Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Ao vivo: Obama e Merkel fazem pronunciamento sobre Ucrânia

09 de fevereiro de 2015 0

Assista a transmissão ao vivo do pronunciamento do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e da chanceler alemã, Angela Merkel, sobre as negociações de cessar-fogo na Ucrânia:

Obama, Michelle e Biden tuítam fotos da infância

30 de janeiro de 2015 0

O presidente americano, Barack Obama, a primeira-dama, Michelle Obama, e o vice, Joe Biden, tuitaram na noite de ontem fotos da infância e da juventude. O objetivo é incentivar os americanos a se cadastrar no plano federal de saúde, apelidado de Obamacare.

 

As fotos de Obama e Biden foram acompanhadas da frase “Não somos jovens e invencíveis para sempre” e da hashtag #TBT (Throwback Thursday, ou Quinta-feira de Mergulho no Passado), costume dos usuários do microblog de fazerem postagens relacionadas à infância e adolescência.

 

Os tuítes de Obama e Biden:

O de Michelle (#TBT para ser uma jovem invencível. Mas agora é hora de permanecer com saúde e ter cobertura”):

Fidel: "Não confio nos EUA, sem que isso signifique um rechaço a uma solução pacífica"

27 de janeiro de 2015 0
Fidel em sua última aparição pública, em 8 de janeiro de 2014 (reprodução/ZH)

Fidel em sua última aparição pública, em 8 de janeiro de 2014 (reprodução/ZH)

 

Na primeira manifestação sobre a reaproximação entre Cuba e Estados Unidos, anunciada em 17 de dezembro, o líder histórico da Revolução Cubana, Fidel Castro, dirigiu ontem uma carta aos estudantes da Universidade de Havana.

A carta foi lida pelo presidente da Federação Estudantil Universitária, Randy Perdomo, em cerimônia transmitida pela TV estatal.

A seguir, a íntegra do texto:

“Caros companheiros:

Desde o ano de 2006, por questões de saúde incompatíveis com o tempo e o esforço necessário para cumprir um dever – que me impus a mim mesmo quando ingressei nesta universidade em 4 de setembro de 1945, há 70 anos –, renunciei a meus cargos.

Não era filho de operário, nem carente de recursos materiais e sociais para uma existência relativamente cômoda; mas dizer que escapei milagrosamente da riqueza. Muitos anos depois, o norte-americano mais rico e sem dúvida muito capaz, com quase 100 bilhões de dólares, declarou – segundo publicou uma agência de notícias em 22 de janeiro passado – que o sistema de produção e distribuição privilegiada das riquezas converteria de geração em geração os pobres em ricos.

Desde os tempos da antiga Grécia, durante quase 3 mil anos, os gregos, sem ir mais longe, foram brilhantes em quase todas as atividades: física, matemática, filosofia, arquitetura, arte, ciência, política, astronomia e outros ramos do conhecimento humano. A Grécia, todavia, era um território de escravos que realizavam os mais duros trabalhos em campos e cidades, enquanto uma oligarquia se dedicava a escrever e filosofar. A primeira utopia foi escrita precisamente por eles.

Observem bem as realidades deste conhecido, globalizado e muito mal repartido planeta Terra, onde se conhece cada recurso vital depositado em virtude de fatores históricos: alguns com muito menos do que necessitam; outros, com tantos que não há o que fazer com eles. Em meio agora a grandes ameaças e perigos de guerras reina o caos na distribuição dos recursos financeiros e a divisão da produção social. A população do mundo cresceu, entre os anos 1800 e 2015, de 1 bilhão a 7 bilhões de habitantes. Poderão resolver-se desta forma o incremento da população nos próximos cem anos e as necessidades de alimento, saúde, água e moradia que terá a população mundial quaisquer que sejam os avanços da ciência?

Bem, mas deixando de lado estes enigmáticos problemas, é admirável pensar que a Universidade de Havana, nos dias em que ingressei nesta querida e prestigiosa instituição, há quase três quartos de século, era a única que havia em Cuba.

Quando vocês me convidaram a participar no lançamento da jornada pelo 70º aniversário de meu ingresso na universidade, o que soube com surpresa, e nestes dias muito atarefados por diversos temas nos que talvez possa ser entretanto relativamente útil, decidi descansar dedicando algumas horas à lembrança daqueles anos.

Me impressiona descobrir que se passaram 70 anos. Na realidade, companheiros e companheiras, se me matriculasse de novo nessa idade como alguns me perguntam, responderia sem vacilar que seria numa carreira científica. Ao me formar, diria como Guayasamín (1): deixem-me uma luzinha acesa.

Naqueles anos, influenciado já por Marx, consegui compreender mais e melhor o estranho e complexo mundo em que a todos nos correspondeu viver. Pude prescindir das ilusões burguesas, cujos tentáculos conseguiram enredar muitos estudantes quando menos experiência e mais ardor possuíam. O tema seria largo e interminável.

Outro gênio da ação revolucionária, fundador do Partido Comunista, foi Lenin. Por isso não vacilei um segundo quando no julgamento de Moncada, na audiência que me permitiram assistir, ainda que uma só vez, declarei ante juízes e dezenas de altos oficiais batistianos que éramos leitores de Lenin.

De Mao Tsé-tung não falamos porque ainda não havia concluído a Revolução Socialista na China, inspirada em idênticos propósitos.

