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Artigo| NAS MÃOS DA JUSTIÇA

04 de julho de 2015 1

Tavares

FLÁVIO TAVARES
Jornalista e escritor

 

O justo e o injusto todos sabemos o que é. Ao observar e discernir, nossa moral já faz a distinção. Mas a vida em sociedade criou interesses confusos. Passamos a simular ou a mentir, misturando o bem com o mal, enganando, roubando, ferindo ou matando. Nem as religiões sanaram a inata pequenez da condição humana. Assim, no Estado moderno, a Justiça surgiu como poder autônomo para estabelecer a diferença entre o crime e o altruísmo, entre a perversão e a bondade.
O ato de julgar tem muito de sacerdotal. O juiz (e cada qual no aparelho judicial) é alguém a quem nos entregamos, pois ali se julga a vida. Se não confiamos na Justiça, em que confiar? Por confiarmos, criticamos a morosidade ou brandura, pois a Justiça não pode repetir os erros e falácias da burocracia estatal ou privada.
Num país em que o crime pulula por toda parte, das ruas aos palácios, o julgamento do “mensalão” e, agora, a Operação Lava-Jato da Polícia Federal reacenderam a confiança na Justiça. Por isto, nada na Justiça deve lembrar casta ou privilégios. A área judicial já é a mais bem remunerada do serviço público. (Dizem que isto assegura “a honestidade de julgar”, mas será que salário alto corrige o pilantra?).
Como entender, então, que desembargadores, juízes, Ministério Público, defensores e o Tribunal de Contas passem a ter “auxílio moradia” de R$ 4,6 mil, mais do dobro da remuneração mensal da professora que educa nossas crianças? E ainda (com pagamento retroativo a quatro anos) um “vale-refeição” de R$ 799, quando o salário usual do trabalhador vai a pouco mais do que isto?

***

Ao instituir a primeira norma, o Supremo Tribunal pensou em ser justo? Já que “todos são iguais perante a lei”, indago: e se cada família brasileira receber auxílio moradia e vale-refeição similares?
Agora, quando a crise mundial manda ser austero, o Senado aprovou (por 62 votos a zero) aumento de até 78% aos servidores da Justiça Federal. No fundo, uma chantagem explícita dos senadores (sob o comando de Renan Calheiros, do PMDB) contra Dilma Rousseff e o plano de ajuste do ministro Levy, que tenta cortar a orgia de gastos públicos.
Querem fazer do Brasil outra Grécia? Lá, a irresponsável demagogia da direita (estimulando o consumismo sem base própria) os levou à quebra. Em plena crise, a esquerda independente venceu as eleições e teve de agarrar a brasa ardente na mão, sem poder largá-la.

***

Aqui, se tivéssemos nos libertado mais cedo do medo e da reverência ao poder político-financeiro, o roubo generalizado não chegaria aonde chegou. A última novidade é a propina num setor do Exército e na Casa da Moeda, onde 30 funcionários receberam R$ 100 milhões de uma empresa privada…
Domingo passado, ao mencionar aqui a roubalheira impune de 1987 na CEEE, no governo Pedro Simon (mais de R$ 800 milhões em valores atuais), recebi carta do procurador de Justiça Antônio Carlos Avelar Bastos, pedindo “informar o número do processo e as partes envolvidas”.
Atendo o pedido: o processo envolve 12 réus vivos _ altos funcionários da CEEE e de onze empresas, como Camargo Correa, Alstom, Siemens, Brown Bovery, Coemsa, Lorenzetti e outras. A fraude (descoberta em 1993 pela então secretária estadual de Energia, Dilma Rousseff) foi objeto de uma CPI, que apontou como principal responsável o assistente da direção da CEEE, Lindomar Rigotto, assassinado anos depois.
Em novembro de 1996, a Assembleia enviou ao Ministério Público 259 caixas com 30 volumes e 80 anexos, nascendo o processo 11960058232 na 2ª Vara da Fazenda Pública, até hoje “em segredo de justiça”. Em breve prescreverá sem condenações, mesmo sendo fraude gigantesca, 20 vezes maior que o roubo no Detran, que
passou do governo Rigotto ao de Yeda Crusius. E maior até que o
“mensalão”…

Artigo| OS MAUS PERDEDORES

04 de julho de 2015 1

moises

MOISÉS MENDES
Jornalista
moises.mendes@zerohora.com.br

 

