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Posts de julho 2012

Do Leitor

31 de julho de 2012 1

Analfabetismo funcional

Nos últimos anos muitos administradores públicos têm se vangloriado do número crescente de alunos nos bancos escolares, em todos os níveis do ensino, do Fundamental ao Superior. Diversas políticas governamentais, com destaque para o grandioso e bem sucedido Prouni, têm propiciado um incremento significativo no número de estudantes.
Tal quadro, embora revele o reconhecimento das autoridades públicas com relação à relevância da educação e consista em um efetivo movimento de democratização do acesso ao ensino, não esconde a outra face desta moeda, que é a relativa à questionável qualidade do ensino que vem sendo oferecido aos estudantes brasileiros.
Em pesquisa recentemente realizada e divulgada pela ONG Ação Educativa e pelo IPM – Instituto Paulo Montenegro restou constatado que trinta e oito por cento dos estudantes brasileiros de ensino Superior não sabem ler e escrever plenamente. São os chamados analfabetos funcionais, na medida em que têm a capacidade de ler e de escrever, porém não sabem interpretar e associar informações. A atual situação do ensino Superior no Brasil possibilita a formação de graduados com diploma na parede e que ao mesmo tempo têm grande dificuldade de interpretar o que diz um texto básico.
O Ministério da Educação se omite em implementar um sistema de acompanhamento efetivo da qualidade do ensino com vistas a se coibir que alunos sem a alfabetização completa galguem patamares mais elevados do estudo (ensinos Médio e, sobretudo, Superior). Num país onde a qualidade fosse mais relevante que as estatísticas nunca um aluno sem plena alfabetização poderia ser admitido a ascender ao ensino Médio, muito menos ao ensino Superior.
O sempre questionado, mas necessário, exame da Ordem dos Advogados do Brasil, ao qual os bacharéis em direito têm de se submeter para ascender à profissão de advogado, é um bom indicador objetivo da péssima qualidade do ensino Superior a que milhares de estudantes brasileiros têm sido submetidos na medida em que a reprovação na citada prova tem superado a casa dos oitenta por cento. Mas fica a dúvida sobre como está a situação dos demais cursos que não exigem de seus egressos um exame similar.
Embora não seja função do ensino Superior alfabetizar quem quer que seja, não deixa de ser reprovável esta leniência acadêmica com alunos com visíveis deficiências em sua formação educacional, os quais sequer deveriam ascender ao ensino Superior e, mais do que aceitos, são agraciados com um diploma ao final do curso, não obstante a sua alfabetização deficiente.
Nosso país nunca teve um comprometimento sério com a educação o que provavelmente justifique o fato de nunca termos formado sequer um cientista ganhador do Prêmio Nobel, ao passo que nossa vizinha Argentina já teve pelo menos dois laureados com a comenda máxima do meio científico e a nação mais desenvolvida do mundo (EUA), já soma mais de duas centenas de prêmios Nobel.
O progresso do Brasil passa indiscutivelmente pela educação, pois só com boas mentes um país pode produzir ciência, conhecimento e tecnologia, tão indispensáveis à evolução e ao desenvolvimento de nosso país. Mas é preciso, antes de tudo, que a educação oferecida prime pela qualidade, não apenas pela quantidade.

