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Posts de agosto 2012

Editorial| A reformulação do ensino

31 de agosto de 2012 1

O currículo do Ensino Médio que serviu para os pais nem sempre será o ideal também para os filhos, particularmente num período marcado por transformações profundas e rápidas como o atual.


Como conciliar, numa mesma época de mutações aceleradas como a atual, escolas do século 19, professores do século 20 e alunos do século 21? Autor do desafio, o professor Mozart Neves Ramos, conselheiro do movimento Todos pela Educação, arriscou uma alternativa, depois de definir dessa forma a realidade do ensino no país, durante o lançamento da campanha A Educação Precisa de Respostas, do Grupo RBS: é preciso trazer tudo isso para o nosso tempo. A tarefa exige, entre outras providências, uma ampla reformulação do Ensino Médio, tornando o currículo mais atraente e mais inovador, sob o ponto de vista do professor e, principalmente, do aluno. A atualização dos conteúdos aos novos tempos é uma necessidade urgente e deveria ocorrer sempre na mesma frequência das transformações do mercado.
O Ministério da Educação, como adiantou no encontro, nesta semana, o ministro Aloizio Mercadante, estuda reduzir o elevado número de disciplinas do Ensino Médio, concentrando-o em quatro grandes áreas. Seria um avanço se as mudanças pretendidas pudessem ser postas em prática com o objetivo de facilitar a vida de quem estuda, sem prejuízos ao conteúdo necessário para a formação de jovens. Uma das grandes dificuldades de quem ingressa hoje no Ensino Médio, na maior parte das vezes com sérias dificuldades de formação herdadas do Ensino Fundamental, é se organizar frente a um número tão elevado de disciplinas, de professores, de cadernos de exercícios e de livros. Devido ao impacto que provocariam, os planos precisam ser acompanhados de perto pelos educadores, como forma de evitar problemas mais à frente.
Um dos aspectos que precisam estar presentes na redefinição de conteúdos é se o Ensino Médio vai continuar insistindo em preparar _ e mal _ alunos para a universidade, num país em que apenas 30% seguem esse caminho de imediato, ou se haverá mais atenção a quem precisa ingressar logo no mercado de trabalho. Independentemente da decisão de direcioná-lo mais para um lado ou para outro, melhores resultados sob o ponto de vista de um aprendizado de qualidade vão depender de maior atenção também ao Ensino Fundamental, que se constitui num pilar do conhecimento.
Cada geração tem suas características específicas, moldadas por transformações típicas da época nas quais os jovens se preparam para chegar à vida adulta. O currículo do Ensino Médio que serviu para os pais, portanto, nem sempre será o ideal também para os filhos, particularmente num período marcado por transformações profundas e rápidas como o atual. De nada valerão as mudanças, porém, se nem os professores nem as escolas estiverem devidamente preparados para implementá-las. A preocupação central precisa ser a de atrair mais jovens em sala de aula e de oferecer-lhes uma educação de qualidade, em condições de contribuir para melhorar sua vida em todos os níveis, incluindo o pessoal e o profissional.

