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Editorial| OS RISCOS DO RADICALISMO

02 de março de 2015 1

EditsegundaA crise econômica e política, as investigações sobre a corrupção na Petrobras e a insatisfação crescente da população com suas lideranças evidenciam os riscos de uma convulsão social que o país precisa evitar. Os sinais de radicalismo são claros, tendo nos seus extremos a inoportuna convocação do protesto pelo impeachment, dia 15, e a manifestação irresponsável do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sugerindo que “o exército do Stédile” saia às ruas em defesa do governo. A alusão a João Pedro Stédile, associado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), conhecido pelo radicalismo, só serviu para gerar mais apreensão entre quem se opõe à violência.

No cotidiano brasileiro, multiplicam-se sinais cada vez mais preocupantes de aumento de um sectarismo que só contribui para acirrar ainda mais as tensões em diferentes pontos do país. Foi o que se viu recentemente quando o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega foi hostilizado num hospital particular em São Paulo por um grupo que o aconselhou a ir para o SUS e para Cuba. No Rio, no polêmico ato de apoio à Petrobras, defensores do governo federal e do impeachment da presidente Dilma Rousseff partiram para o confronto. Os próprios transportadores de carga reforçaram esse ânimo beligerante ao ignorarem seus próprios líderes, insistindo na paralisação das atividades, e até a lei, ao constranger colegas e resistir à operação de desbloqueio das rodovias.
O ânimo beligerante tende a se acirrar a partir desta semana, devido a uma série de protestos, com motivações diversas, programados por centrais sindicais. As manifestações antecedem a prevista em defesa de um extemporâneo pedido de impeachment, no momento em que as atenções deveriam estar concentradas no que o Planalto precisa fazer, com o aval do Congresso, para contornar as dificuldades econômicas legadas pelo mau gerenciamento político-administrativo.
As insatisfações crescentes são indícios claros de que o país pode descambar para a desordem se governo e setores representativos da sociedade não buscarem soluções civilizadas para as demandas nacionais. As saídas são as que a democracia oferece diante de um impasse dessas dimensões: a valorização do diálogo e das instituições, para que o país se livre de corruptos e corruptores e possa retomar o crescimento num cenário de estabilidade econômica.

MOISÉS MENDES| A COR DO CORRUPTO

02 de março de 2015 1

A polêmica do vestido que muda de cor, conforme quem olha, é o fenômeno que explica o Brasil. Quem perdeu esse debate está desconectado da realidade. O Brasil é hoje o país em que até uma greve antes cinzenta passou a ser cor de rosa.

Nunca antes os caminhoneiros imaginaram que um dia teriam tanto apoio. Gente que combateu greves durante toda a vida, porque só via o lado sombrio de uma paralisação, saiu às ruas em apoio aos caminhoneiros. Tudo agora é bonito e ensolarado na greve dos caminhoneiros.
É o auge da confusão das cores. Gente que pede intervenção militar nas esquinas e que se queixa do monte de pobre que agora tem carro (e caminhão) transformou-se nos novos apoiadores das greves.
O movimento dos caminheiros mobiliza daltônicos de toda espécie. Há confusão de cores também na corrupção. Corruptos podem mudar de cor. Alguns deles, bem coloridos, dos anos 90, devem ser anistiados, ou porque foram corrompidos há muito tempo ou porque roubaram pouco. São os corruptos-aquarela.
Amanhã deve sair a lista do Ministério Público com os políticos que podem ter recebido dinheiro do esquema Lava-Jato. Já circulam na imprensa as listas de nomes dos mais variados partidos que receberam dinheiro de empreiteiras.
Mas esses, das listas que já circulam, e que teriam declarado as doações, se autoanistiaram. São os amigos dourados dos empreiteiros.
Os políticos dourados são um tipo especial de gente. Muitos deles poderão também estar nas listas do MP, que serão encaminhadas ao Supremo e ao STJ, mas têm tudo para escapar mais adiante, como já fizeram suspeitos amarelos, vermelhos, azuis.
Você olha para um corrupto dourado e sabe que ele já foi bronze e prata. São os que evoluem e escapam de punições. Outros mantêm várias cores que os imunizam. E outros são incolores. E assim o Brasil vai virando um arco-íris.
Os cientistas já explicaram por que nosso olhar pode fazer com o que o tal vestido que mobilizou as redes sociais tenha várias cores. Mas não há como transferir a explicação para a política. Agora mesmo eu estava olhando no jornal a foto de um corrupto amarelo que de repente ficou roxo. Mas tem gente que só vê corrupto vermelho.