Eduardo Cunha é o mais assustador político brasileiro desde Fernando Collor. Seria, dizem, um exemplo de como a política pode ser deformada pela radicalização de  condutas religiosas. Outros o consideram mais uma imitação dos antigos coronéis. E há quem pense que é apenas um ressentido, investigado por corrupção, inconformado com o governo que não teria lhe dado cobertura para fugir das garras da Polícia Federal e do Ministério Público _ como se isso fosse possível.
O presidente da Câmara é mais do que tudo isso. É a cara com olheiras do Brasil dos maus perdedores. Cunha avisou, desde que chegou ao trono, que não admitiria derrotas e venceu tudo. Deu seu maior show agora, na votação da redução da maioridade penal.
Dizem que seria o líder da pauta conservadora que assombra o Brasil. Não é. Ele é o preposto. Estão na pauta dois temas que poderão ser votados logo pelo Congresso. Um é o chamado Estatuto da Família, que ameaça tirar dos casais homoafetivos o direito de serem reconhecidos como tal e de adotarem crianças (uma decisão de 2011 do Supremo).
O outro é a tentativa de fuzilamento do Estatuto do Desarmamento, em vigor há 12 anos, para que sejam facilitados o porte e a posse de armas. A turma que transformou religião em negócio lidera a primeira pauta, e a bancada da bala comanda a segunda. Cunha, sentado no trono, é o viabilizador desses anseios reacionários.
Maus perdedores são bem articulados. Vão tentar fazer com que o país retroceda ao tempo em que um casal era apenas o formado por um homem e uma mulher _ e em que qualquer um poderia andar com uma arma (legalmente) na cintura. O país idealizado por eles é o que poderá encarcerar adolescentes e legitimar em lei a discriminação de gays.
Os maus perdedores incomodam-se com a inclusão social de quem, além de micro-ondas e automóveis, passou a adquirir formação e conhecimento. O mau perdedor está desconfortável com a possibilidade de repartir espaços e privilégios de classe média com os que chegarão logo ao mercado com diplomas de doutor.
Zero Hora já mostrou quem são os maus perdedores nas universidades. Vergonhosamente, são também professores que se negam a admitir a afirmação social dos cotistas. Porque a universidade, dizem, seria o espaço das elites, e a elite, como diziam os aristocratas franceses do século 18, somente será elite se for sempre a mesma.
A aristocracia acadêmica decadente do século 21 incomoda-se com os cotistas, com nordestinos, haitianos, com beneficiados do Bolsa Família, bolsistas do ProUni. Os maus perdedores entusiasmaram-se com a possibilidade do golpe, poucos meses depois da eleição, planejam todos os dias o impeachment e continuam fazendo a escolha seletiva dos bons e dos maus corruptos. Quase todos aplaudem Cunha, alguns às escondidas.
Não nos enganemos. Eduardo Cunha não é manobrado pelo poder dos evangélicos. Cunha foi um dos que politizaram os púlpitos e se aproveitaram da estrutura das igrejas e de seus fieis. Empoderou-se para ser cúmplice de todos os maus perdedores e para eles trabalha.
Cunha não é o líder dos reacionários brasileiros. É o capataz a serviço deles, porque entendeu suas demandas. Mas será preposto somente até o dia em que cometer um erro e for deixado à deriva, como a direita já fez com Collor.

Artigo| IMPOSTURAS

04 de julho de 2015 0

 

diana29

DIANA LICHTENSTEIN CORSO
dianamcorso@gmail.com
Psicanalista

 

