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"Mulher Maravilha" ucraniana detém coluna de tanques

18 de abril de 2014 6

Um vídeo ao qual assisti nesta quinta-feira, em meio ao noticiário da rede britânica BBC, e cuja autenticidade não pude confirmar até o momento, vale mais do que mil palavras sobre o atual conflito na Ucrânia.

A sequência mostra uma mulher parando uma coluna de blindados ucranianos.

Detalhe: ela executa a manobra com uma mão só.

A cena teria ocorrido em Kramatorsk, região de Donetsk, leste do país.

A reprodução a seguir é feita a partir do canal Live Leak, do YouTube:

Troca de suvenires

09 de abril de 2014 2

eric

Então tá. O leitor Eric Raupp (acima, à esquerda, com o blogueiro, em foto de Camila Oliveira) foi o primeiro a responder corretamente o que era a imagem abaixo e a garantir o prêmio que tem nas mãos. Com esse suvenir singelo, Olhar Global homenageia na pessoa do Eric todos os seus leitores.

Ukraine 05March 175

 

O desafio (“Que lugar é este?”) foi lançado pelo Olhar Global no dia 5 de março. A resposta do Eric:

“O local é a entrada do Stadion Dynamo im Valery Lobanovsky, que até 2002 se chamava Stadion Dynamo, mas, desde então, teve adicionado o nome do ex-treinador da seleção de futebol da União Soviética, Valery Lobanovsky. O estádio é a antiga casa do Dínamo Kiev, que hoje joga no Olimpiyskiy National Sports Complex.

O Stadion Dynamo im Valery Lobanovsky abriga os jogos do Arsenal Kiev como mandante”.

Eric Raupp tem 18 anos e é estudante de Jornalismo da ESPM-Sul. Em visita à redação de Zero Hora com colegas de curso, ele distribuiu exemplares do Blog de Papel, jornal produzido na disciplina Oficina de Redação, sob a coordenação da querida colega e professora Ângela Ravazzolo.

Kennedy sobre o Brasil em 30 de julho de 1962: "Precisamos ter alguém lá que possa estabelecer ligações rapidamente"

03 de abril de 2014 2
Jango e Kennedy em maio de 1962: dois meses depois, o presidente americano discutiria na Casa Branca as perspectivas de uma "ação militar" contra o brasileiro

Jango e Kennedy em maio de 1962: dois meses depois, o presidente americano discutiria na Casa Branca as perspectivas de uma “ação militar” contra o brasileiro

 

No momento em que se discute o cinquentenário do golpe militar que derrubou o presidente João Goulart, o centro de pesquisa Arquivo de Segurança Nacional (National Security Archive, em inglês), vinculado à Universidade George Washington, em Washington, divulgou uma série de documentos recentemente desclassificados e até agora inéditos em português sobre o envolvimento americano na conspiração. Um dos materiais é justamente a primeira reunião de trabalho gravada no Salão Oval da Casa Branca, em 30 de julho de 1962, 21 meses antes da queda de Jango. O tema da reunião foi o Brasil.

No encontro, do qual participaram o presidente John F. Kennedy, o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, e Richard Goodwin, assessor de segurança nacional de Kennedy, o diplomata recomenda “deixar claro (…) que não somos necessariamente hostis a nenhum tipo de ação militar sempre que ficar claro que a razão é (…) que ele (Goulart) está entregando o maldito país para (…)”. 

– Os comunistas – complementa Kennedy.

Gordon qualifica o plano do governo de restabelecer o regime presidencialista de “golpe branco, como eles chamam”. Sete meses depois, a volta ao presidencialismo seria majoritariamente escolhida pelos brasileiros em plebiscito (9,4 milhões de eleitores optaram por esse regime, contra 2 milhões que escolheram o presidencialismo). Goodwin, por sua vez, afirma que os EUA desejam que “eles (os militares brasileiros) tomem conta no final do ano, se puderem”, referindo-se à derrubada de Jango.

Na reunião, os participantes decidem enviar ao Rio o coronel Vernon Walters (erroneamente citado como Dick Walters), ex-oficial de ligação do Comando Aliado com a Força Expedicionária Brasileira na Itália, amigo do então chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Humberto Castello Branco, e fluente em português.