Artigo| E SE 10% FOR VERDADE?

02 de março de 2015 0

PLÍNIO MELGARÉ

Advogado, professor da Faculdade de Direito da PUCRS e FMP

“Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos”.
Carlos Drummond de Andrade

O poeta Manoel de Barros dizia que só 10% do que escrevia era mentira. Aqui se propõe uma fórmula diferente: e se 10% do depoimento do doleiro Alberto Youssef e dos demais envolvidos no esquema de corrupção da Petrobrás for verdade?
Ainda não há denúncia formalmente oficializada, provas não foram constituídas. Todavia, os fatos evidenciam uma trama verossímil _ e com as mesmas cores e até personagens do esquema descortinado pela ação penal 407, conhecida como mensalão. Então, nas ilicitudes que envolvem a Petrobras não está em causa apenas um caso de corrupção em uma empresa petrolífera. Não está em causa o assalto perpetrado por diretores de uma estatal, corrompidos por grandes empresários. Não. O que mais uma vez se evidencia é a apropriação privada do patrimônio público. E o esquema imoral de um governo que se vale de uma base partidária espúria para se sustentar no poder. Repete-se o modus operandi desenvolvido no primeiro mandato do ex-presidente Lula: desvio de dinheiro público para partidos que apoiam o governo. A fórmula se repete _ e um jogo clientelista entre os partidos políticos anima uma deletéria governabilidade.
Nesse cenário, se 10% for verdade, haverá de se pensar se esse quadro de corrupção política está de acordo com a ordem jurídico-política constituída. A ordem democrático-constitucional se compagina com essa prática? A corrupção assim institucionalizada não destrói qualquer sentido de democracia? E a ideia de uma Re(s)pública não seria apenas uma farsa?
Nessa ordem, incontornável será o questionamento sobre a responsabilidade do presidente do país. A própria demora em trocar a direção da Petrobras, após a sucessão de escândalos e de prisões, não apresenta algum significado? A inércia e a omissão de um governo diante de volumosa corrupção não constitui fato a ser investigado _ e passível de responsabilização?
Decerto que esse juízo transitará por razões determinadas pelas instâncias políticas. Mas essas já se mostraram demasiadamente fluidas _ e mais atentas aos seus próprios interesses e aos valores que permeiam o jogo político que a própria exigência de correção e decência pública.

 

Artigo| LEI SECA NOS ESTÁDIOS

02 de março de 2015 0

CLÁUDIO BRITO

JORNALISTA
claudio.brito@rdgaucha.com.br
Não é só pela inconstitucionalidade da proposta, nem por imaginar que o vereador André Brasinha tivesse pensado em transgressão de qualquer tipo. É também pelo fato de aplaudir qualquer restrição ao consumo de álcool que assumo oposição à sanção da lei que a Câmara de Porto Alegre aprovou para pretender liberar a venda de bebidas alcoólicas nos estádios da cidade.
Números são irrespondíveis e pelas estatísticas sempre confiáveis da Brigada Militar constatamos a redução da violência em correspondência ao menor consumo de álcool. Sabemos que assim acontece nos crimes de trânsito. E seria ocupar tempo e espaço indevidamente querer lembrar o que representa a bebedeira para a conduta desenfreada do beberrão. Então me dizem que não é só no futebol. Nos camarotes carnavalescos e nos grandes shows a loucura é geral. E também lamento e me oponho. Foi por ver profissionalmente, no Tribunal do Júri, centenas de tragédias em que autores e vítimas estavam embriagados, que construí esse meu pensar.
Lei municipal pode cuidar de matéria de interesse local, que seja de sua competência, sem contrariar leis estaduais ou federais que tratem do mesmo tema. Havendo colisão, prevalecerão as normas do Estado ou da União. É bem o caso. Temos lei estadual proibindo a comercialização e o consumo de bebidas alcoólicas em estádios, em dias de jogos. Mais ainda, o Estatuto do Torcedor, lei federal, proíbe o simples porte da bebida, vedando assim a conduta esperta de quem imaginasse levar de casa a sua garrafa. Então, não cabe ao município levantar as vedações ao álcool. Imagine um tratamento aqui e outro logo ali, em Canoas ou Viamão. Também não entendi porque a lei aprovada e ainda não sancionada pratica alguma discriminação, ao estabelecer que nas arquibancadas e cadeiras as bebidas vendáveis deverão limitar-se à gradação de 14% de álcool, com ausência de qualquer restrição aos torcedores dos camarotes e outras áreas privilegiadas do Beira Rio ou da Arena.
Enfim, espero que a lei seja vetada e proponho vida eterna à lei seca nos estádios.

