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Resta ir embora

29 de outubro de 2014 0
A primeira edição brasileira de "Todos os Homens do Presidente", pela Francisco Alves

A primeira edição brasileira de “Todos os Homens do Presidente”, pela Francisco Alves

Não devo ser o único que, ao ouvir falar dos repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward, lembra instantaneamente dos atores Dustin Hoffmann e Robert Redford. No meu caso, a memória não está associada ao cinema, mas a uma velha edição de seu livro mais famoso. Na capa, abaixo do título genial – e imitado à exaustão por mais de 40 anos –, havia a foto dos astros de Hollywood que tinham encarnado os autores da obra no longa de Alan J. Pakula. Até ontem, minha recordação mais antiga dos protagonistas da mais importante investigação jornalística da história, que levou Richard Nixon a renunciar à presidência dos Estados Unidos, ficou parecendo uma capa antiga da revista People.
E por que até ontem? Porque a história do Caso Watergate, que nunca chega ao fim, acaba de ser acrescida de mais uma imagem icônica. Durante o funeral de Ben Bradlee, o nonagenário ex-editor do The Washington Post e comandante da investigação que levou Nixon à renúncia, Bernstein e Woodward se revezaram na tribuna para saudar o ex-chefe. Os dois tipos meio cabeludos dos anos Watergate parecem hoje mais velhos do que Nixon jamais foi: cabelos brancos, rugas, a postura encurvada própria de uma vida em busca do melhor lide, da citação exata, da palavra precisa – enfim, de algo que não manche a reputação dos que escreveram Todos os Homens do Presidente.

 

Woodward (E) e Bernstein

Woodward (E) e Bernstein

 

Bradlee morreu. Woodward reagiu com despeito aos vazamentos de Edward Snowden. Só Bernstein assumiu a defesa do ex-analista de inteligência e dos jornais que publicaram suas revelações. Não se sabe de quem foram as últimas palavras no funeral de ontem. Assim como o título do livro sobre Watergate, poderiam ser de Shakespeare: “Resta ir embora, para falar um pouco mais dessas coisas tristes. Algumas serão perdoadas, outras serão punidas”.

Homens e anjos

29 de outubro de 2014 2
Autógrafo e lombada da primeira edição de "A Origem das Espécies" (1859). Temores sobre as implicações religiosas de sua doutrina levaram Darwin a retardar por cerca de 20 anos a publicação da obra

Autógrafo e lombada da primeira edição de “A Origem das Espécies” (1859)

 

Nem só de guerra total é feita a história das relações entre religião e ciência. Entre uma e outra revolução científica, passado o impacto blasfemo de uma nova teoria ou descoberta, as duas velhas inimigas entregaram-se a longos períodos de convívio, comércio e até coabitação. Esses intervalos pacíficos normalmente coincidiram com épocas em que o avanço do conhecimento resultou em grandes inovações tecnológicas capazes de melhorar a vida do homem comum. A partir do século 17, mudanças desse tipo tornaram- se quase contínuas, com o crescimento da população e o avanço da educação e das comunicações. Não por coincidência, surgiu pela primeira vez por essa época uma corrente de pensamento, o Iluminismo, decidida não apenas a desafiar o monopólio da religião sobre o conhecimento como a extingui- lo.

Principal alvo do desafio iluminista, a Igreja – especialmente a mais poderosa de todas, a Católica Romana – soube adaptar suas técnicas de guerra aos novos tempos. Durante séculos, seus pensadores haviam lançado as bases de uma teologia natural, capaz de absorver as contribuições da ciência evitando o impacto frontal contra os dogmas religiosos. Essa manobra astuta no terreno das ideias, combinada a recursos menos sofisticados – como excomunhão, prisão e tortura –, produziu gerações de cientistas dispostos a conciliar seus experimentos com os versículos bíblicos.