A seguir, a íntegra da transcrição do encontro na Casa Branca:

Goodwin: Ele mudou muitos comandantes, comandantes militares nas unidades?
Gordon: Ele mudou alguns e está ameaçando mudar outros. Se irá mais longe nessas mudanças depende um pouco da resistência do Exército.
Eu penso que outro de nossos importantes trabalhos é reforçar a espinha do Exército. Deixar claro, discretamente, que não somos necessariamente hostis a nenhum tipo de ação militar sempre que ficar claro que a razão para a ação militar é –

Presidente Kennedy: Contra a esquerda.

Gordon: – ele está entregando o maldito país para –

Presidente Kennedy: Os comunistas.

Gordon: Exatamente. E há muitas evidências de que Goulart, propositalmente ou não, tem estado (incompreensível) isso.
Algumas semanas atrás logo depois que Dantas foi derrotado no Congresso, ele (Goulart) tinha um plano específico, que revelou a Kubitschek. Kubitschek contou-me isso em primeira mão. Um plano de nomear um gabinete dele sem um primeiro-ministro. Ele disse ao Congresso que não esperava que este Congresso ratificasse (o plano), mas ele esperava que o próximo Congresso o fizesse, o que será eleito em outubro. E convocaria um plebiscito agora para voltar ao regime presidencialista em outubro.
Kubitschek levou isso para 30 altos oficiais e eles lhe disseram unanimemente que isso era obviamente inconstitucional e que se Goulart tentar isso, eles iriam se opor a ele. Ele perguntou se ele poderia avisar Goulart disso. Eles todos disseram que sim, e alguns disseram, “Bem, seria melhor assinar nossos nomes numa declaração”. E ele foi até Goulart e Goulart recuou.
Você vê o tipo de coisa que ele tem em mente. Isto é… ele está pensando ativamente numa espécie de golpe branco, como eles chamam. E se o Exército estiver muito assustado… se eles sentirem que não há apoio em lugar nenhum, dentro ou fora, especialmente fora – o que significa nós – se eles entrarem em ação, então eles… Eles estavam, eu fui informado… Eu estava infelizmente doente na cama na semana retrasada, aos poucos consegui me levantar…

Presidente Kennedy: Sim.

Gordon: – na semana passada antes de eu voltar na quarta-feira. Tratei de ver Goulart, e o novo ministro das Relações Exteriores e o primeiro-ministro na terça-feira à noite, e Walter Moreira Salles no domingo.
Onze segundos suprimidos como informação classificada.

Gordon: Os militares. Posso ver que eles são muito amistosos conosco: muito anticomunistas, muito desconfiados de Goulart. E eles expressaram grande frustração com nossa posição no Peru.
Bem, posso explicar a eles quais são as circunstâncias políticas. Penso que é importante que deixemos isso claro, para essas pessoas amigas, os que realmente sabemos que são amigos –

Presidente Kennedy: Mas nesta –

Gordon: Que o caso peruano não é necessariamente –

Presidente Kennedy: Sim. Mas nesta semana estaremos certos outra vez reconhecendo o governo peruano.

Goodwin: Bem, penso que – se eles entendem que uma ação militar para salvar a constitucionalidade –

Presidente Kennedy: (Grunhe.)

Goodwin: – é bom. Então penso que essa é a razão pela qual não devemos ter a reunião da OEA porque isso poderia realmente desencorajar os militares. Se você reúne todos esses países e –

Presidente Kennedy: É.

Goodwin: – aprovando resoluções contra –

Presidente Kennedy: É isso que quero dizer hoje com este (incompreensível).

Goodwin: Porque devemos muito bem querer que eles (os militares brasileiros) tomem conta no final do ano, se puderem.

Gordon: Nós temos essa frente militar. E como eu a vejo sua primeira função é manter Goulart na linha –

Presidente Kennedy: Que tipo de relação temos com os militares?

Gordon: Bem, é muito boa.
Os militares não estão unidos. Essa é uma das coisas que tornam isso complicado. Há poucos oficiais que são fortemente esquerdistas, incluindo dois em altas posições: o comandante do I Exército, que fica na cidade do Rio de Janeiro… um sujeito muito perigoso. Goulart brincou com a ideia de fazê-lo ministro da Guerra e então recuou porque havia um diabo de um monte de (incompreensível).

Presidente Kennedy: Você acredita que se Goulart tivesse poder –
Você sabe que você entra nessas lutas com o Congresso e usa tudo para ter sucesso.

