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Os Quatro Pontos da China

01 de abril de 2015 0
O texto divulgado pelo chanceler chinês em Lausanne

O texto divulgado pelo chanceler chinês em Lausanne

 

O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, que participa das negociações sobre a questão nuclear iraniana em Lausanne, na Suíça, divulgou hoje um documento com quatro pontos a respeito do andamento das discussões. O Irã e os países do grupo P5+1 (Estados Unidos, China, Rússia, Alemanha, França e Grã-Bretanha) concordaram em estender até hoje o prazo para se obter um acordo preliminar. Detalhes técnicos serão decididos até junho.

Abaixo, a íntegra do documento de Wang, em grifo, e o significado de cada ponto:

“Os Quatro Pontos do ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, sobre as negociações em andamento a respeito da questão nuclear iraniana

1. É importante dar direção política às negociações. A negociação nuclear iraniana envolve muitas questões técnicas, e qualquer acordo a ser alcançado deve ser apoiado em conhecimento altamente especializado. De qualquer maneira, devemos ter em mente que, na análise final, estamos tratando de uma questão política e de segurança. Assim, é importante que as partes deem forte direção política para as negociações e tomem uma decisão política no momento apropriado.

(O que significa: uma parte significativa do impasse no momento atual está relacionada a detalhes altamente técnicos sobre o que o Irã poderá ou não fazer na esfera nuclear. A China quer que o desejo de entendimento prevaleça sobre o debate técnico. O Irã, por sua vez, não se interessa em emitir uma declaração política em favor do acordo se não houver acordo detalhado por direitos e obrigações, uma vez que, para o governo iraniano, se trata de uma questão de soberania.)

2. É importante especificar as diferenças. Enquanto cada parte tem sua própria posição, nesta fase final, todas as partes devem estar preparadas para ceder um pouco a fim de alcançar um acordo. Se as negociações entrarem em colapso, todos os esforços anteriores terão sido inúteis.

(O que significa: a China alerta todos os participantes para o risco de as negociações irem por água abaixo neste momento, sem que cada uma das partes possa pesar os riscos embutidos num rompimento. É a velha ideia de que o diálogo nuclear com o Irã deve ser visto como algo “muito grande para fracassar”.)

3. É importante aderir a uma abordagem de passo a passo e reciprocidade. A solução da questão nuclear iraniana é um processo, que deve ser cumprido passo a passo e sobre a base da reciprocidade. Todas as partes devem assumir sua devida responsabilidade e obrigação.

(O que significa: aqui, o chanceler chinês exorta as partes a adotar como método a construção de um acordo ponto por ponto, em vez de focar na soma das diferenças pontuais.)

4. É importante lutar por uma solução global. As questões pendentes estão ligadas umas às outras. As partes devem pensar de forma criativa e produzir uma solução global. Gostaria de enfatizar que nenhum acordo é possível sem acomodar as preocupações centrais das várias partes e que é vitalmente importante dar espaço ao papel do Conselho de Segurança das Nações Unidas.”

(O que significa: os envolvidos não devem esquecer que estão negociando um acordo em benefício da atual ordem mundial, simbolizada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ao enfatizar a responsabilidade de cada uma das partes, a China, um dos cinco membros com assento permanente no Conselho, reforça o seu próprio papel.)

 

Dez mitos sobre a negociação com o Irã

31 de março de 2015 2
Negociações terminam hoje em Lausanne, Suíça

Negociações terminam hoje em Lausanne, Suíça (foto Fabrice Cofrini, AFP)

Representantes do Irã e de seis grandes potências contam os minutos nesta terça-feira na tentativa de fechar um acordo sobre o programa nuclear do país persa. Veja a seguir 10 mitos sobre a negociação que ocorre até a meia-noite em Lausanne, Suíça:

1) Obama defende o Irã porque seu pai era muçulmano

Embora seja o principal porta-voz da política de distensão em relação ao Irã, o presidente Barack Obama não é o único a apostar numa solução negociada para o impasse nuclear com o país. Os maiores defensores dessa política são os países europeus, especialmente a Alemanha, interessados em normalizar as relações comerciais com o país. O que Obama fez foi simplesmente alinhar a diplomacia americana a um curso adotado pela União Europeia quase ao mesmo tempo que a primeira rodada de sanções entrou em vigor. A ideia de que a política de Obama é orientada por razões familiares ou mesmo por preferências religiosas secretas, muito usada pela extrema direita americana, é caluniosa e racista.

