Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de julho 2012

Artigo| As respostas de um julgamento

30 de julho de 2012 0

JONATHAN IOVANE DE LEMOS*

É com felicidade que o povo brasileiro recebe (e visualiza) o julgamento do famoso escândalo do mensalão, que, embora o passar dos anos, mesmo que timidamente, permanece (assim se espera, pelo menos) na lembrança de todos. Também, sejamos sinceros: como poderíamos esquecer um esquema de compra e venda de votos dos parlamentares do Congresso Nacional, a fim de aprovação de projetos de interesse do governo, que envolveu ministros, deputados, empresários e outras pessoas de grande influência no meio político nacional, possuindo repercussão nunca antes vista no Brasil.
Do julgamento, a iniciar no próximo dia 2 de agosto, sem prazo definido para terminar, já que inúmeras as possibilidades de desdobramento deste, o mais interessante é, justamente, o simbolismo que o seu resultado representará à nação: o fim, ou apenas mais um caso, da impunidade no Brasil. Será que em terrae brasilis todos são julgados e responsabilizados pelos seus atos, de acordo com o que determina e com que dispõe o direito, não importando sua raça, sua religião ou sua classe econômica? Podemos acreditar que o Poder Judiciário, que se vangloria de ser o poder estatal com maior prestígio junto à população (a bem da verdade, em comparação com os outros, não muito se precisa para garantir o primeiro lugar), será indiferente às particularidades e às pressões externas envolvidas no julgamento desse caso, realizando uma decisão estritamente técnica do feito? A resposta proferida pelo Supremo Tribunal Federal será a prova cabal para esses questionamentos.
Todavia, desde já, devemos fazer uma ressalva: não importando o resultado deste julgamento, se no Brasil “tudo acabar em pizza”, cabe a nós mudarmos essa realidade. Já no próximo pleito eleitoral devemos iniciar a faxina que as instituições estatais tanto precisam. A impunidade se perpetua no país com o aval do próprio povo brasileiro, que, ano após ano, teima em votar naqueles que se “lixam” para a prosperidade da nação.
Do julgamento a ser realizado pela Suprema Corte brasileira, como técnicos do mundo jurídico, esperamos o respeito ao devido processo legal, a fim de encontrar, ao cabo, a decisão que reflita, realmente, aquilo que restou comprovado durante todo esse período de investigação e de instrução processual, sem qualquer influência midiática que possa extrapolar a “verdade” dos autos, garantindo, assim, a ampla defesa de todos os acusados; como cidadãos, ao contrário, aguardamos, ansiosamente, a condenação de todos estes que, abusando da confiança, da influência e/ou do cargo a que foram empossados, por simples e mesquinho enriquecimento particular, acabam por prejudicar toda coletividade, destruindo a esperança de um futuro melhor para todos.