Goodwin: Eu penso, fortalecer nossas relações com os militares; estamos deixando nossa posição bem clara para eles. Talvez McNamara devesse rever as pessoas que tem lá e ver se ele pode (incompreensível).

Gordon: Bem, nós precisamos, nós precisamos de um novo adido militar urgentemente.

Goodwin: Veja, isso é outra coisa _

Gordon: O Exército é muito… é o… mais importante (das três Forças brasileiras). É o parceiro chave da relação.

Presidente Kennedy: O nosso é bom?

Gordon: O nosso atual é… ele é bom mas muito burro. Falei com o general (incompreensível) sobre ele.

Presidente Kennedy: Bem, claro, não temos muitos homens que possam falar português, temos?

Gordon: Bem, há alguns, não muitos, não muitos. Mas penso que McNamara…

Presidente Kennedy: Tudo bem. Agora vejamos – Quando você estará lá de volta?

Dez segundos suprimidos como material classificado.

Gordon: Sim.

Presidente Kennedy: Quando olhamos isso agora antes de – para sabermos para onde estamos indo?

Goodwin: Bem, o senhor tem o último –

Presidente Kennedy: Como esse Exército – Com quem você está falando sobre mudar o adido militar?

Gordon: Falei com o general (incompreensível).

Presidente Kennedy: Bem, agora, há alguma utilidade em trocar uma pessoa quando em três meses você será capaz de – terá de – ele poderá estabelecer seus contatos em três meses?

Gordon: Uh, sim.

Presidente Kennedy: Há alguém que já esteve lá antes, que tenha boas relações e nós possamos mandar outra vez?

Goodwin: Que tal esse (incompreensível) de Eisenhower?

Gordon: Dick Walters?

Goodwin: Dick Walters.

Gordon: Ele está em Roma.

Presidente Kennedy: Ele sabe alguma coisa sobre Portugal?

Goodwin: Ele sabe português fluentemente.

Gordon: Oh, ele fala português fluentemente. Ele é um sujeito muito bom; ele tem bom senso político também.

Goodwin: Ele era o intérprete de Eisenhower lá, não?

Gordon: Ah, sim, ah, sim. Ele seria maravilhoso. Ele foi _

Presidente Kennedy: Agora, o que vamos fazer sobre isso? Quero dizer, quem vamos pegar? Precisamos ter alguém lá que possa estabelecer ligações rapidamente… Você tem que falar português.

Goodwin: Por que não falamos com Ros Gilpatric ou alguém?

Presidente Kennedy: OK, bem, isso precisa ser feito hoje.

Quinze segundos suprimidos como informação classificada.

Presidente Kennedy: Você diz que não preciso escrever para Goulart de novo, para lhe pedir que faça algo?

Gordon: Não, não.

Goodwin: Você sabe, seu irmão estava no primeiro encontro que definiu este programa político. Foi basicamente por estímulo dele que se tomou esse rumo.

Presidente Kennedy: Sim.

Gordon: Agora.

Presidente Kennedy: Ele estará na reunião amanhã?

Goodwin: Seria uma boa ideia.

Presidente Kennedy: Você, você diria a ele? Sim.

Gordon: Há um – há dois pequenos problemas aqui comigo.
Kubitschek lhe escreveu uma carta, que tenho aqui comigo.

Presidente Kennedy: Bem, ele está apoiando Goulart?

Gordon: Não, não.

Presidente Kennedy: Ele está preocupado?

A censura não compensa

31 de março de 2014 3
Erdogan: tentativa frustrada de engaiolar Twitter

Erdogan: tentativa frustrada de engaiolar Twitter (foto Khayan Ozer, AFP)

 

Mais do que um novo desdobramento da queda de braço entre o governo do primeiro- ministro Recep Tayyip Erdogan e o Judiciário turco, a decisão de um tribunal administrativo de Ancara de cancelar o bloqueio do microblog Twitter deve servir de alerta a todos os aprendizes de autocrata no planeta.
A grande lição a se tirar do episódio – e que vale para todos os governos, do Oriente Médio às Américas – é que a censura à internet não compensa.

O governo turco não é o primeiro, e certamente não será o último, a tentar impor algum tipo de censura sobre o universo virtual.

Em 2009, diante da emergência de um importante movimento de oposição que recorria amplamente à mobilização pelas redes sociais, os aiatolás iranianos tentaram bloquear a internet.