Aviso, entretanto, que as ideias revolucionárias hão de estar sempre em guarda à medida que a humanidade multiplique seus conhecimentos.

A natureza nos ensina que podem haver transcorrido dezenas de bilhões de anos luz e a vida em qualquer de suas manifestações está sempre sujeita às mais incríveis combinações de matéria e radiações.

A saudação pessoal dos presidentes de Cuba (2) e dos Estados Unidos se produziu no funeral de Nelson Mandela, insigne e exemplar combatente contra o apartheid, que tinha amizade com Obama.

Basta assinalar que já nessa data haviam transcorrido vários anos desde que as tropas cubanas derrotaram de forma aplastante o exército racista da África do Sul, dirigido por uma burguesia rica e com enormes recursos econômicos. É a história de uma luta que está por ser escrita. A África do Sul, o governo com mais recursos financeiros desse continente, possuía armas nucleares fornecidas pelo Estado racista de Israel, em virtude de um acordo entre esse e o presidente Ronald Reagan, que o autorizou a entregar os dispositivos para o uso de tais armas com as quais golpear as forças cubanas e angolanas que defendiam a República Popular de Angola contra a ocupação desse país pelos racistas. Desse modo se excluía toda negociação de paz enquanto Angola era atacada pelas forças do apartheid com o exército mais treinado e equipado do continente africano.

Nessa situação não havia possibilidade alguma de uma solução pacífica. Os incessantes esforços para liquidar a República Popular de Angola para sangrá-la sistematicamente com o poder daquele bem treinado e equipado exército, foi o que determinou a decisão cubana de assestar um golpe contundente contra os racistas em Cuito Cuanavale, antiga base da Otan, que a África do Sul tratava de ocupar a todo custo.

Aquele prepotente país foi obrigado a negociar um acordo de paz que pôs fim à ocupação militar de Angola e o fim do apartheid na África.

O continente africano ficou livre de armas nucleares. Cuba teve que enfrentar, pela segunda vez, o risco de um ataque nuclear.

As tropas internacionalistas cubanas se retiraram com honra da África. Sobreveio então o Período Especial em tempo de paz, que já durou mais de 20 anos sem levantar bandeira branca, algo que não fizemos nem faremos jamais.

Muitos amigos de Cuba conhecem a exemplar conduta de nosso povo, e a eles explico minha posição essencial em breves palavras.

Não confio na política dos Estados Unidos nem troquei uma palavra com eles, sem que isso signifique, nem muito menos, um rechaço a uma solução pacífica dos conflitos ou perigos de guerra. Defender a paz é um dever de todos. Qualquer solução pacífica e negociada dos problemas entre os Estados Unidos e os povos ou qualquer povo da América Latina, que não implique a força ou o emprego da força, deverá ser tratada de acordo com os princípios e normas internacionais. Defenderemos sempre a cooperação e a amizade com todos os povos do mundo e entre eles os de nossos adversários políticos. É o que estamos reclamando para todos.

O presidente de Cuba deu os passos pertinentes de acordo com suas prerrogativas e as faculdades que lhe concedem a Assembleia Nacional e o Partido Comunista de Cuba.

Os graves perigos que ameaçam hoje a humanidade teriam que ceder passagem a normas que fossem compatíveis com a dignidade humana. De tais direitos não está excluído nenhum país.

Com este espírito lutei e continuarei lutando até o último alento.”

 

 Oswaldo Guayasamín (1919 – 1999), pintor equatoriano, entusiasta da Revolução Cubana e amigo de Fidel Castro. Ao morrer, disse a seus familiares que “deixassem uma luzinha acesa” porque sempre voltaria.

2 Raúl Castro Ruz (1931), presidente de Cuba e irmão de Fidel Castro.

Soledad Villamil sobre morte de Nisman: "Estamos despertando com dor para uma terrível realidade"

26 de janeiro de 2015 0
Soledad Villamil: "Os argentinos estamos despertando com dor para uma terrível realidade"

Soledad Villamil: “Como toda situação trágica, (a morte de Nisman) está nos dando a possibilidade de lançar luz sobre assuntos obscuros que, até o momento, estavam muito alheios ao conhecimento das pessoas comuns”

 

Olhar Global confessa: além de dedicado a “análises, reportagens e conteúdo multimídia sobre a atualidade mundial”, é também, com muito orgulho, um blog fã de Soledad Villamil

O blog pediu à atriz e cantora argentina que se manifestasse sobre a crise deflagrada em seu país com a intrigante morte do procurador federal Alberto Nisman.

Abaixo, com exclusividade, a resposta de Soledad, por e-mail:

 

“Diante de tua pergunta, tenho que te dizer que não sou de nenhuma maneira uma especialista no tema, mas uma argentina a mais, que ficou comovida pelas notícias destes últimos dias.

Sem dúvida, trata-se de uma morte trágica e de grande relevância política e social para todos os argentinos. Mais além de se se tratou de um suicídio ou um assassinato, a morte de um procurador em atividade e com um caso tão importante como o que estava investigando angustia e comove a qualquer cidadão.