Rachel Dolezal, dirigente da Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor preferia ser considerada negra, em vez de afrodescendente. Essa precisão linguística só chamou a atenção depois dela ter sido denunciada como “falsa negra” pela própria família de origem europeia.
Tania Head, famosa sobrevivente do 11 de setembro não existe. Alegava ter fugido da torre sul enquanto seu noivo David morria na torre norte. David tampouco existia. A verdadeira nem estava em Nova York no dia da tragédia.
Binjamin Wilkomirski escreveu Fragmentos, livro muito premiado e traduzido em várias línguas, narrando sua experiência de criança judia nos guetos da Polônia e nos campos de extermínio. O autor era um suíço que nunca saiu seu país durante a infância. No auge do seu sucesso, a BBC filmou o encontro dele com uma mulher que teria sido sua parceira de infortúnios. Apesar do evento meloso, ela era na verdade uma americana que tampouco esteve nos lugares onde teria sido supliciada.
Os relatos falsos são mais dramáticos e explícitos do que os dos verdadeiros sobreviventes. Basta observar a elegância enxuta das memórias de Primo Levi, por exemplo. O problema é que esses mitômanos, mentirosos por delírio ou mau-caratismo, desvirtuam o importante depoimento dos verdadeiros protagonistas da história. Aliás, pela minha experiência, estes últimos não costumam ser muito eloquentes.
Quem viveu episódios traumáticos guarda em relação a eles uma reserva cheia de dor, autorrecriminações e duros questionamentos sobre a condição humana. É por isso que minha tia-avó respondeu, quando a questionei na infância, que o número tatuado em seu braço, resto indelével do campo de concentração, era “um telefone que ela não podia esquecer”. Nem mais uma palavra. Nunca mais.
A presença de uma falsa afrodescendente nesse grupo de impostores depõe do caráter igualmente traumático da escravidão, cuja memória se atualiza na desigualdade racial que insiste em sobreviver. Essas falsas vítimas, que assumem uma identidade marcada pelo sofrimento alheio e lhes emprestam uma narrativa fantasiosa, são porta-vozes dos sentimentos de uma maioria culpada pelos feitos de seus antepassados. É por isso que seus embustes têm sucesso.
É inacreditável quão longe chegamos em termos de frieza, de crueldade. E se fôssemos nós nesses momentos, teria sido nobre ou covarde nossa posição? Depois da escravidão, extermínios e guerras, nossa história é uma ferida aberta. A mentira das falsas vítimas, assim como os discursos dos fascistas e racistas que negam a legitimidade dos fatos, depõe da dificuldade de lidar com ela. O passado nos questiona e o presente ainda pede que nos posicionemos. É hoje, não ontem, que podemos mostrar de que fibra somos constituídos.

Artigo| SLOGANS

04 de julho de 2015 0

marcosRolim

MARCOS ROLIM
Jornalista e sociólogo
marcos@rolim.com.br

 

Acompanhei pela TV a sessão da Câmara Federal que votou o substitutivo à PEC da redução da idade penal. Houve de tudo, menos debate em torno de evidências. É impressionante como as discussões transcorrem no Brasil com os oponentes esgrimindo slogans. Alguém vai à tribuna e diz que “o povo quer a redução da idade penal”. Então, uma deputada, com uma camisa com a imagem do filho assassinado, diz que “chegou a hora de acabar com a impunidade”. Presumo que estas frases sejam suficientes para a maioria dos eleitores.
É curioso ouvir políticos brasileiros clamando contra a impunidade. Sim, porque não há segmento mais impune. Quase um terço dos deputados federais e senadores respondem a processos criminais no Supremo. As acusações vão do desvio do dinheiro público à grilagem, sequestro e trabalho escravo. O que costuma ocorrer é que esta turma não é julgada. Na sessão mencionada, Paulo Maluf se pronunciou. Eu vi, ninguém me contou. Sabem o que ele disse?  Que é preciso acabar com a impunidade. Disse também que “os direitos humanos são para os humanos direitos”. Este slogan, uma síntese da aversão ao pensamento, foi criado por Jorge Rafael Videla, um dos facínoras responsáveis pela tortura, assassinato e desaparição de cadáveres na Argentina, razão pela qual foi condenado à prisão perpétua e destituído de sua patente militar. No Brasil, seus colegas golpistas são nomes de rua. Maluf possui várias condenações no exterior por corrupção. Se sair do país será preso pela Interpol. Aqui, responde a dezenas de processos por ladroagens diversas há décadas. Não há uma só sentença com trânsito em julgado contra ele. Talvez seja o caso de se pensar em um novo auxílio aos magistrados brasileiros. Sugiro o “auxílio faxina”, a ser pago cada vez que um bandido rico for condenado. E a deputada que perdeu o filho? Ela é Keiko Ota. O menino Ives Yoshiaki Ota, oito anos, foi sequestrado, mas terminou sendo morto porque reconheceu um dos bandidos que era policial militar e fazia bico como segurança em loja da família. Os três sequestradores, um motoboy e dois PMs, foram condenados a mais de 40 anos de prisão. A mãe virou deputada e o pai vereador. Ambos defendem o agravamento de penas. Nunca lhes ocorreu lutar pela reforma de uma polícia cujos bons policiais são cada vez mais constrangidos por corruptos e assassinos. O Brasil, desconfio, terminará sendo destruído pelos slogans.

