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Para saber o que significa uma bandeira, veja quem a carrega

02 de julho de 2015 4

maisku

 

O assassinato de nove pessoas no interior de uma igreja metodista afro-americana em Charleston, Estados Unidos, deveria ter servido para reavivar o debate sobre discriminação racial e controle de armas no país e até mesmo sobre a relação íntima entre grupos segregacionistas e a direita republicana.

Mas o fato de o atirador, Dylann Roof, ter aparecido em fotos nas redes sociais com emblemas como a bandeira da Confederação, entre outros, transformou o episódio no estopim de um confronto sobre símbolos.

A Confederação, que reuniu sete Estados do sul dos Estados Unidos, foi responsável pelo início da Guerra de Secessão (1861 – 1865). Tinha uma capital, Richmond (Virgínia), um presidente, Jefferson Davis, um comandante do exército, general Robert E. Lee, e foi reconhecida como parte beligerante pela Grã-Bretanha.

Leia também: O último disparo

A governadora da Carolina do Sul, Nikki Haley, que é republicana, e parlamentares estaduais e federais dos dois grandes partidos, Democrata e Republicano, posicionaram-se favoravelmente à retirada da mesma bandeira das proximidades do parlamento, em Columbia, a capital.

A bandeira da Confederação hasteada nas proximidades do parlamento em Columbia, Carolina do Sul (foto Mladen Antonov, AFP)

A bandeira da Confederação hasteada nas proximidades do parlamento em Columbia, Carolina do Sul (foto Mladen Antonov, AFP)

Muitos se perguntam até que ponto a bandeira é um símbolo de racismo ou apenas um produto cultural do “Sul profundo”, como, digamos, o Mardi Gras de New Orleans e A Cabana do Pai Tomás.

Não é tão difícil esclarecer essa dúvida. Quando se quer saber o que uma bandeira significa, é só dar uma espiada naqueles que a exibem.

A Ku Klux Klan, organização racista fundada após a derrota do Sul na Guerra de Secessão (1861 – 1865) e que muitos julgavam extinta, acaba de pedir e obter solicitação para uma manifestação, em meados deste mês, em honra à bandeira da Confederação no centro de Columbia.

A governadora Haley disse que a Klan não é “bem-vinda” na capital.

Leia também: Atirador da igreja de Charleston queria “começar uma guerra racial”

Enquanto esse debate rola nos Estados Unidos, a bandeira da Confederação é cultuada em pelo menos dois municípios brasileiros, Americana e Santa Bárbara do Oeste, interior de São Paulo.

As duas localidades foram fundadas por ex-combatentes confederados que, após a derrota de 1865, deixaram seu país à procura de um lugar onde a lei permitisse ter e manter escravos. Viajaram em direção ao Sul e chegaram ao Brasil.

A carta é de ontem, Tsipras não recuou e impasse continua

01 de julho de 2015 1

A carta do premier grego, Alexis Tsipras, às autoridades financeiras da zona do euro e à cúpula do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgada nesta quarta-feira, não é um recuo em relação à posição anterior de Atenas. A correspondência foi enviada nesta terça-feira e, embora ainda não tenha sido analisada pelos ministros das Finanças do euro, nada indica que tenha possibilidade de ser aceita.

Em essência, a carta é um desdobramento da posição manifestada pelos negociadores gregos na sexta-feira, quando o governo de Tsipras decidiu submeter a proposta dos credores a um plebiscito.

É por isso que jornais como o espanhol El País e o americano The New York Times (abaixo) estão desinformando seus leitores ao noticiar que “Tsipras aceita as condições propostas pela União Europeia” ou que “Tsipras sinaliza que Grécia pode aceitar termos de socorro”. Aliás, no primeiro caso, a desinformação é dupla: nem Tsipras aceitou as condições (a não ser parcialmente, e sem que isso tenha produzido novos desdobramentos), nem a União Europeia está envolvida na negociação, que se restringe aos 19 países da zona do euro e ao FMI.