Por outro lado, creio que, como toda situação trágica, está nos dando a possibilidade de lançar luz sobre assuntos obscuros que, até o momento, estavam muito alheios ao conhecimento das pessoas comuns. De imediato, aparece diante de nossos olhos uma trama sinistra de cumplicidades entre os serviços secretos de inteligência, setores do Poder Judiciário e do poder político. Muitas pessoas estão ouvindo pela primeira vez sobre a existência de uma Secretaria de Inteligência com um gigantesco orçamento onde se preparam todo tipo de atos delituosos, desde escutas telefônicas, manobras de extorsão, armação de causas judiciais, infiltração em grupos sociais e sindicais e que atua com total impunidade e sem nenhum controle por parte do Estado.

Creio que os argentinos estamos despertando com dor para uma terrível realidade e nos encontramos ante a possibilidade de que esse “cripto-Estado”, como o chamou o jornalista Miguel Bonasso em seu último livro, seja desmantelado. Oxalá assim aconteça.”

Cosac Naify inicia em março reedição da obra de Mário Pedrosa

23 de janeiro de 2015 0
Mário Pedrosa com tela de Milton da Costa no Museu de Arte de São Paulo, então dirigido por ele (1961)

Mário Pedrosa com tela de Milton da Costa no Museu de Arte de São Paulo, então dirigido por ele (1961)

 

O blog Olhar Global pede licença ao respeitável público para fazer o que mais gosta: dar notícia boa.

A editora Cosac Naify iniciará em março a reedição da obra de Mário Pedrosa (1900 – 1981) em volumes temáticos.

Para março, está prevista a chegada de dois livros às prateleiras. Um deles, intitulado Arte – Ensaios, inclui textos de 1933 a 1978 e, nas palavras do editor e organizador, Lorenzo Mammi, abrange “praticamente toda a trajetória de Mário Pedrosa como crítico de arte”. O outro, organizado por Guilherme Wisnik, chama-se Arquitetura e reúne textos publicados entre 1957 e 1960. Por enquanto, estão definidos ainda dois volumes sobre política e um sobre cultura. A coleção é dirigida por Milton Ohata.

Pedrosa é um dos mais importantes intelectuais brasileiros de todos os tempos. Nascido em Timbaúba, Pernambuco, em 25 de abril de 1900, numa abastada família de senhores de engenho e proprietários de terra (seu pai foi senador e ministro do Tribunal de Contas da União), foi enviado em 1913 para estudar na Bélgica e, com o estalar da I Guerra Mundial, na Suíça. Ingressou em 1916 na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro e, a partir do início dos anos 1920, já formado mas sem exercer a advocacia, passou a colaborar com a imprensa diária carioca, atividade que manteria até o final de sua longa vida.

Filiado ao Partido Comunista pouco depois de sua fundação, Pedrosa foi um dos responsáveis pela introdução das teses da Oposição de Esquerda no Brasil. Isso lhe custou a expulsão das fileiras comunistas, sob a acusação de trotskismo, que, para ele, era motivo de orgulho. O núcleo trotskista organizado por ele e por companheiros como Lívio Xavier e Aristides Lobo, entre outros, chegou a estabelecer diálogo político com Luiz Carlos Prestes, então exilado em Buenos Aires, quando o Cavaleiro da Esperança ainda era hostilizado pelo PCB – alguns atribuem a Lobo a redação do Manifesto da Liga de Ação Revolucionária, de julho de 1930, apoiado por Prestes, no qual o ex-chefe da Coluna rejeita a participação no movimento então gestado por Getúlio Vargas e Osvaldo Aranha. Na década seguinte, Pedrosa seria o único latino-americano a participar da Conferência de Fundação da IV Internacional, em 1938, nos arredores de Paris. Quase octogenário, o velho intelectual assinou a primeira ficha de filiação ao Partido dos Trabalhadores, ao lado de Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido.

Pedrosa é, para muitos, o patriarca da crítica de arte no Brasil. Sua primeira conferência sobre o tema, dedicado à obra da alemã Käthe Kollwitz, com a qual travara contato em Berlim, é de 1933. Foi o primeiro entusiasta de Cândido Portinari, dos muralistas mexicanos e de Alexander Calder no Brasil nos anos 1930 e 1940, da arquitetura moderna de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa nos anos 1950 e em seguida da nova abordagem da forma por jovens como Abraham Palatnik, Lygia Clark e Hélio Oiticica nos anos 1960. Sua obra crítica, dissociada tanto da academia quanto do mercado editorial tradicional, circulou quase inteiramente em jornais e revistas. Foi como crítico em jornais como Diário da Noite, Correio da Manhã e Tribuna da Imprensa que Pedrosa estabeleceu as bases de seu pensamento.

Menos conhecido e estudado é o Mário Pedrosa pensador do Brasil. Seus livros A Opção Brasileira e A Opção Imperialista, publicados em 1966, marcam um esforço de reflexão sobre a inserção do país no cenário latino-americano e mundial que se distancia tanto dos esquemas que apontavam a existência de “restos feudais” na sociedade brasileira como da escola da dependência que começava a se aglutinar em torno de Ruy Mauro Marini e Theotônio dos Santos.

Não há maior exemplo da falta de zelo do Brasil com sua própria história do que a virtual ausência de Mário Pedrosa do debate público dos últimos 35 anos – há exceções que, como sempre, pouco mais fazem além de confirmar a regra. Um único logradouro – uma rua de Campo Grande, Rio de Janeiro – homenageia sua memória.

Agora, a reedição de suas obras pela Cosac Naify pode ser a faísca que faltava para aproximá-lo dos que começam a despertar para a reflexão sobre o Brasil – e que são, como sempre, os que ele, se aqui estivesse, julgaria mais interessantes.