 

2) Se um acordo for fechado hoje, tudo voltará ao normal entre o Irã e a comunidade internacional

A total normalização das relações entre o Irã e os demais países dependerá de uma série de questões, dos direitos humanos às liberdades políticas. Um acordo, hoje, servirá no máximo para desatar um nó importante nessas relações depois de um impasse de 10 anos. Não será, igualmente, garantia de que possa haver progressos em torno dos demais itens.

 

3) O Irã não ousará contrariar os aliados Rússia e China e rejeitar o acordo

Embora Rússia e China sejam parte do grupo P5+1 (ou, como preferem os europeus, 3+3), que negocia com o Irã, cada um participa do diálogo com sua pauta própria. A China deseja eliminar as barreiras ao comércio pleno com o Irã. A Rússia, inicialmente, pretendia se somar a um esforço europeu, mas não ao preço de uma submissão completa do Irã (um precedente que poderia se voltar contra Moscou em casos como o da Ucrânia). O fracasso das negociações não significará, necessariamente, um afastamento entre o Irã e as duas potências.

 

4) O Irã domina quatro capitais árabes: Bagdá, Beirute, Damasco e Sanaa

A presença de forças ligadas ao Irã nos governos de Iraque, Líbano e Síria e no controle da capital do Iêmen após a fuga do presidente Abdo Mansur Hadi não tem a ver com uma conspiração de poder por parte de Teerã. No Iraque, os governos xiitas foram instaurados com apoio dos Estados Unidos. No Líbano, o Hezbollah (primeiro uma milícia xiita e, depois, um partido) cresceu e se consolidou após uma guerra civil interna e invasões israelenses. Na Síria, o regime da família Al-Assad sempre foi laico e, como tal, adversário dos aiatolás, mas os laços se fortaleceram com o início da guerra civil. Por fim, os rebeldes iemenitas, ainda que sejam apoiados por Teerã, estão longe de ser fantoches: há tribos sunitas e elementos ligados ao regime do ex-presidente Ali Saleh em suas fileiras.

 

5) O programa nuclear do Irã é dirigido contra os Estados Unidos e seus aliados

O programa nuclear iraniano foi lançado nos anos 1950 pelo xá Reza Pahlevi, na época principal aliado americano no Oriente Médio, e tinha a bênção de Estados Unidos, França e Alemanha. Quando o xá foi derrubado pela Revolução Islâmica, em 1979, o aiatolá Ruhollah Khomeini determinou o fim do programa por supostamente contrariar os preceitos da religião. Com a Guerra Irã-Iraque, a partir de 1980, porém, os aiatolás decidiram retomar o projeto.

 

6) O Irã está a um passo de obter sua bomba atômica

A primeira condição para se fabricar uma bomba atômica é enriquecer uma determinada quantidade do isótopo U-235 do urânio, material altamente físsil (utilizável em uma reação nuclear). O urânio encontrado na natureza contém apenas U-235 a 0,7%. O enriquecimento pode elevar esse nível para 3,5% (nível utilizado nas centrais nucleares), 20%, 60% até 90% (usado em uma bomba atômica). O Irã comprovadamente já completou o enriquecimento a 20% e, a partir desse ponto, não é difícil chegar a 90%. Esse passo, porém, não assegura a obtenção de armas nucleares. Para fazê-lo, é preciso desenvolver mísseis capazes de carregar ogivas nucleares e testá-los. Trata-se de uma decisão sobretudo política, que teria graves implicações no mundo inteiro, e não há nenhum indício de que o Irã esteja interessado em tomá-la.