 

 

MOISÉS MENDES| OS EXTERMINADORES

01 de março de 2015 1

moisesmoises.mendes@zerohora.com.br

A economia foi a desculpa pública para a formação da União Europeia. Mas o que os europeus queriam mesmo era livrar-se das guerras e salvar suas almas. A UE era a tentativa de cura dos horrores do nazismo e do holocausto.

O sociólogo alemão Ulrich Beck lida com os tropeços desse esforço em A Europa Alemã (Paz & Terra, 126 páginas), publicado originalmente em 2012 e só agora editado no Brasil.
Beck é o teórico da sociedade de risco, que vê o mundo sob ameaças permanentes. Valores (inclusive os da família) são fragmentados ou perdem importância. Sob a hegemonia do individualismo, o mundo estaria sempre em espasmos ou à espera de crises econômica, social, ambiental, terrorista.
A Europa Alemã trata da crise do euro e do endividamento de Grécia, Irlanda, Itália, Portugal e Espanha que transformaram a Alemanha em guardiã moral da ideia de unidade. É a isso, à Alemanha como consciência econômica e ética da Europa, que Beck se dedica.
O país que saiu de duas guerras abatido militar e moralmente passa a se impor, pelo poderio econômico, como orientador das vidas dos vizinhos arruinados. A receita é a austeridade, rejeitada pelos gregos, que recentemente elegeram um governo de esquerda.
Austeridade é cortar gastos, inclusive sociais, em nome de um equilíbrio contábil que favoreça a União. A subtração de benefícios e o empobrecimento das populações, mostra Beck, tem, na mesma medida, o favorecimento do sistema financeiro. Austeridade significa fortalecer os bancos e impor mais miséria aos que já não têm quase nada.
A Alemanha é a fiadora da tática do arrocho. O país que meio século atrás emergia de escombros impõe-se como tutor da Europa que não soube se comportar. Os alemães são “os pregadores morais de uma Europa alemã”, cercados por “um bando de países preguiçosos”, que devem ser convencidos de que precisam se reeducar, cortar despesas e restabelecer responsabilidades.
A tutela que protege credores e massacra devedores, em nome do socorro financeiro aos endividados, faz com que a própria Alemanha se reapresente involuntariamente como “a imagem do inimigo”, da qual os alemães e a UE pretendiam se livrar.
Todos são acossados, não pela Alemanha bélica, mas pela nação mais poderosa do continente, avalista de qualquer gesto feito em nome da União.
O moralismo econômico produz a indignação dos que se sentem usurpados em seus direitos. Salvar a União Europeia deveria ser preservar os sonhos e os empregos dos jovens, diz Beck, que escreveu: “Está na hora de virar o jogo, não precisamos de mais bailouts (injeção de dinheiro) para os bancos, e sim de um mecanismo de salvação social para a Europa das pessoas, dos indivíduos”.
O sistema financeiro que suga os europeus tem seus equivalentes em todo o mundo. No Brasil da estagnação, seus lucros aumentam até 25% ao ano.
Beck morreu em janeiro. Testemunhamos por ele a resposta que os gregos começaram a dar, pela democracia, ao sistema que finge socorrê-los e os deixa ainda mais miseráveis.
A Europa livrou-se do nazismo, mas ainda não sabe se um dia poderá livrar-se do que o sociólogo definiu como as catedrais sagradas e intocáveis do sistema financeiro global. As aberrações da sociedade de risco do século 21 também sabem produzir extermínios.

 

Artigo| O QUE É, DE FATO SERÁ?