Hugo Cesar Amaral
Uberlândia/MG

Do leitor

31 de julho de 2012 2

A Metamorfose de um Crime

A semana começou em furor: em cada editorial de revista ou conversa de bar, vemos o prelúdio do evento que começará na quinta-feira, o julgamento do mensalão.
Jornais, portais de notícias e programas de TV estão reservando grandes espaços para aquilo que vem sendo chamado de “O Julgamento do Século” – mas tenho sérias suspeitas se este evento, quando precisar competir audiência com outros dramas de Ninas e Carminhas, conseguirá mais atenção que algum ginasta chinês ou nadador norte- americano.
O mensalão, se não esquecido, metamorfoseou-se: hoje ele é um integrante da cultura popular. O nome já nos soa caricato, e a punição uma realidade utópica. Cabe agora aos ministros do STF desfragmentar esse cristal que envolve o tal folclore e trazer de volta para o debate a triste e crua realidade.
Nessa histórica transmissão, perceba leitor, que alguns veículos escreverão Mensalão, com o M ereto e provocativo. Já outros falarão do “mensalão”, entre aspas, numa ironia semântica. Um sinal claro da liberdade (e diversidade) de imprensa, mas também da ausência de coerência: não buscamos todos, direita e esquerda, um propósito comum? Não confiamos na mesma justiça – essa sem inicial maiúscula ou aspas?
Num formato que Webber certamente aprovaria, o Estado Moderno deveria se basear numa desconfiança permanente e mútua entre os poderes – e essa lógica inclui a imprensa e a sociedade. Mas o que vimos na última década foi a desconstrução da independência das instituições, alinhando-as todas numa causa cujo único esboço de resultado é aquele que será julgado na quinta-feira.
Nas manobras da engenharia burocrática testemunhamos o desespero do PT, que neste momento busca postergar o julgamento para depois das eleições municipais e – tal e qual quando um homicida ganha direito à um habeas corpus, podemos nos indagar:
é legítimo? Sim, é, contudo não é justo. E daí a necessidade de uma Justiça ponderada e consciente de suas medidas e concessões. Veremos se os raros muros do STF, que ainda o mantém afastado de seus vizinhos em Brasília, se manterão erguidos após o julgamento.
Ignorar que há uma batalha política por trás do julgamento é tão infantil quanto resumi-lo a uma arena de dois adversários. Enquanto o debate político e as emoções partidárias ficarem de fora das decisões jurídicas, estaremos seguros. E, por mais que os ministros tentem iguala-lo á um veredicto qualquer – o que é esperado e coerente, sabemos que ele não será apenas o fim de um capítulo da política brasileira, mas o norteador de como vamos lidar com a democracia e suas deficiências no futuro.
Os fatos são claros, e subverte-los para agradar a nossa quietude política é concordar com Lula: o mensalão nunca existiu. Contudo, senhores, ele está muito bem documentado e esta verdade não possui moral, vergonhas ou partido político.
A todos, um bom espetáculo.

Bruno Parizotto Agustini
Caxias do Sul/RS

Editorial da RBS| Antes que o Brasil pare

31 de julho de 2012 0

Diante do impasse, que já começa a provocar transtornos e à população em vários Estados, torna-se urgente uma intermediação do governo, chamando as partes para a mesa de negociação e abrindo espaço para o reexame das normas impostas pela Agência Nacional de Transportes Terrestres.

Ainda que a atual greve dos caminhoneiros tenha inspiração e incentivo patronal, volta a fazer sentido a velha e ameaçadora frase pintada nos para-choques de alguns veículos pesados que circulam pelas estradas do país: “Sem caminhão, o Brasil para”. Na verdade, não há falta de caminhões. Falta, isto sim, uma negociação sensata entre os órgãos governamentais responsáveis pelo transporte de cargas, os empresários e alguns sindicatos de trabalhadores _ neste momento concentrados apenas em seus próprios interesses, sem se importar com os danos que a paralisação pode causar a uma sociedade extremamente dependente do transporte rodoviário.
É um locaute, denunciam os dirigentes das principais confederações nacionais de trabalhadores da área de transporte, alegando que os caminhoneiros estão sendo utilizados pelos patrões para derrubar a recente regulamentação profissional que estabelece intervalos rigorosos para o descanso dos motoristas. E as greves por iniciativa dos empregadores são terminantemente proibidas pela legislação federal. Já os empresários, através de suas representações sindicais, manifestam claro apoio ao movimento, mas se eximem de responsabilidade pela iniciativa. Argumentam, porém, que as empresas não têm como cumprir
a lei sancionada em abril passado, que limita a jornada de trabalho dos motoristas a oito horas, com no máximo duas horas extras, incluindo pausas de 30 minutos a cada quatro horas trabalhadas. Ainda que o regramento seja bem-intencionado e tenha o propósito de evitar que condutores extenuados se envolvam em acidentes, a verdade é que inexiste infraestrutura adequada para o repouso e a segurança dos trabalhadores, nos termos previstos pela legislação.
Alegam os transportadores, ainda, que o cumprimento rigoroso das normas elevaria o custo do frete, que hoje é considerado insuficiente para cobrir despesas com combustíveis, pedágios e segurança.  Os trabalhadores contestam, argumentando que os empresários não querem reduzir seu lucros.
Diante do impasse, que já começa a provocar transtornos à população em vários Estados, torna-se urgente uma intermediação do governo, chamando as partes para a mesa de negociação e abrindo espaço para o reexame das normas impostas pela Agência Nacional de Transportes Terrestres. Evidentemente, não cabe revogar regras que incidam diretamente sobre a saúde e a segurança dos condutores e, por extensão, dos demais motoristas que circulam pelas mesmas rodovias. Mas a extensão do prazo para aplicação das novas exigências, conjugada com a criação de condições para que as normas possam ser cumpridas, pode ser o sinal verde para os caminhões continuarem transportando cargas, empregos e uma parte essencial da economia brasileira.

