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Artigo| Uma corrida de quem não corre

19 de agosto de 2012 1

Eleva-se Ideb
pondo em prática
uma saudável e
absolutamente
necessária radical
mudança na
maneira
de ensinar

ESTHER PILLAR GROSSI*

Este é o espetáculo grotesco do Ideb avaliando as escolas. Trata-se de uma corrida em que ninguém alcança a linha de chegada. Aliás, ficam dela muito longe. Os índices do Ideb variam numa escala de 0 a 10 e mesmo os ditos países desenvolvidos não alcançam sequer a nota 7. Que se pode esperar dos que ficam por volta de 4?
Para uma significativa comunidade internacional, pequena ainda _ que concretiza a constatação de que não há doenças, nem físicas, nem psíquicas, nem sociais que impeçam as aprendizagens _, a valorização de resultados como os do Ideb é um atestado eloquente de que a escola que aí está não cumpre minimamente com seu papel, que é o de garantir às gerações atuais o que as que nos antecederam nos legaram, em termos científicos, culturais e artísticos. À escola cabe assegurar às crianças e aos jovens que eles herdarão a fortuna acumulada por inteligências criativas ao longo da história humana. Esta fortuna é grande e valiosíssima.
O desafio que temos pela frente não é diminuir o muito a ensinar, mas descobrir como fazer para que esse muito seja acessível não somente para alguns, mas para todos, pois todos são herdeiros legítimos do patrimônio fabuloso que foi acumulado até agora. Este patrimônio no Ensino Fundamental e Médio gira em torno de seis eixos _ línguas, matemática, ciências naturais, ciências sociais, artes e técnicas. Eles sintetizam competências que podem e devem ser buscadas. Competências não resultam de memorização de conteúdos, mas de construção de esquemas de pensamento que são os motores das aprendizagens. Nosso cérebro só registra e guarda estavelmente esquemas de pensamento. Quando se dá tal registro, quem aprende passa de um patamar a outro na escalada dos conhecimentos. E esta escalada pode ser representada melhor por escadas do que por rampas, isto é, nela não se sobe sem rupturas.
A conquista de uma competência, metaforicamente, é o que nos alonga a passada e nos permite subir degraus mais altos do que os anteriores. Uma tal conquista é a da alfabetização, entendida como a possibilidade de ler com compreensão um texto escrito por outro e de escrever um texto que alguém medianamente instruído logre compreender. Quando isto ocorre, o aluno adquire a possibilidade de aprender novas coisas, porque está instrumentalizado com mais um dispositivo, fruto de uma síntese qualitativa de conhecimentos e não de um acúmulo quantitativo de conteúdos linearmente memorizados.
E esta maravilha de acesso ao domínio da escrita está sendo oportunizada, em todo o Brasil, pelo Programa de Correção de Fluxo, a um expressivo número de turmas de estudantes que obtiveram 100% de alfabetização já no primeiro semestre de 2012.
Este resultado, palpável e concreto, obtido com alunos de escolas públicas, contrasta flagrantemente com os 3,4 do Ideb. Para que esses resultados se generalizem, há inúmeros aspectos que interferem, tais como salários dos professores, equipamentos das escolas, os quais precisam ser considerados.
Mas o centro desta reviravolta positiva da escola que nos levaria ao Ideb 10 é um novo jeito de ensinar que, no lugar de explicar, faz perguntar, porque provoca a atividade do pensar a cada um dos alunos, acompanhando o seu processo de construção de conhecimentos que tem uma trajetória singular, muito diferente do que até hoje se pensou.
Eleva-se Ideb pondo em prática o que as ciências do aprender disponibilizam _ uma saudável e absolutamente necessária radical mudança na maneira de ensinar, o que conduzirá a uma corrida onde todos alcançarão a linha de chegada.

*Doutora em Psicologia da Inteligência

Comentários (1)

  • ROSELIA GONÇALVES diz: 2 de dezembro de 2012

    Texto maravilhoso!!!

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