 

Sites como o do jornal El País noticiaram rechaço de Tsipras como se fosse aceitação (reprodução El País)

 

nyt

Os credores exigem a fixação da alíquota do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) em 13% para todo o território da Grécia, incluindo as ilhas gregas, onde a alíquota é de 9% e um aumento teria forte impacto sobre o turismo. Na carta, Tsipras propõe que, nas ilhas, seja mantido o atual desconto de 30% sobre o valor recolhido. Na prática, isso significa a rejeição da proposta de Bruxelas e Berlim.

Leia a íntegra da carta do premier grego aos credores

Os credores querem a redução de gastos militares para 400 milhões de euros em 2016. Tsipras sugere outros patamares, de 200 milhões de euros no próximo ano e 400 milhões somente em 2017.

Os credores pregam o fim do abono para aposentados de baixa renda (cerca da metade dos aposentados gregos têm rendimentos abaixo da linha oficial de pobreza do país) em 2017. Tsipras concorda, mas quer que a medida só seja atingida ao final de 2019, e ainda assim mantendo intocados, neste momento, 20% dos beneficiados mais pobres.

Além disso, e principalmente, a correspondência exige a extensão do acordo de refinanciamento que expirou na terça-feira, e do qual uma parcela de 1,6 bilhão devida ao FMI continua pendente, e a celebração de um novo acordo sob o Mecanismo Europeu de Estabilidade, com vigência de dois anos.

Governo da Grécia aceita parte das propostas dos credores, mas faz exigências

Na realidade, todas as proposições de Tsipras já tinham sido rejeitadas pelas euroautoridades na noite de terça-feira, ao rechaçar o recurso ao Mecanismo Europeu de Estabilidade.

A julgar pelas recentes declarações da chanceler alemã, Angela Merkel, e de autoridades da zona do euro, os credores pretendem prolongar o impasse até que alguém pisque, ou seja, até que Tsipras não seja capaz de fazer nenhuma nova exigência.

Seja porque terá desistido da posição que permitiu sua eleição em janeiro, seja porque terá sido afastado da função de primeiro-ministro.

Falta combinar com os gregos.

Leia a íntegra da carta do premier grego aos credores

01 de julho de 2015 0
Em carta, premier aceita parte de exigências de credores (foto Angelos Tzortzinis, AFP)

Em carta, premier aceita parte de exigências de credores (foto Angelos Tzortzinis, AFP)

 

O premier grego, Alexis Tsipras, disse aos credores do país que está disposto a aceitar as reformas exigidas com modificações.

Abaixo, a íntegra da carta de Tsipras que será debatida na teleconferência desta quarta-feira dos ministros das Finanças da zona do euro. Definições de termos específicos colocadas entre parênteses e em itálico são de responsabilidade do blogueiro.

 

“República Grega
Gabinete do Primeiro-ministro

Atenas, 30 de junho de 2015

Ao Presidente da Comissão Europeia
Sr. Jean-Claude Juncker

Ao Presidente do Banco Central Europeu
Sr. Mario Draghi

À Diretora-gerente do FMI
Srta. Christine Lagarde

Prezada Diretora-gerente, prezados Presidentes

Escrevo-lhes para informar-lhes sobre a posição da República Grega em relação à lista de Ações Prioritárias do Esboço de Acordo como publicado pelo site da Comissão Europeia em 28 de junho de 2015. A República Grega está preparada para aceitar este Esboço de Acordo submetido às seguintes emendas, adições ou clarificações, como parte de uma extensão do programa de EFSF em expiração e do novo Acordo de Financiamento do Mecanismo Europeu de Estabilidade (ESM, na sigla em inglês) solicitado hoje, terça-feira, 30 de junho de 2015. Como os senhores perceberão, nossas emendas são concretas e respeitam totalmente a robustez e a credibilidade do desenho para o conjunto do programa.

1. Reforma do Imposto sobre Valor Agregado

Manter os 30% de desconto para as ilhas, a serem aplicados a novos tributos.

2. Medidas de estruturação fiscal

Gradualmente incrementar o pagamento antecipado do imposto sobre a receita de pequenas empresas para 100% e eliminar o tratamento tributário preferencial para agricultores (incluindo os subsídios para venda em óleo diesel) no final de 2017.

Reduzir a rubrica para gastos militares de 200 milhões de euros em 2016 e 400 milhões de euros em 2017 por meio de um conjunto específico de ações, incluindo uma redução de efetivo e de aprovisionamento.