Dois anos depois, o quase ex- ditador egípcio Hosni Mubarak ordenou a prisão do então executivo do Google Wael Ghonim, que criara uma página de protesto no Facebook, e tirou efetivamente a rede mundial do ar no Cairo por quatro dias.

Rapidamente, os oposicionistas inventaram uma maneira de furar o bloqueio: enviavam mensagens de texto via celular para o exterior, onde eram rapidamente replicadas pelo Twitter e outras ferramentas.

Desta vez, os 12 milhões de usuários da rede na Turquia praticamente desconheceram a proibição.“ É impossível deixar que um regime totalitário silencie a tecnologia”, afirmou o líder de oposição Mrehan Halici.

O próprio presidente Abdullah Gül, conhecido usuário das redes, criticou a censura.

O objetivo de Erdogan era abafar as denúncias de corrupção contra o governo, amplamente ecoadas pelos tuiteiros.
No auge da paranoia, o premier chegou a ameaçar YouTube e Facebook.

Com isso, só conseguiu amplificar ainda mais as suspeitas contra seu governo.

Missão humanitária

31 de março de 2014 0
Forças russas em plena intervenção humanitária na Crimeia (foto Dmitri Serebriakov, AFP)

Forças russas em plena intervenção humanitária na Crimeia (foto Dmitri Serebriakov, AFP)

 

Um dos argumentos utilizados pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, para justificar a intervenção e, em seguida, a anexação da Crimeia foi o de que se tratava de uma “ missão humanitária”. Até aí, nada de novo. Como lembra o historiador Eric Hobsbawm, mesmo a I Guerra Mundial, o conflito de rapina por excelência da era moderna, foi apresentado pelos governos de todas as potências envolvidas a seus próprios cidadãos como uma luta defensiva.
Era uma guerra“ pela civilização”, segundo os governos britânico e francês,“ pela fé cristã e pela Europa”, na versão do império russo, ou uma“ guerra para acabar com todas as guerras”, na fórmula do escritor britânico H. G. Wells abraçada pelo presidente americano Woodrow Wilson.
Mesmo esse tipo de apelo propagandístico tornou- se impopular na segunda metade do século passado. Popularizou- se, então, a ideia das intervenções de caráter humanitário, que tinham a expressiva vantagem de não serem estigmatizadas pela Carta das Nações Unidas.

Autora de Direito Internacional Atual (editora Elsevier), Liliana Jubilut lembra que o direito internacional é composto“ de vários princípios que às vezes conflitam entre si efetiva ou aparentemente”. Para ela, o avanço das questões humanitárias e de direitos humanos no pósguerra fez com que essas causas fossem envolvidas por um“ sentido de legitimidade e de legitimação das ações”.“ O vocabulário do ‘ humanitário’e dos‘ direitos humanos’ passou a revestir as condutas estatais de determinado senso de adequação a valores mais amplos e de respeito à dignidade humana.
Em função disso, percebem- se tentativas de definir como humanitárias ou como fundadas em direitos humanos ações que não têm esse escopo, apenas para aumentar o seu grau de aceitação ou de legitimidade. Isso se relaciona à busca de soft power ( poder brando) no cenário internacional. Tenta- se revestir ações de hard power (poder duro) com questões de soft power”, afirma a autora.

Liliana: vocabulário humanitário permitiu que ações de Estados fossem vinculadas a valores humanos mais amplos (foto arquivo pessoal)

Liliana: vocabulário humanitário permitiu que ações de Estados fossem vinculadas a valores humanos mais amplos (foto arquivo pessoal)

Para Liliana, essas tentativas podem levar a um enfraquecimento da retórica humanitária, mesmo que não tenham a capacidade de excluí- la das relações e do direito internacionais. “O que esse tipo de atitude exige é uma mais clara relação entre as condutas e seus fundamentos humanitários para que aquelas possam ser tidas como real, efetiva e majoritariamente (ainda que não exclusivamente) humanitárias”, finaliza.

