Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Editorial| OS EFEITOS DO CALOTE

01 de agosto de 2014 3

140801Princ_sex_web

Pela segunda vez desde 2001, a Argentina volta a inquietar o mundo financeiro em consequência ao mesmo tempo de reiterados equívocos de sua política econômica interna e de um insólito impasse pela intransigência de credores, que amplia os temores entre outros países endividados. Diferentemente de 13 anos atrás, dessa vez o Brasil, seu principal parceiro comercial, não corre maiores riscos de contágio financeiro e cambial. Ainda assim, o Brasil precisa torcer por uma solução rápida para a moratória técnica, que pode surgir em nova reunião marcada para hoje, em Nova York. Os formuladores da política econômica brasileira devem se preocupar também em delinear alternativas e buscar uma forma de compensação para as consequências dessa crise.
No primeiro semestre, antes mesmo da situação de calote ter se tornado incontornável, o comércio entre Brasil e Argentina já havia registrado uma queda de 20% em relação a igual período do ano passado. O aspecto complicador é que a pauta brasileira de exportações inclui automóveis, máquinas e equipamentos em geral. Há uma série de razões que tornam remota qualquer possibilidade de uma retomada imediata nas aquisições desses itens. Uma delas é que, por incompetência gerencial, o principal parceiro brasileiro no Mercosul conseguiu a façanha de reduzir suas reservas cambiais de US$ 52 bilhões para apenas US$ 27 bilhões de 2011 até agora. O impasse com a decisão da Justiça norte-americana que assegurou o pagamento integral dos títulos no caso dos chamados “fundos abutres” e o rebaixamento da nota do país pela Standard & Poor’s apenas agravaram a situação.
O dramático desfecho da excessiva politização de um tema que deveria ser tratado pela Argentina de forma técnica deve motivar o Brasil a ampliar mais as possibilidades de acordos bilaterais. Sem prejuízo das conquistas registradas até agora, o Brasil precisa buscar formas de ficar menos preso a interesses pautados mais afinidades ideológicas do que pelas perspectivas de avanços comerciais continuados.
É por objeções de países como a Argentina que o Mercosul, até hoje, não avançou nas negociações com a União Europeia, por exemplo. O Brasil precisa se abrir mais, investindo em parcerias que ampliem suas perspectivas de negociar abertamente com economias preocupadas em se manter sempre em busca de mais competitividade.

Artigo| O CAPITAL NO SÉCULO 21 E A POLÍTICA

01 de agosto de 2014 2

GABRIEL WEDY
Juiz federal, professor

 

Thomas Piketty causou alvoroço entre os economistas de todo o Mundo com o lançamento do recentíssimo Le capital au XXIe siècle. Nesta obra, o economista francês analisa a renda e a sua acumulação nos últimos 300 anos de capitalismo. A abordagem adotada é no sentido da defesa da economia de mercado e da propriedade privada, mas identifica como sua principal vulnerabilidade a desigualdade na distribuição da renda entre os muito ricos e o resto da sociedade.
E a principal força desestabilizadora do capitalismo, causadora da desigualdade e do desequilíbrio social, estaria relacionada ao fato de que a taxa privada de retorno do capital é significativamente maior que a taxa de crescimento dos salários e da produção. A desigualdade acaba por ser identificada pela riqueza acumulada ao longo das décadas pelos maiores rentistas em comparação com os salários e a produção no mesmo período. Esta contradição faz com que o empresário transforme-se em rentista e proceda com desinteresse em relação às atividades produtivas, geradoras de emprego e distribuidoras de renda.
Para este intricando problema, Piketty propõe como solução a tributação progressiva anual incidente sobre as grandes rendas e a transmissão destas entre as gerações. Esta alternativa impediria a continuação e ampliação da espiral da desigualdade por um lado e, de outro, preservaria a competição e os incentivos para novos exemplos de acumulação baseada na produção. Piketty, sem dúvida alguma, repisa o já referido por Paul Krugman e Joseph Stiglitz, ganhadores do prêmio Nobel de Economia, mas é mais claro e, em que pesem as duras críticas do Financial Times, está calcado em dados robustos. O problema para a adoção de medidas deste nível, segundo Piketty, tal qual Stiglitz, passa pela classe política no sentido de contrariar os interesses dos detentores das grandes rendas que financiam as campanhas eleitorais nas grandes democracias.
A pergunta que não quer calar é se os candidatos à presidência da República vão segurar ou largar esta batata quente lançada por Piketty? A questão precisará ser debatida com transparência e sem demagogia.