Ao afirmar que a Teoria da Evolução e o Big Bang são compatíveis com a existência de um Criador, o papa Francisco apenas atualiza uma tradição católica de pensamento mais antiga do que Darwin. Seu principal efeito, agora como há um século e meio, é o de intimidar cientistas e público leigo. Afinal, o próprio autor de A Origem das Espécies escreveu em uma de suas cadernetas, antes de se decidir a publicar sua obra máxima: “ Se todos os homens estivessem mortos, então os macacos fazem os homens – os Homens fazem os anjos”.

Passinho à frente

10 de outubro de 2014 0

O texto abaixo foi o primeiro publicado na coluna Olhar Global, em Zero Hora, em 5 de janeiro de 2012.

 

Em 14 de julho de 1944, uma americana chamada Irene Morgan ( 1917 – 2007) tomou um ônibus interestadual em Gloucester, Virginia, com destino a Baltimore, Maryland.
A viagem duraria cerca de quatro horas, mas foi interrompida pouco depois de uma hora, em Richmond.
Irene tinha se recusado a ceder o assento que ocupava a uma pessoa branca.
Foi presa e condenada.
Seus advogados apelaram nos tribunais estaduais, e dois anos depois o processo chegou à Suprema Corte.
A defesa recorreu a um argumento artificioso: ao legalizar a segregação racial no transporte interestadual de passageiros, a Virgínia criava um ônus ilegal ao comércio entre os Estados, infringindo o primeiro artigo da constituição.
Um dos juízes afirmou em seu voto que nem a imposição de ônus ao transporte interestadual de passageiros ficara provada, nem o Judiciário tinha competência para estabelecer uniformidade nacional de condições comerciais.
Por seis votos a um, a Corte decidiu que as leis estaduais de segregação não seriam aplicadas no transporte de pessoas entre Estados.
– Quando algo está errado, está errado. Tem de ser corrigido – dizia Irene Morgan sobre o episódio.

***

Em 1 º de dezembro de 1955, uma americana chamada Rosa Parks ( 1913 – 2005) tomou o ônibus 2.857 no centro de Montgomery, Alabama, e sentou- se em um dos primeiros lugares da parte reservada aos negros, nos fundos do veículo.
A uma certa altura, o ônibus ficou lotado com o embarque de passageiros brancos.
O motorista disse aos quatro negros a bordo: “ Preciso desses lugares”.
Três levantaram- se; Rosa não se moveu.
Foi presa e condenada a pagamento de multa por violar o código municipal.
Em protesto contra a condenação, os negros de Montgomery promoveram um boicote de 13 meses ao sistema de transporte.
Só voltaram a embarcar quando a Suprema Corte decidiu que as leis de segregação em ônibus eram inconstitucionais.
– A única coisa que me aborrece é que esperamos tanto para realizar aquele protesto – disse Rosa em 1995.

***

Em 9 de outubro de 2012, uma paquistanesa chamada Malala Yousafzai tomou um ônibus escolar em Mingora, noroeste do Paquistão.

 

Malala Yousafzai (foto Oli Scarff, AFP)

Malala Yousafzai (foto Oli Scarff, AFP)

Desafio cabralino (3)

10 de outubro de 2014 0

E segue o Desafio Cabralino!

Do Victor Ghiorzi:

victorvictor

E do Anderson, do Dieverson, da Morgana e da Luisa pela lente de Lucas Malheiros:

lucas

 

 

Participe do Desafio Cabralino. Mande seu verso!

 

Degoladores

08 de outubro de 2014 0

Em parte por força da disputa eleitoral, sobraram críticas ao discurso da presidente Dilma Rousseff na Organização das Nações Unidas (ONU), há 14 dias. Não porque a mandatária tenha dito que “o uso da força é incapaz de eliminar as causas profundas de conflito” ao mesmo tempo que mantém ocupação de uma década no Haiti e silencia diante dos regimes turco e sírio. O que pareceu intolerável foi o fato de Dilma ter atacado o uso da força um dia depois de os Estados Unidos bombardearem posições do Estado Islâmico (EI) na Síria. Não é possível dialogar com terroristas cortadores de cabeças, afirmaram muitos.