Guantánamo sul-americana

25 de março de 2014 1
Guardas americanos conduzem prisioneiro em Guantánamo: o que o Uruguai tem a ver com isso? (foto Peter Muhly, AFP)

Guardas americanos conduzem prisioneiro em Guantánamo: o que o Uruguai tem a ver com isso? (foto Peter Muhly, AFP)

 

Antes de ser transformado pela ditadura militar instaurada em 1973 numa “vasta câmara de tortura”, nas palavras do escritor Eduardo Galeano, o Uruguai gozava de reputação mundial de neutralidade e respeito às liberdades civis, a ponto de ser apelidado de “Suíça sul-americana“. O país aboliu a escravidão em 1842, quase duas gerações antes do Brasil. Nos primeiros meses da II Guerra, acolheu a maior parte da tripulação do encouraçado de bolso alemão Almirante Graf Spee, enquanto seu comandante, Hans Langsdorff, colocava o navio a pique na foz do Prata a fim de impedir que caísse nas mãos dos britânicos. A generosidade uruguaia acolheu Giuseppe Garibaldi, Gaspar Silveira Martins, Cândido Portinari, João Goulart e Leonel Brizola. Em matéria de direito de asilo, portanto, raros são aqueles em condições de dar lições ao Uruguai.
A recente decisão do presidente José Mujica, porém, de atender a pedido americano para abrigar ex-prisioneiros oriundos de Guantánamo presta-se a pelo menos um questionamento. Em 2002, no auge da chamada guerra global ao terror, o governo George W. Bush decidiu instalar na base militar localizada em Cuba um presídio destinado a abrigar suspeitos de terrorismo. A intenção era manter os detidos numa espécie de limbo jurídico e privá-los de garantias a que teriam direito se fossem levados para os Estados Unidos. Sete anos depois, quando abusos cometidos na penitenciária iraquiana de Abu Ghraib e dezenas de aberrações políticas e jurídicas haviam minado a credibilidade da “guerra ao terror”, os eleitores americanos elegeram para a presidência um homem que prometia fechar Guantánamo: Barack Obama. Desde então, a prisão em solo cubano tornou-se uma batata quente para a Casa Branca.

Mujica tem o direito de dar guarida a quem quiser, negociando ou não em troca a libertação de presos cubanos ou do sabiá na gaiola. O que falta explicar é por que a Suíça sul-americana tem de se tornar a esta altura a Guantánamo do Cone Sul. E faria bem o presidente uruguaio se deixasse de rodeios e dissesse logo quais outros países latino-americanos aceitaram fazer esse favor a Obama.

Leia a íntegra do discurso de Putin na assinatura da anexação da Crimeia

24 de março de 2014 0

Ceremony signing the laws on admitting Crimea and Sevastopol to the Russian Federation.

 

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, assinou na sexta-feira no Kremlin (sede do governo russo), em Moscou, as leis de admissão da Crimeia e de Sebastopol na Federação Russa. A seguir, traduzida da versão em inglês no site do governo russo, a íntegra do discurso de Putin, da presidente do Conselho da Federação, Valentina Matviyenko, e do presidente da Duma, Sergei Naryshkin:

 

O PRESIDENTE DA RÚSSIA, VLADIMIR PUTIN:

Colegas,

Este é um grande e importante acontecimento. Estamos completando hoje os procedimentos legais para admitir a Crimeia e Sebastopol na Federação Russa.

Quero agradecer aos deputados da Duma de Estado e aos membros do Conselho da Federação por seu criterioso e ao mesmo tempo rápido exame destes documentos muito importantes, ratificando o acordo sobre a adesão da Crimeia e de Sebastopol à Federação Russa e aprovando a Lei Constitucional sobre admissão de novas entidades constituintes à Federação Russa.

Eu me congratulo com todos vocês, todo o povo da Rússia e todos os residentes da Crimeia e de Sebastopol nesta ocasião, que é sem exagero um acontecimento memorável.

Senhora Matviyenko, por favor, prossiga.

A PRESIDENTE DO CONSELHO DA FEDERAÇÃO, VALENTINA MATVIYENKO: Senhor presidente, colegas,

É provavelmente muito simbólico que nos encontremos aqui no Salão de Catarina, e no equinócio de primavera, que marca o giro em direção ao sol e à aurora. Penso que o povo da Rússia está cheio de tantos sentimentos ensolarados e celebratórios hoje com essa reunificação com nossos irmãos da Crimeia. Duzentos e cinquenta anos atrás, durante o reinado de Catarina, a Grande, a afamada terra de Taurida tornou-se parte da Rússia. A longa história da Crimeia, que é cheia de tempos difíceis e eventos trágicos, é parte de nossa história agora.