 

7) Os aiatolás iranianos são fanáticos capazes de tudo

Embora o Irã seja uma teocracia (regime religioso) que assume a forma de república islâmica, está longe de ser o país mais retrógrado do Oriente Médio. Mulheres, gays e baha’ís (minoria religiosa) e outros sofrem opressão, mas têm comparativamente muito mais direitos do que na Arábia Saudita e em outras monarquias do Golfo. Nos últimos 10 anos, a cúpula do regime fez diversos acenos de negociação para os Estados Unidos. O presidente Barack Obama já afirmou que os líderes iranianos são “racionais”.

 

8) Para dobrar o Irã, basta manter as sanções

O atual regime de sanções econômicas e militares (foram três rodadas desde 2006) não apenas foi incapaz de deter o programa nuclear como permitiu que fosse aprofundado. Os maiores penalizados pelas medidas são os iranianos comuns, mais expostos à crise econômica, agravada pela baixa dos preços do petróleo. Por outro lado, se o Irã for mantido à margem do sistema internacional, isso funcionará como incentivo para sua aproximação com outros Estados em situação similar, como Rússia e Coreia do Norte.

 

9) Não há diferença entre o atual presidente do Irã e o anterior

O ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad (2005-2013) foi eleito no auge do isolamento internacional do Irã, pouco depois de o então presidente americano George W. Bush ter colocado o país ao lado do Iraque de Saddam Hussein e da Coreia do Norte como “Eixo do Mal”. Notabilizou-se por dizer barbaridades, como a de que o Holocausto não teria existido. O atual presidente, Hassan Rouhani, por sua vez, foi eleito com o apoio dos reformistas do regime, como os ex-presidentes Mohammad Khatami e Ali Rafsanjani, no ostracismo durante o governo anterior. Ainda que os aiatolás permaneçam no poder, o simples fato de Rouhani ter sido eleito tendo contra si cinco candidatos da linha dura indica que os eleitores iranianos apostam na mudança política. O fato de Rouhani ter sido chefe das negociações nucleares fracassadas na década passada também é um sinal de que há possibilidades de entendimento a explorar. (Obs: no dia da eleição que daria vitória a Rouhani, em junho de 2013, quando a maioria dos analistas previa a vitória do candidato favorito do regime, Said Jalili, este blog afirmou que o clérigo podia se transformar na “grande surpresa do pleito” em razão de seu discurso oposicionista).

 

10) Para eliminar a ameaça nuclear iraniana, basta bombardear suas centrais atômicas

O Irã dispõe hoje de mais de 20 mil centrífugas nucleares em funcionamento. Por mais extenso que fosse o bombardeio de uma parte dessas instalações, isso teria um efeito catastrófico na região e, principalmente, incentivaria o país a partir para o confronto.

Despedida de repórter

28 de março de 2015 0
burns

Burns (com colete) e alguns personagens de suas matérias

Foi uma despedida de gala. Na quinta-feira, o jornal americano The New York Times publicou uma breve reportagem sobre o funeral do rei inglês Ricardo III em Leicester. Segundo testemunhas, mais gente juntou-se nas calçadas para assistir à passagem do cortejo com os restos mortais do monarca corcunda do que por ocasião da última visita da rainha Elisabeth II à cidade.

A sepultura do rei morto em 1485 havia sido encontrada por acaso sob um estacionamento em Leicester, há dois anos. Exames de DNA comprovaram tratar-se do homem celebrizado por Shakespeare, que lhe atribuiu o brado final “Meu reino por um cavalo”.