Artigo| COMUNISTAS SEM FRONTEIRAS

04 de julho de 2015 1

 

Puggina
PERCIVAL PUGGINA
Escritor
puggina@puggina.org

 

Foi Olavo de Carvalho quem primeiro denunciou a existência e os objetivos do Foro de São Paulo. Ele chamava a atenção para o que estava em curso e a imensa maioria dos comentaristas o acusava de ser porta-voz de uma teoria da conspiração. O FSP era visto como tema para ser balbuciado a portas fechadas e enfrentado em divã de psiquiatra. Jamais como objeto de interesse do jornalismo bem informado. Enquanto isso, o Foro, criado em 1990, existia e se expandia. Deliberava e suas metas iam sendo atingidas.
Mesmo quando se reunia no Brasil, ele permanecia como tema sigiloso, até que o próprio Lula, então presidente, em discurso proferido no encontro de 2005, recolheu a cortina: “Foi assim que nós pudemos atuar junto a outros países com os nossos companheiros do movimento social, dos partidos daqueles países, do movimento sindical, sempre utilizando a relação construída no Foro de São Paulo para que pudéssemos conversar sem que parecesse e sem que as pessoas entendessem qualquer interferência política. Foi assim que surgiu a nossa convicção de que era preciso fazer com que a integração da América Latina deixasse de ser um discurso feito por todos aqueles que, em algum momento, se candidataram a alguma coisa, para se tornar uma política concreta e real de ação dos governantes. Foi assim que nós assistimos a evolução política no nosso continente”.
Hoje, os partidos do FSP governam 12 países da região e são a principal oposição em outros quatro. A partir dele se entende que o Brasil ande de cambulhada numa geopolítica exclusivamente petista, como as decorrentes da concepção de “Pátria Grande” (defendida por Lula quando se reúne com os seus). Também a partir do Foro, se explicam: a) o oneroso apoio brasileiro aos países do grupo; b) o nosso envolvimento com encrencas e dificuldades do Paraguai, Honduras, Venezuela, Cuba, Bolívia, El Salvador; c) os conciliábulos da Unasul e a criação da Escola Sul-Americana de Defesa; d) as incursões das Farc em território brasileiro; e) o desdém de Dilma aos presos políticos de Cuba e Venezuela; e f) a contrastante conduta do nosso governo durante as duas visitas de senadores brasileiros em recentes viagens a Caracas. Quem conhece a história do FSP, nascido no rescaldo do fim da URSS, sabe que a entidade é uma espécie de “Comunistas sem fronteiras”, ao qual a nação está sendo entregue, empacotada como presente à tal Pátria Grande. É intolerável que as afinidades e estratégias políticas de um único partido, conectado com os interesses de organizações comunistas internacionais, determinem nossa política externa e não passem pelo crivo das instituições da República.

Sentenças| FRASE DA SEMANA

04 de julho de 2015 0

“Não sou cega nem uma otimista tola. Mas já vivemos muitas crises e vamos sair de mais uma.”

 

MARIETA SEVERO
Atriz, sobre sua visão do país manifestada no programa Domingão do Faustão

