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Artigo| Greve proletária e serventuária

23 de agosto de 2012 0

A criatura se
volta contra
o criador.
Todos são
trabalhadores
e o Estado
é o patrão


LUIZ CARLOS DA CUNHA*

A onda grevista que assola o governo dos trabalhadores desafia análise propedêutica. Traz característica singular quando o grevista assume caráter de classe trabalhadora e o Estado de patrão. Marx, o genial filósofo da luta de classes impulsionadora da evolução social, definia o proletariado _ construtor da riqueza material _ e a burguesia, dona dos meios de produção. Uma simplificação clara da sociedade pelo materialismo histórico. A evolução do capitalismo movido prioritariamente pela aplicação científica no processo produtivo, democratizando a termos desconhecidos no passado os benefícios da produção, foi aos saltos solapando a teoria tão estruturalmente concebida. Golpeou-a de morte o fracasso rotundo da experiência do socialismo real.
O governo da classe operária na Polônia foi liquidado pela pertinácia de um operário semiletrado dos estaleiros de Gdansk; a República Democrática da Alemanha desapareceu a golpes de marreta dos trabalhadores no muro insólito de Berlim. Neles, o direito de greve, respeitado nas nações democráticas, era nulo. A sofisticação do aparelho de Estado desde o século 20, a complexidade jurídica consequente, o recuo quantitativo e qualitativo da classe trabalhadora ao lado do crescimento da classe média _ a pequena burguesia, tão hostilizada pelos revolucionários marxistas _ privada e estatal _ exaltada e quase sempre decisiva na governança do Estado moderno, pelo próprio peso ponderável nas urnas, produziu nesta liça sem limites de salários um paradoxo bisonho. No Brasil, a palavra trabalhador propugnada pelos neomarxistas, ampliou-se num elastério oportuníssimo _ incluiu todo e qualquer assalariado de gabinete público ou privado! Professores do ensino público se transformaram em “trabalhadores do ensino”; e, assim sendo, filiados à CUT, um sindicato atacadista de operários metalúrgicos, fartamente subsidiado pelo governo dos trabalhadores. Como entender, então, a greve em barda que hoje acossa o orçamento do governo dos trabalhadores. Os comandantes de ontem galgaram o cume do poder governamental, foram nos primórdios de suas carreiras políticas os mais ousados e eficientes agitadores de greve geral e sem limites. Graças à atividade persistente de estímulo vindicatório contra governos, empresas públicas e privadas chegaram onde estão. As atuais autoridades, legitimadas no caldo agitativo das greves, encontram no repique dos movimentos grevistas de hoje o monstro inimigo que criaram ao largo de três décadas. A criatura se volta contra o criador. Todos são trabalhadores e o Estado é o patrão. Estabeleceu-se a nova luta de classes. O direito de greve do funcionalismo civil difere entre as nações democráticas, variando da igualdade entre assalariados da empresa privada e pública até a total proibição à greve de servidores públicos. Notadamente, nossas greves restringem-se à motivação salarial, às vezes edulcoradas de pleitos triviais. Mas não há retórica suficiente para negar a importância política do fato. O desafio do governo dos trabalhadores neste embate financeiro e político inesperado, indesejado e inimaginável no começo de sua escalada em busca da hegemonia partidária para administrar o capitalismo trôpego do Brasil, chegou. Dias temerários nos aguardam nos próximos anos. A derrubada do capitalismo pela classe operária, que Euclides da Cunha resumiu no escorço de uma frase _ “basta um simples gesto, o cruzar os braços” _ traduziu-se hoje, no Brasil, numa ameaça à estabilidade da nação.

*Escritor

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