A reportagem do Times não menciona Shakespeare, nem compara a popularidade de Ricardo à da rainha. Sua prosa, porém, está à altura da ocasião. “Os estudos (…) estabeleceram que um catálogo de cerca de uma dúzia de ferimentos, incluindo dois ferozes golpes no crânio de Ricardo com uma espada e um machado que o teriam matado instantaneamente, correspondem proximamente a registros da época sobre sua morte, após ser derrubado de seu cavalo na terra úmida (…)”, diz o texto.

O repórter, John Fisher Burns, 70 anos, sabe do que está falando. Durante mais de 40 anos, esse inglês de Nottingham cobriu guerras cuja selvageria deixaria Ricardo deprimido: Bósnia, Afeganistão, Iraque. O funeral do antepenúltimo rei inglês morto em combate foi o tema de sua última reportagem no Times. A partir de agora, Burns, 70 anos, trocará a sucursal do Times em Londres por uma merecida e tranquila aposentadoria.

Ganhador de dois Prêmios Pulitzer, maior honraria do jornalismo americano, Burns passou pelo impressionante número de 10 sucursais do Times no Exterior. Sua última e mais importante missão foi a cobertura da invasão e da posterior guerra do Iraque, a partir de 2003. Sua mulher, Jane Scott-Long, é gerente da sucursal do jornal em Bagdá. Depois do Iraque, Burns passou a comandar a sucursal londrina.

Fui apresentado ao trabalho de Burns durante a cobertura da guerra no Iraque. Ele fazia parte do pequeno time de repórteres, alguns dos quais conheci pessoalmente, que permaneceram na capital iraquiana nas horas difíceis do cerco de abril de 2003, trocando o hotel Al-Rashid pelo Palestine e sem saber o que lhes aguardava ao final da batalha. Em suas reportagens, era sempre possível encontrar o olhar demorado para o sofrimento das pessoas comuns, exposto com simplicidade e sem melodrama.

Burns era convidado com frequência a participar de programas de debate da PBS e da BBC. Da última vez que o vi, há pouco mais de 20 dias, ele participava do programa Dateline, da rede britânica, que reúne correspondentes baseados em Londres. Sua visão sóbria e arguta das ambiguidades e contradições da política ocidental para o Iraque e a Síria, mas também dos meandros da campanha eleitoral britânica, me impressionou. Não podia imaginar, naquele momento, que ele estava fazendo sua última participação no programa. Abaixo, o vídeo do Dateline:

A mirada crítica de um analista do Oriente Médio

28 de março de 2015 0
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Achcar é autor de oito livros sobre o Oriente Médio, entre outras obras

“O simples fato de que a onda revolucionária que se ergueu na Tunísia varreu toda a região de fala árabe mostra que suas causas não estão confinadas à dimensão política. Elas são mais profundas. Essa vaga não pode ser atribuída apenas ao fator linguístico: no que diz respeito à revolução, o contágio pelo exemplo ocorre apenas quando há terreno favorável. Para uma centelha iniciar uma conflagração que se estende de um extremo de uma zona geopolítica e cultural a outro, deve haver uma predisposição para a revolução. Dada a diversidade dos regimes políticos da região, a lógica sugere que procuremos por fatores socioeconômicos elementares que devem ter constituído o terreno comum para a onda de choque regional. O despotismo por si só, em todo caso, dificilmente pode ser causa suficiente para o estalar e o subsequente sucesso de uma revolução democrática. Se não fosse assim, não haveria explicação de por quê ela triunfou naquele momento: por que 2011, depois de décadas de despotismo, na região árabe? Por que 1789 na França, depois de uma longa história de absolutismo e revoltas camponesas? Por que 1989 no Leste Europeu, em vez de, por exemplo, 1953 – 56?”