Editorial| Agenda positiva

31 de julho de 2012 1

Na semana em que começa o julgamento do mensalão, o governo da presidente Dilma Rousseff aposta num novo pacote econômico com duplo objetivo: reativar a economia num momento de ameaça da crise internacional e blindar o Planalto de um eventual contágio das malfeitorias registradas na administração anterior. São bem-vindas e oportunas as medidas de redução do custo do crédito, corte de impostos e parceria com o setor privado para a manutenção de empregos, mas não podem ser usadas para deixar em segundo plano o processo de moralização da administração pública. As duas questões têm que ser tratadas na devida dimensão, pois ambas são importantes para o país.
Se o objetivo do Planalto, de fato, é se empenhar para que um momento tão importante para a reafirmação do papel das instituições no país não prejudique o andamento dos trabalhos do Executivo e do Legislativo, um dos caminhos é fazer com que essa pretendida agenda positiva resulte em mudanças concretas para o país. As pretensões iniciais, a serem confirmadas dia 7 de agosto, são promissoras. Além de reduzir a taxação da energia elétrica, permitindo uma queda importante no custo final para os consumidores, o governo pretende intensificar a política de concessões, visando a estimular o investimento privado em áreas como rodovias, ferrovias, portos e aeroportos.
Todas essas ações têm potencial para atenuar o nível de retração da atividade econômica. E poderiam contribuir de forma mais efetiva para evitar a continuidade de resultados tão frustrantes no Produto Interno Bruto (PIB) se pudessem ser reforçadas por reformas estruturais. Mas essa é uma hipótese menos provável num ano eleitoral.
Cabe aos brasileiros, nesse momento de definições tão importantes para o país, discernir até que ponto as ações previstas têm mesmo a pretensão de fazer a economia andar melhor e mais depressa. Seria inadmissível que houvesse nelas qualquer intenção de encobrir possíveis consequências indesejáveis de um marco da ética na política como o julgamento do mensalão.

Artigo| A próxima vítima

31 de julho de 2012 0

LÍCIA PERES*

A sociedade  gaúcha está chocada com o crime  da Tristeza onde uma família, aparentemente feliz e com boa situação financeira, foi destroçada. A desconfiança  de que o bioquímico Ênio Carnetti  seja o autor do  duplo homicídio _ o de sua mulher Márcia  e do único filho  do casal, Matheus, de cinco anos _  causa perplexidade.  Após o brutal crime, Ênio tentou suicídio atirando-se da ponte do Guaíba, onde foi resgatado por pescadores.
O elemento perturbador em casos como este  é  a ocorrência de uma identificação das pessoas com este tipo de núcleo familiar, com todos os indicadores exteriores de que seria “normal”, ou seja, uma família como qualquer outra de classe média.
Ao acompanhar o caso, eu procurava um elemento presente em todos os casos de violência doméstica: a pista dada pelo agressor de que algo mais grave poderia ocorrer. No referido caso foram as ameaças ouvidas pela empregada da casa e relatada pela própria vítima aos colegas de trabalho. Pelo visto, não foram levadas a sério.
É necessário alertar para aquilo que nós, do movimento de mulheres, vimos fazendo  há muito tempo: a ameaça é um indicador importante, assim como agressões verbais e outros tipos de violência. Dificilmente o homicídio é o primeiro e último gesto. Em razão disso, quando ameaçada, a mulher tem que acreditar que algo mais sério pode ocorrer e denunciar. Essa atitude pode prevenir o pior. A inação, muitas vezes, leva à morte.
No que respeita à violência de gênero, sabemos que ela ocorre em  todas as classes sociais.
Uma  das melhores campanhas feitas pelo Conselho Nacional dos Direitos da Mulher continha fotos de homens bem vestidos e de boa aparência em torno de uma mesa e a pergunta: você desconfiaria de que ele é um agressor? Pois é. A campanha não usou fotos masculinas estereotipadas demonstrando hostilidade, ou sinais de agressividade. Pelo contrário, mostrou que a violência pode não se expressar no convívio social, nem nas aparências.
Hoje a Lei Maria da Penha é bastante completa  ao abranger todas as formas de violência doméstica e familiar, respaldando as mulheres através de medidas   protetivas  que incluem a retirada do agressor do ambiente doméstico .
Ao ignorar  as ameaças, a mulher pode se tornar a próxima vítima.
* Socióloga