3. Aposentadorias

A reforma de 2010 será totalmente implementada mas a reforma de 2012 (fator de sustentabilidade) será adiada até que a nova reforma legislativa seja implementada em outubro de 2015.

EKAS (uma espécie de abono) será gradualmente desativada até o final de 2019, mas sem uma ação imediata no topo de 20% dos beneficiados.

Todos os abonos de fundos de aposentadoria serão gradualmente suspensos até o final de 2017, começando em 31 de outubro de 2015.

4. Relações de trabalho

O novo marco regulatório será aprovado pelo parlamento no outono de 2015.

5. Mercadorias e serviços

Implementação imediata de recomendações específicas do instrumental 1 da OCDE (aluguéis turísticos, ônibus turísticos, licenças de caminhões, código de conduta para culinária tradicional e códigos europeus para materiais de construção), instrumental 2 (bebidas e derivados de petróleo) e abrir as profissões restritas de notários, atuários e oficiais judiciários, liberalizar o mercado para academias de ginástica e eliminar uma parte significativa dos limites de idade de aposentadoria.

Além disso, em cooperação com a OCDE, implementar um ambicioso pacote de reformas que inclua:

- Criar serviços expressos de compras (OSS) para empresas (análises de boas práticas, assim como um cronograma coerente já preparado e completo em cooperação com a OCDE);

- Conduzir imediatamente uma abordagem coerente de competição em setores específicos caracterizados por práticas oligopolísticas (isto é, construção, comércio atacadista, produtos agrícolas, mídia etc) e adotar recomendações apropriadas (projeto e prazos já preparados pela OCDE);

- Implementar imediatamente uma estratégia coerente contra práticas corruptas nos negócios, por exemplo na área de procedimentos de compras públicas (projeto e prazos já preparados pela OCDE).

ADMIE (companhia elétrica estatal) será desmembrada do PPC (produtora e distribuidora de energia) numa entidade legal separada sob controle estatal.

Obrigado antecipadamente por seu apoio. Aguardo sua resposta.

Sinceramente seu,

Alexis Tsipras

Cópia para: Sr. Jeroen Dijsselbloem, diretor da Assembleia de Governadores do Mecanismo Europeu de Estabilidade (ESM) e presidente do Eurogrupo

Sr. Klaus P. Regling, diretor gerente do Mecanismo Europeu de Estabilidade”

Frase do dia

15 de junho de 2015 0

sigmar

 

“Nós não deixaremos os trabalhadores alemães e suas famílias pagarem pelas promessas eleitorais exageradas de um governo parcialmente comunista.”

 

Sigmar Gabriel (foto), ministro da Economia da Alemanha, a respeito das negociações sobre a dívida grega. O governo “parcialmente comunista” a que se refere Gabriel é o do premier Alexis Tsipras, do partido de extrema esquerda Syriza. O ministro pertence ao SPD (Partido Socialdemocrata da Alemanha, na sigla em alemão).

Nem Drácula, nem Saruman: Lee gostava mesmo era de Jinnah

11 de junho de 2015 1
Na pele do fundador do Paquistão em "Jinnah" (1998)

Na pele do fundador do Paquistão em “Jinnah” (1998)

 

O londrino Christopher Lee (1922 – 2015) tornou-se mundialmente conhecido por encarnar vilões como o Conde Drácula em pelo menos sete filmes e Saruman na trilogia O Senhor dos Anéis.

Seu papel favorito, no entanto, era um personagem histórico.

> Leia mais: aos 93 anos, morre o ator Christopher Lee

Em 1998, aos 76 anos e pouco antes do 11 de Setembro, Lee embarcou num projeto pessoal carregado de controvérsia: encarnar Muhammad Ali Jinnah, o sofisticado advogado que passou à história como fundador do Paquistão.

A impressionante semelhança física entre Lee e Jinnah na idade avançada contribuíram para a decisão.

Mas a própria figura do Qaid-e-Azam (Pai da Nação) continua incomodando o establishment paquistanês.

Ele estava muito longe do nacionalismo militarista e do fundamentalismo religioso que caracterizam o Paquistão contemporâneo.

Nascido numa família muçulmana xiita de Karachi, Jinnah havia praticado advocacia na Grã-Bretanha. Falava inglês sem sotaque.

