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MUDANÇA

15 de setembro de 2015 0

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Editorial / A PRESIDENTE SOB PRESSÃO

14 de setembro de 2015 2

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As reuniões emergenciais realizadas no fim de semana pela presidente da República com um grupo de ministros são a expressão de quanto o governo demorou para reagir à crise econômica e política. Anunciou-se ao final desses encontros que a presidente da República empenha-se agora em obter da sua equipe cortes da ordem de R$ 15 bilhões, na tentativa desesperada de oferecer ao Congresso o contraponto exigido para a intenção do Executivo de aumentar impostos. As circunstâncias são desfavoráveis ao governo, em um contexto de fatos negativos fomentado pelos erros do próprio Planalto.
A tentativa de reduzir despesas é tardia e vem na sequência da desastrada atitude do governo de enviar ao Congresso o Orçamento de 2016 com um rombo de R$ 30 bilhões. A presidente tenta reagir a uma situação dramática, sob todos os pontos de vista. Sob o aspecto econômico, o que se vê é o agravamento da recessão, que provoca desemprego e perda de renda, combinados com inflação e juros em alta. É finalmente admitido pelo governo que esse quadro de desalento poderia ter sido atacado muito antes, com medidas corretivas que o Planalto se negou a executar. Uma das consequências mais recentes foi a decisão da agência Standard & Poor’s de retirar do Brasil o selo de bom pagador.
Antes disso, o governo já havia perdido a confiança dos empresários e desorientado até mesmo os analistas, que ainda tentam compreender seus movimentos erráticos. O clima de pessimismo é agravado pela perda da sustentação política, que o Executivo vinha mantendo precariamente. O que se vê hoje é uma base governista que conspira contra os interesses do Planalto quase com a mesma intensidade da oposição. É esta base que a presidente da República precisa convencer de que o ajuste fiscal, que pode prever aumento da carga tributária, será compensado por cortes drásticos de despesas.
É uma intenção que precisa ser bem explicada, aos políticos, aos empresários e à sociedade, já no início da semana, sob pena de comprometer o que resta de apoio ao governo. A senhora Dilma Rousseff deve, finalmente, ter clareza de que sua indecisão corroeu parte expressiva do suporte político de que desfrutava até aqui. Reagir a esse desalento generalizado é o mínimo que se espera de quem pretende continuar governando, mesmo que sob a desconfiança inclusive dos que lhe asseguraram um segundo mandato.

 

Artigo / O SABIÁ TUCANO

14 de setembro de 2015 1

MOISÉS MENDES
moises.mendes@zerohora.com.br

Seu Mércio não acreditava mais na possibilidade de impeachment da presidente nem que ainda faria frio nesse inverno. Mas quase se afogou no mate na madrugada de sábado ao ouvir no rádio que o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros também pede a saída de Dilma.
Era só o que faltava, pensou seu Mércio: uma fala do Mendonção para derrubar Dilma. Quem sabe? Pelo histórico, pela expressão como empresário, pela liderança. Vozes fortes, sempre ouvidas em momentos de gravidade, disseminam ecos por toda parte.
Você deve estar se perguntando: mas quem é o Mendonção? Pois não subestime homens com aumentativo no nome. Seu Mércio sabe que ele é figura do porte político de um Zé Agripino Maia. Se o Zé Agripino se articular com o Ronaldo Caiado e o Bolsonaro, se formarem um grupo coeso, não há quem resista.
Agripino, Caiado, Bolsonaro, Eduardo Cunha, Renan Calheiros e Mendonção. Fechou-se o cerco das grandes lideranças. Seu Mércio olha para Panfílio, o sabiá guaxo, enquanto o bicho cavoca com o bico no chão, e reflete: se o Mendonção entrou na parada, dando entrevistas a rodo, é porque a coisa ficou feia.
Seu Mércio sabe que felizes mesmo são os sabiás. Eles não entendem por que o Brasil perdeu o selo de bom pagador de uma agência de risco que não previu risco nenhum na crise financeira de 2008. Os sabiás continuam sua vidinha, sem saber que o Brasil pode acabar antes da primavera com nota 6.
É boa a vida do Panfílio. Inocente, com duas famílias, uma na Aberta dos Morros e outra em Ipanema, mas sem inflação, sem contas de luz pra pagar, sem ter a mínima noção do risco (que a Standard & Poors não acusa) de ser governado pelo Temer ou pelo Aécio. Panfílio cisca na grama como se morasse num mundo sem cães e sem gatos.
Esse é o mundo dos sabiás, como se o Brasil ainda estivesse sob governo tucano, sem sobressaltos, sem corrupção, sem desemprego e sem inflação e com selo de bom pagador. Panfílio se sente tão seguro quanto um político do PSDB em lista de suspeitos da Lava-Jato. Sabe que nada vai acontecer.
Mas seu Mércio, não. Seu Mércio sabe que, depois das declarações do Mendonção, o fim do inverno promete. Sorte do Panfílio, alheio ao fim do mundo anunciado por Mendonção. Seu Mércio olha Panfílio fuçando no chão e reflete: é um sabiá, canta como sabiá, come minhoca como sabiá, mas vive como se fosse um tucano.