* Advogado, mestre em Direito pela PUCRS, professor de direito da Feevale

Artigo| Sem vergonha

30 de julho de 2012 2

PAULO BROSSARD*

Otávio Mangabeira foi um homem público de largo espectro e apuradas qualidades, que suportou dois exílios; era de família pobre e pobre foi toda a vida, ainda que durante anos tivesse sido parlamentar, deputado e senador, Ministro das Relações Exteriores, governador da Bahia, estilista primoroso, foi orador impecável; na conversa apreciava artifícios que apontassem os contrastes humanos com malícia, mas sem maldade; assim, por exemplo, gostava de pilheriar com a própria terra que tanto amava, dizendo – “imagine um absurdo, por maior que seja, tem precedente na Bahia”. Pois estou em dizer que nem na Bahia haverá precedente do fato aqui ocorrido.
Nada menos que um parlamentar, presidente de partido numeroso, de óbvias responsabilidades inerentes à sua situação no mapa partidário, que elegeu a senhora presidente da República, bem como seu antecessor, o atual governador do Rio Grande do Sul como um de seus predecessores, além de outros títulos auferidos no resto do país, cometeu um descoco que nem na Bahia tinha precedente… Em reunião do seu partido, desnecessário dizer tratava-se do PT, realizada em Sapiranga/RS, referiu-se à Justiça Eleitoral em termos simplesmente inacreditáveis, como o seriam se não tivessem sido gravados e reproduzidos pela radiodifusão, sem qualquer ressalva, e, ao contrário, confirmado pelo próprio protagonista; as palavras são poucas, mas nem precisavam ser mais numerosas para estarrecer a gregos e troianos. Com estas palavras o presidente do mencionado Partido se referiu aos juízes da Corte Eleitoral – “Nós não controlamos esse bando de sem-vergonha que compõe o Tribunal Eleitoral”. Procurado por jornalistas acusou-os de estar “praticando um jornalismo marrom e vagabundo” e, no dia seguinte, adiantou que “a gravação não tinha sido autorizada”… desse modo confirmou a declaração insultuosa, afinal o “bando de sem vergonha” eram os juízes do TRE do Rio Grande do Sul! Esta a linguagem do parlamentar e presidente de um Partido de inexcedível agressividade frontalmente endereçada a um Tribunal, cujas decisões podem ser objeto de recursos legais e de críticas explícitas à sua sabedoria, mas jamais como “um bando de sem-vergonha que compõe o Tribunal Eleitoral”.
Nunca imaginei que seria juiz do TSE e até seu presidente, ao tempo em que advoguei da primeira à derradeira instância da Justiça Eleitoral, mas posso dizer que nunca, jamais, nem quando advogado, nem quando presidente vi coisa igual nem parecida como essa agressão covarde, que causou tristeza e mal estar a quantos se esforçaram por ver praticada e respeitada a maior reforma política já realizada no Brasil, com a adoção da Justiça Eleitoral e do voto secreto, que lhe deu sentido.
Aliás, embora desnecessário, mas apenas a título ilustrativo, lembro que ideias estapafúrdias surgem aqui e ali quando se trata de reformas institucionais, mas nunca alguma que extinguisse a justiça eleitoral ou alterasse sua estrutura.
Mas, na minha apreciação, vejo alguma relação entre o jato de insânia despejado a céu aberto contra a verdade eleitoral e a onda de violência que se vai espalhando pelo país. Ainda agora a CUT se arvora em juiz do Supremo Tribunal Federal e o ameaça em caso dele parcializar-se no julgamento do triste episódio do mensalão (sic).
A pretensão em causa revela a disseminação de expedientes visando ao desprestígio da Justiça com a desconfiança nela, ainda que de forma semi-infantil e grosseira, mas solerte e calculada.
De mais a mais, a própria linguagem empregada lembra uma linguagem de sarjeta, mostra o seu descompasso da apropriada a uma entidade investida de relevantes encargos e finalidades pela própria Constituição Federal.

* Jurista, ministro aposentado do STF

Artigo| Batman vive!

29 de julho de 2012 0

Por trás do
moço de Aurora
há mais de
dois séculos
de violência
habitando o
inconsciente
coletivo