Artigo| Rumo à sustentabilidade

31 de julho de 2012 0

Estamos
construindo
uma estratégia
de crescimento
sob os pilares
econômico,
ambiental
e social

TULIO ZAMIN*

Vivemos numa sociedade onde os riscos com o consumo desenfreado dos recursos naturais precisam ser considerados por todos. As consequências desse descontrole exigem das sociedades modernas mudança profunda no comportamento e na forma de se relacionar com o planeta não apenas nas atitudes individuais, mas também nas práticas corporativas. Cada vez mais as empresas estão adotando novos procedimentos na prestação dos seus serviços.
O Banrisul fortalece este movimento ao aderir ao Relatório de Sustentabilidade vinculado à organização Global Reporting Initiative (GRI). Somos a primeira instituição pública gaúcha e a terceira empresa no Rio Grande do Sul a aderir a tal prática. Com esta medida valorizamos nossa marca no mercado financeiro mundial, pois cada vez mais o mundo está atento às boas práticas. Incorporamos em nosso Planejamento Estratégico (de 2011 a 2015) o desafio de caminhar rumo a uma política sustentável que oriente e fortaleça o conjunto das ações econômicas do banco numa perspectiva social e ambientalmente responsável.
Criada em 1997, a GRI disponibiliza uma importante ferramenta de gestão com indicadores de padrão mundial de acompanhamento na atuação de uma empresa. Tal procedimento torna as informações mais transparentes, permitindo observar anualmente a evolução de nossas posições e iniciativas tanto por analistas de mercado, como pelos órgãos de controle e a sociedade.
Alguns destes resultados apresentamos no último dia 19 de julho ao demonstrar os investimentos em acessibilidade, a redução no consumo de papel, energia e água, e incluir estes compromissos nas metas a serem atingidas pelo banco ao longo do ano. Desenvolvemos ações de apoio a iniciativas comunitárias onde atuamos em parceria com entidades educacionais na doação de computadores ou no incentivo a programas de educação ambiental. Investimos numa política de inserção do Banrisul em pequenos municípios, beneficiando comunidades que estavam excluídas do sistema financeiro. Instituímos uma política de tarifas reduzidas para clientes que não utilizam papel para a realização de serviços bancários ou buscam financiamento habitacional para empreendimentos sustentáveis no consumo de energia, saneamento e abastecimento de água.
Queremos ampliar o espaço para práticas sustentáveis ao disponibilizar, por exemplo, linhas de financiamento às prefeituras voltadas para obras em saneamento básico. No mesmo contexto está o crédito a projetos públicos ou privados voltados para geração e transmissão de energia limpa, como a construção de parques eólicos ou o incentivo à produção bioenergética. Além disso, o banco vem estimulando a geração de renda através de programas como o de Microcrédito, em parceria com o governo do Estado. O incentivo às agroindústrias familiares, feiras agropecuárias e à compra de equipamentos para qualificar as propriedades com o Pronaf _ Mais Alimentos faz parte de uma percepção sustentável para os negócios. Por meio destas linhas de crédito fomentamos e diversificamos a atividade produtiva regional, diminuindo desigualdades econômicas, melhorando a renda e promovendo o desenvolvimento em todo o Estado.
Com o Relatório de Sustentabilidade estamos construindo uma estratégia de crescimento sob os pilares econômico, ambiental e social para o Banrisul. Aspectos que entendemos fundamentais para uma empresa atenta às exigências do novo contexto mundial, comprometida com uma economia em equilíbrio e com a sociedade onde vive.
* Presidente do Banrisul