Artigo| DECRETO SOBRE MILITARES

14 de setembro de 2015 6

NELSON JOBIM
Jurista, ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal

 

A Presidência, dia 3, editou o Decreto 8.515 que delega competência ao ministro da Defesa para a edição de atos relativos a pessoal militar e revoga Decretos de 09.1998 e 01.1968.
O Decreto de 1998 consiste na delegação do presidente FHC aos então ministros da Marinha, do Exército e da Aeronáutica dos mesmos atos constantes do Decreto do dia 3.
À época não havia o Ministério da Defesa.
Os ministros militares eram, também, comandantes das forças.
Já o decreto de 1968 delegou competência aos ministros militares para aprovar os regulamentos das Escolas e Centros de Formação e Aperfeiçoamento, respectivamente, da Marinha de Guerra, do Exército e da Aeronáutica Militar.
Curiosamente o decreto de 1968 já estava revogado por atos do governo FHC, que disciplinaram, exaustivamente, o ensino militar das 3 forças!!!
Os atos normativos, cuja edição foi delegada ao ministro pelo decreto do dia 3, dizem respeito a direção e gestão de cada força.
Deu problema.
O ministro da Defesa não estava no Brasil.
O comandante da Marinha, em substituição ao ministro da Defesa, declarou que o decreto não passara por ele.
O chefe da Casa Civil informou que o decreto, na forma publicada, fora solicitado pela aecretária executiva do Ministério da Defesa.
Os comandantes afirmaram que não foram informados e que tomaram conhecimento de minuta cuja delegação seria para eles.
Deputados pretendem aprovar ato legislativo para sustar os efeitos do decreto.
Diziam uns que o problema poderia ser resolvido com portaria do ministro da Defesa que subdelegaria aos comandantes as referidas competências.
Mas há um impossibilidade.
A Lei Complementar 67, de 1999, dispõe que os comandantes exercerão a direção e a gestão da respectiva força (art. 4º, com a redação da LC 136/2010).
A presidência não pode delegar ao ministro competência que lei atribui aos comandantes.
O ministro não pode subdelegar competências que não poderia ter recebido por delegação, pois elas são dos comandantes.
Caberia à presidência, por decreto, definir no que consistem a direção e a gestão das respetivas forças, atribuidas aos comandantes pela lei.
No entanto, no dia 10, o erro se agravou.
Retificaram o decreto para permitir (!) ao ministro a subdelegação aos comandantes.
A lei complementar nada vale, quando atribui aos comandantes, sem intermediação, o exercício da direção e da gestão da respectiva força?
O caminho escolhido foi tortuoso, ilegal e, ainda, reiterado.
Incompetência no nosso Brasil?

Artigo| UMA LEI QUE DEU CERTO

14 de setembro de 2015 0

CLÁUDIO BRITO
Jornalista
claudio.brito@rdgaucha.com.br

 