Era ateu, e consta que apreciava costeletas de porco.

E – horror dos horrores –, apesar das diferenças políticas, permaneceu até o fim amigo de Gandhi (para quem Jinnah era “um grande indiano”) e Nehru, os pais da independência da Índia, com os quais havia lutado lado a lado por toda a vida contra o domínio colonial britânico.

> Assista a vídeo sobre encontro entre Gandhi e Jinnah para discutir o movimento pela independência:

 

 

Em um de seus mais famosos discursos, Jinnah disse, a respeito da liberdade religiosa que considerava intrínseca ao Estado que ajudou a fundar: “Vocês são livres para ir para seus templos e mesquitas”.

No Paquistão, não foram poucos os cenhos franzidos quando circulou a notícia de que o Qaid seria vivido por um ator celebrizado no papel de vampiro.

A cinebiografia Jinnah (1998) foi recebida com discrição no Paquistão e na Grã-Bretanha – no resto do mundo, somente os aficionados tomaram conhecimento dela.

A performance pungente de Lee, porém, acabou se impondo.

O jornal The News, do Paquistão, foi um dos únicos do mundo a noticiar a morte de Lee com o título “O ator Christopher Lee, de ‘Jinnah’, morre aos 93 anos”.

> Leia mais: Paquileaks

Numa entrevista concedida em 2009, 11 anos depois do lançamento do filme, ele disse:

– Eu acredito que se o Qaid-e-Azam, o próprio Jinnah voltasse hoje, ficaria muito desapontado com o que está acontecendo (na região) porque é algo que ele nunca imaginou ou pensou que fosse acontecer, embora no tempo da Partilha (a divisão da antiga Índia britânica entre Índia e Paquistão) tenha havido muitas mortes.

> Veja

O que estou lendo (junho de 2015)

02 de junho de 2015 0

A seguir, alguns dos livros que Olhar Global está degustando e que, em breve, serão resenhados por aqui:

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O RETRATO – De Osvaldo Peralva. Publicado pela primeira vez em 1960, este avassalador retrato de um insider sobre o Partido Comunista Brasileiro inclui perfis de líderes como Luiz Carlos Prestes e Carlos Marighella. Jornalista e escritor, Peralva foi enviado pelo PCB a Moscou em 1953, ano da morte de Stalin, para estudar. Uma vez na capital soviética, constatou que o regime dos bolcheviques havia se convertido num pesadelo burocrático. Apresentação de Antonio Paim, edição revista pelo autor, Editora Três Estrelas, R$ 59,90.

 

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PARIS: CAPITAL DA MODERNIDADE – De David Harvey. O geógrafo britânico dedica-se neste livro a dissecar a história da Cidade Luz no período em que constituiu, de fato, a capital do século 19: 1848 a 1871. É o período do amadurecimento – e, em certo sentido, do início do apodrecimento – da ordem europeia fundada após a derrota de Napoleão Bonaparte. Estado-nação, indústria, revolução industrial, emergência das “classes perigosas”, comunismo, nacionalismo, frenologia: tudo isso faz parte do caldo de cultura analisado por Harvey a partir do recorte parisiense. Tradução de Magda Lopes, revisão técnica de Artur Renzo, Boitempo Editorial, R$ 69.

 

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BRASIL: OS FRUTOS DA GUERRA – De Neill Lochery. A II Guerra Mundial foi um divisor de águas para o Brasil: ao se alinhar com os Aliados, o Estado Novo de Getúlio Vargas garantiu uma inserção privilegiada entre os vizinhos sul-americanos na ordem do pós-guerra, com impulso à industrialização (com apoio americano à criação da Companhia Siderúrgica de Volta Redonda e da Companhia Vale do Rio Doce) e envio de uma força expedicionária de 25 mil homens ao front italiano, com implicações vitais para o futuro político do país. Professor na University College London, Lochery é especialista em história moderna da Europa, do Oriente Médio e do Mediterrâneo. Tradução de Lourdes Sette, revisão técnica de Alexandre Luis Morelli Rocha, Intrínseca, R$ 39,90.