Artigo| SOBRE O QUE ACONTECE

01 de agosto de 2014 2

LUIZ CARLOS CORRÊA DA SILVA

Médico da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre

 
Pessoas podem notabilizar-se por heroísmo, inovação, sucesso profissional, enriquecimento ou outras conquistas e construções difíceis de obter. Com atributos pessoais muito significativos podem até tornar-se carismáticas. E se forem líderes, esta condição será reforçada por dedicação, integridade e fidelidade incondicionais. Personagens do passado tornaram-se famosos, apesar de contrariarem tudo que foi dito acima. Isto acontecia (e acontece) pela conjugação de comportamento doentio, ambição pelo poder e ardilosa habilidade para manobrar com a opinião pública.
Políticos que não cumprem seu papel na defesa da sociedade e líderes intensamente seduzidos pelo ter e o poder, e que venham a assumir atitudes danosas aos seus liderados, deveriam ser afastados o quanto antes.
Ao longo dos tempos, o ser humano é sempre o mesmo, buscando tirar vantagens, satisfazer necessidades, reduzir angústias e, ainda que fugazmente, desfrutar prazeres. No mundo competitivo e ganancioso em que vive, pode percorrer caminhos tentadores, mesmo que ilícitos, por terem melhores resultados materiais.
Olhando para este conjunto, compreende-se o sucesso de empresas e de negócios em geral, e o que acontece na política e no conjunto social. Desde cedo, este processo passa a fazer parte do mundo real e interfere no desenvolvimento do indivíduo, sendo incorporado por influência da mídia, por necessidade, curiosidade, impulso, ambição, oportunidade, ou simplesmente porque “os outros fazem”. Como um dependente crônico, passa a não perceber as alternativas mais adequadas, sempre existentes e possíveis.
Como atores deste cenário, precisamos refletir muito, nos posicionar sempre que necessário e agir da maneira mais eficaz possível. No entanto, como fazer escolhas num mundo dominado pela comunicação comprometida, pela política interesseira e pela ganância de quem sempre visa poder e lucro a despeito de prejuízos que possa causar? Em que acreditar? Em quem confiar?

Artigo| SABERES E SABORES

01 de agosto de 2014 0

JAYME EDUARDO MACHADO
Jornalista- ex-subprocurador-geral da República

 

Na frieza dos números e perfis dos eleitores brasileiros, segundo divulgação do Tribunal Superior Eleitoral, percebe-se o crescimento de uma parcela apta a votar geralmente relegada, pelo descompromisso, ao esquecimento das urnas. Pois são exatos 10.824.810 os que atingiram ou superaram os 70 anos de idade. Então, basta aos vovôs saudosos da velha cédula com o nome do candidato não se assustarem com a maquininha eletrônica para provar, nas urnas, que no mínimo ainda mantém a sua ereção cívica, pois dela o país continua carente.
O otimismo de Rubem Alves, que há pouco nos deixou ao alcançar o degrau dos oitenta anos no auge da criação de uma obra literária expressiva especialmente no campo filosófico e pedagógico, nos falava da idade dos saberes e da idade dos sabores. Para o eleitor dos 70 anos em diante, é chegada a hora de degustar o merecido alívio da desobrigação.  Tanto mais se for minimamente politizado, pois é desanimador constatar que o cumprimento de um dever legal imposto desde os dezoito anos, se não o fez conivente com os desmandos da política e dos maus políticos, também desnudou-lhe a impotência para mudar o quadro indesejável.
Entretanto, o sabor da desobrigação do voto bem que pode ser trocado pelo da liberdade para votar, que também tem gosto. Gosto de ser útil, sabor especial de poder influir. Percebam que o resultado da obrigação que se extinguiu  não é necessariamente o direito de não votar, mas também o de votar sem imposição. É um sopro de liberdade, e só ela desperta os sabores daqueles saberes que  o velho eleitor adquiriu pela experiência de venturas e desventuras de tantos votos por obrigação.
Omitir-se pela decepção significa renúncia à liberdade conquistada e desperdício da experiência acumulada. Isso é tão inútil e ineficaz como o voto em branco ou a sua anulação. Aliás, sequer você terá o direito de ser ranzinza – e disso velho que se preza não abre mãos – falando mal dos políticos, pois haveremos de concordar que quem se omite perde a razão para reclamar.
Enfim, na observação do jovem presidente do TSE, a má notícia é que o eleitorado brasileiro envelheceu. Pois então vamos lhe provar que, se infelizmente envelheceu, felizmente não emburreceu.