Cristina sobre Nisman: "Suicídio (que estou convencida) não foi suicídio"

22 de janeiro de 2015 2

cristi

 

 

Em carta publicada nesta quinta-feira em seu blog, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, afirmou a respeito da morte do promotor Alberto Nisman: “Suicídio (que estou convencida) não foi suicídio”.

 

Leia mais: uma intrincada investigação na Argentina

 

A afirmação da presidente contraria manifestações anteriores de integrantes de seu governo e já repercute nas redes sociais.

 

Leia a denúncia do promotor Nisman contra Cristina Kirchner

21 de janeiro de 2015 1

A Corte Suprema da Argentina publicou ontem a denúncia do promotor Alberto Nisman contra a presidente Cristina Kirchner e colaboradores por suposto acobertamento de envolvidos no atentado contra a sede da Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), em 1994. Leia abaixo a íntegra da denúncia (em espanhol):

Esta es la denuncia completa de Nisman contra Cristina, Timerman, Larroque, D'Elía y Esteche

Suleiman Mourad: as duas metades do Islã

17 de janeiro de 2015 0
11093247-Suleiman_Mo

Mourad: decisiva para a compreensão do mundo islâmico atual, a divisão entre xiitas e sunitas só começou a se delimitar plenamente dois séculos após a morte de Maomé (foto Jim Gipe, Pivot Media, Inc/Reprodução)

 

Há cerca de 30 anos, a tensão entre sunitas e xiitas, os dois grandes ramos do Islã, deixou de ser objeto de interesse de um punhado de estudiosos e passou a fazer parte do noticiário. Foi nos últimos meses, porém, que esse duelo tão antigo como violento passou a constituir um elemento chave da situação política do Líbano ao Bahrein, do Iêmen à Síria – ou seja, da parte mais antiga e rica do mundo árabe, que se estende da Península Arábica à fronteira turca. 

Na entrevista a seguir, o especialista em história islâmica Suleiman Mourad aborda alguns dos aspectos centrais do conflito – as origens, as características dos dois grandes e multifacetados campos em luta e as formas contemporâneas de um enfrentamento muitas vezes apresentado de forma maniqueísta, seja por conveniência dos próprios contendores, seja a serviço de interesses das grandes potências instaladas no Oriente Médio. Professor de Religião no Smith College, em Massachusetts, Mourad nasceu no Líbano e é autor, entre outros, de Antigo Islã entre Mito e Realidade (Early Islam between Myth and History, inédito em português).

A seguir, a íntegra da entrevista:

Estamos acostumados a ler e ouvir que a divisão entre sunitas e xiitas está relacionada a uma disputa pela sucessão de Maomé no século 7. Todavia, quem observa o mundo islâmico de hoje encontra indícios impressionantes de que essa divisão vai muito além de uma disputa comunal, política ou mesmo religiosa. Como o senhor aborda esse problema?
Concordo que essas questões são muito complicadas. Não podemos tentar respondê-las simplesmente nos concentrando em um único aspecto. Você está certo. A divisão entre sunitas e xiitas tem uma longa história. De fato, começou no segundo exato em que o Profeta Maomé morreu. Mas devemos ser cuidadosos, porque no início não havia sunitas e xiitas como os entendemos hoje ou como eles passaram a ser definidos por volta do século 9. Havia seguidores frouxos dos dois grandes campos, e gradualmente cada campo se desenvolveu para se tornar o que chamamos sunitas e xiitas. E há questões adicionais que contribuíram para criar outros problemas entre as duas grandes comunidades ao longo dos séculos, e há questões e sensibilidades modernas que tiveram um papel nisso. Assim, focar no período moderno é perder de vista o quadro maior. Devemos incluir na configuração diversas questões que estão alimentando e tornando essa animosidade tão problemática e conflituosa neste momento.

No Brasil, os termos “xiita” e “xiismo” têm sido aplicados desde os anos 1980 pela imprensa a correntes de extrema esquerda em contraposição à esquerda moderada. É provavelmente consequência da Revolução Iraniana, durante a qual a visão do Islã apresentada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini era vista como muito estrita, como de fato era. Mas muitos ficariam surpresos com a maneira como iranianos comuns encaram a religião, de forma muito diferente da de Khomeini. Esse equívoco de associar o xiismo com uma forma particularmente radical ou estrita do Islã é comum?
De maneira geral, e falando essencialmente de uma perspectiva estrangeira, não. Os xiitas foram, em geral, uma minoria no mundo muçulmano. E ainda que, a certa altura, aproximadamente entre os séculos 9 e 11, eles tenham sido politicamente poderosos, não se pode dizer que suas visões, sua política ou sua teologia estivesse associada com radicalismo ou militância. E o mesmo se aplica, no mais das vezes, aos sunitas. O que ocorre, e você apontou precisamente na direção correta, é que a Revolução Iraniana criou esse tipo de impressão no Ocidente – de que o xiismo é uma seita muito radical. Muitos começam pensando assim, e as ações do centro teológico iraniano e também do Hezbollah no Líbano não ajudam a melhorar essa visão. O Hezbollah é uma organização terrorista envolvida em práticas bárbaras em sua própria comunidade, mas que também, sob o disfarce da luta pela libertação do sul do Líbano, apoiada por todos, cometeu crimes contra a humanidade no Líbano e, agora, na Síria. Isso não ajuda a dar uma visão melhor dos xiitas, mas, no início, essa não era a intenção de Khomeini e da Revolução Islâmica. A intenção de Khomeini e da Revolução Islâmica era criar uma espécie de movimento panislâmico de libertação, algo similar, eu diria – e compreendo as tremendas diferenças – ao que Ernesto Che Guevara pensava em fazer na América Latina: unir o povo numa luta comum contra um inimigo comum. E Khomeini queria ir além do xiismo, não queria se restringir aos xiitas. O problema que frustrou os objetivos iniciais de Khomeini foi a Guerra Irã-Iraque. Essa guerra cimentou no mundo islâmico a noção de que sunismo e xiismo não eram compatíveis. Forçou os iranianos a adotar um discurso xiita, exclusivamente xiita, para se dirigir aos xiitas de todo o mundo islâmico, mesmo que seu xiismo fosse diferente do iraniano, e tentar apoiá-los politicamente, militarmente e financeiramente a fim de comprar sua solidariedade. E isso afastou muitos sunitas que eram inicialmente simpáticos à Revolução Iraniana.