Editorial| O DEBATE DAS PRIVATIZAÇÕES

04 de julho de 2015 1

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Ao admitir publicamente que terá de promover privatizações de empresas estatais para atenuar as dificuldades financeiras do Estado, o governador José Ivo Sartori reacende a disputa ideológica que historicamente entrava o desenvolvimento do Rio Grande do Sul. Embora pareça lógico que a estrutura demasiada e cara da máquina administrativa consome mais do que os contribuintes rio-grandenses podem suportar, lideranças políticas, sindicatos e corporações de servidores públicos opõem-se radicalmente à redução do tamanho do Estado. Os pretextos são sempre os mesmos: não seria adequado abrir mão de áreas consideradas de interesse público e, além disso, a iniciativa privada tenderia a elevar preços e tarifas dos serviços que administra, com prejuízos para a população.
São argumentos que perderam o sentido, não só no Brasil mas em todos os países que passaram ou continuam passando pela rediscussão do tamanho do Estado, como acontece de forma traumática na Grécia. O Rio Grande do Sul tem reproduzido, em escala regional, o que países enfrentam em circunstâncias globais. Agravam-se o inchaço da estrutura estatal, a ineficiência gerencial e a irracionalidade na aplicação dos recursos, em um contexto de crise e incertezas. O Estado foi inviabilizado no curto prazo por uma dívida impagável e será ingovernável, em pouco tempo, se nada fizer para corrigir parte dos desacertos cometidos nas últimas décadas.
Desestatizar e submeter os serviços ao rigoroso controle de agências reguladoras é uma saída consagrada por governos em dificuldades. Ao considerar essa hipótese, o governador não está nem mesmo sendo original, mas dando transparência à sua determinação de resolver os problemas. Sabemos que uma equipe formada pelo Executivo trabalha nesse sentido, para que quatro dezenas de fundações, empresas de economia mista e autarquias sejam avaliadas. Muitas são dispensáveis, porque não cumprem nenhuma missão estratégica, não conseguem competir com similares privadas e não têm nenhuma perspectiva de um dia se tornarem relevantes.
A economia, a política e todas as outras formas de perceber o interesse público superaram há muito tempo o debate infrutífero sobre as pretensas ideologias que gravitam em torno do que é estatal e do que é privado. Está esgotado o falso embate entre Estado mínimo e Estado poderoso. O que todos desejam é um Estado eficiente, que saiba definir prioridades e orientar ações em favor da população. É o que se espera das decisões a serem tomadas nessa direção pelo senhor José Ivo Sartori, antes que seja tarde demais.

Artigo| PORTO ALEGRE REPETE VIDEOGAME VIOLENTO

04 de julho de 2015 0

VOLTAIRE SANTOS
Jornalista da Rádio Gaúcha
voltaire.santos@rdgaucha.com.br

 

Você que tem mais de 40 anos, pergunte ao seu filho como é o jogo de videogame GTA (Grand Theft Auto). Em menos de três frases, você vai descobrir que o game traduz exatamente o cenário em que vivemos no mês de junho aqui na Capital. O jogo é sucesso nos Estados Unidos e relata como criminosos dominam com facilidade uma grande cidade americana, espalhando medo com assaltos, tiroteios, sequestros e assassinatos.
Em uma das missões do jogo, os bandidos precisam, em plena luz do dia, ferir um policial dentro de uma viatura, roubar o carro dele e depois saírem atirando contra um coletivo lotado de passageiros. No dia 9 de junho, teve uma ação semelhante por aqui durante a manhã. Marginais balearam o sargento da BM Roberto da Rosa Benites na Rua Fabrício Pilar, e, depois, saíram atirando contra um ônibus da linha 525-Anita, lotado de estudantes.
Já, em outra fase do jogo, o chefe do FBI revela que está impossível sair de casa em função do crime que toma conta dos EUA e pede para que a população fique trancada nas suas residências. Por aqui, não foi nada diferente. No dia 22 de junho, o chefe da Polícia Civil do RS, delegado Guilherme Wondracek, revelou que evita sair durante a noite para não ter o carro roubado.
Em outro episódio do GTA, o personagem Carl Johnson diz que nenhum super-herói é capaz de parar a ação das quadrilhas em San Andreas. Aqui, no dia 6 de junho, o tenente-coronel Francisco Vieira, comandante do 9º Batalhão de Polícia Militar, sugeriu que os participantes de um grupo no WhatsApp chamassem o Batman para realizar a proteção na Redenção.
Em um dos últimos momentos do jogo na cidade de Liberty City, uma quadrilha invade um condomínio e assalta mais de 15 apartamentos. Aqui em Porto Alegre foi ainda pior. Doze homens armados entraram em um prédio no bairro Rio Branco e levaram tudo.
Atenção, governador: já que não podemos pedir mais brigadianos em função dos cortes, pelo menos manda este roteiro para os organizadores do GTA e avisa que, por aqui, a ficção virou realidade. Quem sabe ganhamos este título, já que a batalha contra o crime estamos perdendo todos os dias.

Artigo| POTÊNCIA OLÍMPICA OU ESPORTIVA?

