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Artigo online| Relações virtuais

23 de julho de 2012 0

Troca-se de
tudo sentado
na frente
de um
computador,
de espelhinho
a sexo

NEY MARIO BRASIL DO AMARAL*

Relação afetiva é um sentimento que pressupõe trocas alicerçadas em confiança mútua, quase sempre resultante de longa e íntima convivência.
O século 21 impôs grandes limitações à liturgia clássica das relações afetivas. Troca virou coisa de índio. Não há muito que trocar no mundo moderno, cada um se abraça no que pode. Confiança, do jeito em que crescem as desconfianças, é coisa de índio mesmo. Então, debruço-me sobre a derradeira via que poderia nos aproximar um pouco das relações de afeto, o amor e o sexo, e tento examinar a coisa por um viés otimista absolutamente não puritano. Só que, sem as trocas alicerçadas na confiança, nem o amor nem o sexo alcançam a intensidade mínima necessária para satisfazer os pressupostos mais elementares das relações verdadeiras.
Então, apercebo-me de outra via que me passara despercebida, a internet, esse polvo de muitos tentáculos que nos mantêm aparentemente próximos uns dos outros, como se fôssemos a comunidade íntima de uma pequena aldeia. A internet é a grande responsável por manter viáveis as relações contemporâneas. A internet é rápida, asséptica, limpa e segura. As relações cibernéticas são democráticas, acessíveis a todos. Qualquer um, branco, preto, amarelo ou vermelho tem sua vez nessa coreografia camuflada por grossas camadas de maquiagem, onde as trocas ocorrem em abundância notável sob a forma de notícias, recados, declarações, fotos e, muitas vezes, enganos.
Resumindo, troca-se de tudo sentado na frente de um computador, de espelhinho a sexo. Aliás, essa seria a única exigência consistente para nos relacionarmos na internet. Sentarmo-nos em frente à máquina e não mover nada além dos dedos para produzir aquele barulhinho maravilhoso do teclado de um computador, enquanto as pessoas vão sendo empilhadas, às centenas, na caixinha de amigos do Facebook. Quanto maior a pilha, melhor. E se alguém encher o seu saco, é só pressionar delete, sem nem levantar da cadeira.
Concluo, talvez de forma precipitada, que a internet se alimente de criaturas paralisadas. Em tese, antes de nos tornarmos internautas precisaríamos de uma boa cadeira de rodas movida a energia ficcional. Depois, seria só retocar a maquiagem, vestir a fantasia e aguardar pelo processo paralisante. Engraçado. Para prevalecer na vida contemporânea, a internet incorporou características virais que pensávamos ter controlado com o advento de algumas vacinas. Todo internauta, eu não deveria ser tão radical, mas não há como pensar diferente, seria um paralítico aprisionado nessa rede onde as relações plenas só acontecem mesmo como um evento ficcional. Em outras palavras. As relações virtuais seriam, em boa parte, uma paralisia coletiva gerada pelo distanciamento cada vez maior do verdadeiro afeto, das trocas alicerçadas na confiança mútua, das amizades que resistem ao tempo, em resumo, do amor de fato.
* Médico

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