Houve muitas tentativas de tomar a Crimeia da Rússia, muitas tentativas de evitar que a Rússia tivesse acesso ao Mar Negro. A heroica defesa de Sebastopol durante a Guerra da Crimeia e o imortal feito da cidade durante a batalha contra o nazismo estão gravados para sempre na crônica de nossa história.

A recente história da Crimeia foi difícil também e se desenvolveu diante de nossos próprios olhos. A história trágica da Crimeia começou não com Maidan em Kiev, mas com a arbitrária decisão de Khruschev, tomada ao arrepio da constituição da União Soviética.

O drama da Crimeia continuou um quarto de século depois com os Acordos de Belaveja. Já em 1992, o povo da Crimeia quis realizar um referendo mas foi incapaz de fazê-lo. Seus 20 anos de luta finalmente terminaram em sucesso: eles fizeram um referendo no qual os povos da região expressaram sua vontade unânime.

O evento histórico que estamos testemunhando hoje foi tornado possível por esta decisão unânime do povo da Crimeia, e graças à resolução firme de nosso presidente e ao apoio do povo de todo o nosso país.

Senhor presidente, quero informá-lo que o Conselho da Federação unanimemente aprovou duas leis hoje que completam o procedimento legal para a reunificação da Crimeia com a Rússia.

Penso que essa é uma boa razão para parabenizar a todos, parabenizar o povo na Crimeia e na Rússia por esta excepcional vitória e este grande acontecimento histórico. Senhor presidente, na segunda-feira as bandeiras de nossas duas entidades constituintes tremularão no prédio do Conselho da Federação, juntamente com as bandeiras de nossas demais regiões, e um novo mapa será exibido no prédio, mostrando a Crimeia como parte de nosso país. Eu espero que quatro senadores de nossas duas novas entidades constituintes em breve reúnam-se a nós no Conselho da Federação.

Senhor presidente, obrigado por sua determinação e coragem e por não ceder a nenhuma pressão. Desejo que o senhor tenha sentido nosso apoio constante durante este período.

PRESIDENTE DA DUMA, SERGEI NARYSHKIN:

Senhor presidente, colegas.

Estamos cheios de verdadeiro orgulho hoje em razão destes acontecimentos e decisões históricos. Senhor presidente, estamos gratos ao senhor por sua posição firme que lembrou a muitos que a grandeza da Rússia repousa não apenas no passado ou no futuro, mas está conosco no presente também.

Muitos dos deputados da Duma visitaram a Crimeia durante o último mês e viram nos olhos do povo de lá em primeiro lugar a esperança e depois a alegria de ter o apoio da Rússia. Esse apoio deu a eles confiança e eles fizeram uma escolha clara e inequívoca de retornar a sua pátria, e sua pátria estava esperando.

Os deputados da Duma entenderam a situação muito claramente e entenderam o estado de espírito do povo na Crimeia e por que eles tomaram uma decisão tão firme. Ontem, ao som do hino nacional da Rússia, deputados da Duma de todos os quatro partidos aprovaram a lei ratificando o acordo para admitir na Federação Russa duas novas entidades constituintes e aprovaram a lei constitucional federal sobre esse tema.

Está perfeitamente claro para nós que a Rússia e o povo da Crimeia agiram em estrito acordo com a legislação internacional. Aqueles que têm dúvidas sobre este ponto deveriam refrescar suas memórias e ler a Carta das Nações Unidas e outros textos básicos da lei internacional.

VALENTINA MATIVIYENKO:

Perdão, senhor presidente, mas quando deputados das assembleias legislativas da Crimeia e de Sebastopol nos visitaram, Nikolai Ryjkov (membro do Conselho da Federação) disse: “Nós nunca vamos abandonar vocês de novo”. Obrigado.

(…)

VLADIMIR PUTIN:

Colegas,

Assinei várias ordens executivas hoje, incluindo uma estabelecendo um novo distrito federal – o Distrito Federal da Crimeia, e nomeei Oleg Belaventsev enviado presidencial plenipotenciário ao novo distrito federal.

Temos muito trabalho à frente para integrar a Crimeia nos sistemas legal, econômico e social russos. Discuti essas questões ontem com o governo e hoje novamente com o Conselho de Segurança, e pedi aos deputados da Duma e aos membros do Conselho da Federação e da Assembleia Federal como um todo para tomarem parte ativa neste trabalho e fazer tudo que estiver a seu alcance para assegurar que esse processo não apenas corra tranquilamente mas beneficie a todos na Rússia e na Crimeia.