FLÁVIO  TAVARES*

Aquele rapaz de 24 anos, aluno de doutorado em neurociências numa universidade dos Estados Unidos, que se mascarou de Batman e, num cinema, disparou a esmo com um fuzil automático, o que é, afinal? Um demente que matou 12 pessoas (entre elas uma criança de seis anos e a mãe grávida) e feriu 58? Ou mais um demoníaco personagem na extravagante história de crimes naquele país? Prevê a imprensa norte-americana que ele será sentenciado à morte, até mesmo para intimidar eventuais imitadores, mas, de onde ele absorveu tanta maldade? De onde surgiu o horror?
Seu mestre não pode ter sido Batman. O Homem Morcego (como diziam os quadrinhos dos anos 1940) é um herói, um justiceiro humanista em luta contra o mal, nunca um vingador do absurdo ou um assassino voraz. Mas Batman é uma das fantasias do bem que povoam um mundo real de dura competição num país fundado na violência, que exterminou quase toda a população nativa, que se armou e guerreou sempre, que invadiu o vizinho México e anexou as partes mais ricas do território só porque lá abundava o petróleo. Aurora, no estado do Colorado, é uma dessas antigas vilas mexicanas, agora tristemente universalizada pela tragédia.
Esses crimes em que o assassino nem conhece as vítimas e mata por matar, têm sido comuns nos EUA. Até o assassinato coletivo de um ano atrás, na Suécia, foi diferente: o criminoso era um direitista que matou para protestar contra o governo socialista por aceitar imigrantes negros.
**
Qualquer dia, nos EUA, até o ratinho Mickey sai a caçar humanos ao acaso! Lá, vendem-se armas em qualquer lugar, como aqui se vende refrigerante. Por trás do moço de Aurora há mais de dois séculos de violência habitando o inconsciente coletivo. As centenas de milhares de civis mortos em Hiroxima e Nagasaki pelas bombas atômicas dos EUA compõem o quadro moderno da violência em que matar não é crime, mas “defesa”. Na África e no Oriente, diferentes governos e empresas dos EUA alimentam a morte vendendo armas e fomentando a rivalidade entre grupos étnicos.
Os EUA tornaram-se superpotência especializando-se na arte de matar e destruir. A bomba de nêutrons foi a simbiose do militarismo e do capitalismo: mata as pessoas, preservando os bens, como se isso servisse aos mortos… Toda a grande pesquisa tecnológica está centrada nas armas e destinada a destruir. Só depois de provada na morte, começa a ser aplicada à vida. Até a internet (a maravilha que aproximou o mundo) nasceu da necessidade de controlar o cosmos na Guerra Fria. A precisão da eletrônica, dos foguetes teleguiados que percorrem de um a um os cômodos de uma casa, desenvolveu-se para destruir. Foi provada, primeiro, na Guerra do Golfo e, anos depois, ampliada no Afeganistão e no Iraque.
**
Nem essa sofisticação, porém, evita que centenas de milhares de civis, crianças inclusive, sejam mortos pelas tropas dos EUA nesses dois países, por “erro técnico” ou simples “vingança”. Ninguém é responsabilizado por isto.
Na era moderna, a tecnologia é que mata. O combate corpo a corpo, à baioneta ou fuzil, é velharia da Segunda Guerra ou, hoje, coisa de africanos e asiáticos. Agora, aperta-se um botão e se cumpre o que o computador ordena diretamente da White House ou do Pentágono. Matam-se civis “em defesa” dos que guerreiam.
Tudo parece magia, como nas andanças de Batman. O selo do poder faz de quem mata um herói. Por que pensar, então, que o mocinho de Aurora é só um demente? Por que não pensar, também, que a História do seu país lhe serviu de guia e que, na loucura, nem veja que escureceu a luminosidade da aurora?

* Jornalista e escritor

Artigo| Coringa, o vampiro de Denver

29 de julho de 2012 0

Por que
somos tão
condescendentes
com a
realidade
e severos
com a
fantasia?


DIANA CORSO *
dianamcorso@gmail.com

Os filmes de super-heróis têm padecido da síndrome das origens: heróis e vilões tiveram seu passado investigado e com Batman não foi diferente. Corretamente, o cinema bate na tecla de que somos fruto da nossa história. O caso do atirador de Denver, que matou 12 pessoas durante a estreia do filme Batman, também nos leva a tentar compreender suas razões, a origem da sua deturpada personalidade.
Teóricos apressados, assim como a ficção, adoram encontrar traumas. De fato, existem traumas, mas não há uma forma unívoca de reagir a eles, tudo depende do que fizemos a partir do que a vida interpôs em nosso caminho. No caso de Holmes, o atirador da vez, não há traumas visíveis. Ele era reservado, mas não sofria bullying. Americano, branco, estudante de medicina e neurociência, bem apessoado até, eis um monstro que foge aos nossos clichês.
Na falta de conjecturas melhores, Batman, o super-herói do filme, foi levianamente acusado de estar na origem da motivação do evento, e o assassino reforçou essa tendência ao comparar-se ao vilão Coringa. Por que não se teve tanta urgência em questionar a paixão norte-americana por armas? Não há como esquecer que Holmes vive nos EUA, um país onde a população convive com um arsenal de pólvora e testosterona sem aplicações práticas, um campo minado. Dentro de casa, armado até os dentes, qualquer medíocre, obscuro e fracassado pode se imaginar soldado de uma guerra imaginária, um cowboy à espera dos bandidos. Por que somos tão condescendentes com a realidade e severos com a fantasia?
Num baralho, o Coringa é uma carta-camaleão. Convém tê-la, mas só vale no contexto, assumindo a identidade em função das que a acompanham. Com o que Holmes está se mimetizando? Coringa, um bom nome de vilão para esses psicopatas, pois são como vampiros: alimentam-se da morte, migram do anonimato para a fama a partir das vidas que suprimem. Atiradores malucos, assim como assassinos de celebridades, ganham vida eterna na mídia. Alguns sugam a fama daqueles que matam, como os assassinos de Kennedy e Lennon, outros apostam no atacado das vidas inocentes. São modos vampirescos de angariar reconhecimento na sociedade do espetáculo. A personagem Kevin, de um livro e filmes recentes sobre um desses atiradores de escola americanos, agradecia a seus crimes a fama alcançada, pois ninguém iria falar dele se tirasse boas notas em matemática.
Mas de que “traumas” são tecidos? Quase na totalidade homens, esses assassinos que se tornam personagens da mídia talvez reflitam uma fragilidade contemporânea nas identificações viris. Quanto mais rudimentar uma personalidade for, mais ela vai precisar de identidades totalitárias e violentas para se mimetizar. Provavelmente é para alimentar fantasias de virilidade, de reconhecimento social e de controle sobre a morte que tantos homens anônimos e insignificantes querem ter seu arsenal doméstico. Se as cartas são essas, não é difícil saber a cara que o Coringa terá.