04 de julho de 2015 0

 

HUGO PINTO RIBEIRO
Empresário

 

À medida que nos aproximamos da realização da Olimpíada, mais ouviremos falar que o Brasil não é uma potencia olímpica. E é verdade.
O desempenho nos Jogos é medido pelo número de medalhas e priorizando o ouro. Por esse critério, Cazaquistão, Coreia do Norte e Irã, por exemplo, aparecem à frente de nosso 22º lugar (17 medalhas, sendo três de ouro) em Londres em 2012.
Os Jogos Olímpicos são compostos por 30 modalidades que oferecem ao redor de 800 medalhas. Esportes de baixa popularidade como canoagem (48 medalhas), levantamento de peso (45), luta greco-romana (72) e taekwondo (32) são mais generosos na distribuição dos metais do que futebol e basquete, cada um deles valendo apenas 6. Assim, cria-se um sistema de classificação completamente desproporcional à prática e à repercussão das atividades esportivas no mundo.
Somos os únicos pentacampeões no futebol masculino e sempre chegamos entre os primeiros no feminino. No vôlei, somos os melhores há pelo menos 20 anos, tanto na quadra quanto na praia, masculino ou feminino, em Olimpíadas ou Mundiais. Nosso basquete tem histórias belíssimas nos tempos de Amauri, Oscar, Paula e Hortência, inclusive com três títulos mundiais . No ano passado, os rapazes resgataram nossa posição de destaque na modalidade, chegando às quartas do Mundial e, durante a campanha, ganhando do vice e do terceiro lugar (Sérvia e França). Somos o único país que conquistou títulos mundiais nos três principais esportes coletivos para homens. Nosso handebol feminino é campeão mundial e no masculino estamos perto do primeiro escalão. Estamos entre os melhores na vela e no judô. Eventualmente, temos campeões em esportes de expressão como tênis (Maria Ester e Guga), atletismo (Ademar, Joaquim Cruz, João do Pulo e outros), ginástica (Daiane e Zanetti) e natação (Cielo e antecessores). Além disso, somos líderes em esportes não olímpicos, mas de muita popularidade, como o futsal e o surfe. Tivemos Emerson, Piquet e Sena na Fórmula-1.
Assim, se não somos colecionadores de metais olímpicos, temos cadeira cativa no primeiro escalão do esporte mundial, e que venham os Jogos para julgarmos o que é melhor, ser potência olímpica ou esportiva. Aliás, já busquei no escritório do COI minha carteirinha Pró-Olimpíada, tal qual, muito cedo, fui Pró-Copa. E estou concorrendo à compra de ingressos para vários esportes.

Artigo| A GRANDE JORNADA

04 de julho de 2015 0

PAULO PAIM
Presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal

 

O Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei Brasileira de Inclusão), apresentado por nós, em 2000, e, recentemente aprovado pelo Congresso, é um dos mais importantes instrumentos de emancipação social dessa parcela da sociedade.
Nessa década e meia de tramitação foram realizados mais de 1.500 encontros: audiências públicas, seminários, consultas, conferências nacionais e regionais, com ampla participação de entidades, conselhos e do movimento de pessoas com deficiência.
O Estatuto amplia direitos para 45 milhões de brasileiros nas mais diversas áreas: saúde, educação, trabalho, habilitação e reabilitação, transporte, turismo, lazer, acessibilidade em seu mais amplo espectro. Nos seus 127 artigos destacam-se alguns que penalizam aqueles que o descumprirem, imprimindo maior coerção à legislação da área.
A sanção presidencial do Estatuto não encerrará apenas a trajetória de um projeto de lei, mas, será o fim da caminhada de um projeto de vida de pessoas quase invisíveis, esquecidas pela diversidade de sua própria história. Ele foi escrito por muitos corações, mentes e olhares que se irmanaram na construção de um novo tempo.
O Estatuto é uma nova forma de perceber o ser humano em sua força e fragilidade, uma nova forma de compreender que a diversidade é um traço que não tem de separar as pessoas, mas uni-las, num sentimento de identidade e pertencimento.
Ir e vir pelos caminhos. Percorrer ruas, praças, parques, museus, teatros, escolas, locais de trabalho. Navegar de modo autônomo pelos sistemas e meios de comunicação. Chegar ao entendimento de que o trabalho é questão de oportunidade e a vida de sensibilidade.
A deficiência não será mais vista como antes. O peso desta definição, agora, não recairá mais apenas sobre o corpo, mas, também em toda a sociedade e na forma como o mundo é concebido.
Não estamos inventando a roda. Não estamos partindo do nada. É claro que muitos direitos já existem. Eles não serão perdidos, tampouco desconsiderados. Pelo contrário, serão fortalecidos e orientados por um Estatuto que lhes dará maior robustez legal.