A Revolução Iraniana causou inicialmente uma boa impressão entre os sunitas?
Quando a Revolução Iraniana ocorreu, em 1979, havia muitos sunitas no Egito, no Líbano, na Síria, na Nigéria, positivamente impressionados com o fato de que os xiitas do Irã, e estamos nos referindo a um movimento religioso, tinham sido capazes de derrubar um ditador pró-ocidental e assumir o poder. E se você comparar isso com a moderna história do sunismo, eles não foram capazes de fazer algo semelhante. Houve revoluções em países sunitas, mas nunca sob a bandeira da religião. Tome a Revolução Argelina, por exemplo: foi praticamente uma revolução secular. Os líderes eram argelinos laicos educados na França. No Egito, nos anos 1950, houve um golpe militar, uma verdadeira revolução. Para onde você olhar, os sunitas foram incapazes de produzir algo estelar como a Revolução Iraniana. Então ela deu aos sunitas uma espécie de modelo a imitar, uma revolução em nome do Islã que tentasse derrubar um ditador pró-ocidental ou um ditador socialista. Mas a Guerra Irã-Iraque forçou todos a pensar que o que contava era sua própria seita, dando início à alienação dos dois grupos. Dessa forma, sim, a disputa entre sunitas e xiitas começou nos tempos do Profeta Maomé, mas ficou adormecida ao longo de diferentes episódios da história islâmica e foi atualizada pela Guerra Irã-Iraque nos anos 1980. Ela forçou todos os sunitas, mais do que em qualquer outra situação, a pensar em termos de como se unir a outros sunitas, e ensinei os xiitas a também pensar em termos sectários, em como se unir a outros xiitas. Levou algum tempo, não foi algo como “nos anos 1980 todos se alinharam a sua própria seita”. E hoje, pelo menos nos últimos cinco anos, estamos vendo um capítulo final, por assim dizer, nessa espécie de luta onde, na maioria das vezes, todos os xiitas foram impelidos a se alinhar ao Irã ou a se manter à margem, e o mesmo ocorreu com os sunitas, impelidos a formar contra o Irã ou se manter à margem. Assim, no Iraque, por exemplo, os sunitas não se opõem ao regime xiita ou ao Irã, e se opõem ao Estado Islâmico (EI). Mas não têm incentivos para lutar contra outros sunitas proque os xiitas não são bons para eles. Então, ficam à margem. A menos que algo sério seja feito para encarar o problema entre as duas seitas, é difícil ver uma saída. Por isso, Khomeini e depois Ali Khamenei (líderes supremos da República Islâmica do Irã) perceberam que essa abordagem panislamista entre sunitas e xiitas era uma farsa, impossível de se realizar. Foi assim que o Irã colocou toda a força à disposição de outros elementos xiitas na região. Daí o apoio desproporcional que o Irã deu à comunidade xiita no Líbano. Ainda que em termos de doutrina religiosa os iranianos estejam no lado oposto ao do regime sírio, ainda assim o regime sírio é em grande parte um regime xiita, ainda que de uma seita diferente (alauíta), celebrou-se uma aliança entre eles. Você tem a seita xiita no Iêmen, que é diferente da iraniana. E eles colocaram em prática o que agora é um pan-xiismo. Tudo isso exacerbou a imagem de que “o Irã apoia todos os elementos radicais no mundo islâmico”. Para ser honesto, de qualquer maneira – não para servir de desculpa, mas por justiça –, a maioria dos xiitas no mundo islâmico é constituída de minorias politicamente oprimidas ou maiorias também politicamente oprimidas. No Iraque, por exemplo, os xiitas são maioria, sempre foram maioria, e durante um longo período o regime era sunita e oprimia os xiitas. E, agora, a invasão americana deu ao xiismo a possibilidade de tomar o poder no Iraque, e assim eles estão governando sem dar muita atenção à democracia ou à criação de um novo Iraque. Há muita discórdia antiga a ser resolvida, há velhas vinganças a serem resolvidas, foram os sunitas que governaram por longo tempo. Se você mirar o Iêmen, há uma minoria xiita lá, chamada Zaidi, e os Zaidis estiveram no poder no Iêmen até a metade dos anos 1960, quando os sunitas assumiram ao poder e o conservaram até alguns anos atrás. Os xiitas são maioria no Norte, mas em todo o país são minoria. E isso criou um problema quando o Iêmen se reunificou. Assim, é compreensível, portanto, que na ausência de qualquer possibilidade de avanço político por meios democráticos, os xiitas não tenham tido outro recurso a não ser recorrer à violência e à militância. E se você toma isso tudo e o coloca da forma como a imprensa ocidental tenta apresentar e simplificar as questões no mundo islâmico, você termina com a imagem de que os xiitas são radicais ou fanáticos religiosos. Nesse sentido, essa é uma imagem estritamente moderna. Historicamente, se você quiser colocar o problema em termos de pensamento religioso ou teologia, os xiitas são mais racionais em comparação aos sunitas. Eis um exemplo: se você quiser se tornar um clérigo sunita, você deve memorizar o Corão e memorizar tudo que Maomé disse (os haddith ou tradições, ditos e relatos sobre a vida do Profeta). Quando você se torna clérigo, você tem de pensar em termos de como você pode replicar esse aprendizado mais do que pensar de forma independente. Se você vai para uma escola religiosa xiita, você tem de memorizar o Corão, mas a próxima etapa é estudar filosofia e lógica. O objetivo é fazer de você um pensador independente, não necessariamente alguém que simplesmente recita o que memorizou. Assim, pelo menos em um nível elementar, o xiismo é muito mais racional do que o sunismo.