Deixei-se de lado o fato de os que se mostram indignados com Dilma transitarem por ruas chamadas Prudente de Morais (cujas tropas promoveram degola em massa em Canudos). Ou por avenidas batizadas em honra de Julio de Castilhos (que saudou a decapitação de Gumercindo Saraiva com o brado “Pesada como os Andes te seja a terra que teu cadáver maldito profanou”). O fato é que os bombardeios – cirúrgicos, como sempre – da coalizão já destruíram poços de petróleo e uma usina de gás no norte da Síria, mas não detiveram os rebeldes. Longe disso: sua ofensiva avança.

A lógica da política americana para o Oriente Médio empurrou os EUA para uma nova guerra. O ex-secretário de Defesa Leon Panetta previu que durará 30 anos. Enquanto isso, o vice Joe Biden é obrigado a se desculpar por dizer que “o maior problema” americano na região não são os inimigos, e sim os aliados.

"Jihadi John" (E) e Prudente de Morais: dize-me quem degolas...

“Jihadi John” (E) e Prudente de Morais: dize-me quem degolas…

Ciao, Bela

06 de outubro de 2014 0

bela

 

O domingo de trabalho começou do jeito que Maria Isabel Hammes gostava. Disputa acirrada, prognósticos colocados à prova, certezas da véspera postas em dúvida – e comparações com 1989, 2002, 2010. Bela brilhou como repórter, editora e colunista de Economia, mas nunca deixava de se envolver com a cobertura eleitoral. Foi assim que a conheci em 1996, quando acompanhamos juntos a eleição municipal daquele ano.

E então veio a notícia triste para a qual não tínhamos o antídoto do esplendoroso bom humor da Bela.

Neste domingo, foi impossível não lembrar da sua voz, da sua risada, das brincadeiras com colegas e fontes, da maneira despachada e única com que ela se referia ao mais sisudo empresário ou ao mais inalcançável dono do poder. Difícil olhar sua mesa de trabalho repleta de cadernos, pastas e livros que ficaram esperando sua volta. Inevitável recordar suas tantas ligações nas manhãs de sábado, quando ela, no comando da redação em turno de plantão, encarregava-se de dar a primeira resposta à mais nova volta do parafuso da história:

– Luizinho, queremos te colocar no avião para a Ucrânia daqui a três horas.

Desta vez, ela não estava aqui para ver o parafuso girar e nos encantar com sua paixão pela vida e pelo trabalho.

Desafio cabralino (2)

05 de outubro de 2014 0

Do Giovane André Radtke:

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Participe do Desafio Cabralino!

 

 

Desafio cabralino

05 de outubro de 2014 0

Na quinta-feira, completam-se 15 anos da morte de João Cabral de Melo Neto.

Como homenagear o autor de uma obra que já transpôs há muito tempo a página impressa (da qual, aliás, ele era um fanático, tanto que chegou a adquirir uma prensa manual em seus tempos de serviço diplomático em Barcelona) e ganhou o teatro, a música, o vídeo?

Inspirado por uma troca de e-mails com o leitor Giovane André Radtke, de Santa Cruz do SulOlhar Global convida todos a compor, nessa grande prensa manual que é a internet, o poema mais famoso de João Cabral por meio de imagens, verso por verso.

Se você quiser incluir o seu verso aqui, envia a imagem para luiz.araujo@zerohora.com.br

Se for usar as redes sociais, adicione as hashtags #desafiocabralino e #15anosssemjoaocabral

Aqui, o primeiro verso (pulo de propósito o título, Morte e Vida Severina, e a primeira linha, “O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI”):

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Teórico da sociedade em rede apoia Marina

27 de setembro de 2014 0
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Castells é autor do clássico “A Sociedade em Rede” (reprodução RTVE)

 

O sociólogo espanhol Manuel Castells, um dos mais influentes pensadores do impacto das novas tecnologias de informação na era contemporânea, anunciou apoio à candidatura de Marina Silva (PSB) em artigo publicado neste sábado no diário La Vanguardia, de Barcelona.