Muito obrigado por este trabalho conjunto.

Enquanto isso, na Síria

21 de março de 2014 0
Soldados sírios comemoram tomada do Krak dos Cavaleiros (foto Sam Skaine, AFP)

Soldados sírios comemoram tomada do Krak dos Cavaleiros (foto Sam Skaine, AFP)

 

Enquanto a Rússia consolida a ocupação da Crimeia, mais a leste um aliado do presidente Vladimir Putin colhe dividendos da crise no leste europeu. Em menos de uma semana, o exército do ditador Bashar al-Assad reconquistou três cidades na província de Homs, na fronteira com o Líbano. Uma das localidades tomadas é Al-Hosn, onde se encontra o castelo medieval construído pelos cavaleiros da Ordem dos Hospitalários, na época das Cruzadas. O feito servirá fartamente para fins de propaganda de Damasco. Afinal, nem o general curdo Saladino, que reconquistou Jerusalém das mãos dos europeus, conseguiu retomar a fortaleza de Al-Hosn. A aviação síria, por seu turno, bombardeou uma área no interior do país vizinho, deixando 25 feridos. Em meio ao escândalo provocado pela anexação da península vinculada à Ucrânia, o ataque sírio ao Líbano dificilmente merecerá mais do que uma débil condenação. A guerra civil síria já deixou cerca de 160 mil mortos.

O avanço do exército sírio em Homs é vital para a campanha contra os rebeldes, que completa este mês o quarto aniversário. Bastião rebelde, a província se beneficia da proximidade com o Líbano, onde a guerrilha encontra refúgio, armamento e reforços. Com a tomada de Al-Hosn, Yabrud e Ras-al-Ayn, as forças leais a Al-Assad privam a oposição de um importante fator de “profundidade estratégica”. Por outro lado, a necessidade de se contrapor à anexação da Crimeia tornará mais improvável o auxílio ocidental aos rebeldes sírios.

Assim, fica constituído, na prática, um novo Eixo da Ordem (ou da Força) no Mediterrâneo Oriental, que vai de Sebastopol a Damasco. Analistas mais ingênuos insistem em atribuir à ação de Putin, seja na Crimeia ou na Síria, um caráter democrático e “civilizatório”. Falta-lhes a perspicácia de um Henry Kissinger, que, do alto de seus mais de 60 anos de apoio às piores ditaduras do mundo em nome da Realpolitik, prega uma acomodação aos interesses russos (“Líderes de todos os lados deveriam retornar ao exame de alternativas, não à competição em atitudes”, escreveu no jornal The Washington Post). O resto são contos de fadas para embalar sonos tranquilos.

Sakineh está livre

20 de março de 2014 0
Em imagem de 2010 divulgada pelo canal iraniano estatal Press TV, Sakineh aparece em sua casa em Osku, noroeste do Irã (AFP, reprodução)

Em imagem de 2010 divulgada pelo canal iraniano estatal Press TV, Sakineh aparece em sua casa em Osku, noroeste do Irã (AFP, reprodução)

Discretamente, o regime dos aiatolás iranianos libertou na terça-feira a camponesa Sakineh Mohammadi Ashtiani, conforme informação da agência Reuters. Ela havia sido condenada à morte por apedrejamento por uma corte islâmica em 2006 pelos crimes de adultério e cumplicidade no assassinato do marido, no ano anterior. Uma intensa campanha internacional, que recebeu a adesão de Hillary Clinton e Dilma Rousseff, resultou na comutação da pena para 10 anos de prisão em 2010. Falando em nome do Judiciário, um porta-voz afirmou que a libertação foi motivada pelo “bom comportamento” da ré. Até o momento, Sakineh não fez qualquer pronunciamento sobre a decisão. É impossível separar sua libertação do esforço do presidente Hassan Rouhani para apresentar uma imagem mais palatável no Exterior em meio às negociações sobre o programa nuclear.

Desde que assumiram o poder, em 1979, alijando outras forças que se opuseram ao regime do xá Reza Pahlevi, os aiatolás iranianos chocaram o mundo ao adotar um código penal baseado em preceitos medievais, que criminalizava o adultério e o homossexualismo e ressuscitava penalidades bárbaras como a amputação de membros. Essa postura rendeu ao regime de Teerã uma aura de puritanismo e rigidez moral que apenas disfarça a natureza hipócrita do clero xiita.

