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Artigo| O dia em que eu parei de fumar

31 de maio de 2012 0

ANA LÚCIA NEJAR*

Não sou afeiçoada a relacionar datas. Mal recordo o dia do primeiro beijo, da formatura, do carimbo debutando a carteira de trabalho, da retirada de comprovação do exame de gravidez. Sou uma desmemoriada afetiva. Talvez para me proteger das mágoas que trazem os momentos especiais, ou mera traquinagem das gavetas das lembranças. A verdade é que há um dia que não me escapa, o 13 de outubro de 2011, o dia em que eu parei de fumar.
Sou capaz de dizer com precisão o horário daquela quinta-feira, pós-feriado. Treze horas, saindo do almoço, havia fumado, como fazia diariamente, cerca de uns seis cigarros na manhã. Estava enjoada, cansada de sentir falta de ar, de subir os quatro andares do prédio com esforço sobrenatural e despertar os vizinhos com a tosse exagerada pelos corredores pontualmente às 6h5min.
Sim, aos 42 anos, 25 fumando, depois de várias tentativas e uma pausa de dois anos por conta do nascimento e primeiros meses do filho, eu decidi que deveria dar um basta a minha vida de fumante. Deveria apagar decentemente o cigarro. Sem honras, sem melodramas, com meia dúzia de adesivos e chicletes de nicotina, além do componente mais que necessário: vontade.
Quem não tem um vício pode até entender, mas jamais saberá o que representa a angústia de perder o que julgamos indissociável. Entender é pouco. Um viciado em tabaco é atordoado por uma necessidade diária de nicotina e mais milhares de componentes destrutivos. Controla sua rotina com intervalos programados e habituais para suas tragadas. Substitui o tempo para o lanche ou uma conversa para aproveitar sua solidão enfumaçada ou, quem sabe, dividir o espaço com outros fumantes e prosear sobre o confinamento a qual foram submetidos.
Fumar, hoje, é sinônimo de culpa. De feio, nojento e todos os adjetivos que representem rejeição. Não é aceito um fumante nas rodas sociais. Ele é o leproso da contemporaneidade. O mau-caráter da vida saudável, mesmo que seus exames apontem uma boa condição de saúde, ele sempre será o verme do grupo.
Ao anunciar que pararia de fumar, reuni uma leva de apoiadores e também de céticos. Recomendo a quem quiser largar definitivamente o vício: aproxime-se de quem o julga incapaz desse feito, de quem o recrimina diariamente e não acredita na sua palavra. Sim, também se rodeie de gente querida e que o invada de abraços e elogios pela pele melhorada, pelo perfume de xampu exalando nos cabelos, pela sua disposição física, ainda que tenha acumulado uns bons quilos.
Entretanto, não se esqueça das pessoas que duvidem. São elas seu verdadeiro espelho, porque é você quem decide se vai ou não acender o próximo cigarro. E se não o fizer, haverá sempre um dia para comemorar. E esse dia sempre será seu.

*Jornalista

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