Várias vezes me pediram que escrevesse ou falasse de leis que pegaram ou não. Afinal, como outros analistas, especialistas ou não, frequentemente afirmo que temos leis suficientes e até demais. O que falta é efetividade, aplicação ágil e objetiva, com resultados. Pois, hoje, ocupo este espaço para falar da lei brasileira que, para mim, é das que podemos incluir em qualquer lista das que funcionam, pegaram e dão certo. E em lugar de honra, pois sua prática tem sido relevante, pedagógica e modelar.
Falo da Lei 8.078, de 11 de setembro de 1990, o nosso Código de Proteção e Defesa do Consumidor. Seu enunciado é mais do que um rótulo, é uma exposição de motivos, uma justificativa que resume suas metas: proteger e defender os cidadãos, reequilibrando as relações de consumo, uma vez que estas acontecem entre o poder econômico dos fornecedores e a vulnerabilidade dos consumidores. Não exagero quando identifico o consumidor como um vulnerável, facilmente seduzível pela propaganda e pelos apelos consumistas que, não raramente, levam ao superendividamento. Por força dos mandamentos da Constituição Federal, o Código do Consumidor nos alcança mecanismos de resguardo a dignidade, saúde, segurança, interesses econômicos e qualidade de vida. Direito à informação e à transparência, harmonia nas relações de consumo, entre outras garantias, encontram suporte na lei que acaba de festejar os primeiros 25 anos de sua publicação, em vigor seis meses depois.
O que me entusiasma é a força de nossa lei de consumo, capaz de levar os fornecedores a comportamentos adequados, conscientes, corretos. Foi pelas lições que o uso do Código do Consumidor proporcionou que as empresas ampliaram suas ouvidorias e serviços de atendimento. É significativo o índice de ajustamentos e compensações que fornecedores e consumidores resolvem em contato direto. Quando é insuficiente percorrer esse caminho, estão aí os Procons, delegacias de polícia especializadas, Ministério Público, Defensoria Pública, Judiciário, organizações privadas de cidadãos e câmaras de mediação e conciliação tratando de fazer real o sentido de cada dispositivo da lei.
Agora é necessário ampliar e fortalecer prerrogativas e possibilidades dos Procons, o que depende de aprovação de nova legislação complementar. Mais ainda, falta entusiasmar centenas de municípios a que instalem seus órgãos de defesa dos consumidores. Uma lei tão boa está aí para ser usada plenamente.

Artigo| DISTORÇÕES DA MIOPIA

12 de setembro de 2015 0

Flávio Tavares

FLÁVIO  TAVARES
Jornalista e escritor

 

A miopia política faz mais danos do que a cegueira em si. Quando alguns nada veem ou apenas olham sem ver, é fácil mostrar a realidade: os cegos até agradecem, pois passam a entender o que não conseguem divisar. Mas a miopia política, que vê pela metade ou em forma distorcida, invertendo ângulos, está convencida de que enxerga maravilhosamente bem e só aceita o que não vê. Ou o que não é.
Quanto mais o mundo estiver de cabeça para baixo, mais a miopia política acaba por ver tudo no lugar certo. Convencida de que o mundo é aquilo que aparece (e não o que é), foge das soluções concretas. Não indaga nem acha isto necessário, pois vê o mundo como miragem e faz do irreal algo material.
Lembro-me disto não só em função da tosca política brasileira, mas de outro fato destacado na imprensa.
A fotografia de Aylan, o menino curdo de três anos cujo corpo deu às costas da Turquia após o naufrágio do barco em que era “contrabandeado”, com a família, rumo à Europa, circulou pelo mundo numa mostra da situação cruel do Oriente Médio e da África. O drama dos que fogem da perseguição e da miséria tem, agora, um símbolo material de dor.
Mas, pergunto: a generosidade com que os países europeus, a começar pela Alemanha, recebem os refugiados não terá muito de miopia ou, até, de cínico estrabismo?

***

O problema a resolver no Oriente Médio, ou na África negra, não é a situação dos que fogem da matança, da opressão e da fome. Os refugiados são apenas o sintoma do horror político-social lá implantado. O problema é o criminoso fanatismo mórbido do chamado Estado Islâmico e demais hordas que pululam pelos países muçulmanos. Na África negra, e também muçulmana, a corrupção dos ditadores (alguns à mostra, outros disfarçados) agrava a miséria e o atraso.
É isto que gera a fuga em massa. O problema não são os refugiados, mas _ sim _ os ditadores que lá estão, alimentados pelo absurdo religioso das espadas que degolam cristãos e judeus, ou pelas bombas com que se matam entre si.
O problema a resolver é a barbárie lá existente. Receber generosamente os que fogem é só um cínico paliativo. Nenhum refugiado político ou religioso opta por deixar sua pátria. Durante mais de 10 anos, durante a ditadura direitista, perambulei pela América e a Europa como refugiado político. Obrigado a sair do Brasil, sei o que seja deixar tudo _ a família, os amores, a profissão _ e conhecer as dores de recomeçar tudo noutro ambiente, noutro idioma.