Adultério, prostituição, pornografia e drogadição são tão comuns nas cidades iranianas como em outras partes do mundo, e a realidade das zonas rurais difere daquela das metrópoles mais em razão do atraso e da pobreza do que do respeito às leis. O correspondente da Folha de S.Paulo Samy Adghirni, primeiro correspondente brasileiro em tempo integral em Teerã, mantém um blog com vívidos relatos do cotidiano no país, que contrastam de forma marcante com o estereótipo de moralismo propalado pelo regime. Um diplomata com conhecimento dos usos e costumes do país afirma que a condenação de Sakineh à morte por apedrejamento é explicada por sua condição de mulher pobre do campo, e não pela suposta severidade na punição do adultério.

Evidentemente, as mulheres sofrem de forma mais intensa a opressão do regime, como ocorre em outros países não xiitas, como Arábia Saudita, Paquistão e Índia. Em passagem por Porto Alegre há dois anos, a Nobel da Paz iraniana Shirin Ebadi lembrou que as iranianas estiveram na linha de frente da luta contra a ditadura do xá e, depois, provaram o gosto amargo da bota dos aiatolás. Agora em liberdade, Sakineh será uma voz importante no esforço para sepultar esse regime nefasto.

Fracasso da vigilância

19 de março de 2014 0
Estudantes escrevem mensagens sobre o sumiço do Boeing da Malaysia Airlines (foto Mohd Rasfan, AFP)

Estudantes escrevem mensagens sobre o sumiço do Boeing da Malaysia Airlines (foto Mohd Rasfan, AFP)

 

A hipótese de que o sumiço do Boeing 777 da Malaysia Airlines tenha sido obra de terroristas emite um sinal perturbador para os Estados Unidos e a China, principais potências envolvidas nas buscas pelo voo. Treze anos depois do primeiro registro histórico de uso de aviões civis como mísseis, uma aeronave comercial com 239 pessoas a bordo perde contato com as autoridades em terra, muda de direção ao deixar o espaço aéreo de origem, voa por quase sete horas e desaparece sem deixar vestígios. Até o momento, o governo da Malásia, último país a fazer contato com o Boeing, não forneceu qualquer indício de que a aeronave tenha sido sequestrada ou desviada deliberadamente de sua rota com base nas comunicações entre a tripulação e a torre de controle.
Depois do 11 de Setembro, o transporte aéreo internacional passou por uma verdadeira revolução em matéria de vigilância e segurança a fim de prevenir ataques terroristas. O governo George W. Bush e seus aliados no mundo inteiro decretaram uma “guerra global ao terror” que levou à invasão de dois países e a um fantástico incremento nos gastos com espionagem e operações secretas. Em janeiro, um estudo coordenado pelo jornalista e especialista em terrorismo Peter Bergen para a New America Foundation desmentiu de forma categórica que o aparato legal e tecnológico de vigilância surgido durante o governo Bush tenha tido impacto significativo na prevenção do terrorismo. Segundo o estudo, os programas da Agência de Segurança Nacional (NSA) voltados para monitoramento de cidadãos não americanos fora dos EUA tiveram utilidade em apenas 4,4% de 225 casos analisados. Trata-se de um rotundo fracasso.

 

O mais surpreendente, no caso malaio, é que as investigações sobre o voo MH370 já se voltaram, na prática, para a hipótese de sequestro ou atentado, mas até o momento não surgiram suspeitas concretas de envolvimento com organizações terroristas contra nenhum dos tripulantes ou passageiros. Onze dias depois do 11 de Setembro, o mundo já conhecia em detalhes a história do egípcio Mohammed Atta e de seus 17 comparsas nos atentados de Nova York e Washington. Se a probabilidade de terrorismo estiver correta, o comandante Zaharie Ahmad Shah, 53 anos, e seu copiloto Fariq Abdul Hamid, 27 anos, seriam um caso altamente curioso de “lobos solitários” – como são chamados os terroristas que permanecem incógnitos por muitos anos até, finalmente, emergir das sombras e partir para o ataque. A partir dos indícios fornecidos pela Malásia, porém, nem mesmo essa especulação está autorizada.