Editorial| Infratores do erário

31 de agosto de 2012 0

A par de afirmar convicção majoritária sobre a ocorrência de desvio de dinheiro público no episódio do mensalão, o julgamento do processo em curso pelos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) tem resultado numa manifestação contundente de condenação a corruptos e corruptores. Da análise do primeiro dos oito capítulos do processo, resultaram condenados, entre outros, o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP), o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil  Henrique Pizzolato, e o operador do esquema, Marcos Valério.
Não é demais transcrever trecho de pronunciamento do ministro Celso de Mello, último a votar nessa fase do julgamento: “Agentes públicos que se deixam corromper e particulares que corrompem os servidores do Estado são corruptos e corruptores, os profanadores da República, os subversivos da ordem institucional, são eles os delinquentes, marginais da ética do poder, são os infratores do erário, que trazem consigo a marca da indignidade, que portam o estigma da desonestidade”. Se não substituem a aplicação da pena devida, tais palavras, de autoria de um dos mais eminentes juristas da República, constituem, em sua aparente dureza, aditivo mais do que merecido à punição prevista no texto legal.
É impossível prever, transcorrido menos de um mês do início do julgamento, o resultado final do exame do processo do mensalão pelo Supremo. Seria prematuro decretar, desde já, que será feita justiça de forma inequívoca. Ainda assim, pode-se afirmar, sem sombra de dúvida, que se trata de página memorável da história da Justiça brasileira, que antes dela registra escassos momentos de punição a poderosos, colarinhos-brancos e condôminos do chamado andar de cima.
O Estado de direito emerge mais forte, e a corrupção, mais fraca, da primeira fase do julgamento do mensalão pelo Supremo. Independentemente do que nos reservam os próximos meses de trabalho da mais alta Corte do país, o julgamento já terá valido por ter propiciado rechaço a um dos grandes males dos quais a República precisa se livrar.

Artigo| Qualidade da educação

31 de agosto de 2012 0

MARIA TEREZA LUNARDINI CARDOSO*

Não há dúvida de que o Brasil potencializou-se através do esporte. No futebol, conquistou várias copas mundiais. No automobilismo, subiu ao pódio com o imortal Ayrton Senna. Nas olimpíadas, muitos atletas brasileiros vêm se consagrando vencedores e ostentando medalhas no peito. No vôlei, na natação e em outras modalidades esportivas, o país já venceu os “invencíveis”. Na economia, o Brasil passou de devedor a credor do FMI. O mercado internacional abriu as portas para os produtos brasileiros.
Na educação, o Brasil deu a largada; já venceu a barreira da quantidade _ mais de 95% das crianças já estão nas salas de aula. Muitos governantes estão conscientes de que investir em educação infantil é garantir um futuro promissor para muitos pequenos brasileiros; já entenderam que “as flores do futuro estão nas sementes de hoje”. No entanto, o Brasil não conseguiu erguer a bandeira da vitória: os resultados da educação brasileira não são alentadores. Os índices de evasão, de repetência e a qualidade do ensino são incompatíveis com os avanços que o país vem conseguindo nesses últimos anos. Na última edição trienal na prova do programa de Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa), referente a 2009, o Brasil ficou no 54º lugar num ranking de 65 países. Segundo o Inaf (Indicador do Analfabetismo Funcional), os índices de analfabetismo apresentaram declínio nos últimos anos. No entanto, os níveis da avaliação externa sobre as habilidades de leitura e escrita e matemática dos brasileiros entre 15 e 64 anos ainda são preocupantes. Avaliar a situação dessa população-alvo quanto à capacidade de acessar e processar as informações escritas como ferramentas para enfrentar as demandas cotidianas indica que não basta codificar e decodificar palavras ou expressões. Ler e entender diferentes gêneros de textos que circulam socialmente, escrever com clareza e com domínio das noções básicas da língua escrita são hoje condições imprescindíveis para a inserção plena na sociedade letrada. São também requisitos básicos para a promoção pessoal e para conquista de um espaço no mercado de trabalho.
Indiscutivelmente, a educação é o alicerce para o progresso do país; é, portanto, o grande passaporte para o sucesso individual e para a construção do desenvolvimento coletivo de uma nação. É preciso dar a grande largada para o Brasil concorrer em nível de igualdade com as outras nações do mundo e dar a tão sonhada volta olímpica, ostentando a bandeira da vitória na educação.

*Professora, mestre em Educação

Artigo| O discurso da submissão

31 de agosto de 2012 0

Já não há
motivos de
esperança
relativamente ao
municipalismo,
o federalismo
e a República?