Quando o senhor menciona filosofia e lógica, refere-se à filosofia e lógica clássicas, desde os gregos, ou a produzida por autores muçulmanos?
Eu diria que é uma mistura de ambas, porque o que os primeiros autores islâmicos fizeram foi tomar a filosofia e a lógica gregas e a incrementaram. Eles não se ativeram ao que Aristóteles e Platão disseram nos tempos antigos. Compreenderam que havia questões que estavam erradas, não funcionavam. Então, eles as incrementaram, e na maioria das vezes o que a Europa recolheu não foram apenas os velhos textos gregos, mas também as emendas islâmicas a esses textos. Mas os xiitas são muito mais familiarizados com a moderna filosofia europeia. Eles não são estranhos a Rousseau, Kant e até mesmo Max Weber. Na academia religiosa xiita, filósofos ocidentais modernos são muito estudados. O próprio Khomeini estava muito ciente de parte da filosofia moderna. Você não tem nada comparável a isso na tradição acadêmico-religiosa sunita. Há muitos sunitas seculares no Paquistão, no Egito, em outros países muçulmanos – novamente, sublinho, sunitas seculares – que estão a par da moderna tradição ocidental. Mas os imãs tradicionais no Islã sunita que vão estudar em seminários e se tornam clérigos não são familiarizados com filosofia. Geralmente, a filosofia é vista como alheia ao sunismo. Não em razão da tradição histórica do sunismo – há muitos filósofos sunitas –, mas, por alguma razão, o processo do pensamento criou essa espécie de animosidade diante da filosofia.

Quais são as razões desse “subdesenvolvimento” do pensamento filosófico entre os sunitas?
O sunismo começou como um movimento dedicado ao que considerava importante que um muçulmano fizesse, como forma de criar algum tipo de unidade no mundo do Islã. Eles eram extremamente tolerantes a variações. Sunismo, por definição, significa “aqueles que seguem o exemplo do Profeta Maomé”. Assim, eles se concentram tremendamente em que você viva sua vida da mesma maneira, ou pelo menos que você aspira a viver sua vida da mesma maneira que o Profeta Maomé viveu a vida dele. E existem diferentes interpretações ou diferentes concepções sobre como o Profeta Maomé viveu. O sunismo tornou-se essa espécie de grande guarda-chuva que incluía visões como “O Profeta Maomé viveu assim” e “Não, o Profeta Maomé viveu assim”, e todas eram acomodadas e toleradas. E os muçulmanos também estavam interessados em debates e conversações filosóficas e teológicas, porque havia questões que o Profeta Maomé não havia vivenciado. Assim, a pergunta é “O que fazer, então?”, uma vez que o Profeta nunca tratou disso – fossem questões teológicas, filosóficas ou existenciais. Muitos sunitas começaram a explorar essas linhas de questionamento na teologia e na filosofia. E teologia e filosofia não são campos que permitam distinções e diferenças agudas de opinião, do tipo que podem ser tratadas como “Você faz o que quiser, eu faço o que quiser, e nós coexistimos”. Filósofos e teólogos não toleram a opinião do outro se difere da sua. Isso continua sendo problemático para a filosofia, a teologia e mesmo a ciência. Se você senta à mesa com uma cientista, por exemplo, e você diz que um mais um é igual a dois, e ela diz que um mais um é igual a três, não há terreno comum para qualquer diálogo. Na filosofia e na teologia, ocorre o mesmo. Você tem de aceitar as mesmas premissas, o mesmo processo, e assim você tem de chegar necessariamente às mesmas conclusões. Se você não faz isso, suas premissas e seu processo de debate está errado. A teologia é, portanto, inclinada a criar cismas muito mais sérios entre o mesmo grupo do que questões como “como se vestir”, “como rezar”, “como aparar o bigode”. Essas questões parecem estar abertas a diferenças de opinião, e assim você se adapta e tolera tudo. Dessa maneira, você não está abordando, por exemplo, a salvação. Os sunitas se tornaram muito avessos à filosofia e à teologia porque muitos começaram a ver essas áreas como capazes de levar à fragmentação da comunidade. O modelo – um modelo negativo, que estava diante deles – eram as comunidades cristãs no Oriente Médio. O cristianismo é muito devotado à teologia. Há todo um debate sobre quem foi Jesus, se ele era Deus, ou filho de Deus, ou igual a outros seres humanos. Todo esse debate criou uma variedade de seitas cristãs, cada uma dizendo que a outra era herética. Os muçulmanos viam os cristãos e diziam: “Por que eles não se unem? Por que eles não podem estar unidos como cristãos? Por que são tão fragmentados?”. E imaginaram, ou pelo menos se convenceram, de que era por causa da filosofia e da teologia. Dessa forma, gradualmente, houve esse distanciamento de muitos sunitas desses dois tópicos. Por volta dos séculos 14 e 15, muitos eruditos sunitas começaram a dizer: “É melhor para o sunismo que esses tópicos não sejam ensinados em escolas sunitas. Assim, para se tornar clérigo, é muito, muito melhor que eles não sejam jamais educados nisso, jamais expostos a essas coisas, porque isso apenas levará à fragmentação e à animosidade”. Por fim, isso levou à formação de eruditos que se parecem com imitadores, como papagaios. Eles apenas repetem coisas em vez de pensar independentemente. Por isso, há uma crise no mundo sunita porque não se pode contar com eruditos e clérigos para chefiar uma espécie de renascimento islâmico porque, na maioria das vezes, eles são treinados para imitar, não para pensar de forma independente.