Interativo| Editorial: Você concorda que os custos das campanhas eleitorais precisam ser reduzidos?

31 de julho de 2014 10

Zerohora.com adianta o editorial que os jornais da RBS publicarão no próximo domingo para que os leitores possam manifestar concordância ou discordância em relação aos argumentos apresentados. Participações enviadas até as 18h de sexta-feira serão selecionadas para publicação na edição impressa.

Ao deixar seu comentário, informe nome e cidade.

 

concordadiscorda

Para participar, clique aqui

 

CAMPANHA DISPENDIOSA

Última a contar com as vultosas somas patrocinadas por empresas privadas, a campanha presidencial deste ano promete ser a mais dispendiosa da História, mobilizando um volume de recursos incompatível com as carências financeiras de um país como o Brasil. Se confirmadas as estimativas dos 11 postulantes à Presidência da República, o teto de despesas neste ano ficará em R$ 916 milhões. O montante significa um aumento de 382% em relação à disputa de duas décadas atrás, a primeira na qual empresas foram autorizadas a bancar candidaturas. Em qualquer país livre, democracia custa caro. A brasileira, porém, exige um volume cada vez maior de recursos nas campanhas para todas as instâncias da federação, situação para a qual o país precisa impor um limite, além de vetar de vez as doações de empresas.
Nos cálculos de um pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj), com base no pleito de 2010, o custo per capita do voto no Brasil equivale a US$ 10,93. O valor é 24 vezes superior ao da França e quase cinco vezes o da Alemanha, embora fique distante do custo norte-americano, de US$ 19,89. O curioso é que a massificação do uso de recursos tecnológicos é apontada como fator de aumento de custo, não de redução, por exigir maior profissionalização das equipes. E, mais recentemente, ampliou-se o uso de recursos onerosos, como pesquisas quantitativas, marqueteiros caros e cabos eleitorais remunerados, o que também ajuda a pressionar o valor dos investimentos.
Além de incompatíveis com a realidade brasileira, os custos da disputa por votos à Presidência da República não têm mais como ser bancados por empresas do setor privado. Por iniciativa da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o Supremo Tribunal Federal (STF) já formou maioria pela proibição de contribuições de pessoas jurídicas, mas a votação ainda não foi concluída. A OAB, em conjunto com outras entidades, defende um projeto de reforma política prevendo apenas doações de pessoas físicas, até um determinado limite. Esse é o caminho. Os políticos em campanha não podem continuar sendo financiados por empresas que, depois de apurados os votos, apresentam a conta aos eleitos sob a forma de privilégios como favorecimento em licitações.
A campanha em andamento deveria se prestar para esse tipo de debate. A política precisa adequar seus custos à situação financeira do país, que recomenda austeridade.

 

Para que possamos avaliar seu comentário sobre este editorial, com vistas à publicação na edição impressa de Zero Hora, informe seu nome completo e sua cidade.

Editorial| O PAPEL DO ELEITOR

31 de julho de 2014 4

140731Princ_qui_web
Os candidatos à presidência da República e aos governos estaduais estão participando de uma verdadeira maratona de entrevistas, debates e sabatinas nestes últimos dias que precedem o início da propaganda eleitoral gratuita em rádio e televisão. Questionados por jornalistas e representantes de entidades classistas, eles vêm recebendo sucessivas oportunidades de expor ao eleitorado seus programas de governo e suas ideias de administração pública, invariavelmente sob o olhar e a crítica dos demais candidatos. Apesar da rigidez das regras estabelecidas e do tempo restrito em programas com muitos participantes, trata-se de uma forma transparente e democrática de avaliação de visões políticas.
Ainda assim, fica uma dúvida: será que o eleitor está aproveitando esses momentos de transparência e democracia para colher informações que lhes permita fazer uma boa escolha na hora de eleger seus governantes e representantes legislativos? As pesquisas eleitorais têm demonstrado que uma parcela expressiva do eleitorado simplesmente desconhece os pretendentes a cargos públicos nas suas regiões. Esse é um comportamento social que precisa ser modificado. Na sociedade do conhecimento e da comunicação instantânea, já não se justificam mais a alienação e a rejeição à política. Só teremos governantes e representantes dignos quando os cidadãos se interessarem pelo processo eleitoral e fiscalizarem com rigor tanto os candidatos que se oferecem ao pleito quanto os eleitos.
A atual legislação, infelizmente, não favorece o interesse dos eleitores pela campanha. Ao permitir coligações partidárias destituídas de identidade programática e voltadas apenas para o aproveitamento do tempo de tevê, acaba impondo aos eleitores uma programação comprometida apenas com a propaganda, cara e desvinculada da realidade. Ao mesmo tempo, restringe o trabalho jornalístico da mídia eletrônica.
Por isso, o eleitor brasileiro precisa fazer uso dos recursos que a tecnologia oferece para buscar informações independentes e para questionar seus representantes políticos pelos meios que estiverem ao seu alcance. Mesmo com propaganda suspeita e espaços jornalísticos cerceados, a democracia proporciona outras formas de acesso à informação e outros instrumentos para que o cidadão se transforme em protagonista efetivo do processo eleitoral.

Artigo| NEBRASKA É AQUI

31 de julho de 2014 1

JUAREZ GUEDES CRUZ
Médico

 

No filme Nebraska, o velho Woody Grant, amparado por seu filho David, cruza os Estados Unidos com o objetivo de resgatar um prêmio de um milhão de dólares. Woody fora vítima de uma dessas propagandas que alardeiam recompensas ao sujeito que comprar uma enciclopédia ou coleção de revistas. Quando pai e filho chegam à sede da promotora do evento, Woody fica sabendo que não fora “sorteado”. A funcionária que os atende, ao notar o desapontamento do ancião, lamenta sua credulidade e pergunta ao rapaz: “Ele sofre de Alzheimer?”. “Não, é que ele acredita no que dizem pra ele”, responde um desconsolado David.
Esse comovente diálogo nos serve de alerta para o período de propaganda política que vem por aí. Candidatos formatados por marqueteiros profissionais prometerão de tudo. Nos debates entre eles, não serão confrontados argumentos em torno de doutrinas sociológicas ou econômicas. Velhos chavões, lugares-comuns e levianas invocações da palavra “povo” inundarão nossos ouvidos.
Para os que se dispuserem assistir ao horário eleitoral, será proveitoso ler, como aquecimento, um pequeno livro de Arthur Schopenhauer: Como vencer um debate sem precisar ter razão. Trata-se de um breviário de patifaria intelectual, onde o filósofo desmascara 38 técnicas de argumentação falsa; artifícios úteis para aqueles que desejam persuadir o público de que dois mais dois são cinco. Entre as manobras elencadas por Schopenhauer encontram-se o uso intencional de premissas falsas e as mentirosas proclamações de vitória. Outra falcatrua é a de apelar para uma linguagem incompreensível e aturdir o espectador com frases sem sentido, explorando a crença de que, sob o dilúvio verborrágico, deve haver algo valioso para pensar.
Essas táticas serão muito usadas nos debates que assistiremos e é conveniente conhecê-las (não esqueçam que os políticos devem ter estudado no detalhe o referido manual) para saber um pouco melhor em quem estamos votando. Sob pena de nos tornarmos objeto de um triste diálogo: “Mas os eleitores brasileiros sofrem de Alzheimer?”. “Não, é que eles acreditam no que dizem pra eles”.

Artigo| POR UM DEBATE PROGRAMÁTICO NO RS

31 de julho de 2014 0

SEBASTIAO MELO
Vice-prefeito de Porto Alegre

 

O processo eleitoral começou no RS e no Brasil. Fazia tempo que as eleições não ocorriam numa conjuntura tão favorável ao debate programático, livre da monotonia “do quem promete mais”.
De fato, o Estado e o país encontram-se numa encruzilhada, como de resto grande parte das democracias no mundo. Combinadas, a crise econômica internacional que já contamina o país, e a política, que põe em xeque a capacidade de atualização das instituições clássicas da democracia.
Revisitando os debates realizados no parlamento gaúcho, ao longo da sua história, através da leitura da publicação Perfis Parlamentares, organizada pelo Memorial do Legislativo do RS, percebe-se o quanto perdemos em qualidade no trato das questões relevantes para o Estado.
Fosse pela voz de Gaspar Silveira Martins, fosse pela de Getúlio Vargas, as questões decisivas para a economia, política e sociedade gaúcha, eram tratadas com rigor e almejavam uma terra de homens iguais, livres e justos, para os quais os governos deveriam garantir o maior número de oportunidades. Foi da grandeza deste debate que emergiu um Getúlio presidente, capaz de transformar o Brasil num país industrial, com direitos trabalhistas assegurados.
Comparativamente, nossas últimas eleições têm sido pautadas pela quantidade. Creches e escolas são prometidas à profusão, mas não sabemos qual o modelo mais adequado para a educação das nossas crianças e jovens. Não por acaso, o analfabetismo funcional é a regra.
Paradoxalmente, há uma agenda política imensa e rica, originária da sociedade, que superam os particularismos dos partidos, indicando que o debate sobre o desenvolvimento do país e do RS deve ser realizado com a participação e a colaboração coletivas. É preciso pô-la na ordem do dia dos governantes e parlamentares.
Precisamos politizar a política. Dívida pública, financiamento do Estado, desenvolvimento sustentável, saúde, educação, segurança, entre outros temas, devem ser encarados como um conjunto de desafios qualitativos, que só poderão ser enfrentados por governadores e presidentes que gastem seu tempo olhando primeiro a floresta, para depois dar conta de cada árvore.

Artigo| É A ECONOMIA, IDIOTA

31 de julho de 2014 1

ALFREDO MARCOLIN PERINGER
Economista

 

Em 1991, na bem sucedida campanha eleitoral americana de Bill Clinton contra George H. W.  Bush, então presidente dos Estados Unidos e candidato à reeleição, o seu estrategista, James Carville, apresentou três temas
centrais de cunho político mercadológico para o seu pessoal trabalhar:   a)
mudança versus mais do mesmo; b) não se esqueça do sistema de saúde; e c) é a economia, idiota.
Na época, o prestígio do presidente Bush dentro da sociedade americana era alto. Havia ganhado a Guerra do Golfo, libertado o Kuweit e os Emirados Árabes Unidos da invasão iraquiana e feito isso num curto período de tempo
(02/08/1990 a 28/02/1991) e com baixa mortalidade de soldados americanos.
Não havia maneira de a sua organização política, o Partido Republicano, deixar de indicá-lo para concorrer à presidência dos Estados Unidos, fato que ocorreu inclusive com entusiasmo, na pressuposição, é claro, de que carregaria o seu prestígio às urnas, vencendo o pleito.
Ledo engano! Tinha a uma pedra no meio do caminho. A recessão, que iniciou no terceiro trimestre de 1990, avançou no ano de 1991, início da campanha, abalando sobremaneira a confiança dos americanos, principalmente nos seus governantes. Nem poderia ser diferente: as estatísticas do Ministério do Trabalho mostravam cerca de 1,6 milhão de trabalhadores desempregados no país.
Carville, um excelente estrategista, soube aproveitar politicamente a queda da atividade produtiva americana. Deixou de lado as demais táticas mercadológicas, passando a trabalhar apenas com o bordão “it’s the economy, stupid”, forma que sintetizava muito bem a depressiva situação econômica do país.
Embora fosse uma estratégia para o consumo interno do seu grupo de trabalho, o lema caiu no gosto da população, ganhando logo um lugar nos anais da história político-eleitoral americana, sendo usado até hoje por mercadologistas mundo afora, principalmente em países às voltas com problemas de desemprego e inflação, comum hoje em diversas partes do mundo.

Editorial| A REORGANIZAÇÃO DO FUTEBOL

30 de julho de 2014 2

140730princQUA_web

A estrutura arcaica do futebol brasileiro, que compromete a gestão de clubes e federações e praticamente todas as atividades ligadas ao esporte, está sob pressão dos maiores interessados em mudanças. Os atletas são os líderes de um movimento nacional contra a precariedade das administrações, as falhas nos calendários de competições e o desprezo até mesmo por direitos trabalhistas. Mas suas atitudes, que em síntese pregam a democratização do futebol, não são de interesse apenas dos diretamente envolvidos nas questões em debate. São do interesse da sociedade e de todos os que sustentam o futebol como entretenimento, como paixão e como patrimônio cultural do país.
Todos arcam com os custos da incompetência, mantida invariavelmente por dirigentes que se perpetuam nas entidades, repetindo erros, acumulando dívidas e maltratando o mais popular dos esportes. Nesse contexto, é inaceitável que o  débito total dos clubes com o setor público tenha chegado a fantásticos R$ 4 bilhões. É uma conta paga pela população, pois os danos são compartilhados entre todos. Os clubes devem impostos, recolhimentos previdenciários, Fundo de Garantia e outras contribuições, como se fizessem parte de um grupo protegido pela impunidade. A irresponsabilidade, agora denunciada com ênfase pelo Bom Senso Futebol Clube, vem fragilizando as entidades e suas relações com atletas, torcedores, patrocinadores e comunidades.
Não há como confiar em clubes que mantêm, em alguns casos por décadas, os mesmos dirigentes. Estes mandatários, por sua vez, são os que eternizam os mesmos nomes no comando de federações regionais e da CBF. É ilusório pensar que os desmandos daí decorrentes prejudicam apenas o futebol. A desorganização, muitas vezes sob a suspeita de irregularidades graves, conspira contra os interesses do público, das empresas e das instituições que sustentam, de alguma forma, as atividades esportivas.
Também é enganoso almejar mudanças a partir das federações e da confederação nacional. As transformações, que poderão desencadear reformas nas estruturas da ponta da pirâmide, devem começar pela base, pelos clubes de todas as divisões, que são o verdadeiro patrimônio do futebol. São os clubes que investem na formação de jogadores, nas categorias de base, e tentam preservar vínculos com torcedores. A maioria depende agora da solução de questões imediatas, como a renegociação das dívidas com o governo, desde que se submetam também a obrigações.
Entidades que não cumprirem exigências elementares da boa gestão devem ser responsabilizadas. É a vez de também os mantenedores do futebol se submeterem a penalidades impostas a qualquer atividade. A democratização, que exige igualmente maior participação dos associados dos clubes nas decisões, além de reformas nos critérios de escolha dos dirigentes da CBF, poderá finalmente sepultar um corporativo, que busca muito mais a perpetuação de poder nas entidades do que a prosperidade do futebol.