***

No Brasil, a ditadura terminou quando o presidente Carter, dos EUA, pressionou os generais que seus antecessores haviam apoiado desde o golpe de 1964. Em contraposição, hoje, o Ocidente festeja os facínoras dos países árabes e da África produtora de petróleo.
A Fifa fará a Copa do Mundo de 2022 no Catar, um emirado absolutista, sem poder judicial nem direitos cidadãos, governado pelo emir Hamad bin Al Thani que, em 1995, depôs e fuzilou o próprio pai e todo o governo. Dias atrás, Obama recebeu em Washington o príncipe herdeiro da Arábia Saudita e os chefões do Catar, Bahrein e outros emirados e lhes renovou “a amizade e cooperação” dos Estados Unidos. Nenhum desses governos, porém, se ofereceu para receber os refugiados da Síria e outros.
Abrir os braços aos perseguidos é um belo gesto de humanismo, mas inócuo e míope, pois não toca na origem do horror. A loucura dos regimes de opressão continuará no Oriente Médio, com mais opressão, terror e miséria.

***

P.S. – O assalto à Petrobras tem nova dimensão: Fernando “Baiano” Soares, operador do PMDB na roubalheira, optou pela “delação premiada” e promete contar tudo sobre os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, além de outros.

Artigo| SOMOS TODOS ESTRANGEIROS

12 de setembro de 2015 0

 

Diana Corso novo

 

 

 

 

 

DIANA LICHTENSTEIN CORSO
dianamcorso@gmail.com
Psicanalista

 

Volta e meia, em nosso mundo redondo, colapsa o frágil convívio entre os diversos modos de ser dos seus habitantes. Neste momento, vivemos uma nova rodada dessas com os inúmeros refugiados, famílias fugitivas de suas guerras civis e massacres. Eles tentam entrar na mesma Europa que já expulsou seus famintos e judeus. Esses movimentos introduzem gente destoante no meio de outras culturas, estrangeiros que chegam falando atravessado, comendo, amando e rezando de outras maneiras. Os diferentes se estranham.
Fui duplamente estrangeira, no Brasil por ser uruguaia, em ambos os países e nas escolas públicas por ser judia. A instrução era tentar mimetizar-se, falar com o menor sotaque possível, ficar invisível no horário do Pai Nosso diário.
Certamente todos conhecem esse sentimento de sentir-se estrangeiro, ficar de fora, de não ser tão autêntico quanto os outros, ou não ser escolhido para o que realmente importa. Na infância, tudo é grande demais, amedronta e entendemos fragmentariamente, como recém-chegados. Na puberdade, perdemos a familiaridade com nossos familiares: o que antes parecia natural começa a soar como estrangeiro. Na adolescência, sentimo-nos estranhos a quase tudo, andamos por aí enturmados com os da mesma idade ou estilo, tendo apenas uns aos outros como cúmplices para existir.
O fim desse desencontro deveria ocorrer no começo da vida adulta, quando trabalhamos, procriamos e tomamos decisões de repercussão social. Finalmente deveríamos sentir-nos legítimos cidadãos da vida. Porém, julgamos ser uma fraude: imaginávamos que os adultos eram algo maior, mais consistente do que sentimos ser. Logo em seguida disso, já começamos a achar que perdemos o bonde da vida. O tempo nos faz estrangeiros à própria existência.
Uma das formas mais simples de combater todo esse mal-estar é encontrar outro para chamar de diferente, de inadequado. Quem pratica o bullying, quer seja entre alunos ou com os que têm hábitos e aparência distintos do seu, conquista momentaneamente a ilusão da legitimidade. Quem discrimina arranja no grito e na violência um lugar para si.
Conviver com as diferentes cores de pele, interpretações dos gêneros, formas de amar e casar, vestimentas, religiões ou a falta delas, línguas, faz com que todos sejam estrangeiros. Isso produz a mágica sensação de inclusão universal: se formos todos diferentes, ninguém precisa sentir-se excluído. Movimentos migratórios misturam povos, a eliminação de barreiras de casta e de preconceitos também. Já pensou que delícia se, no futuro, entendermos que na vida ninguém é nativo. A existência de cada um é como um barco, em que fazemos um trajeto ao final do qual sempre partiremos sem as malas.