ASTOR WARTCHOW*

O teor dos discursos e a submissão dos partidos reforçam o pessimismo em torno da carente atualização, coerência e descentralização tributária nacional. Passamos “uma vida inteira” defendendo a necessária descentralização tributária e o máximo de empoderamento dos municípios e Estados.
E o que vimos nos palanques eleitorais midiáticos e eletrônicos e nos discursos em geral? Uma sucessão de loas ao governo central! Bordões sucessivos diziam, e continuam dizendo, da “amizade” com o governo central, das ligações partidárias e da importância dessas relações para carrear recursos.
Inacreditável. Um retrocesso discursivo-ideológico de mais de 20 anos. Uma pobreza de responsabilidade e convicção sobre republicanismo que nos devolve “à idade média e à submissão real”.
E assim, assegurados e assentados sobre a alardeada unanimidade em torno da figura do “rei”, agora “rainha”, a busca insana pelo voto e pelo poder reproduziu as demagógicas falas de submissão tributária.
Atuais e futuros feitos e obras cantadas em prosa e vídeo à conta da benemerência e generosidade “real”. Como se os recursos federais brotassem ao sabor da natureza e não fossem resultado da espoliação do próprio povo.
Nos sucessivos processos eleitorais, municipais e estaduais, principalmente, se esperava que houvesse uma sincronizada reação de todos contra o excesso e a centralização tributária da corte de Brasília. Uma digna reação de quem se pretenda munícipe e líder regional e popular!
Assim, mantida a natureza da omissão e submissão, seja por incompetência política ou “interesse”, não importa, o que resulta? Legitimada, inspirada e endinheirada, “a realeza e sua corte” se move como que imantados por um salvo-conduto comportamental.
E a ponderar pelos renovados e recentes indicadores de preferência popular, inclusive dos numerosos afilhados eleitos e reeleitos, nada há a reclamar. Ou será apenas parte da memória pública esclerosada?
A verdade sucumbe. O povo se “entrega” e assiste à metódica e sistemática desconstrução da verdade, sob o predomínio da indiferença e da não indignação. A julgar pela peregrinação e o beija-mão, a sedução é tão intensa, que todos sucumbem.
Claro e compreensível, é da natureza dos partidos e dos políticos seu agudo instinto de sobrevivência. Muda o discurso, muda o comportamento, muda o que for necessário e de acordo com a nova perspectiva. Submetem-se às exigências do vir a ser.
É tão “natural e inocente” o procedimento da “corte” que “todos” assimilam e legitimam seus valores e sua conduta. Então, como é possível desafiar essa “verdade” e sua perenidade e inevitabilidade temporal?
Uma nação que já se uniu em torno das bandeiras nacionais da anistia, das diretas-já e da constituinte, não será capaz de erguer a última e urgente, a única e fundamental bandeira? Ou já não há motivos de esperança relativamente ao municipalismo, o federalismo e a República?

*Advogado

Artigo| A quem interessa descriminalizar?

31 de agosto de 2012 1

A quem
interessa
liberar a
maldita droga?
Estado, governo,
mercado ou
sociedade?


