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Artigo online| O Pai Estado

23 de julho de 2012 0

Assim é
o Estado:
repositório
mítico dos
anseios que
não sabemos
suprir

MAURÍCIO DA ROSA ÁVILA

Para a sociedade brasileira, analisada sob um ponto de vista psicanalítico, o Estado é a figura do "Pai". A necessidade psíquica de ordem, segurança, justiça e paz social é transferida para um símbolo, que é visto como o provedor externo de necessidades internas: o Estado.
Frutos desse inconsciente político coletivo são os governos populistas e as ditaduras paternalistas que nosso passado soube muito bem produzir. A psique imatura transfere ao outro as responsabilidades pelas demandas próprias que ela mesma poderia atender. Se tenho alguém que se preocupa por mim, não preciso me preocupar. Não resolvi o problema, passei-o adiante. Assim é o Estado: repositório mítico dos anseios que não sabemos suprir.
Mentes nesse estágio de desenvolvimento aderem facilmente a outras que se apresentam como "provedoras". Estas, embora não sejam ontologicamente provedoras, encarnam muito bem o personagem mítico do "salvador" que está implícito nessa ideia prematura de Estado. São guindadas ao poder, podendo facilmente manipulá-lo de acordo com seus fins egoísticos e ditatoriais, desde que continuem representando o referido personagem mítico do "pai" que a coletividade anseia. Assim, proliferam indefinidamente os usurpadores de poder.
Somos assaltados e reclamamos que o Estado não investe em segurança. Fica-se doente e se reclama da falta de investimento em saúde. Entramos em litígio com o nosso semelhante reclamando que a justiça é morosa e que a lei é iníqua. Mas onde nasce a violência, a doença e a injustiça?
Nossa sociedade como corpo coletivo em convivência produz em sua dinâmica a violência, a doença e a injustiça. Entretanto, não estamos maduros o suficiente para assumir a responsabilidade como civilização pelos contextos socioculturais que as nossas vontades e escolhas coletivas produzem. O problema instala-se e, tal o neurótico, a culpa é de outrem; no nosso caso, o Estado. Ele é que produz injustiça e violência, pois não atendeu àquelas necessidades cuja titularidade foi transferida a ele por nós, por inconsciência de não sabermos que a muitas delas nós mesmos tínhamos o dever de atender.
Enquanto não tivermos maturidade para saber quais necessidades delegar ao gestor público, quais outras nós podemos atender, na condição de agentes sociais positivos, teremos um Estado "grande e ineficiente". A sociedade, enquanto interação dinâmica entre indivíduos distribuídos por categorias complexas de interesses, que devem conviver harmonicamente, é a produtora por excelência de justiça e paz social.
Não sendo assim, continuaremos a esperar que o "pai Estado chegue em casa" com a solução do problema que cabia a nós mesmos resolver. Continuaremos a produzir corruptos e o Estado, ao invés de gestor público, será o teatro onde se encena o republicanismo e se pratica o despotismo aos bastidores.
* Advogado

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