Artigo| O QUE DEIXAMOS DE SER

12 de setembro de 2015 3

moises

 

MOISÉS MENDES
Jornalista
moises.mendes@zerohora.com.br

 

Quando passar na frente do casarão ao lado do Palácio Piratini, pense que aquele prédio abrigou um dos mais atrevidos gestos da política gaúcha. O casarão era a sede da Assembleia. Aconteceu em 1947, no processo de redemocratização. Getúlio havia sido deposto dois anos antes.
A nova Constituição brasileira tinha um ano. Walter Jobim, do PSD, fora eleito governador. O trabalhista Leonel Brizola tinha 25 anos e estreava na política como deputado.
Outros deputados da época: João Goulart, Fernando Ferrari e José Diogo Brochado da Rocha, também do PTB, Mem de Sá e Carlos de Brito Velho, do PL, Tarso Dutra, Nestor Jost e Francisco Brochado da Rocha, do PSD, Daniel Krieger, da UDN, e Dyonélio Machado, do PCB.
Naquele ano, o Rio Grande decidiu que seria parlamentarista. O único. Em um país presidencialista, os constituintes queriam um governo de gabinete. Os gaúchos não iriam sair de uma década de ditadura para uma democracia de meia-tigela. Seríamos os europeus do Brasil.
O sistema proposto pelo Partido Libertador de Raul Pilla, o pregador do parlamentarismo, foi aprovado por uma articulação do próprio PL com o PTB e o PCB. No dia 8 de julho de 1947, a Constituição promulgada definia: teríamos um presidente, um chefe do secretariado (o “primeiro-ministro”) e seus secretários.
Os secretários se submeteriam à vigilância da Assembleia, que poderia, por voto de desconfiança, mandá-los embora quando quisesse. Mas o governador somente poderia dissolver a Assembleia a partir de 1952. O Rio Grande parlamentarista durou 10 dias. O Supremo acabou com a brincadeira ao acolher, por 10 votos a zero, uma ação de inconstitucionalidade do governador.
Tudo está contado no livro Os 10 Dias em que o Rio Grande do Sul foi Parlamentarista, organizado pelo jornalista José Bacchieri Duarte (edição da Assembleia Legislativa, 2003).
Foram quatro meses de debates. Discursos e apartes são o melhor do livro. Os deputados _ provocados por Mem de Sá, o autor da emenda parlamentarista _ citavam Louis Antonie Léon de Saint-Just, Montesquieu, Robert Redslob, Hans Kelsen, Alexandre de Lameth, John Locke, Léon Duguit, Maurice Haurion, James Madison. Não citavam brasileiros do Direito, do constitucionalismo e da política. Citavam os clássicos.
Alguém chegou a dizer que o Rio Grande seria como “a Velha Albion” _ seríamos uma nova Grã-Bretanha. Comparavam, em detalhes, as Constituições da Europa e dos Estados Unidos. Sabiam até que as melhores cartas magnas foram elaboradas depois de 1918. Dyonélio Machado declamava trechos da Constituição francesa. Em francês, claro:
_ L’Union française est composée de nations et de peuples qui mettent en commun…
É possível refletir sobre a petulância de 1947 do jeito que se quiser. Foi mais um gesto do nosso sentimento de superioridade e de distinção? Ou foi uma chance destruída pela Justiça, que poderia, quem sabe, ter conduzido o Estado por outros caminhos?
E pensar que eles falavam dos franceses com intimidade. E que hoje há até quem nos proponha o debate de saídas para a crise política, do Rio Grande e do Brasil, a partir das ideias de um cantor medíocre. Eles debatiam Léon Duguit (1859-1928), o sábio que levou para o Direito o princípio da solidariedade social. Nós debatemos Fábio Júnior. Que tempos.

***

O livro sobre a Constituinte de 1947, organizado por Bacchieri Duarte, está, na íntegra, neste endereço:

http://www2.al.rs.gov.br/biblioteca/LinkClick.aspx?fileticket=xaCD9sub_jU%3D&tabid=5360

Artigo| CONTA AMARGA

12 de setembro de 2015 1

marcosRolim

MARCOS ROLIM
Jornalista e sociólogo
marcos@rolim.com.br

 