AFONSO FARIAS*

Segue a campanha para fazer mentes incautas serem favoráveis à descriminalização das drogas. Números a favor da descriminalização são jogados ao público de forma irresponsável, sem citações e com estatísticas distorcidas.
Por que afirmam que a descriminalização das drogas é uma tendência mundial?
Por que não falam sobre os trilhões despendidos no tratamento de doenças provocadas pelo uso de drogas “legais” e ilegais?
Com a liberação, invocam a inocente incapacidade do traficante de se adaptar à nova realidade, inclusive empregando pessoas para fazer funcionar o negócio legalmente e até continuar empreendendo no ramo etc.
Dizem que a liberação das drogas irá reduzir a procura, contradizendo princípios mercadológicos primários: quanto maior (ou mais fácil) a oferta de um produto, maior a procura. Foi assim, é assim e será assim.
Portugal descriminalizou o uso de drogas em 2001. O Instituto da Droga e da Toxicodependência revela no seu relatório de 2010 o preocupante incremento no consumo das drogas, sobretudo entre jovens. Resumidamente, o relatório mostra que na faixa etária de 15 a 34 anos o percentual de usuários de qualquer droga em Portugal, que em 2001 era de 12,6%, saltou, em 2007, para 17,4%.
Importante frisar que os homicídios relacionados com droga em Portugal também sofreram aumento em torno de 40%, desde 2001 (World Drug Report, 2009).
Na Holanda, a procura por drogas cresceu tanto no país, que, em abril, o governo decidiu proibir estrangeiros de comprar maconha (a droga mais consumida) e resolveu também reclassificar como droga pesada a maconha com mais de 15% de THC. As vendas também causaram aumento da criminalidade nas regiões limítrofes.
A Suécia experimentou os dois lados da política das drogas. Na década de 60, quando optou pelo liberalismo na questão das drogas, viu o número de dependentes crescer. Mas rapidamente, na década de 1970, proibiu as drogas e passou a investir mais em prevenção e controle.
Atualmente, a Suécia investe em prevenção três vezes mais que a média do continente, por isso tem um terço da média do número de dependentes químicos da Europa, conforme o relatório Sweden’s Successful Drug Policy.
Suíça e Dinamarca também recrudesceram a política de repressão às drogas. A Inglaterra modificou a norma legal e pune rigorosamente o traficante com penas de até 25 anos de cadeia.
A quem interessa liberar a maldita droga? Estado, governo, mercado ou sociedade? Pense na sinergia álcool e maconha ou álcool e outras drogas… Resultado: mais mortes, mais despesas com a saúde pública, mais desarmonia, menos paz. Pode ser essa a movimentação da peça que falta no tabuleiro para eclodir definitivamente a desordem nacional.

*Professor

Editorial Interativo| Editorial defende a participação ativa de pais e familiares no processo de aprendizagem. Você concorda?

30 de agosto de 2012 9

Zerohora.com adianta o editorial que os jornais da RBS publicarão no próximo domingo para que os leitores possam manifestar concordância ou discordância em relação aos argumentos apresentados. Participações enviadas até as 18h de sexta-feira serão selecionadas para publicação na edição impressa.
Ao deixar seu comentário, informe nome e cidade.

Para participar, clique aqui

ESCOLA E FAMÍLIA

A ideia de que a aprendizagem é um problema da escola, a quem os pais devem delegar a atribuição exclusiva de ensinar _ como se, ao cruzar os portões da instituição, as crianças se despissem da condição de indivíduos situados num contexto sociofamiliar específico _, é mais arraigada do que se costuma admitir. É comum ouvir-se, em encontros de pais, expressões como “Quem tem de ensinar é a escola”, “Não tenho tempo para tomar lição em casa”, ou, pior ainda, “Estou pagando, o colégio que faça a sua parte”.

Nesses casos específicos, a culpa não é da sociedade contemporânea, mas da mentalidade herdada de um passado já distante, quando o ensino tinha caráter confessional. Mesmo em comunidades interioranas do Brasil, famílias de prole numerosa, a quem não custaria um par de braços de trabalho a menos, costumavam enviar filhos e filhas aos colégios mantidos por ordens religiosas para que abraçassem a vida eclesiástica em troca de instrução. Os laços familiares dos noviços não se quebravam, mas a escola assumia, na prática, sua tutela. Com o advento da escolarização em massa e da urbanização, fenômeno relativamente recente em países emergentes como o Brasil, a relação entre família e escola foi se modificando, embora lentamente. Persevera, no entanto, a concepção errônea da educação como um processo mecânico, que envolve apenas o professor e o aluno. Segundo essa forma de pensar, se algo não sai como deveria nessa relação bipolar, é porque uma das duas peças da engrenagem não está funcionando.

É oportuna e precisa a proposta de que famílias e escolas se aproximem e unam forças. Em nosso país, a ideologia da época dos seminários se soma à passividade e ao conformismo de uma geração de genitores acostumados aos regimes de telentrega e self service. A educação, porém, não se constituiu num pedido pelo qual se espera até 40 minutos, com direito a cancelamento.