O senhor é um pesquisador da história da jihad, uma noção que tem uma longa história dentro e fora do mundo islâmico. Qual seria uma definição precisa de jihad?
Jihad é muito claramente definida na tradição islâmica como o dever individual dos crentes de lutar – e aqui eu uso a palavra “lutar” num sentido amplo – contra os inimigos de Deus. Isso pode ser feito de diferentes maneiras: pelas armas, pelo apoio aos que lutam ou pela prédica. Esse é o significado religioso de jihad. Ultimamente – nos últimos 15 anos, mais ou menos –, ouvimos que “jihad” significa lutar para fazer de si uma pessoa melhor. Nunca ouvi nada assim em meus estudos de história do Islã. É o que chamo de definição moderno-apologética de jihad. Há eruditos para quem, a menos que você luta para ser um bom muçulmano, você nunca poderá travar a “jihad da espada”. Ou seja, você não cumpre o dever da jihad simplesmente portando uma arma e partindo para a luta, você tem de ser um bom muçulmano. Assim, você tem de retornar e se concentrar no que é chamado de “jihad contra os seus próprios demônios”. Há duas guerras: a primeira é se assegurar de que você é um bom muçulmano, praticar o que se considera o bom Islã, e a seguir partir para o momento seguinte, que é lutar contra os inimigos externos. E, dessa maneira, as exigências são muito, muito mais radicais do que as definidas pelos eruditos precedentes. Para aqueles, não havia condições: qualquer muçulmano, de qualquer nível de inteligência, deveria se levantar e lutar, defensiva ou ofensivamente, para expandir o mundo do Islã. Mas nem todos os eruditos muçulmanos estão de acordo sobre o alcance da jihad – alguns dizem que deve ser defensiva, outros dizem que deve ser para expandir o Islã, outros optam por ambas as noções. Mas pergunte a qualquer muçulmano o que é jihad, e a única coisa que lhes virá à mente é “lutar em nome de Deus”. Se você quiser ouvir que jihad é a luta contra seus próprios demônios, você terá de induzir esse tipo de resposta. Não é uma definição única.

Desse ponto de vista, definir grupos como Al-Qaeda, Hezbollah ou Estado Islâmico como “jihadistas” não é muito preciso.
Sim, não é preciso. Jihad é um meio para se alcançar alguma coisa, e com frequência pensamos em jihad como um meio em si mesma. Chamá-los jihadistas é confundir as coisas, porque dá a impressão – e isso é um problema, especialmente nos Estados Unidos – de que são a mesma coisa. Isso não é correto. Há sérias diferenças entre eles, e não estão falando simplesmente de jihadistas sunitas e jihadistas xiitas. No interior do mundo dos militantes sunitas, há diferenças tremendas. Fiquei impressionado ao ler que alguns ideólogos da Arábia Saudita estavam chamando os talibãs de heréticos. Estamos falando de apoiadores da Al-Qaeda na Arábia Saudita chamando os talibãs, aliados estratégicos da Al-Qaeda, de heréticos porque não são bons muçulmanos. Veja a Síria, por exemplo. Você tem a Frente al-Nusra, um ramo da Al-Qaeda na Síria, lutando contra o EI. E há outros grupos militantes islâmicos lutando contra a Al-Nusra e o EI. E assim, o fato de estarem fazendo a jihad não significa que essas pessoas estão de acordo. O que está envolvido nesse caso pode ser uma visão política, social ou mesmo sectária ou regional. Assim, chamá-los dessa maneira é, de fato, desinformar a nós mesmos, porque terminamos por confundir um meio com um fim e tratando-os como uma coisa só.