1945

 

ANO ZERO: UMA HISTÓRIA DE 1945 – De Ian Buruma. Neste apanhado histórico largamente inspirado nas recordações de seu pai, cidadão holandês mobilizado para trabalhar na indústria de guerra do III Reich, o autor compõe um retrato multifacetado e incômodo do ano em que a II Guerra Mundial terminou e do quadro nada edificante que se seguiu em toda a Europa. O autor nasceu na Holanda, trabalhou como jornalista e documentarista e é professor do Bard College, Grã-Bretanha. Tradução de Paulo Geiger, Companhia das Letras, R$ 57,90.

"American Pie", versão do compositor

07 de abril de 2015 0

“Você sabe o que foi revelado no dia em que a música morreu?”

Há 43 anos esses e outros versos da canção American Pie, de Don McLean, intrigam fãs.

American Pie é considerada a mais longa música a ter ocupado a lista Hot 100 da revista Billboard, com oito minutos e 33 segundos (para se ter uma ideia, a faixa Revolution #9, do LP Álbum Branco, dos Beatles, também famosa pela duração, tem oito minutos e 12 segundos).

Mas não foi a duração que fez o sucesso de Don McLean ser considerado uma espécie de versão musical do (jamais escrito) Grande Romance Americano. Seus versos, com inúmeras referências à história do rock, deram margem a múltiplas interpretações. Livros foram escritos para explicá-los, sites e blogs pululam na internet com tentativas de interpretação.

“Mas fevereiro me fez tremer / Com cada jornal que entreguei” (“But February make me shiver / With every newspaper I delivered“), “Você escreveu o Livro do Amor? Você acredita em Deus?” (Did you write the Book of Love / Do you have faith in God?), “Bebendo uísque e centeio” (Drinking whisky and rye) e muitos outros trechos continuam a encantar aficionados que não eram nascidos quando a música apareceu num single de McLean, 10 meses depois de John Lennon decretar em entrevista à revista Rolling Stone que “o sonho acabou”.

– Você vai encontrar muitas interpretações de meus versos, mas nenhuma minha. Não é engraçado – brincou certa vez McLean, 69 anos.

Essa importante peça do quebra-cabeças estará disponível hoje quando o manuscrito original da letra de American Pie for a leilão na famosa loja Christie’s, de Nova York. Segundo Tom Lecky, da Christie’s, o documento revela todo o processo de criação dos versos, “do início ao fim”. A loja calcula que o manuscrito seja vendido por cerca de US$ 1,5 milhão (R$ 4,8 milhões).

Há muitas versões da música, incluindo a mais recente, de Madonna, muito criticada por ter deixado de fora a maior parte da letra, e traduções/interpretações em português. Aqui, um clipe de 1989 com o próprio Don McLean que, se não se preocupa com a letra, encarna o espírito de American Pie:

 

Os Quatro Pontos da China

01 de abril de 2015 0
O texto divulgado pelo chanceler chinês em Lausanne

O texto divulgado pelo chanceler chinês em Lausanne

 

O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, que participa das negociações sobre a questão nuclear iraniana em Lausanne, na Suíça, divulgou hoje um documento com quatro pontos a respeito do andamento das discussões. O Irã e os países do grupo P5+1 (Estados Unidos, China, Rússia, Alemanha, França e Grã-Bretanha) concordaram em estender até hoje o prazo para se obter um acordo preliminar. Detalhes técnicos serão decididos até junho.

Abaixo, a íntegra do documento de Wang, em grifo, e o significado de cada ponto:

“Os Quatro Pontos do ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, sobre as negociações em andamento a respeito da questão nuclear iraniana

1. É importante dar direção política às negociações. A negociação nuclear iraniana envolve muitas questões técnicas, e qualquer acordo a ser alcançado deve ser apoiado em conhecimento altamente especializado. De qualquer maneira, devemos ter em mente que, na análise final, estamos tratando de uma questão política e de segurança. Assim, é importante que as partes deem forte direção política para as negociações e tomem uma decisão política no momento apropriado.

(O que significa: uma parte significativa do impasse no momento atual está relacionada a detalhes altamente técnicos sobre o que o Irã poderá ou não fazer na esfera nuclear. A China quer que o desejo de entendimento prevaleça sobre o debate técnico. O Irã, por sua vez, não se interessa em emitir uma declaração política em favor do acordo se não houver acordo detalhado por direitos e obrigações, uma vez que, para o governo iraniano, se trata de uma questão de soberania.)