*Psicanalista

Artigo| As pernas da mentira

29 de julho de 2012 0

A anistia
é um
instrumento
jurídico a
serviço da
Política. Da
boa Política!

PERCIVAL PUGGINA*
puggina@puggina.org

Como são longas as pernas da mentira insistentemente repetida por muitos! Uma delas atropelou-me outro dia. Centenas de informações sustentam, na internet, que a anistia de 1979 foi aprovada no Congresso pelo estreito placar de 206 votos a 201. Por essa vantagem mínima, a Arena empurrara a tal anistia goela abaixo da oposição. Diante de informação tão homogênea e coincidente, eu a comprei por boa e passei a repeti-la. No entanto, algo não abotoava. Duzentos e um congressistas, adversários do regime militar, se teriam oposto à anistia? Seria paradoxal. Por que rejeitariam um projeto que beneficiou milhares de parceiros? Pesquisando, tropecei noutra das longas pernas em que essa história caminha através dos anos: o projeto teria sido rejeitado pela oposição porque se tratava de uma autoanistia que só interessava aos militares.
Oh, verdade! Oh, história! O que fazem com vocês duas em nome da ideologia! Dia desses, soube que o JB disponibiliza um arquivo digitalizado de seus jornais desde os anos 30. A edição do dia 23 de agosto de 1979 quebra a perna dessas mentiras. Coisa feia. Fratura exposta. A véspera, dia da votação da anistia, fora tumultuado no Congresso. Pressão nas galerias. Exaltados discursos. O projeto do governo Figueiredo não anistiava quem tivesse participado de “terrorismo, assalto, sequestro e atentado pessoal”. Para estes, as duras penas da lei. Mas havia uma emenda do deputado Djalma Marinho que anistiava a todos, ampla, geral e irrestritamente. Essa emenda, levada a votação, foi rejeitada por 206 votos a 201. Ah! Quer dizer que não houve 201 votos contra a anistia, mas 206 votos contra uma emenda que a ampliava? Os 201 votos que se diz terem sido contra o projeto de anistia, na verdade foram a favor de uma anistia muito mais ampla? Sim, foi isso mesmo. Aliás, a maioria parlamentar, a base do governo Figueiredo, entendia que os crimes contra a pessoa, crimes de sangue, não mereciam perdão. Para quem os cometera _ a justiça. As penas da lei. Já o projeto em si _ Lei nº 6683/79 _ foi aprovado em acordo, por voto das lideranças.
O país não se pacificou. Nos seis anos seguintes, continuou a campanha pela anistia ampla, geral e irrestrita, finalmente aprovada, em 22/11/1985, por um Congresso com plena legitimidade democrática, no corpo da emenda que convocou a Constituinte. Apesar de as coisas terem transcorrido desse modo, a história, mal contada e muito repetida, sobre longas pernas, insiste, agora, em que a desejada, pleiteada e ansiada anistia ampla, geral e irrestrita foi uma injustiça. Curiosamente, reproduz a posição da bancada linha dura de 1979 e clama pelas duras penas da lei. Anistia, não! Justiça! Justiça! Também acho injusto que terroristas, guerrilheiros, assassinos e assaltantes responsáveis por mais de uma centena de mortes andem soltos e recebendo gordas indenizações. Digo outro tanto de quem torturou e seviciou. Tais impunidades não são justas!
Mas sei que por esse caminho não chegaríamos à normalidade democrática. O país só foi pacificado, só recuperou saúde institucional quando a Política superou a Justiça através da anistia de 1985. A anistia é um instrumento jurídico a serviço da Política. Da boa Política! Há conflitos, na história, que não se resolvem com Justiça, mas com Política. O passado não tinha conserto. Consertou-se o futuro. Foi esse o bom rumo que o Brasil escolheu e que alguns pernalongas, arrebatados pela ideologia do ódio, querem desandar.

* Escritor

Sentenças| Frase da semana

29 de julho de 2012 0

“O meu maior objetivo é me tornar uma lenda.”

USAIN BOLT, jamaicano, o homem mais veloz do mundo, anunciando seu sonho na véspera de competir em Londres

Artigo| Drogas? É preciso pensar

29 de julho de 2012 1

Sigo achando
que o álcool
é problema
mais sério
do que todas
as drogas
ilegais juntas

MARCOS ROLIM*
marcos@rolim.com.br

Sempre é bom ver políticos defendendo uma ideia. Ainda que seja só uma e de natureza conservadora. Mas poderíamos combinar algumas coisas. Primeiro: sempre que alguém fizer afirmação sobre relações causais deve indicar sua fonte. Desta forma, é possível checar os dados, avaliar a metodologia empregada e saber até que ponto as conclusões agregam consenso científico. Se não for assim, só o que se estimula é o medo e o preconceito, o que termina por interditar o debate, ao invés de promovê-lo.  O “Manifesto contra a descriminalização das drogas”, divulgado esta semana e assinado por políticos, entidades médicas e religiosas é _ independente da intenção de seus autores _ uma peça em favor da interdição do debate e em nenhum momento um convite à reflexão. Ele faz muitas afirmações, mas não indica uma só referência. Diz, por exemplo, que a experiência de Portugal _ que descriminalizou a posse de drogas em 2001 _ é um fracasso. Talvez seja. Mas aquele que é, possivelmente, o mais amplo estudo sobre esta experiência, o Relatório do Cato Institute, dos EUA _ Drug Decriminalization in Portugal: Lessons for Creating Fair and Successful Drug Policies, disponível em http://migre.me/a41Z3, sustenta precisamente o contrário.  Em 2001, a direita portuguesa afirmava que a descriminalização iria abrir as portas para o “narcoturismo” e que o consumo aumentaria (na linha do que dizem hoje, por exemplo, sábios como Reynaldo Azevedo). O relatório Cato revelou que, nos primeiros cinco anos após a descriminalização, o uso de drogas ilícitas entre adolescentes em Portugal diminuiu, as taxas de infecções por HIV causadas por compartilhamento de seringas caíram, enquanto o número de pessoas em tratamento para dependência mais do que duplicou. Neste ponto, o Manifesto critica Portugal por ter mais dependentes em tratamento do que os demais países europeus, sem se dar conta de que, quando não há o crime de uso de drogas, os usuários se aproximam muito mais do sistema de saúde. Aliás, os recursos poupados com as sanções aos usuários em Portugal permitiram financiar mais programas de tratamento aos dependentes. O que _ segundo matéria de Maia Szalavitz na Time Science _ Drugs in Portugal: Did Decriminalization Work?, disponível em http://migre.me/a41Ho – foi reconhecido pelo “Czar das drogas” em Portugal, João Castel-Branco Goulão, presidente do Instituto da Droga e Dependência Química, para quem “a polícia está agora em condições de focar suas ações no monitoramento de traficantes”.
O Manifesto afirma, também, que “boa parte” (sic) dos acidentes no trânsito é produzida por pessoas “sob o efeito de maconha, cocaína” etc. Novamente, não há referência e nem ficamos sabendo o quanto é uma “boa parte”. Uau! E eu que achava que a esmagadora maioria dos acidentes era causada por motoristas alcoolizados. Este deve ser o meu problema: por ingenuidade, sigo achando que o álcool é problema mais sério do que todas as drogas ilegais juntas e que deveríamos já, há muito, ter proibido a propaganda de bebidas alcoólicas no Brasil. Bem, mas para uma medida simples assim, talvez nos faltem senadores e deputados e sobrem financiadores de campanha.

* Jornalista

Editorial| Um espetáculo de paz

28 de julho de 2012 0

O Brasil tem muito a aprender do espetáculo londrino, não apenas no que toca à grandiosidade da cerimônia de abertura, mas de todos os aspectos relacionados à organização e infra-estrutura da festa.


Imagens em vídeo e computação gráfica se uniram ontem na atração inaugural da cerimônia de abertura da 30ª Olimpíada da Era Moderna, levando o espectador a uma viagem das nascentes do Tâmisa ao Estádio Olímpico de Londres. Com uma história repleta de rainhas e príncipes, carruagens e castelos, os ingleses aproveitaram o início do espetáculo de boas-vindas aos atletas e delegações do mundo todo para colocar em relevo seus heróis plebeus: 2,5 mil figurantes representaram os agricultores primitivos das tribos britânicas, os operários da Revolução Industrial, as sufragistas e outros anônimos. O ator Kenneth Brannagh, a percussionista Evelyn Greennie e outros artistas tiveram participações destacadas nessa ópera britânica, na qual o público assistiu o cenário erguido no gramado se transformar de uma paisagem rural num parque industrial com chaminés e forjas. Num momento culminante, forjas circulares incandescentes se ergueram do chão para se unir aos aros olímpicos e desencadear uma chuva de fogos. Não faltou uma participação bem-humorada da rainha Elizabeth II em companhia do ator Daniel Craig, que vive no cinema o agente 007 (“James!”, disse a soberana num vídeo no qual simulou um salto de paraquedas sobre o estádio).
A festa esteve à altura da competição que se inicia. Estão reunidos em Londres o mais rápido velocista, a ginasta mais habilidosa, as equipes mais capazes e outros expoentes do esporte mundial. Todos demonstrarão seus dons em meio a disputas pacíficas, portando as bandeiras de suas nações, tendo por limites as regras esportivas e o princípio da convivência solidária. A Olimpíada é um evento no qual a humanidade esquece por um momento suas mazelas e contempla, embevecida, suas melhores capacidades. Recupera-se, assim, de forma renovada, o congraçamento dos antigos gregos em Olímpia, quando atletas representando as cidades-Estado helênicas se reuniam para competir em força e habilidade para honra de Zeus. Hoje secularizado, o ideal olímpico é uma forma de cultivo do que os seres humanos têm de melhor. Na cerimônia de abertura, o planeta Terra surgiu como um lugar decididamente melhor.
O Brasil tem muito a aprender do espetáculo londrino, não apenas no que toca à grandiosidade da cerimônia de abertura, mas de todos os aspectos relacionados à organização e infra-estrutura da festa. Em pouco tempo, quando as luzes de Londres tiverem se apagado, a expectativa se voltará para o Brasil, sede dos Jogos de 2016. O país que sediará a Olimpíada daqui a quatro anos terá, seguramente, condições de superar muitos dos atuais entraves responsáveis pelas dúvidas e o ceticismo manifestados até agora em relação às possibilidades de um evento desse tipo ter lugar em solo brasileiro. Para que a festa do Rio se equipare ou supere a de Londres, governo, empresas e cidadãos terão de saber tirar as devidas lições da experiência inglesa. Até lá, muita água rolará sob a Tower Bridge e diante do Pão de Açúcar. Que a 30ª Olimpíada moderna seja, até o final, uma confirmação das melhores expectativas depositadas por todos no sonho olímpico.

Editorial| Agendamento equivocado

28 de julho de 2012 0

As faltas corriqueiras de pacientes em consultas marcadas com especialistas do Sistema Único de Saúde (SUS) através de agendamento revelam antes falhas do sistema do que falta de responsabilidade dos usuários. Se as ausências chegam a significar 66% do total, em alguns casos, é porque  que o método é equivocado. Diante da demanda de doentes por atendimento, só há uma explicação: o fato de as consultas, em muitos casos, serem agendados para meses ou até mesmo anos depois da solicitação acaba contribuindo para a desistência.
Há pelo menos duas consequências diretas desse modelo ineficiente e que, por isso, exige revisão. Uma delas é que, quando o paciente não comparece no dia e hora marcados, prejudica quem aguarda sempre há mais tempo do que deveria por uma oportunidade de socorro médico. A outra, que as ausências representam um custo elevado. Mesmo quando o paciente não comparece, o serviço contratado pela Secretaria Municipal de Saúde tem que ser pago.
Se uma das razões para tanta falta é justamente a particularidade de a consulta ser marcada com muita antecedência, parece óbvio que o modelo não funciona satisfatoriamente e precisa ser revisto logo. Diante da impossibilidade de atendimento imediato, muitos doentes acabam tendo que aceitar o agendamento para um futuro remoto. Mas, para evitar um agravamento no quadro de saúde, que chega a resultar até em óbito, acabam procurando ajuda de outra forma, muitas vezes fazendo um esforço para juntar o dinheiro necessário e pagar pelo serviço.
É mais do que hora de o SUS rever esse modelo, que não atende às aspirações dos usuários. Se não é possível mudar tudo de uma só vez, reduzindo o tamanho inadmissível da fila, que sejam buscadas pelo menos providências emergenciais no caso das especialidades mais procuradas.

Artigo| Onde está o pleno emprego?

28 de julho de 2012 0

ONYX LORENZONI*
As recentes estatísticas que apontam para o recuo na geração de empregos e o fechamento de vagas nas fábricas brasileiras são somente a ponta do iceberg das dificuldades de se desenvolver empresas, indústrias e de se gerar empregos formais no Brasil. Falta infraestrutura, a energia e a telefonia são caras, falta pessoal qualificado e sobram entraves burocráticos e impostos.
O desemprego se aprofunda e toma contornos de crise. Um dos fatores que problematiza esta situação é que inexiste para muitos brasileiros a qualificação profissional. Estamos importando engenheiros, técnicos industriais, pessoal com qualificação de área tecnológica. A qualificação profissional por meio da educação é a única forma de garantir o suporte humano necessário para o desenvolvimento econômico de um país. Faltam-nos profissionais em todas as áreas técnicas.
Países asiáticos, como a Coréia do Sul, conseguiram dar saltos econômicos surpreendentes por que, entre suas medidas de desenvolvimento, estava o  investimento no sistema educacional e na formação de pessoal para pesquisar, planejar, projetar e construir uma economia sólida com raízes na produtividade. Sem educação não se geram oportunidades de trabalho, condições de participação no mercado e a liberdade das pessoas fica comprometida.
Mercados excessivamente protegidos acabam gerando empresas viciadas em uma condição artificial de negócios. O governo do Brasil protege o mercado, fecha fronteiras, cria exigências que dificultam a instalação de empresas, complica a importação de maquinários, suprimentos e matérias primas. Agora estamos começando a pagar a conta gerada por esta mentalidade econômica ultrapassada com os empregos que sustentam as famílias de muitos brasileiros.
O Rio Grande do Sul, é o segundo colocado, entre os Estados brasileiros, no ranking do fechamento de vagas e o protagonista deste triste número é justamente a indústria gaúcha. Onde está o pleno emprego tão anunciado pelos marqueteiros do governo? Promessa de palanque não paga contas, não põe comida na mesa e, muito menos, gera empregos.  Empregos se geram com um ambiente de negócios favorável ao desenvolvimento da produção, com o fomento a competitividade e com muita qualificação técnica.
Será uma coincidência que o Estado que lidera a lista dos que pior pagam seus professores é também o segundo Estado onde mais se fecham vagas de emprego? Será coincidência que o Estado que tem impostos mais altos do que quase todos os outros Estados brasileiros é justamente o que apresenta uma indústria que protagoniza o fechamento de empregos formais? Que sirva o hino Rio-Grandense de alerta para a necessidade de qualificar e modernizar: “povo que não tem virtude acaba por ser escravo”.

* Deputado federal (DEM/RS)