Artigo| Drogas e ideologia

31 de julho de 2012 1

Trabalhos
científicos
alertam para a
responsabilidade
das drogas
ilícitas em
boa parte
dos acidentes

OSMAR TERRA*

Existe uma grande confusão ideológica no tema das drogas ilícitas. Aí encontramos até ultraliberais de mãos dadas com anarquistas. São pregadores da liberdade individual sem restrições, acima até da responsabilidade com a sociedade. Propõem que o Estado não deve reprimir e se possível, nem existir. Uma de suas expressões mais importantes é o libertarianismo, que tenta substituir o liberalismo nos EUA e no mundo. Inspirados por um coquetel de pensadores que vão de Milton Friedman a Proudhon, pregam a liberdade de cada um em fazer o que quiser, inclusive drogar-se. É bom lembrar que os países socialistas são os que mais reprimem tanto o uso quanto o tráfico de drogas.
Na ZH de domingo, um respeitado articulista fez uma crítica ao “Manifesto Contra a Descriminalização do Uso de Drogas”. Ele acusa-o de impedir o debate e de não citar evidências científicas, e usa o relatório do Instituto Cato sobre drogas em Portugal como sua referência sobre o assunto.
Ora, fizemos um manifesto, como resposta a muitas manifestações na grande mídia, favoráveis à liberação. Não é um compêndio de citações, embora cada frase tenha embasamento em evidências e em publicações internacionais. É bom que se diga, o exemplo dado pelo articulista, do relatório do Instituto Cato, sobre a política de descriminalização das drogas em Portugal, contém forte viés ideológico. De um lado é baseado nos dados do IDT, instituição presidida, na época, pelo Dr. João Goulão, condutor e principal interessado em demonstrar o sucesso da política portuguesa sobre drogas. De outro é feito pelo Instituto Cato, que é o principal promotor e divulgador das ideias libertarianas nos EUA. Portanto, sua isenção fica muito prejudicada.
Para chegar ao texto do manifesto buscamos fontes mais isentas de evidências sobre o assunto, que são: os relatórios da agência da ONU sobre drogas, a Unodoc, sobre a Suécia (fevereiro de 2007), do Espad de 2011, do Centro Europeu de Monitoramento para Drogas (EMCDDA), e do International Narcotics Control Board (ONU), de 2011. Além de outras publicações especializadas.
Em relação às drogas ilícitas como causadoras de acidentes, realmente o Brasil não tem testes, nem dados estatísticos sobre o assunto. Daí o álcool, facilmente detectável pelo bafômetro, aparecer como única droga causadora de acidentes. Mas trabalhos científicos como o de Julio Ponce e Vilma Leyton, http://migre.me/a5YDY, alertam para a responsabilidade das drogas ilícitas em boa parte dos acidentes.
Quanto às ilações feitas pelo articulista, sobre relações de campanha de parlamentares signatários com a indústria da bebida, é a velha tática de desqualificar quem tem opinião contrária. Nunca passou pela minha cabeça, que os defensores da descriminalização do uso de drogas ilícitas estivessem a serviço de grandes indústrias, capazes de produzi-las em grande escala.
Nossa preocupação, como a do articulista, é com a saúde e a vida de milhões de pessoas. Isso exige um debate aprofundado de conteúdo fático do tema, acima das questões ideológicas. É o único caminho para ajudarmos toda a sociedade.
* Deputado federal (PMDB/RS), ex-secretário da Saúde do Rio Grande do Sul

Artigo online| Reformatório ou escola?