2. É importante especificar as diferenças. Enquanto cada parte tem sua própria posição, nesta fase final, todas as partes devem estar preparadas para ceder um pouco a fim de alcançar um acordo. Se as negociações entrarem em colapso, todos os esforços anteriores terão sido inúteis.

(O que significa: a China alerta todos os participantes para o risco de as negociações irem por água abaixo neste momento, sem que cada uma das partes possa pesar os riscos embutidos num rompimento. É a velha ideia de que o diálogo nuclear com o Irã deve ser visto como algo “muito grande para fracassar”.)

> Leia também: Dez mitos sobre a negociação com  o Irã

3. É importante aderir a uma abordagem de passo a passo e reciprocidade. A solução da questão nuclear iraniana é um processo, que deve ser cumprido passo a passo e sobre a base da reciprocidade. Todas as partes devem assumir sua devida responsabilidade e obrigação.

(O que significa: aqui, o chanceler chinês exorta as partes a adotar como método a construção de um acordo ponto por ponto, em vez de focar na soma das diferenças pontuais.)

4. É importante lutar por uma solução global. As questões pendentes estão ligadas umas às outras. As partes devem pensar de forma criativa e produzir uma solução global. Gostaria de enfatizar que nenhum acordo é possível sem acomodar as preocupações centrais das várias partes e que é vitalmente importante dar espaço ao papel do Conselho de Segurança das Nações Unidas.”

(O que significa: os envolvidos não devem esquecer que estão negociando um acordo em benefício da atual ordem mundial, simbolizada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ao enfatizar a responsabilidade de cada uma das partes, a China, um dos cinco membros com assento permanente no Conselho, reforça o seu próprio papel.)

 

Dez mitos sobre a negociação com o Irã

31 de março de 2015 9
Negociações terminam hoje em Lausanne, Suíça

Negociações terminam hoje em Lausanne, Suíça (foto Fabrice Cofrini, AFP)

Representantes do Irã e de seis grandes potências contam os minutos nesta terça-feira na tentativa de fechar um acordo sobre o programa nuclear do país persa. Veja a seguir 10 mitos sobre a negociação que ocorre até a meia-noite em Lausanne, Suíça:

1) Obama defende o Irã porque seu pai era muçulmano

Embora seja o principal porta-voz da política de distensão em relação ao Irã, o presidente Barack Obama não é o único a apostar numa solução negociada para o impasse nuclear com o país. Os maiores defensores dessa política são os países europeus, especialmente a Alemanha, interessados em normalizar as relações comerciais com o país. O que Obama fez foi simplesmente alinhar a diplomacia americana a um curso adotado pela União Europeia quase ao mesmo tempo que a primeira rodada de sanções entrou em vigor. A ideia de que a política de Obama é orientada por razões familiares ou mesmo por preferências religiosas secretas, muito usada pela extrema direita americana, é caluniosa e racista.

 

2) Se um acordo for fechado hoje, tudo voltará ao normal entre o Irã e a comunidade internacional

A total normalização das relações entre o Irã e os demais países dependerá de uma série de questões, dos direitos humanos às liberdades políticas. Um acordo, hoje, servirá no máximo para desatar um nó importante nessas relações depois de um impasse de 10 anos. Não será, igualmente, garantia de que possa haver progressos em torno dos demais itens.

 

3) O Irã não ousará contrariar os aliados Rússia e China e rejeitar o acordo

Embora Rússia e China sejam parte do grupo P5+1 (ou, como preferem os europeus, 3+3), que negocia com o Irã, cada um participa do diálogo com sua pauta própria. A China deseja eliminar as barreiras ao comércio pleno com o Irã. A Rússia, inicialmente, pretendia se somar a um esforço europeu, mas não ao preço de uma submissão completa do Irã (um precedente que poderia se voltar contra Moscou em casos como o da Ucrânia). O fracasso das negociações não significará, necessariamente, um afastamento entre o Irã e as duas potências.