28 de fevereiro de 2015 1

Flávio TavaresFLÁVIO TAVARES

Jornalista e escritor

O desdém rege nossas vidas? Por isto nos conformamos com as aparências ou damos às explicações fáceis a hierarquia de dogma sagrado?
Faço a pergunta a partir do gesto daquele juiz federal do Rio de Janeiro que usou o automóvel Porsche, confiscado a Eike Batista, para “dar uma voltinha”. Tudo foi tão escancarado e expôs o juiz aos mais desprezíveis adjetivos, que me indago se não poderia ter sido uma manobra dos advogados do bilionário falido para desintegrar o processo.
Antes de ter resposta, a procuradora federal que atua no caso pediu o afastamento do juiz e “a anulação de todas as decisões”. As fraudes de Eike Batista podem voltar à estaca zero, como se nada tivesse sido investigado. E o juiz? Meu tocaio Flávio Souza já foi afastado do processo e poderá ser aposentado com vencimentos integrais!

***

Há séculos, aparência e realidade competem entre si mais do que jogadores e torcidas no Gre-Nal.
Não é preciso conhecer o teatro grego nem filosofia ou psicanálise para saber como o ser humano usa a aparência e a mentira para montar uma “realidade” distante da verdade concreta. O engano começa naquela maçã que não era maçã, com a qual a serpente seduziu a ingênua Eva. Mocinha e solitária, sem pai nem mãe nem emprego ou crédito na praça, Eva não pode sequer comprar um computador em 24 cotas para consultar o Dr. Google e descobrir o ardil.
De lá para cá, a civilizada tecnologia acentuou tudo. A truculência de um lado, o oportunismo e a ladroagem organizada de outro, tornam a sociedade moderna um instrumento do engano e da farsa. O que parece, nem sempre é. Ou nunca é, como na peça de Pirandello, “Cosi è, se vi pare” (“Assim é, se te parece”).
Bastam alguns fatos dos últimos dias para mostrar como o irreal comanda a realidade. A TV mostrou a cena brutal do menino assassinado pela polícia numa favela carioca “porque corria” _ com o celular, ele filmou sua morte, ao filmar a brincadeira de correr com dois amiguinhos. A polícia viu nisso “uma fuga” e atirou para matar, amparada na mentira que oficializou “troca de tiros com bandidos”.

***

Condenado a seis anos de prisão no escândalo do “mensalão”, o ex-presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha, está em casa. Repôs R$ 600 mil fraudados e usufrui de “prisão domiciliar”, saindo à rua durante o dia. Entre nós, o advogado Maurício Dal Agnol, acusado de locupletar-se com R$ 100 milhões de 30 mil clientes, teve a prisão revogada pelo Supremo Tribunal e voltará a advogar.
O ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa (operador do PP, que coordenou a fraude na empresa) voltou a avisar que a “delação premiada” avalizada pelo Supremo lhe garante 1% de comissão sobre as roubalheiras alheias que delatar. Desde o governo do PSDB, antes da maré de Lula e do PT-PMDB, ele é o núcleo da roubalheira. Quando condenado, cumprirá a pena em casa, em meio ao$ milhõe$ da comi$$ão…
A “delação-premiada” premia o crime?
A Procuradoria Federal quer que as seis grandes empresas envolvidas nos subornos da Petrobras devolvam 4 bilhões e 475 milhões de reais desviados ou superfaturados. Quem crê nisso?
A greve dos caminhoneiros pode paralisar o país, mas seguimos reféns deles. A partir da ditadura direitista, terminaram-se as ferrovias e hidrovias, anularam o transporte barato e rápido para atravancar as estradas com caminhões gigantes. Na Europa, China e EUA, caminhão é apenas para curta distância. Aqui, a soja de Mato Grosso embarca nos portos de Santos e Paranaguá…
Nosso Alegre Porto se alegra com os planos do futuro metrô. Durante anos, diferentes prefeitos prepararam a cidade para os automóveis, com as tais “perimetrais” e viadutos ou “elevadas” de concreto. Agora, furarão as ruas, como modernos tatus.
E o leite envenenado?
 

Artigo| TENHO LIDO CADA UMA!