30 de julho de 2012 0

Ainda há
muito que
conhecer da
alma humana,
de sua história
coletiva e
individual

MILTON R. MEDRAN MOREIRA*

“A razão e a paixão são o timão e a vela de nossa alma navegante.”
Khalil Gibram

Poucos minutos após o bárbaro atentado ocorrido no Colorado (USA), quando um estudante de medicina entrou armado em um cinema de pequena cidade, atirando a esmo, matando 12 pessoas e ferindo dezenas, o mundo todo já conhecia e deplorava a tragédia.
Alguns dias depois, a crônica policial de Porto Alegre dava destaque a um episódio chocante. Um homem, bioquímico, de classe média, detentor de diploma de curso superior, bom emprego, e sem antecedentes, matou a esposa a facadas. Dirigiu-se, logo depois, ao quarto do filho de apenas cinco anos e, igualmente, abateu-o com o mesmo instrumento. Justificativa: a desconfiança de que a esposa o traía. Quanto a tirar a vida do menino, seria para poupá-lo do drama de ter tido a mãe assassinada. Em seguida, jogou-se de uma ponte com intuito suicida, objetivo não concretizado, graças à intervenção de terceiros.
Fatos dessa natureza alimentam pautas de vários dias na imprensa. Mesmo que chocantes, não há como os meios de comunicação deixarem de repercuti-los, tal o interesse que despertam. Não se quer, aqui, criticar a opinião pública pelo interesse em conhecer detalhes dessas tragédias. Tampouco a imprensa por lhes abrir manchetes. Justamente pela revolta e pela dor que causam na alma da maioria das pessoas, esses fatos oportunizam diferentes e ricas análises, a partir da psicologia, da criminologia, da psiquiatria, da sociologia, da antropologia e, especialmente, à luz dos valores filosóficos, éticos e morais, amealhados pela civilização.
Uma questão sobressai, especialmente, a partir da reflexão em cima dessas tragédias: ainda há muito que conhecer da alma humana, de sua história coletiva e individual, de suas anomalias e, às vezes, de sua extrema dificuldade, senão momentânea impossibilidade, de, sozinho, superar ódios e paixões e transmutá-los em ações positivas, racionais e amoráveis.
Mesmo, entretanto, que tragédias assim levem a crer seja o mundo em que vivemos um grande reformatório, povoado de almas enfermiças, é imperioso estender a visão para a sociedade humana como um todo. Aí, vislumbraremos nela uma rica escola, onde, paulatinamente, se aprimoram saberes e sentimentos, preocupações e ações em prol do bem-estar, da sanidade, da urbanidade, da tolerância, da alteridade e da solidariedade. É o amor, em uma palavra, que, pouco a pouco, se impõe como fator essencial da convivência familiar, social e política. Não há como fugir da aquisição e do aprimoramento desses valores como definidores do futuro da humanidade. Na escola terrena, a maioria dos aprendizes experienciam, no seu trabalho, no âmbito familiar, nas relações sociais, esses nobres indicadores que a reencarnação lhes propicia, como instrumento poderoso de progresso.
As ações tresloucadas do estudante de medicina do Colorado ou do bioquímico porto-alegrense não podem ser erigidas a atitudes definidoras das pessoas de nosso tempo. São, isto sim, gritantes exceções, sérios desafios ao estudo mais aprofundado da alma humana, de seus eventuais desvios e anomalias. Vistas estas sob a perspectiva filosófica espírita, remetem a um olhar mais ampliado sobre a possível história de seus agentes, no tempo, no espaço ou além deles. Não para justificar seus desvarios, mas para que a própria sociedade ou a família que aqui os acolheram encontrem, a partir dessa hipótese milenarmente aventada, meios de contribuir para sua reeducação e sanidade.
A reencarnação traz também esse nobre efeito: faz-nos responsáveis não só por nós próprios, mas, em igual medida, por aqueles com quem compartilhamos a caminhada.
* Advogado e jornalista, presidente do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre

Editorial| Além do curto prazo

30 de julho de 2012 0

O país precisa mais do que redução de juros e incentivos setoriais e só poderá garantir crescimento sustentado se levar adiante reformas estruturais relegadas até agora.