“Marina Silva é a esperança de um novo Brasil capaz de abrir vias inovadoras de vida pública e política mais além de ideologias obsoletas”, escreve Castells, explicando que conheceu a candidata na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos.

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No texto, intitulado “Brasil: a Rua e as Presidentas”, Castells não se omite de citar os aspectos mais críticos da biografia de Marina, como suas relações com setores evangélicos. “As convicções cristãs pentecostalistas de Silva (Marina) lhe aportam o apoio dos evangélicos que são cerca de 22% da população. Em coerência com sua fé, se opõe ao aborto e ao casamento gay, propondo em seu lugar a união civil, motivando as consequentes críticas”, afirma o sociólogo.

Castells, que já esteve em Porto Alegre como conferencista do ciclo Fronteiras do Pensamento, tem antigas relações com intelectuais brasileiros, a começar pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de quem foi colega nos anos 1960 quando ambos eram professores da Universidade de Paris-Nanterre, na França.

FH  cita com frequência as obras do amigo, especialmente o monumental A Sociedade em Rede, publicado no Brasil pela Paz e Terra.

O texto de Castells, em espanhol, pode ser lido aqui.

 

 

Matrimônio indissolúvel

20 de setembro de 2014 0

Teste seus conhecimentos sobre política britânica. A frase “Estamos muito felizes que a Escócia fique conosco” foi dita por a) rainha Elizabeth II; b) Wayne Rooney, capitão da Seleção Inglesa; c) Mick Jagger, majestade satânica do rock; d) Mariano Rajoy, chefe do governo espanhol.

Elementar, diria um famoso inglês. A rainha, Rooney e Jagger podem até ter apreciado o resultado do plebiscito de quinta-feira, mas sua alegria com a decisão não se compara à de Rajoy. Afinal, o parlamento autônomo da Catalunha, região que responde por 20% do produto interno bruto espanhol, marcou ontem mesmo o seu próprio plebiscito de independência para o dia 9 de novembro. No último dia 11, 1,8 milhão de catalães saíram às ruas de Barcelona vestidos de vermelho e amarelo, as cores nacionais, em defesa da secessão.

Entre os casos britânico e espanhol, há uma distância bem maior do que a largura do Canal da Mancha. Diferentemente da Escócia, onde a ideia de independência era até bem pouco tempo mais desacreditada do que o Monstro do Lago Ness, entre os catalães a proposta de soberania congrega praticamente todos os partidos, da esquerda à direita. E, numa atitude distinta da de Londres, Madri optou por impedir a votação com base no argumento de que não estaria prevista na Constituição. Rajoy já anunciou que recorrerá ao Tribunal Constitucional (a Suprema Corte espanhola) para obter a declaração de ilegalidade do plebiscito.

Um dos poucos acertos do governo conservador britânico em relação à Escócia foi ter reconhecido a legitimidade da votação. As consequências de uma queda de braço jurídica em torno do plebiscito, especulam alguns, só reforçaria a campanha pró-independência, ainda que a consulta pudesse ser adiada por algum tempo. O governo espanhol, por sua vez, escolheu negar aos catalães o direito de escolher. Londres disse que a separação da Escócia, caso tivesse sido aprovada, seria um “divórcio doloroso”. Madri não chega a tanto: para o governo de Mariano Rajoy, o matrimônio é indissolúvel.

Na capa do jornal espanhol El País deste sábado, a decisão do parlamento da Catalunha em favor do plebiscito sobre independência

Na capa do jornal espanhol El País deste sábado, a decisão do parlamento da Catalunha em favor do plebiscito sobre independência