Esse é um trecho da introdução de O Povo Quer (The People Want, Saqi, 2012, inédito em português), o mais recente livro de Gilbert Achcar e um dos mais profundos e radicais balanços do início da Primavera Árabe já escritos. Travei contato pela primeira vez com o pensamento de Achcar há mais de 10 anos, durante a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, da qual ele foi um dos maiores críticos. E, como sempre acontece nesses casos, tinha curiosidade de saber o que ele diria a respeito do início da onda de revoltas que derrubou regimes odiados na Tunísia, no Egito, na Líbia e no Iêmen. Por isso, foi com redobrada atenção que li O Povo Quer, obra que merece, e muito, uma edição em português. Agradeço à minha querida colega e amiga Silvia Ferabolli, professora da UniRitter e da Unisinos e ex-aluna de Achcar na Universidade de Londres, por ter me avisado do lançamento do livro em 2012.

Achcar nasceu e cresceu em Beirute e, depois de passagens pela França e pela Alemanha, tornou-se professor da Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres. É autor e organizador de quase duas dezenas de livros, entre os quais pelo menos oito sobre o Oriente Médio, o Islã e os árabes. A um só tempo marxista e crítico radical dos regimes stalinistas do antigo bloco soviético e da China, é um daqueles intelectuais que, assim como Daniel Bensaïd e Michael Löwy, experimentou muito cedo o impacto político de Maio de 68 e jamais deixou de abordar a realidade histórica, por mais adversa que fosse, sem a esperança nas mais profundas e libertárias correntes de mudança social.

Neste momento em que o Oriente Médio é sacudido por guerras, bombardeios e massacres, vale mais do que nunca a pena travar contato com o pensamento crítico de Gilbert Achcar. Tive o prazer de entrevistá-lo em fevereiro, e o resultado pode ser lido, na íntegra, aqui.

> Leia também: Suleiman Murad e as duas metades do Islã

> Leia também: Diga não ao ódio e ao preconceito

 

 

Diga não ao ódio e ao preconceito

26 de março de 2015 2

A informação de que o copiloto Andreas Lubitz teria provocado deliberadamente a queda do Airbus A320 da Germanwings na terça-feira sobre os Alpes franceses provocou uma enxurrada de manifestações de ódio, preconceito e islamofobia nas redes sociais.

O procurador da República de Marselha Brice Robin disse expressamente que Lubitz não fazia parte de nenhuma lista de terroristas procurados e que não há, até o momento, qualquer indício de que o acidente tenha sido resultado de uma ação terrorista.

Infelizmente, proliferam há alguns minutos nas redes sociais manifestações da mais pura incitação contra os “suspeitos de sempre”. Um triste exemplo é o da página abaixo, no Facebook, que vincula Lubitz ao Estado Islâmico, sem qualquer prova ou mesmo indício que sustente essa atitude irresponsável.

lubitz

 

Até o momento em que este post foi escrito, às 10h, a página, escrita em francês (aliás, mau francês: falta um s em hérosÉtat tem acento), não havia sido removida pelo Facebook.

 

Brasil e França: uma história comum de voos e acidentes

24 de março de 2015 0

O Brasil e a França estão ligados pela história da aviação. As primeiras experiências do brasileiro Alberto Santos Dumont com aviação tripulada foram feitas em Paris, onde o mineiro se instalou em 1897. E foi no Campo de Bagatelle, um parque no Bois de Bologne, na capital francesa, que Santos Dumont realizou seu maior feito: o voo do 14-Bis, o primeiro avião tripulado autopropulsado da história, em 23 de outubro de 1906.

 

O voo do 14-Bis em 1906: primeira aeronave tripulada da história a decolar e pousar

O voo do 14-Bis em 1906: primeira aeronave tripulada da história

 

Infelizmente, a longa história de acidentes aéreos da França também está cheia de brasileiros. O mais grave continua sendo a queda do Boeing 707 que fazia o voo RG-820 da Varig, perto de Orly, em Paris, no dia 11 de julho de 1973. Morreram no desastre o cantor Agostinho dos Santos e o senador da Arena Filinto Müller, entre outras 121 pessoas.