28 de fevereiro de 2015 0

PugginaPERCIVAL PUGGINA

ESCRITOR
puggina@puggina.org
Numa ponta da meada do petrolão, lideranças de um governo que afunda de nariz empinado falam como se a Petrobras fosse tesouro de quem o encontrou ao pé de promissor arco-íris. E o dia, durante 12 anos, nasceu feliz. Na outra ponta, até quem manteve as mãos distantes do óleo grosso quer transferir culpas. O sujeito cumprimentou cordialmente um jornalista da praça _ “Como vai, fulano?”, e este revidou: “E o efeagacê? E o efeagacê?”. Calma, rapaz, um simples bom-dia basta.
Não lembro de período com tanta sandice no noticiário. Li que o ministro da Justiça aferrolhou a porta e conversou com o advogado de uma empreiteira que entrou nervoso e saiu tranquilo. Li exaustiva lista relacionando, com ufania, quatro (!) petistas que teriam desentranhado sua contrariedade com a corrupção em curso. A virtude é assim, tão contagiante? Quatro gotinhas tornam potável a água mais impura? Li que na versão marota do “regime de partilha”, na qual 3% dos contratos abasteciam os partidos da base (2% para o PT e 1% para o PMDB e o PP), tudo era feito “em nome da governabilidade”. Bom, para o país, não? Li que um grupo de 50 “intelectuais” partiu para o ataque afirmando que: 1) a operação Lava-Jato põe em risco nossa soberania e a democracia; 2) seus alvos são a Petrobras e o pré-sal; 3) as investigações estão “dizimando” empresas de alta tecnologia; 4) desenha-se um projeto golpista no país. Com intelectuais assim, quem precisa de tolos?
Ouvi Lula em ato para salvar a Petrobras. Falou como quem mata e vai discursar no velório. Disse que os achados da Lava-Jato nas águas profundas do governo são tema de quem quer criminalizar a política. Ensinou História, afirmando que tais ações acabam em ditadura (certamente lembrou de seus amigos do Foro de São Paulo prendendo opositores). Ameaçou com o “exército do Stédile” (MST) quem atacasse o governo nas ruas. E, ao final, surtou: “O que nós estamos vendo é a criminalização da ascensão social de uma parte do povo brasileiro”. Mas o que é isso, Lula?
Li sobre a campanha por eleições limpas. E pergunto à CNBB, que mantém união estável com o PT há 35 anos: por que não começou a limpeza dentro de casa, fazendo com que suas Análises de Conjuntura não propagassem as mentiras desse partido sobre a situação nacional? Li no hino da Campanha da Fraternidade: “Os grandes oprimem, exploram o povo”. Marxismo de boteco, em pentagrama. E um velho comunista me escreve: por culpa da direita, a Venezuela era um país rico de povo pobre onde o chavismo veio redimir os pobres. Agora, a Venezuela é um país pobre, de povo pobre, digo eu. Mas a culpa, insiste ele, continua sendo da direita. Vai entender!

SENTENÇAS

28 de fevereiro de 2015 0

MADONNAMADONNA

Cantora, depois do tombaço no show do Brit Awards 2015, em Londres
“Minha linda capa foi amarrada muito apertada, mas nada consegue me parar e o amor me levantou.

 

Artigo| FORA DE CONTROLE

28 de fevereiro de 2015 2

marcosRolimMARCOS ROLIM

JORNALISTA E SOCIÓLOGO
marcos@rolim.com.br

As polícias são instituições fundamentais para a democracia porque zelam pela paz pública. Sabe-se da importância delas quando não as temos, como nas greves. Em todo o mundo, a paralisação dos serviços de policiamento acarreta a explosão de crimes e atos de violência, fazendo com que a sociedade se torne, efetivamente, refém de delinquentes perigosos. Não se trata, então, de diminuir as polícias, mas de lutar por instituições altamente capacitadas e inteligentes, submetidas ao Estado Democrático de Direito e capazes de proteger as pessoas e seus direitos. Estamos muito longe desse perfil profissional no Brasil. Pior: estamos cada vez mais longe.
Quem assistiu, na última terça-feira (25), ao “Profissão Repórter” na TV Globo, com Caco Barcellos, sabe do que estou falando. O programa mostrou que muitos policiais trabalham a partir da “lógica de guerra”, onde suspeitos são executados e, depois, enxertados com armas com numeração raspada. O “kit flagrante” inclui drogas usadas para “arrumar a cena” de tal forma que as execuções pareçam disputas com traficantes. Nesta lógica, os que obstaculizam a eliminação dos inimigos, inimigos são. Assim, repórteres como o próprio Caco (autor de “Rota 66, a história da polícia que mata”, de 1992) advogados, juízes garantistas e ativistas dos direitos humanos são “defensores de bandidos”, uma expressão que nada diz sobre os acusados, mas que revela muito sobre os acusadores. O que ocorreu na Bahia, na chacina do Cabula, é assustador. As evidências mostram que PMs, depois de fuzilarem jovens pobres e negros, vestiram os cadáveres com fardas, simulando enfrentamento com um “grupo guerrilheiro”. Aqui perto, moradores de uma ocupação no Rubem Berta afirmam terem sido torturados por PMs na noite do dia 19 de fevereiro, com sacos plásticos para sufocamento e spray de pimenta. “Ameaçaram tocar fogo em nós. Derramaram azeite dizendo que era gasolina e queimaram com isqueiro”, contou uma das vítimas. Pelo que se sabe, testemunhas estão sendo ameaçadas. Dois fatos, entre muitos outros tão ou mais graves, que sequer chegam ao conhecimento do público. Ao lado da violência, sua irmã siamesa, a desonestidade, ameaça se transformar em metástase, com policiais integrando a folha de pagamento do tráfico.
Diante dos fatos repetidos, já deveríamos ter percebido a existência de um padrão alimentado por um modelo institucional absurdamente ineficiente, caro e violento, que vitima cidadãos e também policiais. O tema da reforma do modelo de polícia no Brasil, entretanto, segue fora da agenda política. Como tudo o que de fato importa, aliás.