A aprendizagem exige a participação ativa de pais e de todos os demais integrantes do núcleo familiar. Não se propugna, com isso, a confusão de papéis entre familiares e educadores. A cada um compete uma responsabilidade específica no que toca à formação do aluno. Se um pai e uma mãe, mesmo com pouca instrução, demonstram interesse pelos conteúdos trabalhados, acompanham a realização de tarefas, se procuram se manter informados a respeito do que ocorre no interior da escola e, principalmente, criam em seu lar um ambiente favorável ao estudo, estarão dando uma contribuição mais do que razoável. Da mesma maneira, profissionais de educação e instituições fazem bem em envolver os pais em uma colaboração produtiva, sem descaracterizar seus projetos pedagógicos e sem terceirizar atribuições. A colaboração de escola e família é poderosa e capaz de resultar em avanços indispensáveis à melhoria do ensino.

Para que possamos avaliar seu comentário sobre este editorial, com vistas à publicação na edição impressa de Zero Hora, informe seu nome completo e sua cidade.

Editorial| Pacto pela alfabetização

30 de agosto de 2012 0

Abandonados na infância, aqueles que ultrapassam os oito anos de idade sem saber ler e fazer as quatro operações dificilmente encontrarão, mais tarde, um cenário mais favorável para a aprendizagem.

Longe de ser um diagnóstico assimilável apenas por especialistas, a ideia de que o desenvolvimento brasileiro exige atenção especial à educação tornou-se, com o passar dos anos, voz corrente nas ruas. Nos últimos 30 anos, obedecendo a um movimento que não se deve a este ou àquele governo, mas acompanha o ritmo de modernização de nossa sociedade, houve avanços significativos nesse terreno. Em relação ao analfabetismo, por exemplo, o Censo de 2010 revela uma redução de 29% em relação aos números de 2000. Apesar disso, ainda somos (e o emprego da primeira pessoa do plural nesta sentença é plenamente justificado pela gravidade do problema social) 14 milhões de analfabetos, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A fim de se encontrarem soluções, cumpre, antes de tudo, encarar o problema de frente.
Consciente de que o combate ao analfabetismo passa por uma abordagem totalizante e não parcial ou acessória, o ministro Aloizio Mercadante disse na terça-feira, durante o Painel RBS de lançamento da campanha A Educação Precisa de Respostas, que a prioridade nacional é a alfabetização na idade certa. Ora, sabe-se que o mapa do analfabetismo coincide, em muitos aspectos, com o da pobreza e do baixo acesso a serviços básicos. Lembrou o ministro que, na Região Sul, o índice de crianças que não se alfabetizam até os oito anos é baixo, ficando entre 6% e 7%. No Norte e no Nordeste, onde se localizam os grandes bolsões de miséria e concentração de renda, esses percentuais sobem para até 35%. Ao completar oito anos sem saber ler nem fazer contas elementares, esses contingentes se tornam fortes candidatos a reforçar a legião de deserdados sociais que povoa o lado sombrio da vida brasileira. Se não for concretizada em tenra idade, a alfabetização se torna mais difícil, uma vez que passa a concorrer com a  maratona pela sobrevivência. Some-se a isso o fato de que, em regra, os cursos de magistério existentes no país não enfatizam alfabetização de adultos. Abandonados na infância, aqueles que ultrapassam os oito anos de idade sem saber ler e fazer as quatro operações dificilmente encontrarão, mais tarde, um cenário mais favorável para a aprendizagem.
É com o intuito de buscar remédio para esses males que o governo federal planeja lançar em setembro, ainda segundo as palavras do ministro, um pacto nacional pela alfabetização na idade adequada. Uma ajuda de custo será oferecida a 315 mil professores alfabetizadores que terão seu trabalho monitorado pelas autoridades na área da educação. Note-se que um dos calcanhares de aquiles históricos dos programas de alfabetização em nosso país está justamente no fato de que não costumam ser aproveitados professores nas atividades, bastando, na maioria das vezes, ter Ensino Médio completo para ser admitido como responsável por turmas de alunos. Essa iniciativa já recebeu o apoio de todos os secretários estaduais e de mais de 4,5 mil prefeituras. O Ministério da Educação fornecerá gestores e monitores para acompanhar as ações, que serão submetidas a avaliação externa, que terá também a participação das melhores universidades brasileiras. Merece apoio e comprometimento uma iniciativa dessa monta, indissociável da construção de um Brasil socialmente justo e desenvolvido.