 

> Leia também: Os Quatro Pontos da China

 

4) O Irã domina quatro capitais árabes: Bagdá, Beirute, Damasco e Sanaa

A presença de forças ligadas ao Irã nos governos de Iraque, Líbano e Síria e no controle da capital do Iêmen após a fuga do presidente Abdo Mansur Hadi não tem a ver com uma conspiração de poder por parte de Teerã. No Iraque, os governos xiitas foram instaurados com apoio dos Estados Unidos. No Líbano, o Hezbollah (primeiro uma milícia xiita e, depois, um partido) cresceu e se consolidou após uma guerra civil interna e invasões israelenses. Na Síria, o regime da família Al-Assad sempre foi laico e, como tal, adversário dos aiatolás, mas os laços se fortaleceram com o início da guerra civil. Por fim, os rebeldes iemenitas, ainda que sejam apoiados por Teerã, estão longe de ser fantoches: há tribos sunitas e elementos ligados ao regime do ex-presidente Ali Saleh em suas fileiras.

 

5) O programa nuclear do Irã é dirigido contra os Estados Unidos e seus aliados

O programa nuclear iraniano foi lançado nos anos 1950 pelo xá Reza Pahlevi, na época principal aliado americano no Oriente Médio, e tinha a bênção de Estados Unidos, França e Alemanha. Quando o xá foi derrubado pela Revolução Islâmica, em 1979, o aiatolá Ruhollah Khomeini determinou o fim do programa por supostamente contrariar os preceitos da religião. Com a Guerra Irã-Iraque, a partir de 1980, porém, os aiatolás decidiram retomar o projeto.

 

6) O Irã está a um passo de obter sua bomba atômica

A primeira condição para se fabricar uma bomba atômica é enriquecer uma determinada quantidade do isótopo U-235 do urânio, material altamente físsil (utilizável em uma reação nuclear). O urânio encontrado na natureza contém apenas U-235 a 0,7%. O enriquecimento pode elevar esse nível para 3,5% (nível utilizado nas centrais nucleares), 20%, 60% até 90% (usado em uma bomba atômica). O Irã comprovadamente já completou o enriquecimento a 20% e, a partir desse ponto, não é difícil chegar a 90%. Esse passo, porém, não assegura a obtenção de armas nucleares. Para fazê-lo, é preciso desenvolver mísseis capazes de carregar ogivas nucleares e testá-los. Trata-se de uma decisão sobretudo política, que teria graves implicações no mundo inteiro, e não há nenhum indício de que o Irã esteja interessado em tomá-la.

 

7) Os aiatolás iranianos são fanáticos capazes de tudo

Embora o Irã seja uma teocracia (regime religioso) que assume a forma de república islâmica, está longe de ser o país mais retrógrado do Oriente Médio. Mulheres, gays e baha’ís (minoria religiosa) e outros sofrem opressão, mas têm comparativamente muito mais direitos do que na Arábia Saudita e em outras monarquias do Golfo. Nos últimos 10 anos, a cúpula do regime fez diversos acenos de negociação para os Estados Unidos. O presidente Barack Obama já afirmou que os líderes iranianos são “racionais”.

 

8) Para dobrar o Irã, basta manter as sanções

O atual regime de sanções econômicas e militares (foram três rodadas desde 2006) não apenas foi incapaz de deter o programa nuclear como permitiu que fosse aprofundado. Os maiores penalizados pelas medidas são os iranianos comuns, mais expostos à crise econômica, agravada pela baixa dos preços do petróleo. Por outro lado, se o Irã for mantido à margem do sistema internacional, isso funcionará como incentivo para sua aproximação com outros Estados em situação similar, como Rússia e Coreia do Norte.