 

Artigo| A VIDA EM CINZA

28 de fevereiro de 2015 1

diana29DIANA LICHTENSTEIN CORSO

dianamcorso@gmail.com
Psicanalista
Imagine que você fabrique um produto qualquer: uma esponja de aço, por exemplo. Seu sonho de empresário seria tornar-se Bombril, que em nossa língua é sinônimo desse objeto. Agora imagine que os amantes almejassem o mesmo: ser tão perfeitos um para o outro que suprimissem a concorrência. Esse é o segredo de Christian Grey e Anastasia Steele, protagonistas de um amor absoluto em “50 tons de cinza”, escrito pela norte-americana Erika Leonard James.
Respeitosos às leis do mercado, os amantes da história reúnem-se em torno de uma mesa de negociações para acertar detalhes de seu contrato. Não se trata de um casamento, mas sim de um código de comportamento sexual, submissão e domínio. O acordo não é pacífico, há escaramuças e desentendimentos, como em qualquer novela romântica, mas é para apimentar o final feliz, que se dá ao cabo de três volumes e filmes.
Numa cartada só, a Sra. James conseguiu suprimir a maior parte das interrogações e tormentos que nos preenchem e ocupam. Gastamos a existência a indagar qual nosso valor e o que gostaríamos de conquistar, o que é ser um homem e o que é ser uma mulher. Além disso, atrapalham-nos para amar as lembranças infantis do prazer e do terror de ser subjugados e protegidos. Para Christian e Anastasia está quase tudo resolvido.
Eles são virgens, ela de corpo e ele de coração. Ele é riquíssimo, jovem e belo. Sim, os príncipes ainda existem. E como as Cinderelas também, esse cobiçado solteiro fica mesmerizado quando pousa os olhos na desmilinguida universitária que aparece para entrevistá-lo para um jornalzinho de faculdade. O que ocorre entre os dois é um desejo incontrolável à primeira vista, que logo se transforma em juras de amor.
Rapidamente a relação torna-se o negócio mais importante para ele e o projeto de vida prioritário para ela. Ele quer subjugar-lhe o corpo, mas acaba entregando-lhe a alma. Ela cobiça possuir a alma dele, mas entrega seu corpo com um prazer minuciosamente descrito. Apesar dos chicotes, cintos e palmatórias próprios da cena sadomasoquista, o livro difere das clássicas publicações do gênero ao dedicar grande espaço à exploração do corpo e dos prazeres femininos, dos quais Anastasia goza amarrada e amordaçada.
Pense bem nas suas dúvidas: você nunca sabe direito o que quer nem o que precisa para ser desejável. Além disso, sente-se ambivalente quanto aos prazeres da carne, nos quais sempre fantasia um tanto a mais do que realiza. Como as mulheres nunca tiveram um destino em aberto, o recato era imprescindível e as escolhas restritas, o leque dessas vacilações era para elas menos explícito. Com a liberdade, ganharam o benefício e o inferno das dúvidas. E. L. James tem a resposta para todos esses males: não enxergue cores, atenha-se ao cinza e viva uma vida Bombril.

Diana Corso escreve quinzenalmente neste espaço.