A presidente Dilma Rousseff anunciou em Londres, onde acompanhou a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, a intenção de adotar novas medidas de estímulo à atividade econômica, mas que exigirá contrapartida em manutenção de empregos por parte dos segmentos beneficiados. A preocupação faz sentido e é importante que o poder público se preocupe em estimular áreas mais deprimidas do setor produtivo. Ainda assim, é mais do que hora de o governo federal deixar de se preocupar apenas com resultados imediatistas e localizados, buscando assegurar ganhos mais consistentes a médio e longo prazos. E esses dependem acima de tudo de reformas estruturais que o país não tem conseguido fazer avançar.
Assim como a adoção de incentivos setoriais, são importantes intenções como a anunciada agora prevendo uma redução de até 10% na conta de energia elétrica. Ainda assim, as chamadas medidas anticíclicas que, no início da crise global, em 2008, contribuíram para manter a economia com um nível razoável de aquecimento, hoje provocam cada vez menos impacto. E o tratamento tributário diferenciado contribuiu, desde o início, para acirrar animosidades entre diferentes segmentos da cadeia produtiva, que alegam condições desiguais para competir. Da mesma forma, o que o poder público faz ao extinguir encargos para reduzir a tarifa de energia elétrica é reconhecer que esse insumo vital para a indústria é visto pelo Tesouro acima de tudo como fonte de receita.
O país precisa mais do que redução de juros e incentivos setoriais e só poderá garantir crescimento sustentado se levar adiante reformas estruturais relegadas até agora. São justamente as mesmas que, por terem sido preteridas, o colocam hoje mais vulnerável aos efeitos do recrudescimento da crise global, com ênfase para as reformas previdenciária, para assegurar um mínimo de equilíbrio às contas públicas, e a tributária, visando principalmente a desonerar o setor produtivo de forma generalizada. Essas são questões que, para avançar, precisam de conscientização sobre a sua importância e da vontade política para levá-las adiante que, até hoje, não se mostrou suficiente.
Nos últimos anos, a impossibilidade de promover as reformas de fundo tem imposto um ônus elevado para os cidadãos, que se veem constantemente com o seu emprego e renda ameaçados. A indefinição acaba colocando em risco até mesmo a própria estabilidade, além de impedir a atividade produtiva de se manter num ciclo de desenvolvimento continuado. Esse é o momento de o país decidir, enquanto é tempo, se quer continuar apenas enfrentando questões de forma imediatista ou assegurar um futuro mais sólido e mais próspero para os brasileiros.

Editorial| Desinteresse pelo social

30 de julho de 2012 0

Pesquisa realizada entre 17 mil estudantes universitários de instituições católicas em 34 países e divulgada pela Federação Internacional de Universidades Católicas (Fiuc) fornece um retrato significativo da mentalidade da geração que comandará o mundo ao longo deste século. Entre os principais motivos declarados pelos entrevistados, com idades entre 16 e 30 anos, para ingressar na universidade, conquistar um trabalho foi citado por 91%, e vontade de obter uma melhor posição social, por 25%, enquanto a intenção de ser útil à sociedade recebeu apenas 18%.
O levantamento sugere que as preocupações sociais entre os estudantes de instituições católicas não são um reflexo automático de melhores condições de vida. Segundo a socióloga espanhola Rosa Aparicio Gómez, responsável pela pesquisa e professora do Instituto Universitário Ortega y Gasset, os alunos dos países desenvolvidos são os que têm menos interesse pela problemática social. Nesse contexto, a América do Sul fica num meio termo entre os países africanos e europeus.
Esse aparente desinteresse pelo social encontra uma correspondência na atitude dos estudantes em relação às instituições. As piores notas foram atribuídas a órgãos comunitários, como polícias (2,8), governos (2,3) e políticos (1,9). A melhor avaliação recaiu sobre as instituições educacionais, com 4,1, seguidas das religiosas, com média 3,7.
É preciso que autoridades, sistemas de ensino e organizações não governamentais encontrem formas de reverter a frieza em relação à temática comunitária, uma vez que disso depende não apenas a governança internacional, mas o próprio conceito de cidadania em escala global. Cidadãos descomprometidos com o social só contribuirão para beneficiar políticos a sua imagem e semelhança, capazes de virar as costas para o eleitorado a partir do momento em que são eleitos. Uma das ferramentas possíveis para melhorar esse quadro é a internet. As redes sociais estão presentes no cotidiano de 94% dos entrevistados. É inadmissível que, no momento em que proliferam esses ambientes, que embutem o social no próprio nome, haja tamanha apatia em relação aos temas que dizem respeito a todos.