 

Equipes de resgate fazem buscas junto aos destroços do Boeing 707 da Varig em Orly, em 1972

Equipes de resgate fazem buscas junto aos destroços do Boeing 707 da Varig em Orly, em 1973

 

A queda do Airbus da companhia alemã Germanwings na manhã desta terça-feira é o terceiro maior acidente aéreo da história da França, considerado o número de vítimas. São 150 mortos confirmados até o momento pela companhia, sendo 144 passageiros e seis tripulantes. Não há brasileiros entre as vítimas.

 

> Leia mais: a cobertura do acidente ao vivo em ZH

 

Abaixo, uma das primeiras imagens da região onde o Airbus caiu, nos Alpes franceses:

 

Ao anunciar que provavelmente não haveria sobreviventes, o presidente da França, François Hollande, expressou sentimentos às famílias das vítimas pelo Twitter:

O maior acidente da história francesa continua sendo a queda do voo 981 da Turkish Airlines em Ermenonville, Oise, em 1974, com 346 mortos. Em segundo lugar, vem o acidente com o voo 1308 da Index Adria, na Córsega, em 1981, com 180 mortos.

 

Mas o acidente desta terça-feira supera aquele que foi, durante 12 anos, o maior da história do país e um dos maiores do mundo, a queda do voo 159 da Air France no aeroporto de Orly, em 1962, que deixou 130 mortos.

Quem tem medo de Noy Alooshe?

09 de março de 2015 2

Você pode não ter ouvido falar de Noy Alooshe, mas, se estava atento às redes sociais em março de 2011, deve ter passado os olhos pelo clipe Zenga Zenga. Produzido a partir do vídeo de um discurso do ditador líbio Muammar Kadafi, convocava seus simpatizantes a caçar os oposicionistas “quarto por quarto, beco por beco (zenga zenga)”, o remix tornou-se viral.

 

 

Menos conhecida, mas não menos magistral, é a produção posterior de Alooshe, músico israelense que vive em Tel Aviv. Seu último remix, Levantem! Sentem! Irã! (Stand! Down! Iran!) foi feito a partir do discurso (por si só já bastante engraçado) do premier isralense Binyamin Netanyahu numa sessão conjunta do Congresso americano na semana passada.

 

Nenhum desses dois, porém, se compara a Obama e Putin Apresentam Natalia Poklonskaya (Obama and Putin Feat. Natalia Poklonskaya), do ano passado, onde os presidentes americano e russo “contracenam” com a procuradora russa da recém-anexada Crimeia. Chama-se Revolução 2011 (Revolution 2011).

 

 

É pena que Alooshe não tenha assistido ao pronunciamento de ontem da presidente Dilma Rousseff.

Ao vivo: Obama e Merkel fazem pronunciamento sobre Ucrânia

09 de fevereiro de 2015 0

Assista a transmissão ao vivo do pronunciamento do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e da chanceler alemã, Angela Merkel, sobre as negociações de cessar-fogo na Ucrânia:

Obama, Michelle e Biden tuítam fotos da infância

30 de janeiro de 2015 0

O presidente americano, Barack Obama, a primeira-dama, Michelle Obama, e o vice, Joe Biden, tuitaram na noite de ontem fotos da infância e da juventude. O objetivo é incentivar os americanos a se cadastrar no plano federal de saúde, apelidado de Obamacare.

 

As fotos de Obama e Biden foram acompanhadas da frase “Não somos jovens e invencíveis para sempre” e da hashtag #TBT (Throwback Thursday, ou Quinta-feira de Mergulho no Passado), costume dos usuários do microblog de fazerem postagens relacionadas à infância e adolescência.

