Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Artigo online| Reformatório ou escola?

30 de julho de 2012 0

Ainda há
muito que
conhecer da
alma humana,
de sua história
coletiva e
individual

MILTON R. MEDRAN MOREIRA*

“A razão e a paixão são o timão e a vela de nossa alma navegante.”
Khalil Gibram

Poucos minutos após o bárbaro atentado ocorrido no Colorado (USA), quando um estudante de medicina entrou armado em um cinema de pequena cidade, atirando a esmo, matando 12 pessoas e ferindo dezenas, o mundo todo já conhecia e deplorava a tragédia.
Alguns dias depois, a crônica policial de Porto Alegre dava destaque a um episódio chocante. Um homem, bioquímico, de classe média, detentor de diploma de curso superior, bom emprego, e sem antecedentes, matou a esposa a facadas. Dirigiu-se, logo depois, ao quarto do filho de apenas cinco anos e, igualmente, abateu-o com o mesmo instrumento. Justificativa: a desconfiança de que a esposa o traía. Quanto a tirar a vida do menino, seria para poupá-lo do drama de ter tido a mãe assassinada. Em seguida, jogou-se de uma ponte com intuito suicida, objetivo não concretizado, graças à intervenção de terceiros.
Fatos dessa natureza alimentam pautas de vários dias na imprensa. Mesmo que chocantes, não há como os meios de comunicação deixarem de repercuti-los, tal o interesse que despertam. Não se quer, aqui, criticar a opinião pública pelo interesse em conhecer detalhes dessas tragédias. Tampouco a imprensa por lhes abrir manchetes. Justamente pela revolta e pela dor que causam na alma da maioria das pessoas, esses fatos oportunizam diferentes e ricas análises, a partir da psicologia, da criminologia, da psiquiatria, da sociologia, da antropologia e, especialmente, à luz dos valores filosóficos, éticos e morais, amealhados pela civilização.
Uma questão sobressai, especialmente, a partir da reflexão em cima dessas tragédias: ainda há muito que conhecer da alma humana, de sua história coletiva e individual, de suas anomalias e, às vezes, de sua extrema dificuldade, senão momentânea impossibilidade, de, sozinho, superar ódios e paixões e transmutá-los em ações positivas, racionais e amoráveis.
Mesmo, entretanto, que tragédias assim levem a crer seja o mundo em que vivemos um grande reformatório, povoado de almas enfermiças, é imperioso estender a visão para a sociedade humana como um todo. Aí, vislumbraremos nela uma rica escola, onde, paulatinamente, se aprimoram saberes e sentimentos, preocupações e ações em prol do bem-estar, da sanidade, da urbanidade, da tolerância, da alteridade e da solidariedade. É o amor, em uma palavra, que, pouco a pouco, se impõe como fator essencial da convivência familiar, social e política. Não há como fugir da aquisição e do aprimoramento desses valores como definidores do futuro da humanidade. Na escola terrena, a maioria dos aprendizes experienciam, no seu trabalho, no âmbito familiar, nas relações sociais, esses nobres indicadores que a reencarnação lhes propicia, como instrumento poderoso de progresso.
As ações tresloucadas do estudante de medicina do Colorado ou do bioquímico porto-alegrense não podem ser erigidas a atitudes definidoras das pessoas de nosso tempo. São, isto sim, gritantes exceções, sérios desafios ao estudo mais aprofundado da alma humana, de seus eventuais desvios e anomalias. Vistas estas sob a perspectiva filosófica espírita, remetem a um olhar mais ampliado sobre a possível história de seus agentes, no tempo, no espaço ou além deles. Não para justificar seus desvarios, mas para que a própria sociedade ou a família que aqui os acolheram encontrem, a partir dessa hipótese milenarmente aventada, meios de contribuir para sua reeducação e sanidade.
A reencarnação traz também esse nobre efeito: faz-nos responsáveis não só por nós próprios, mas, em igual medida, por aqueles com quem compartilhamos a caminhada.
* Advogado e jornalista, presidente do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre

Envie seu Comentário