A Primavera Árabe provocou um aumento da tensão entre sunitas e xiitas?
De certa forma, pode-se dizer que, inadvertidamente, a Primavera Árabe levou a uma exacerbação da tensão entre sunitas e xiitas. Em muitos países muçulmanos, há ditadores no poder, e portanto há pessoas interessados em mantê-los lá e outros – a maioria, provavelmente – interessados em derrubá-los. E, invariavelmente, os interessados em derrubar ditadores tendem a ser membros do lado oprimido. Assim, se você olhar para o Iêmen, por exemplo, os interessados em derrubar o regime são xiitas que foram oprimidos desde os anos 1960. Você também tem muitos sunitas que são contra o regime e devem estar desejando ir para as ruas em protesto. No Egito, não há divisão sectária – provavelmente apenas 2% dos egípcios não são sunitas –, como no restante do norte da África. Mas, em lugares como a Síria, você tem sunitas e xiitas, e os xiitas estão no poder. Assim, quando ocorre algo como a Primavera Árabe, as tensões entre sunitas e xiitas entram em ação: os manifestantes contra o regime na Síria são identificados como militantes sunitas, fanáticos sunitas interessados em derrubar o regime. Dessa forma, o que está acontecendo é apresentado como um choque entre sunitas e xiitas. No caso do Iêmen, um ditador foi derrubado no início da Primavera Árabe, mas os que estavam no poder eram xiitas, e então isso é visto como uma questão entre sunitas e xiitas. Houve algo semelhante na Arábia Saudita. Previsivelmente, a maioria dos que participaram das manifestações eram xiitas da região nordeste do país, e a Arábia Saudita os reprimiu. Assim, em todos os países onde há presença de sunitas e xiitas, a Primavera Árabe adquiriu esse sabor de luta entre sunitas e xiitas – no mínimo, porque a maioria dos descontentes tende a ser da seita oposta à dos que estão no poder. E isso agravou tremendamente a tensão entre sunitas e xiitas, porque agora apoiadores dos regimes sunitas – apoiadores da Arábia Saudita, como o Catar – entram em cena para ajudar. Isso ocorreu, por exemplo, no Bahrein. Se você toma a Síria como objeto de estudo, é fascinante notar que tudo começou como um movimento de sunitas mas que não era necessariamente definido em termos religiosos. Eram moradores de aldeias e cidades se levantando contra um regime opressivo. Gradualmente, eles concluíram que não tinham outra escolha a não ser se alinhar com grupos sunitas radicais. E, de fato, o problema é que vivemos um período, especialmente depois do ano passado, em que não temos mais nenhum negociador confiável que possa levar os contendores à mesa de negociação. Temos a crise entre palestinos e israelenses, entre Arábia Saudita e Irã, entre Estados Unidos e Rússia. O que falta atualmente são moderadores que possam levar os dois lados a uma mesma mesa e tentar negociar algo. Nos anos 1980, havia muitos canais abertos, fosse em termos de países do norte da Europa tentando reaproximar União Soviética e Estados Unidos – a Suécia teve um papel importante, a Noruega participou de negociações palestino-israelenses. Neste momento, não vemos nada disso. Isso é uma desgraça. Portanto, sim, a Primavera Árabe começou com premissas diferenças, promessas diferentes, razões diferentes, e gradualmente afundou nesse tipo de discurso sectário em razão da animosidade sunita-xiita que está essencialmente varrendo o mundo islâmico.

O que se sabe até agora

09 de janeiro de 2015 0

Eis  um resumo dos acontecimentos desta sexta-feira na França:

Os irmãos Cherif Kouachi e Said Kouachi, que mataram 12 pessoas durante e depois do ataque à revista Charlie Hebdo, na manhã de quarta-feira, foram mortos em confronto com a polícia no assalto à gráfica em que tinham se entrincheirado, em Dammartin-en-Goele, cidadezinha do cordão industrial de Paris. O refém que eles haviam tomado, ainda não identificado, foi resgatado são e salvo.

Ahmedi Coulibaly, suspeito de ter assassinado uma policial em Montrouge, Paris, na manhã de quinta-feira, foi morto em confronto com a polícia no Hyperkasher, supermercado de produtos kosher (preparados segundo a lei judaica) em Porte de Vincennes, na capital francesa. Cinco reféns mantidos por ele também foram mortos.

A suspeita Hayat Bomeddine, 27 anos, que estaria com Ahmedi, teria fugido.

Reféns são retirados do Hyperkasher, mercado de produtos judaicos em Paris (foto Martin Bureau, AFP)

Reféns são retirados do Hyperkasher, mercado de produtos judaicos em Paris (foto Martin Bureau, AFP)

Assim, a crise iniciada na quarta-feira deixa um saldo de 19 mortos, entre eles três sequestradores e três policiais.

"Submissão" chega às livrarias brasileiras até julho

08 de janeiro de 2015 0

O romance Soumission (Submissão), de Michel Houellebecq, ambientado numa hipotética França islamizada em 2022, chegará às livrarias brasileiras até julho. O lançamento é da editora Alfaguara.

Submissão foi lançado ontem na França, mesmo dia em que um atentado contra a redação da revista Charlie Hebdo deixou 12 mortos. A relação entre os dois acontecimentos reside no fato de que a mais recente edição do Hebdo, que circulou também ontem, traz Houellebecq na capa (abaixo), caricaturado como um mago no traço de Luz.

mago

Ao jornalista e escritor brasileiro Juremir Machado da Silva, Houellebecq havia dito no ano passado a respeito de seu livro: “Vou colocar fogo na França”.