 

Os tuítes de Obama e Biden:

O de Michelle (#TBT para ser uma jovem invencível. Mas agora é hora de permanecer com saúde e ter cobertura”):

Fidel: "Não confio nos EUA, sem que isso signifique um rechaço a uma solução pacífica"

27 de janeiro de 2015 0
Fidel em sua última aparição pública, em 8 de janeiro de 2014 (reprodução/ZH)

Fidel em sua última aparição pública, em 8 de janeiro de 2014 (reprodução/ZH)

 

Na primeira manifestação sobre a reaproximação entre Cuba e Estados Unidos, anunciada em 17 de dezembro, o líder histórico da Revolução Cubana, Fidel Castro, dirigiu ontem uma carta aos estudantes da Universidade de Havana.

A carta foi lida pelo presidente da Federação Estudantil Universitária, Randy Perdomo, em cerimônia transmitida pela TV estatal.

A seguir, a íntegra do texto:

“Caros companheiros:

Desde o ano de 2006, por questões de saúde incompatíveis com o tempo e o esforço necessário para cumprir um dever – que me impus a mim mesmo quando ingressei nesta universidade em 4 de setembro de 1945, há 70 anos –, renunciei a meus cargos.

Não era filho de operário, nem carente de recursos materiais e sociais para uma existência relativamente cômoda; mas dizer que escapei milagrosamente da riqueza. Muitos anos depois, o norte-americano mais rico e sem dúvida muito capaz, com quase 100 bilhões de dólares, declarou – segundo publicou uma agência de notícias em 22 de janeiro passado – que o sistema de produção e distribuição privilegiada das riquezas converteria de geração em geração os pobres em ricos.

Desde os tempos da antiga Grécia, durante quase 3 mil anos, os gregos, sem ir mais longe, foram brilhantes em quase todas as atividades: física, matemática, filosofia, arquitetura, arte, ciência, política, astronomia e outros ramos do conhecimento humano. A Grécia, todavia, era um território de escravos que realizavam os mais duros trabalhos em campos e cidades, enquanto uma oligarquia se dedicava a escrever e filosofar. A primeira utopia foi escrita precisamente por eles.

Observem bem as realidades deste conhecido, globalizado e muito mal repartido planeta Terra, onde se conhece cada recurso vital depositado em virtude de fatores históricos: alguns com muito menos do que necessitam; outros, com tantos que não há o que fazer com eles. Em meio agora a grandes ameaças e perigos de guerras reina o caos na distribuição dos recursos financeiros e a divisão da produção social. A população do mundo cresceu, entre os anos 1800 e 2015, de 1 bilhão a 7 bilhões de habitantes. Poderão resolver-se desta forma o incremento da população nos próximos cem anos e as necessidades de alimento, saúde, água e moradia que terá a população mundial quaisquer que sejam os avanços da ciência?

Bem, mas deixando de lado estes enigmáticos problemas, é admirável pensar que a Universidade de Havana, nos dias em que ingressei nesta querida e prestigiosa instituição, há quase três quartos de século, era a única que havia em Cuba.

Quando vocês me convidaram a participar no lançamento da jornada pelo 70º aniversário de meu ingresso na universidade, o que soube com surpresa, e nestes dias muito atarefados por diversos temas nos que talvez possa ser entretanto relativamente útil, decidi descansar dedicando algumas horas à lembrança daqueles anos.

Me impressiona descobrir que se passaram 70 anos. Na realidade, companheiros e companheiras, se me matriculasse de novo nessa idade como alguns me perguntam, responderia sem vacilar que seria numa carreira científica. Ao me formar, diria como Guayasamín (1): deixem-me uma luzinha acesa.

Naqueles anos, influenciado já por Marx, consegui compreender mais e melhor o estranho e complexo mundo em que a todos nos correspondeu viver. Pude prescindir das ilusões burguesas, cujos tentáculos conseguiram enredar muitos estudantes quando menos experiência e mais ardor possuíam. O tema seria largo e interminável.

Outro gênio da ação revolucionária, fundador do Partido Comunista, foi Lenin. Por isso não vacilei um segundo quando no julgamento de Moncada, na audiência que me permitiram assistir, ainda que uma só vez, declarei ante juízes e dezenas de altos oficiais batistianos que éramos leitores de Lenin.

