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Artigo| Uma revolução na medicina

21 de agosto de 2012 0

Tudo o que o
cateterismo
cardíaco trouxe
de bom partiu
de um ato
considerado
insano

CARLOS A. M. GOTTSCHALL*

Quando, em 1929, na Alemanha, o jovem médico Werner Forssmann, num acesso de heroísmo, temeridade e premonição, enfiou um cateter urológico pelo seu braço esquerdo até o coração, queria provar a viabilidade terapêutica desse ato. Foi julgado tresloucado e expulso do hospital onde trabalhava. Doze anos depois, o pragmatismo americano, nas pessoas de André Cournand e Dickinson Richards, viu a importância do cateterismo cardíaco para o desenvolvimento da cardiologia em especial e da medicina em geral. Tão grande foram os progressos alcançados pelo método no desenvolvimento da fisiologia, do diagnóstico e da terapêutica cardiovasculares, que, em 1956, os três protagonistas acima citados receberam o Prêmio Nobel de Medicina. Mas nem de longe as potencialidades do procedimento pararam aí, e o aumento das indicações diagnósticas e terapêuticas do cateterismo cardíaco para crianças e adultos continuou em expansão exponencial.
Em termos populacionais, de impacto social e econômico, por atingir uma população produtiva, a angioplastia coronariana transluminal percutânea (ACTP), iniciada e desenvolvida por Andreas Gruentzig na Suíça, em 1977, e por Richard Myler nos Estados Unidos, representa a maior revolução no tratamento da doença aterosclerótica das coronárias, a primordial causa de mortalidade nas sociedades industrializadas desenvolvidas. A partir do balão de Gruentzig, colocado sobre a lesão aterosclerótica por meio de um cateter, e insuflado para esmagá-la, reabrindo o vaso ao fluxo sanguíneo, até o implante do stent intracoronariano revestido por droga para impedir a reestenose do vaso _ também expandido por meio de um balão _, a ACTP vem ganhando crescente e amplo domínio nas indicações do tratamento da cardiopatia isquêmica, desde sua apresentação como angina do peito (isquemia sem obstrução completa da coronária) até o infarto do miocárdio (isquemia e morte do músculo cardíaco por obstrução completa da coronária). No início, cerca de apenas 5% dos casos necessitando intervenção coronariana tinham indicação para ACTP, e 95% para cirurgia de ponte de safena. Atualmente, com o aperfeiçoamento constante da técnica e dos materiais, o fluxo inverteu-se: cerca de 95% dos casos necessitados podem ser tratados com sucesso por ACTP.
Tive a ventura de privar pessoalmente com Gruentzig e principalmente com Myler, com este tendo estagiado nos Estados Unidos e trazido a técnica para o nosso Estado. Assim é que, no dia 21 de agosto de 1982, há exatos 30 anos, realizávamos, em companhia dos doutores Vasco Miler e Siguemituzo Arie, a primeira ACTP no Instituto de Cardiologia em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul. Nesses 35 anos de existência, a ACTP impôs-se como o mais utilizado método de intervenção direta sobre o coração em todo o mundo, de longe o que mais salvou vidas em relação a outras intervenções cardíacas. Milhões e milhões de pessoas em todos os continentes têm se beneficiado da ACTP por meio de redução dramática de mortalidade por infarto do miocárdio e por meio de real aumento na qualidade de vida dos casos que não chegam a infartar.
Desde sempre, a consciência coletiva julga mal os que estão além do seu tempo! Como em tantos outros casos antológicos, tudo o que o cateterismo cardíaco trouxe de bom para a humanidade partiu de um ato considerado insano praticado por um jovem médico que não se conformava com o estabelecido.

*Diretor científico do Instituto de Cardiologia _ Fundação Universitária de Cardiologia

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