Editorial| O aumento da criminalidade

30 de agosto de 2012 0

A resistência da criminalidade no Estado, mesmo com a intensificação de ações das forças policiais, é um fenômeno preocupante para os gaúchos, que só podem se sentir ainda mais inseguros quando confrontados com as estatísticas oficiais. Se nem mesmo a força-tarefa da Brigada Militar e o aprofundamento das investigações pela Polícia Civil são suficientes para deter o avanço da violência, é preciso que as autoridades da área de segurança pública reforcem sua estratégia, permitindo que os gaúchos voltem a se sentir menos atemorizados com a livre atuação de criminosos.
Dados da Secretaria da Segurança Pública revelam que, de janeiro a julho, o total de homicídios no Estado aumentou 15,1%, em comparação com igual período do ano passado. No mesmo período, o número de roubo de veículos cresceu 5,1%, ao mesmo tempo em que o de posse e tráfico de drogas ampliou-se de forma considerável. Mais uma vez, confirma-se na prática o quanto crimes contra a vida estão geralmente associados a drogas ilícitas e a ataques contra condutores de veículos. Qualquer combate eficaz contra o crime, portanto, precisa levar em conta esses dois aspectos.
Autoridades de segurança reconhecem a gravidade dos dados, mas admitem que alguns percentuais chegaram a se mostrar ainda mais elevados. A particularidade de, agora, se mostrarem ainda elevados, mas já com tendência de queda, indicaria que a força-tarefa dos policiais teria começado a dar resultados nos últimos meses. É pouco, porém, para servir de consolo, ainda mais levando-se em conta que essas operações têm prazo para terminar.
O que o Estado precisa garantir são providências de impacto contra o crime, tanto de caráter preventivo quanto repressivo, que acenem com respostas imediatas e a longo prazo. Os gaúchos não podem se conformar com a perspectiva de que o avanço na criminalidade é irremediável, pois essa constatação não corresponde à realidade.

Artigo| O heroísmo de empreender

30 de agosto de 2012 0

JOSÉ PAULO DORNELLES CAIROLI*

Política necessária ao desenvolvimento, o estímulo ao empreendedorismo e ao fortalecimento das empresas ganha consistência no Brasil, que precisa alavancar seu crescimento com projetos sustentáveis. Para tanto, não temos dúvida de que se faz necessário focar na capacidade do país abrigar novos negócios, que ainda é limitada e oprimida por uma política tributária madrasta que desestimula o investimento. Recente levantamento do IBGE mostra que apenas 51,8% das empresas sobrevivem depois de três anos e que quase 24% delas fecham suas portas ao longo do primeiro ano de existência.
Sabemos, por exemplo, que burocracia é o principal entrave para quem está começando um negócio novo. Toma tempo e tira competitividade. Quem quer abrir uma empresa no Brasil precisa passar por 12 órgãos das esferas federal, estadual e municipal _ cada um com suas exigências com um custo médio superior a R$ 2 mil.
Não é de surpreender que a burocracia para ser formal incentive a informalidade. E isto é só o começo. Depois vêm as obrigações fiscais, e assim por diante. Quando o empresário entra na fase do retorno do investimento, as questões burocráticas acentuam a perda de foco e nem a vontade de empreender resiste.
Ainda que nas regiões Sul e Sudeste encontrem-se as maiores taxas das empresas sobreviventes, conforme a pesquisa do IBGE, os empreendedores acabam desanimados e sem esperanças para continuar seus negócios. Preocupada com esta realidade, a Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB) inicia seu 22º congresso determinada a alinhar soluções e buscar as saídas para amenizar as injustiças e fazer fluir as sementes do empreendedorismo.
Na próxima semana, em Belém, estaremos refletindo sobre o país e como a iniciativa privada pode ser parceira e propositiva nas questões que ainda travam o crescimento. Vamos ouvir e perguntar sobre questões como a desburocratização da folha de pagamento, outro entrave aos micro e pequenos empresários; a complexa, confusa, pesada e pouco transparente burocracia e o também injusto imposto do consumo, que tributa igualmente os desiguais.
Com o nome de Brasil de Resultados, a CACB quer, em seu encontro, promover um grande debate para se refletir sobre nosso papel de protagonista também na busca de soluções. Algumas medidas necessárias já estão sendo anunciadas pela presidenta Dilma Rousseff, em seu conjunto de ações para que o país conquiste a competitividade. A CACB acredita que é possível chegar lá.