De Mao Tsé-tung não falamos porque ainda não havia concluído a Revolução Socialista na China, inspirada em idênticos propósitos.

Aviso, entretanto, que as ideias revolucionárias hão de estar sempre em guarda à medida que a humanidade multiplique seus conhecimentos.

A natureza nos ensina que podem haver transcorrido dezenas de bilhões de anos luz e a vida em qualquer de suas manifestações está sempre sujeita às mais incríveis combinações de matéria e radiações.

A saudação pessoal dos presidentes de Cuba (2) e dos Estados Unidos se produziu no funeral de Nelson Mandela, insigne e exemplar combatente contra o apartheid, que tinha amizade com Obama.

Basta assinalar que já nessa data haviam transcorrido vários anos desde que as tropas cubanas derrotaram de forma aplastante o exército racista da África do Sul, dirigido por uma burguesia rica e com enormes recursos econômicos. É a história de uma luta que está por ser escrita. A África do Sul, o governo com mais recursos financeiros desse continente, possuía armas nucleares fornecidas pelo Estado racista de Israel, em virtude de um acordo entre esse e o presidente Ronald Reagan, que o autorizou a entregar os dispositivos para o uso de tais armas com as quais golpear as forças cubanas e angolanas que defendiam a República Popular de Angola contra a ocupação desse país pelos racistas. Desse modo se excluía toda negociação de paz enquanto Angola era atacada pelas forças do apartheid com o exército mais treinado e equipado do continente africano.

Nessa situação não havia possibilidade alguma de uma solução pacífica. Os incessantes esforços para liquidar a República Popular de Angola para sangrá-la sistematicamente com o poder daquele bem treinado e equipado exército, foi o que determinou a decisão cubana de assestar um golpe contundente contra os racistas em Cuito Cuanavale, antiga base da Otan, que a África do Sul tratava de ocupar a todo custo.

Aquele prepotente país foi obrigado a negociar um acordo de paz que pôs fim à ocupação militar de Angola e o fim do apartheid na África.

O continente africano ficou livre de armas nucleares. Cuba teve que enfrentar, pela segunda vez, o risco de um ataque nuclear.

As tropas internacionalistas cubanas se retiraram com honra da África. Sobreveio então o Período Especial em tempo de paz, que já durou mais de 20 anos sem levantar bandeira branca, algo que não fizemos nem faremos jamais.

Muitos amigos de Cuba conhecem a exemplar conduta de nosso povo, e a eles explico minha posição essencial em breves palavras.

Não confio na política dos Estados Unidos nem troquei uma palavra com eles, sem que isso signifique, nem muito menos, um rechaço a uma solução pacífica dos conflitos ou perigos de guerra. Defender a paz é um dever de todos. Qualquer solução pacífica e negociada dos problemas entre os Estados Unidos e os povos ou qualquer povo da América Latina, que não implique a força ou o emprego da força, deverá ser tratada de acordo com os princípios e normas internacionais. Defenderemos sempre a cooperação e a amizade com todos os povos do mundo e entre eles os de nossos adversários políticos. É o que estamos reclamando para todos.

O presidente de Cuba deu os passos pertinentes de acordo com suas prerrogativas e as faculdades que lhe concedem a Assembleia Nacional e o Partido Comunista de Cuba.

Os graves perigos que ameaçam hoje a humanidade teriam que ceder passagem a normas que fossem compatíveis com a dignidade humana. De tais direitos não está excluído nenhum país.

Com este espírito lutei e continuarei lutando até o último alento.”

 

 Oswaldo Guayasamín (1919 – 1999), pintor equatoriano, entusiasta da Revolução Cubana e amigo de Fidel Castro. Ao morrer, disse a seus familiares que “deixassem uma luzinha acesa” porque sempre voltaria.

2 Raúl Castro Ruz (1931), presidente de Cuba e irmão de Fidel Castro.