de um caso extremo de metanoia – a clássica crise da meia idade que também alvejou o advogado Telmo, retratado no post acima. Henrique tinha 48 anos (hoje tem 62) e, depois de ver o capeta, passou oito meses catatônico em frente à TV. A coisa era séria.

Pois um dia uma colega de tapeçaria resolveu levá-lo à Gamboa: tinha casa de veraneio, queria animar o amigo deprê. Para piorar – mas em seguida falaremos de coisas boas, fique tranquilo –, o pai dele recém havia morrido. Deixou-lhe uma herança. Apaixonado pela praia que recém conhecera, Henrique decidiu gastar a grana inteira em 10 terrenos por ali. Sua vida mudaria para sempre.

– Montei uma casinha de madeira com dois quartos. Um ano depois, recebi meus filhos e uns 10 amigos. E um conhecido meu, publicitário, achou que eu estava construindo um albergue.

O tal publicitário morava nos Estados Unidos. Queria voltar ao Brasil e, para ganhar mercado, precisava desenvolver seu primeiro site em português. Convenceu Henrique a fazer um novo pavimento e acomodar 23 camas em cinco quartinhos, tudo meio improvisado – mas também divertido, excitante, havia um novo sentido na vida de um ex-deprimido. Já na primeira temporada, o Pouso do Tapeceiro lotou.

Algum dinheiro foi entrando, Henrique voltou a lecionar tapeçaria, instalou seu ateliê ali dentro, nunca mais deixou a Gamboa, investiu bastante na pousada – e agora são 40 vagas em quatro sobrados rústicos erguidos no jardim. Mais um que abandonou a cidade, como o advogado Telmo.

– Estou desenhando uma camiseta que vai dizer: “Gamboa, surto coletivo de mudança de vida” – anuncia Henrique.

Não há como evitar...

03 de fevereiro de 2013 27

Texto: Paulo Germano | Fotos: Bruno Alencastro

Estamos a uma semana do final da viagem e, você sabe, não abusamos da ostentação de corpos por aqui. Já mostramos famílias, pescadores, ermitões, paisagens, lendas, curiosidadescasarões, estaleiros e, bom, também mostramos nudistas – mas não seríamos loucos de ostentar seus dotes físicos.

A questão é que agora estamos em Jurerê Internacional. E não há como ignorar o espetáculo feminino em Jurerê Internacional. Ok, alguma leitora dirá que também há homens belíssimos circulando pela praia, então sugerimos a ela que clique neste link. Mas que, por favor, nos deixe apreciar a beleza de Jurerê Internacional...

O que viram os náufragos

01 de fevereiro de 2013 6

Texto: Paulo Germano | Foto: Bruno Alencastro

No extremo sul da ilha de Florianópolis, escondida entre duas penínsulas, a Praia dos Naufragados é um destino para poucos. Ou você enfrenta 40 minutos de caminhada no meio da mata, ou paga R$ 10 para um nativo levá-lo de barco.

No vídeo abaixo, conheça a praia mais meridional de Floripa.

Um giro completo na Praia da Armação

01 de fevereiro de 2013 0

Texto: Paulo Germano | Foto em 360°: Bruno Alencastro

Quando leitores como a Luana Ciecelski, o Roberto Hahn e a Marisa Oliveira afirmam sentir-se transportados para a praia enquanto leem nosso blog, o Bruno corre para fazer outra foto em 360°.

Porque, não sei se vocês concordam, são raros os recursos mais eficientes para transportar um leitor para qualquer local do que esse. Clique na imagem abaixo e passeie pela Praia da Armação, no sul de Florianópolis.