*Presidente da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil

Artigo| O desafio da alfabetização plena

30 de agosto de 2012 0

O retorno social
esperado do
investimento
é a boa
formação
humana das
novas gerações

ANTONIO MATIAS*

A publicação do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) 2011, pesquisa realizada pelo Instituto Paulo Montenegro/Ibope e pela Ação Educativa, evidencia um triste diagnóstico cujo conhecimento é de fundamental importância para mobilizar a sociedade a desenvolver estratégias que superem esse grave problema: o aumento de escolarização, embora tenha sido essencial nas últimas décadas, não foi suficiente para assegurar a alfabetização plena.
A análise da série histórica do estudo mostra que apenas um em quatro brasileiros atinge nível pleno nas habilidades de leitura, escrita e matemática. Ou seja, é capaz de ler e interpretar textos mais longos, analisa e relaciona suas partes, realiza inferências e sínteses, além de resolver problemas que exigem maior planejamento e controle.
Além disso, apesar de ter ocorrido uma redução do analfabetismo absoluto e da alfabetização rudimentar, só 62% dos que têm curso superior e 35% dos que têm Ensino Médio completo estão no patamar dos plenamente alfabetizados. Em ambos os casos, essa proporção é inferior à observada no início da década. O Inaf também revela que um em cada quatro brasileiros que cursam ou cursaram até o Ensino Fundamental II ainda está classificado no nível rudimentar, sem avanços em todo o período.
Olhar a estagnação dos dados de plena alfabetização entre 2001 e 2011 nos permite vislumbrar a situação de uma geração: são poucas as chances de um jovem que já concluiu o Ensino Médio ter alterado na última década sua proficiência linguística, adquirindo desta forma condições para se desenvolver no mundo profissional, social e desfrutar todas as possibilidades de uma sociedade que exige cada vez mais capacidade de expressão e de absorção de conhecimento.
A constatação de que mais anos de escolaridade não têm representado maior aprendizado nas competências de alfabetização plena aponta a necessidade de repensar formas de ensino para aqueles que frequentam hoje as escolas públicas.
Nesse ponto, institutos e fundações empresariais podem ser parceiros importantes do poder público para contribuir com o desenvolvimento de metodologias inovadoras, aproveitando sua possibilidade de trabalhar com pequenos grupos, sem o compromisso inicial de ganho de escala.
Importante ainda estruturar estratégias de mobilização social em favor do tema e o fortalecimento de ações de advocacy junto ao poder público, com o intuito de contribuir para dar suporte a boas iniciativas políticas, que passam a ser respaldadas pela demanda qualificada da sociedade.
O conhecimento dos dados do Inaf aponta para uma reorientação importante na forma de atuação do investimento social privado na educação. É necessário investir com foco em resultados, com a expectativa de gerar retorno. O retorno social esperado do investimento na área educacional é a boa formação humana das novas gerações. E nosso país somente será plenamente desenvolvido se enfrentar seu mais importante desafio, colocando a educação como a grande prioridade nacional.

*Vice-presidente da Fundação Itaú Social e membro do Conselho de Governança do Todos pela Educação