 

9) Não há diferença entre o atual presidente do Irã e o anterior

O ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad (2005-2013) foi eleito no auge do isolamento internacional do Irã, pouco depois de o então presidente americano George W. Bush ter colocado o país ao lado do Iraque de Saddam Hussein e da Coreia do Norte como “Eixo do Mal”. Notabilizou-se por dizer barbaridades, como a de que o Holocausto não teria existido. O atual presidente, Hassan Rouhani, por sua vez, foi eleito com o apoio dos reformistas do regime, como os ex-presidentes Mohammad Khatami e Ali Rafsanjani, no ostracismo durante o governo anterior. Ainda que os aiatolás permaneçam no poder, o simples fato de Rouhani ter sido eleito tendo contra si cinco candidatos da linha dura indica que os eleitores iranianos apostam na mudança política. O fato de Rouhani ter sido chefe das negociações nucleares fracassadas na década passada também é um sinal de que há possibilidades de entendimento a explorar. (Obs: no dia da eleição que daria vitória a Rouhani, em junho de 2013, quando a maioria dos analistas previa a vitória do candidato favorito do regime, Said Jalili, este blog afirmou que o clérigo podia se transformar na “grande surpresa do pleito” em razão de seu discurso oposicionista).

 

10) Para eliminar a ameaça nuclear iraniana, basta bombardear suas centrais atômicas

O Irã dispõe hoje de mais de 20 mil centrífugas nucleares em funcionamento. Por mais extenso que fosse o bombardeio de uma parte dessas instalações, isso teria um efeito catastrófico na região e, principalmente, incentivaria o país a partir para o confronto.

Despedida de repórter

28 de março de 2015 0
burns

Burns (com colete) e alguns personagens de suas matérias

Foi uma despedida de gala. Na quinta-feira, o jornal americano The New York Times publicou uma breve reportagem sobre o funeral do rei inglês Ricardo III em Leicester. Segundo testemunhas, mais gente juntou-se nas calçadas para assistir à passagem do cortejo com os restos mortais do monarca corcunda do que por ocasião da última visita da rainha Elisabeth II à cidade.

A sepultura do rei morto em 1485 havia sido encontrada por acaso sob um estacionamento em Leicester, há dois anos. Exames de DNA comprovaram tratar-se do homem celebrizado por Shakespeare, que lhe atribuiu o brado final “Meu reino por um cavalo”.

A reportagem do Times não menciona Shakespeare, nem compara a popularidade de Ricardo à da rainha. Sua prosa, porém, está à altura da ocasião. “Os estudos (…) estabeleceram que um catálogo de cerca de uma dúzia de ferimentos, incluindo dois ferozes golpes no crânio de Ricardo com uma espada e um machado que o teriam matado instantaneamente, correspondem proximamente a registros da época sobre sua morte, após ser derrubado de seu cavalo na terra úmida (…)”, diz o texto.

O repórter, John Fisher Burns, 70 anos, sabe do que está falando. Durante mais de 40 anos, esse inglês de Nottingham cobriu guerras cuja selvageria deixaria Ricardo deprimido: Bósnia, Afeganistão, Iraque. O funeral do antepenúltimo rei inglês morto em combate foi o tema de sua última reportagem no Times. A partir de agora, Burns, 70 anos, trocará a sucursal do Times em Londres por uma merecida e tranquila aposentadoria.

Ganhador de dois Prêmios Pulitzer, maior honraria do jornalismo americano, Burns passou pelo impressionante número de 10 sucursais do Times no Exterior. Sua última e mais importante missão foi a cobertura da invasão e da posterior guerra do Iraque, a partir de 2003. Sua mulher, Jane Scott-Long, é gerente da sucursal do jornal em Bagdá. Depois do Iraque, Burns passou a comandar a sucursal londrina.

Fui apresentado ao trabalho de Burns durante a cobertura da guerra no Iraque. Ele fazia parte do pequeno time de repórteres, alguns dos quais conheci pessoalmente, que permaneceram na capital iraquiana nas horas difíceis do cerco de abril de 2003, trocando o hotel Al-Rashid pelo Palestine e sem saber o que lhes aguardava ao final da batalha. Em suas reportagens, era sempre possível encontrar o olhar demorado para o sofrimento das pessoas comuns, exposto com simplicidade e sem melodrama.

Burns era convidado com frequência a participar de programas de debate da PBS e da BBC. Da última vez que o vi, há pouco mais de 20 dias, ele participava do programa Dateline, da rede britânica, que reúne correspondentes baseados em Londres. Sua visão sóbria e arguta das ambiguidades e contradições da política ocidental para o Iraque e a Síria, mas também dos meandros da campanha eleitoral britânica, me impressionou. Não podia imaginar, naquele momento, que ele estava fazendo sua última participação no programa. Abaixo, o vídeo do Dateline: