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Editorial| Rotina de atrocidades

16 de abril de 2014 0

 

A reação efetiva às mortes com crueldade é uma tarefa de todos, e não só das instituições que têm o dever de nos proteger.

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Indignação e revolta são sentimentos previsíveis, mas insuficientes para o enfrentamento da consternação provocada por mais dois casos de violência e crueldade no Estado. As mortes da jovem Kimberly Rückert e do menino Bernardo Boldrini fazem com que todos tentem compreender a dimensão das tragédias. Os episódios macabros abalam não só a comunidade de Três Passos, mas a população inteira de um país em que os limites entre a convivência civilizada e a barbárie foram ultrapassados há muito tempo. O que se pode dizer dos dois casos, por mais óbvio que seja, é que ambos se agregam a uma aterrorizante _ e quase paralisante _ rotina de atrocidades. É o momento de entender fatos como esse para muito além da abordagem policial. As duas mortes expressam uma realidade que cobra reações substantivas de todos, e não só manifestações de inconformidade com possíveis falhas alheias.

É incontestável que as duas mortes foram provocadas pelo total descaso com a vida e pelo desprezo por eventuais medidas punitivas. Ambas foram claramente planejadas. Mas é natural que o assassinato de uma criança de 11 anos provoque mais revolta, por se tratar de um indefeso, órfão de mãe e, de acordo com as informações até agora divulgadas, desamparado por conflitos com a madrasta. Por isso, deve-se evitar a armadilha de refletir sobre a morte do menino a partir dos eventos mais recentes. Bernardo pode ter sido desamparado não só pela rejeição dentro da própria casa, mas por não ter contado com a pronta resposta de todos os que vinham ouvindo seus apelos.

Há evidências de que a criança emitiu, a seu modo, sinais de que vivia sob sofrimento. O que as instituições devem apurar, a partir do trabalho da polícia, é onde e quando os pedidos de socorro do menino não surtiram os efeitos que deveriam provocar. Não se trata de prejulgar, mas de não se resignar diante dos indícios de que em algum momento ocorreram providências insuficientes ou omissões. Argumentos previsíveis podem alegar que crianças em situação de risco se multiplicam pelo país e que as autoridades fazem o que está ao seu alcance. Mas sabe-se igualmente que, como em qualquer área do setor público, também esta tem deficiências crônicas e graves. É o momento certo para que deixem de ser ignoradas, mesmo que todos estejam consternados com o que aconteceu.

Esta também é, em meio ao trauma, a oportunidade para que _ além da óbvia identificação e punição dos responsáveis _ aproximem-se do debate, como protagonistas da busca da compreensão e das soluções, pessoas e instituições posicionadas à distância dos fatos, como comentaristas e espectadores. Crueldades como essas que transtornam o Estado resultam de um conjunto de fatores, dos quais não escapam a família, a escola e, enfim, a comunidade nas suas mais diversas formas de representação. Polícia, Ministério Público, Conselho Tutelar e Justiça são, portanto, expressões da sociedade. Não há reparação para as mortes de Kimberly e Bernardo. Mas há, sim, como reagir ao horror, desde que nossas reações concretas e consequentes passem pela admissão de que todos nós falhamos. Este reconhecimento é pré-requisito para o desenvolvimento de estratégias preventivas mais eficientes.

 

Editorial| O mau negócio mal explicado

16 de abril de 2014 2

 

Afinada com o esforço do Planalto de evitar a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), a presidente da Petrobras, Graça Foster, fez ontem um mea-culpa em relação à gestão da empresa na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Admitiu que a aquisição da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, “não foi um bom negócio”. Preocupou-se também em reafirmar a defesa anterior da presidente da República, Dilma Rousseff, de que faltaram informações essenciais para a tomada de uma decisão dessa magnitude pelo Conselho de Administração. A sinceridade à qual a dirigente recorreu em seu depoimento, porém, é insuficiente para reparar os prejuízos do erro. E pouco contribui para a responsabilização de quem causou danos à empresa e ao país.
Por mais que a responsável pelo comando da maior estatal brasileira tenha rechaçado a comparação da gestão da empresa com a de uma quitanda, feita por um senador, o aspecto incontestável é que há denúncias demais ainda à espera de apuração isenta. As respostas objetivas não podem ficar nem na dependência do depoimento de ontem, nem se limitar às obtidas por uma eventual CPI. Ainda assim, todo os esforços para apurar o que houve de fato são válidos, particularmente os que já vêm sendo empreendidos por instituições como a Polícia Federal.
O que não precisa de muita investigação para ser comprovado, mais uma vez, é o fato de que um patrimônio dos brasileiros como a Petrobras só está às voltas com uma crise dessas dimensões porque sua administração foi partilhada por critérios políticos. Não surpreende que, em meio a suspeitas relacionadas a propina e a possível desvios de recursos para partidos políticos, tenha ocorrido a prisão de um ex-diretor envolvido em denúncias de lavagem de dinheiro.
Particularmente num ano eleitoral, é óbvio que a oposição tem interesse em explorar os fatos, mas também que não os criou. É claro também que a preocupação do governo é minimizá-los. O que precisa interessar ao país, porém, é o esclarecimento cabal e a punição dos responsáveis por esse péssimo negócio mal explicado.

Artigo| Entre bananas e bestas

16 de abril de 2014 0

 

A sociedade
é o reflexo dos
valores e de
ações de
quem nela está

LUCIANO KLÖCKNER*

José Montaury (1858-1939), nome de uma minúscula rua no centro de Porto Alegre, foi engenheiro e primeiro intendente eleito pelo voto direto da cidade, cabendo a ele realizar as pioneiras redes de esgoto da capital gaúcha. Morou a vida inteira de aluguel e ao morrer não tinha um bem sequer no nome dele. Deixou um legado que nem dimensionamos direito; mas, na época, repercutiu de imediato na redução da mortalidade infantil.
Todavia, aos olhos da sociedade competitiva de hoje, Montaury não teria passado de um banana ou de um otário. Termos que designam os que tiveram grande oportunidade de roubar e não o fizeram. Não fez caixa 2, não deu propinas, não desviou recursos públicos… Enfim, praticou o que um homem de bem, honesto, de boa formação de valores deveria ter feito. O que questiono é se nós, pessoas corretas, também não condenamos o exemplo de José Montaury ao ostracismo, diariamente. Queremos levar vantagem em tudo? Suprimimos a gentileza de nosso convívio e nem sempre pensamos no outro como semelhante?
As notícias diárias nos mostram que muitas autoridades (exatamente aquelas que deveriam dar o bom exemplo) pensam só nelas, procurando encher, com avidez, os bolsos de dinheiro. Quando no poder, não perdem um minuto para amealhar fortuna; afinal, tempo é dinheiro! E uma oportunidade não deve ser desperdiçada por nada! Regras de mercado aplicadas à convivência humana.
Neste aspecto, não sabemos ao certo se algum dia a nossa gloriosa civilização foi muito diferente do que é agora. Comemoramos datas nas quais ocorreram as mais sangrentas e desumanas batalhas. Alçamos alguns líderes vis, verdadeiras bestas humanas, pessoas extremamente cruéis e egoístas, ao patamar de heróis. E ainda os veneramos com frequência… A sociedade é o reflexo dos valores e de ações de quem nela está. Somos, bem verdade, a mescla de bananas e de bestas; portanto, seres imperfeitos, instáveis.
Infelizmente, porém, o exemplo de José Montaury ainda é exceção. E pouco lembrado… Assim como exceções parecem ser os cidadãos que devolvem carteiras ou deixam algum motorista ter preferência no trânsito. Talvez, se refrearmos os instintos bestiais que nos acompanham desde o início da humanidade, consigamos conviver com a vida estressante _ impingida por nós mesmos _ e nos sintamos um pouco melhor e mais solidários. Não é lição de professor. É uma ideia para quem sabe pôr em prática.

*Jornalista e professor

Artigo| A ditadura do saber nas escolas

16 de abril de 2014 1

Não permitiremos
que currículos
escolares de
nossas escolas
militares sejam
modificados

RÔMULO BINI PEREIRA*

Ao final do mês de março último, membros da Comissão Nacional da Verdade afirmaram que há imperiosa necessidade de serem reformulados os currículos das escolas militares, principalmente no que tange ao ensino da disciplina História do Brasil nos Colégios Militares. É “intolerável” para eles que a Revolução de 31 de Março seja ainda hoje enaltecida.
Esses membros poderiam pesquisar em outras fontes e, na mesma intensidade, escrever a respeito de ensinos de teorias radicais de esquerda nas escolas pertencentes à rede pública. Será que o Ministério da Educação deve também, como sugerem tais comissões, atuar nesses estabelecimentos de ensino público ou a atuação vale somente para as escolas militares? Que opção seria melhor para a História do Brasil? “Vaporizar” dos currículos das escolas militares a Revolução de 31 de Março ou debater democraticamente o fato histórico?
Eis alguns tópicos para a segunda opção. O Sistema Colégio Militar do Brasil (SCMB), constituído de 12 colégios, atualmente com 14 mil alunos matriculados, destaca-se pela excelência do seu ensino. Tais colégios herdaram de seus antecessores um legado que transcendeu gerações, principalmente em relação aos corpos docente e discente. Os resultados em exames divulgados nacionalmente comprovam a citada excelência, oriunda da solidez, profundidade e amplitude de seu ensino. Seus alunos se sobressaem muito bem em Olimpíadas Escolares e no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
Os princípios e condutas que nós, os militares, continuamos a cultuar e cultivar, embora sejam tidos nestes tempos de permissividade como valores ultrapassados, evidenciam detalhes que não constam dos currículos, como a disciplina, o respeito ao professor, o culto à verdade, a observância de horários e planejamentos, a responsabilidade e a ausência de greves. São valores que nos norteiam por toda a vida.
Já faz muito tempo que recebemos em silêncio, uma carga enorme de notícias desfavoráveis e de inverdades a respeito do período dos governos militares. Entretanto, nossos familiares são as principais testemunhas dos nossos exemplos de sacrifício, de conduta honesta e de abnegação não somente para com a instituição, mas, sobretudo, para com o Brasil. Sabem que nós fomos envolvidos em uma luta fratricida _ que não desejávamos e não iniciamos _ com o objetivo único de evitar a instalação de uma ditadura comunista ou de uma “democracia” que até hoje as esquerdas não conseguiram definir. Sabem, também, que lutamos, tivemos nossos mortos e não nos beneficiamos de execráveis indenizações ou abjetas benesses, cujo exemplo maior está na concessão das famigeradas “bolsas-ditadura”. Sabem, ainda, que erros foram cometidos pelos dois lados e que só um deles é tido como vilão.
O segmento militar, com esta unidade de pensamento e com esta conduta, deixa surpreendidos e encabulados os intelectuais e ideólogos de esquerda. Em defesa desses louváveis resultados educacionais, não permitiremos que currículos escolares de nossas escolas militares sejam modificados unicamente para que caprichos ideológicos contrários à vocação democrática do nosso Exército sejam atendidos. Por isso, quando o assunto for currículos de escolas militares, seria muito bom que os entusiasmados membros da CNV não fossem além das sandálias, porque tal proposta abre caminho para a “ditadura do saber nas escolas!”.

* General-de-Exército da reserva

 

 

Artigo| Pedir desculpas é apenas o início

16 de abril de 2014 0

 

É preciso que
comecemos a
responsabilizar
os crimes
da ditadura

JOSÉ CARLOS MOREIRA DA SILVA FILHO *

Sabendo que o ministro da Defesa está empenhando todos os seus esforços para tornar as nossas Forças Armadas mais democráticas e permeadas pelo comando civil, gostaria de comentar a declaração por ele dada no dia 27 de março, veiculada em O Globo. Disse ele que “o Estado brasileiro, ao pagar as indenizações, já, de certa maneira, pediu desculpas por tudo o que ocorreu”.
De fato, a Comissão de Anistia, sempre que reconhece o direito à reparação de alguém que foi perseguido político pelo Estado brasileiro ao longo da ditadura civil-militar, no momento em que profere o resultado da apreciação feita do requerimento de anistia, faz simbolicamente o pedido de desculpas em nome do Estado brasileiro pelas perseguições, prejuízos e violências praticadas, no que efetua também uma reparação moral e política. Na nossa Constituição a anistia tem o sentido de reparação. É preciso, porém, entender neste gesto não o esgotamento das ações do Estado democrático de hoje para confrontar a herança autoritária do Estado ditatorial de ontem, mas sim o reconhecimento público da ilegitimidade do golpe e da política sistemática de perseguição que foi implementada a partir dele.
Reparar economicamente pessoas que em decorrência da perseguição política perderam seus empregos por anos a fio, forçadas ao exílio, presas ou torturadas, expulsas dos bancos escolares, é o mínimo que o Estado deve fazer, mas não é tudo. A Comissão de Anistia já manifestou em várias ocasiões o seu entendimento, convergente com o avanço, estudo e efetivação do campo da justiça de transição no mundo todo, de que a reparação das vítimas diretas não se separa do direito de acesso de toda a sociedade aos documentos públicos produzidos pela ditadura, bem como do direito de que sejam investigados os crimes contra a humanidade perpetrados e responsabilizados os agentes públicos que os praticaram, além da necessária reforma institucional. Exatamente por isto a Comissão tem sido parte atuante na luta da sociedade brasileira por verdade, memória e justiça.
É necessário lembrar para não repetir. É preciso demarcar claramente na arena pública e institucional o repúdio da sociedade democrática à instrumentalização do Estado para a repressão generalizada da sociedade e para a prática de crimes de lesa-humanidade como a tortura e o desaparecimento forçado. É fundamental alterar a cultura institucional das nossas forças de segurança pública no sentido de que a tortura, o autoritarismo e a brutalidade são admissíveis e normais, restando impunes ontem e hoje.
O problema não é ter havido um agente público que torturou, mas sim uma organização pública que não só permitiu a tortura, mas a comandou como política de Estado. Para que possamos realmente nos distanciar deste Estado de barbárie, que segue ainda vivo em seus enclaves e entulhos autoritários, e assumirmos uma posição de princípio para uma sociedade menos violenta, é preciso que comecemos a responsabilizar os crimes da ditadura. Um pedido de desculpas oficiais das Forças Armadas também ajudaria muito, afinal foi ela a instituição que em 1964 assumiu a linha de frente na ruptura com a ordem democrática.
* Vice-presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça

 

Editorial| Rotina de atrocidades

15 de abril de 2014 6

Independentemente dos rumos das investigações policiais, o que já se pode dizer dos dois episódios que abalam a cidade de Três Passos é que expressam uma assustadora rotina de atrocidades no Estado e no país. São cada vez mais frequentes os crimes marcados pela desumanidade e pela crueldade, como foram os assassinatos da jovem Kimberly Rückert e do menino Bernardo Boldrini. Diante desta realidade, não basta apenas exigir Justiça e punição exemplar aos responsáveis. É preciso, também, que a sociedade canalize sua indignação para a vigilância permanente e para a prevenção de comportamentos potencialmente violentos.

Editorial| Investigação indispensável

15 de abril de 2014 7

Ampliam-se os indícios de que a Petrobras deve ser investigada logo, sem manobras protelatórias, por uma CPI do Senado.

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Nem bem o país sepultou um grande escândalo de corrupção, com a condenação e prisão de políticos envolvidos no mensalão, e já surge outro de proporções igualmente alarmantes. Documentos aprendidos pela Polícia Federal na casa do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa registram um esquema de financiamento de campanhas eleitorais detalhado, que beneficiou predominantemente partidos da base aliada do governo. As doações de empresas que tinham e têm contratos com a Petrobras, conforme as planilhas apreendidas, iam para políticos e partidos contemplados no aparelhamento da estatal, fechando-se um ciclo de benefícios mútuos com recursos que pertencem aos contribuintes e acionistas.
Costa era arrecadador de comissões, como dono de uma empresa de consultoria, desde 2012, quando deixou a direção de Abastecimento e Refino da estatal. Claramente sustentava os contatos e os negócios suspeitos no histórico de influências que teve e ainda deve ter na empresa em que atuou por oito anos. Se o tráfico de influência, com danos para uma empresa controlada pelo governo, não é motivo para a instalação de uma CPI, o que deve ser decidido nesta terça-feira, nada mais é.
O problema é que muitos dos parlamentares envolvidos na decisão de criar ou não a comissão têm vínculo direto com os partidos beneficiados e com o próprio governo. Basta observar, por exemplo, que um dos maiores beneficiários das doações suspeitas, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), foi quem convocou a presidente da Petrobras, Graça Foster, para depor no Senado nesta terça, com o propósito claro de barrar a CPI. Graça Foster vai à Comissão de Assuntos Econômicos com a missão, determinada pelo Planalto, de dizer que tudo que se passa na estatal está dentro da normalidade.
Teria sido normal a controversa compra da refinaria de Pasadena, que custou mais de US$ 1 bilhão, sem garantia de retorno do investimento. Também é encarado normalmente o envolvimento do já citado Costa com a mesma negociação e com um doleiro que está preso. E não haveria nada de estranho no fato de que, com sérios problemas de gestão, a empresa perdeu, nos últimos quatro anos, metade do valor de mercado.
Há na Petrobras uma combinação de gestão temerária com indícios de delitos graves. O esforço de todos deve ser pela preservação de um patrimônio do país. Nesse sentido, tem razão a presidente Dilma Rousseff, quando afirmou ontem que a estatal não pode ter sua imagem arranhada. Mas há um reparo a fazer. A presidente entende que o prestígio da Petrobras está sendo ameaçado pelas denúncias feitas sobre sua situação econômica e financeira. Na verdade, a administração errática, e não os que apontam tal situação, é a responsável pelo desalento de acionistas e cidadãos em geral. O esclarecimento da situação da empresa passa pelas investigações já em andamento, pelas sindicâncias que o Senado tem o direito de realizar e pelo fim das manobras protelatórias e diversionistas articuladas pelo governo.

Editorial| Contradição gaúcha

15 de abril de 2014 0

Levantamento encomendado por Zero Hora ao instituto Fato Pesquisa Social e Mercadológica, divulgado no último final de semana, evidencia uma contradição na percepção dos gaúchos sobre desenvolvimento econômico e qualidade de vida. A maioria acha que esses dois itens melhoraram nos últimos anos, se considerado o aumento da renda individual, mas também são majoritárias as opiniões sobre a má qualidade dos serviços públicos. Isso demonstra que a população, em boa parte, ascendeu socialmente e ambiciona agora uma contrapartida aos impostos que paga mais sintonizada com sua nova condição de vida, o que se constitui num desafio para administradores públicos.
Num ano de eleições, a pesquisa fornece elementos importantes para candidatos em campanha. É significativo que um percentual tão elevado dos entrevistados perceba a qualidade de vida e o desenvolvimento do Estado em padrões médios. Quase metade dos que foram ouvidos considera que tanto o desenvolvimento econômico do Estado quanto a qualidade de vida da população aumentaram nos últimos anos. Em compensação, um número expressivo considera baixo ou muito baixo o nível de áreas como saúde, segurança pública e infraestrutura. E a maioria não constata evolução nessas áreas.
Formuladores de políticas públicas sabem que, quando há um ganho nas condições de vida da população, a expectativa por melhoria nos serviços públicos cresce na mesma proporção. É inadmissível, portanto, que esses anseios ainda estejam longe de ser atendidos. E é importante que, na campanha eleitoral, essas questões não se prestem para demagogia por parte dos candidatos.

Artigo| Por que a humanidade não vai acabar

15 de abril de 2014 2

Uma espécie
que produz
tudo isso corre
risco de extinção?
Nunca

CYRO S. MARTINS Fº*

A humanidade não vai acabar porque sempre existirão vândalos pichadores, bandidos com distintivos de mocinhos ou bandidos por natureza e sem distintivo, corruptos e corruptores, racistas, xenófobos, homófobos, mulheres e homens discriminados por idade, sexo, cor, credo, classe ou limitações físicas, porque sempre existirão espancadores de mulheres, sempre existirão radicais matando ou morrendo por religião ou ideologia (que são no fundo a mesma coisa), imbecis capazes de cometer crimes por paixão clubística, monstros capazes de fazer mal a crianças ou a idosos, envenenadores de leite e outros alimentos, demagogos capazes de comover obtusos a votar em suas propostas obtusas, eleitores capazes de eleger palhaços (no sentido literal e no sentido figurado), deputados envolvidos com doleiros, senadores envolvidos com bicheiros, políticos e servidores envolvidos com a obra de Rodin em crime organizado ou desorganizado, canalhas desviando dinheiro da saúde, da educação, do transporte, da segurança, nações pobres gastando bilhões em patéticos movimentos militares, nacionalismos cretinos, tribos que se odeiam desde sempre e se odiarão até o extermínio, porque sempre existirão donos de verdades absolutas, vendas de milagres, vendas de corpos, pessoas que vivem das drogas, matam pelas drogas ou morrem pelas drogas, crianças trabalhando, crianças que não podem brincar, crianças que não podem estudar, crianças que não podem comer, trabalho escravo, pessoas sem casas decentes, poluidores impunes, promessas de obras que nunca veremos, nem as gerações seguintes verão, licitações arranjadas, voto obrigatório, tentativas de calar o jornalismo, sucesso em calar o jornalismo, vozes afinadas culpando “a grande imprensa” pela própria incompetência ao delinquir, porque sempre existirão idiotas assassinos no trânsito, intransigentes que rotulam pessoas pelo gosto musical, pela roupa, pelo que leem, que se acham originais por criticarem Paulo Coelho, programas da Globo ou o Carpinejar, prisões que não recuperam ninguém, punições que servem para nada, sentenças risíveis cumpridas com deboche pelos condenados, impostos cada vez mais altos e serviços cada vez mais baixos, desdém de governantes por governados, golpistas assumidos e golpistas disfarçados em todo o espectro político, Estados que são armários atulhados de cabides de empregos, fracassados ressentidos condensando suas invejas pútridas em rede, fornecedores que enganam consumidores, fascismo disfarçado de “milícias populares”, povos com sede à beira de água negada, países ricos e países indigentes, ladrões de galinhas levados ao STF.
Uma espécie que produz tudo isso corre risco de extinção?
Nunca.

*Jornalista

Artigo| Muitas crianças têm fome de abraços

15 de abril de 2014 0

A marca de nossas
políticas públicas
ainda é a da
precariedade e da
descontinuidade

JOSÉ CARLOS STURZA DE MORAES*

A história da pequena Raissa (ZH, 12/04/2014) trouxe-nos o relato de um drama comovente. Seus pais correm atrás da esperança, de que, com um tratamento experimental, possa enfim ela abraçar e ser abraçada.
Raissa depende do apoio público para somar a quantia do tratamento. Mas tem o abraço afetivo de seus pais. Mas existem milhares de crianças e adolescentes no Brasil que não têm direito a abraços por outro motivo. Não é clínico e o tratamento não tem nada de experimental. É usado há milhares de anos. Trata-se da simples, mas não assegurada a todos, convivência familiar e comunitária.
Direito humano expresso na Convenção dos Direitos da Criança (ONU, 1989), na Constituição Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente, a convivência familiar e comunitária é negada no Brasil a quase 50 mil crianças e adolescentes, segundo dados do Cadastro Nacional de Acolhimento, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Essa moléstia não é biológica, é social. No Rio Grande do Sul, são quase 5 mil (10% do total nacional).
Boa parte dessas crianças e adolescentes poderia estar em suas famílias de origem se essas fossem adequadamente assistidas por políticas públicas eficientes, mas a marca de nossas políticas públicas, longe de um Estado de bem-estar social, ainda é a da precariedade e da descontinuidade. Contrariando o próprio Estatuto, muitas crianças e adolescentes são retirados de suas famílias por situação de pobreza e, algumas vezes, por preconceitos vários.
Eduardo Galeano, poeticamente escreveu certa vez: “Nós dizemos não a um sistema que nega justiça e que nega amor. Que condena muitos à fome de pão e muitos mais à fome de abraços”. Sua escrita encerra brilhantemente o cenário desse apartheid social vivido por todos aqueles que encontram-se em instituições de acolhimento. Mesmo quando adequadamente cuidados por educadores qualificados e dedicados.
Em 2009, o próprio Estatuto foi alterado em mais de 200 artigos para agravar a excepcionalidade da retirada de uma criança de sua família, assim como para dar agilidade para seu retorno a essa ou sua ida para uma família substituta. E em 2015 terminará a vigência de nosso primeiro Plano Nacional para tratar dessa questão. Ocorre que nossa cultura não mudou. Preferimos ainda majoritariamente que pobres sejam assistidos em instituições asilares.
As soluções para essa realidade persistente estão postas nas leis que construímos, e vão da capacitação continuada para juízes, promotores e conselheiros tutelares, de ações preventivas ao acolhimento, da agilização de procedimentos quando do ingresso no sistema de acolhimento, a campanhas continuadas em prol da adoção e da acolhida em famílias sob o regime de guarda, entre outras. Fazer acontecer isso é o nosso desafio ético, para que todas as Raissas, Marias e Joões tenham direito a abraços.

*Cientista social, conselheiro estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente/RS