O médico e ensaísta inglês Anthony Daniels _ mais conhecido como Theodore Dalrymple,  um dos seus pseudônimos  _  é, reconhecidamente, um intelectual conservador. Diante desta filiação, leitores que se consideram progressistas ou de esquerda tendem a não ler suas obras. O mesmo costuma ocorrer com os leitores situados à direita, que tampouco leem os autores que  lidam com outros paradigmas e valores. Nesta recusa e no desconhecimento que a antecede há uma perda imensa. Ficamos menores quando lemos apenas os que se alinham com nossas perspectivas. O critério básico para a leitura deveria ser não a concordância, mas a qualidade dos textos. As obras fundamentais, aliás,  sequer podem ser enquadradas sob os rótulos de “esquerda” ou “direita”, porque transcendem as unilateralidades presentes nas abordagens militantes.
O livro de Dalrymple Nossa cultura, ou o que restou dela… (É Realizações Ed., 397 pág) é uma coletânea com 26 ensaios com uma crítica ao que o autor denomina “degradação dos valores”. Vale muito ser lido. Discordo de algumas das posições sustentadas por ele. Para citar dois exemplos, me soa desarrazoada a ideia de que a licenciosidade moral nas obras de arte tenha cumprido papel destacado na indisciplina das crianças, o que conduz o autor a um flerte com a censura. Da mesma forma, sua posição contra a legalização das drogas me pareceu uma sobrevivência especulativa e não uma conclusão derivada logicamente dos seus argumentos. Não obstante, a honestidade intelectual e o esforço teórico em procurar captar aspectos não equacionados nas polêmicas em curso distinguem os textos e os tornam deliciosos. Trabalhos assim exigem muito mais dos que sustentam posições diferentes. Fosse essa a dinâmica do debate público, teríamos discussões não superficiais, haveria espaços para posições mais complexas e, sobretudo, teríamos um ambiente de escuta verdadeira. Ainda sobre o livro mencionado, recomendo muito o ensaio Como amar a humanidade _ e como não a amar, em que Darlrymple constrói um instigante paralelo entre Karl Marx e Ivan Turgenev.  A esquerda brasileira, especialmente, deveria lê-lo com atenção.
Darymple ajuda a perceber a falta que nos faz um debate público de qualidade. A polarização entre “esquerda” e “direita” ou entre situação e oposição não é um problema. O drama é que a disputa política no Brasil abandona o argumento pela acusação, exila a sutileza em favor dos slogans,  amaldiçoa o conhecimento e promove o preconceito. Essa, a mais amarga das contas, já a estamos pagando todos.

Artigo| E AGORA, JOSÉ?

12 de setembro de 2015 4

Puggina

 

 

 

 

PERCIVAL PUGGINA
Escritor
puggina@puggina.org

 

Eu sei, eu sei. De repente a vida ficou pesarosa e irritante para quem viveu décadas surfando na utopia. Aquele discurso socialista tinha a leveza de um sonho erótico e excitava no contraste com a realidade, coitada _ encardida, feia e banguela. Vendia-se utopia no vidro traseiro dos carros. Vendia-se em camisetas, bandeiras e alto-falantes. Nos microfones, púlpitos e salas de aula. Nas charges e colunas de jornal. Era fácil de anunciar e barata de comprar. Haveria, logo ali, um novo céu, uma nova terra e um homem novo. Onde? Como? Era tão simples! Tudo se resumia em Lula-lá!
Tenho bem presente a Constituinte de 1988, os anos 90 e, principalmente, os gozos cívicos que marcaram a chegada de Lula ao poder. Uns poucos, entre os quais eu, antevíamos o que estava por vir. Assim como era inevitável a vitória da utopia sobre a realidade, era inevitável o desastre que sobreveio devagar, incontornável. Desastre moral, institucional, fiscal, econômico, cultural. Desastre que atinge todos os objetivos permanentes de qualquer sociedade civilizada: ordem, justiça, liberdade, segurança e progresso. Nada simboliza melhor o colapso de um projeto impulsionado pela ingenuidade de uns e a vaidade de outros do que Lula assistindo a Copa de 2014 pela TV, e Dilma no 7 de Setembro de 2015, cercando-se com as autoridades numa espécie de campo de concentração às avessas. O governo se esconde do povo.
Então, eu sei, a vida arruinou para quem, nos meios de comunicação, inflou um projeto político que agora se veste de pixuleco. Os propagandistas recolhem seus realejos. Não há mais público para defensores do governo. Fica chato fazê-lo e assinar embaixo. Isso só por muito dinheiro e boa parte dos antigos propagandistas da utopia eram voluntários, rodavam sua manivela por devoção. Vem-me à mente, então, o grande Carlos Drummond de Andrade: “E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José?”.  Agora, quando o sonho erótico virou desvario masoquista, ainda com o poeta digo a José: “O dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo fugiu e tudo mofou. E agora, José?”.
José, coitado, cuida como pode de proteger o indefensável. Ele não mais se aligeira com os porta-estandartes da utopia que não veio. Repare bem nele. Furioso, xinga e ofende quem faz oposição num país que precisa, urgentemente, de rumo e prumo. É feio, mal educado, mas _ que remédio? _ se a utopia mofou e deu nisso que está aí?