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Posts de setembro 2012

Artigo| Os esquecidos

30 de setembro de 2012 0

O país
continua
à espera das
reformas do
doutor Chico,
quase
esquecidas

FLÁVIO  TAVARES*

A perda do passado é nosso maior vício como sociedade organizada. Esquecemos a História ou não lhe damos importância, como se o passado ou a própria vida fossem um móvel carcomido de cupim atirado ao lixo. Há 50 anos, em 27 de setembro de 1962, por exemplo, o país inteiro foi sacudido pela morte repentina de Francisco Brochado da Rocha. Apenas 11 dias antes, este gaúcho afável, professor de Direito Constitucional da UFRGS, tinha renunciado ao posto de primeiro-ministro e chefe do governo, numa dramática madrugada em Brasília, quando o Congresso negou-se a lhe conceder poderes para executar um programa de reformas sociais e um plebiscito sobre o sistema parlamentarista, então vigente. Só o suicídio de Getúlio Vargas ou a lenta agonia de Tancredo Neves tiveram dimensão mais trágica, no Brasil, que a morte do “doutor Chico”, como o chamávamos.
Ao recusar que ele levasse adiante as reformas agrária e bancária, o Congresso evitou resolver uma situação até hoje insolúvel ou só maquiada. O governo Brochado da Rocha durou apenas 67 dias, num dinamismo inversamente proporcional à sua brevidade. Estruturou a Eletrobrás e o sistema energético, esboçou o regulamento da mineração e o planejamento do governo além de criar a Embratel, tida como “exótica” num tempo em que telefonar era um luxo. E, por fim, enfrentou uma crise militar! Onze dias depois, a revolucionária e breve passagem pelo poder ativou um aneurisma cerebral e ele morreu em Porto Alegre, após três cirurgias e 40 horas de agonia.
Hoje, a Embratel (em que se assenta a telefonia nacional fixa ou móvel) foi entregue ao mexicano Carlos Slim e o país continua à espera das reformas do doutor Chico, quase esquecidas.

***

A atual campanha política, em que todos se igualam no linguajar medíocre do jargão, me leva ao passado para não esquecer a astúcia cínica. Meu velho amigo Rubens Barbosa (ex-embaixador do Brasil em Washington e noutras praças) redescobriu agora uma carta do ano 64 A.C., em que Quinto Túlio, general de Roma, faz recomendações ao irmão Marco Túlio Cícero, grande tribuno e candidato ao Senado.
Com mais de 2 mil anos, tudo ali é atual: “Para seduzir os indecisos, faz pequenos favores. Em quem despertes esperança, faz acreditar que os ajudarás sempre. Faz com que saibam que estás agradecido por serem leais e que és grato pelo que cada um faz por ti. Encoraja aos que já te conhecem e adapta tua mensagem à situação de cada um, mostrando gratidão ao apoio que te dão” _  são as instruções iniciais ao irmão-candidato.
Após lembrar que “favores, esperança e relações pessoais” garantem votos, o general sugere buscar “as pessoas chaves” em cada povoado: “Reconhecer a diferença entre os úteis e inúteis evitará investir tempo e recursos em quem seja de pouca ajuda”.

***

O cinismo da Roma de ontem difere do cinismo do Brasil de hoje só na forma, não no conteúdo. O general aconselha: “Mantém por perto os teus amigos. E teus inimigos, mais perto ainda. Identifica quais os amigos com que podes contar e, depois, dá atenção aos inimigos. Faz promessas de todo tipo. As pessoas preferem uma mentira de conveniência a uma recusa direta. Deves prometer sempre fazer qualquer coisa para qualquer um, a menos que uma clara obrigação ética te impeça”.
“O mais importante _ observa _ é incentivar a esperança no povo e nele criar um sentimento de boa vontade. Mas, não faças promessas específicas para o Senado nem para o povo. Fica só em vagas generalidades”.
Mesmo se houvesse apenas isto a não esquecer, lembro o que me disse um peão rural ao ver, agora, o horário eleitoral na TV: “Se fosse para capinar, não haveria tanto candidato!”.

* Jornalista e escritor

Artigo| A "boa" morte

30 de setembro de 2012 1

Morrer é
como sair
de uma festa,
cedo é
constrangedor,
tarde é
melancólico

DIANA LICHTENSTEIN CORSO*
dianamcorso@gmail.com

Perdi uma amiga, partiu antes de ficar velha. Ela deixa marcas importantes em sua área profissional, uma legião de amigos órfãos de sua presença, uma vida plena, interrompida por um câncer fulminante. Mal teve tempo de passar pelas torturas da doença, viveu seus últimos tempos ignorante do mal que implacavelmente a corroía. Graças a isso, viajou, estudou no Exterior e se divertiu. Sentia vagos mal-estares estomacais, que atribuía à alimentação. Quando seu trágico destino foi revelado, já era tarde para qualquer providência, que, se tomada antes, tampouco seria diferente. Ela teve uma, sempre indesejável, boa morte. Se é possível desejar algo nesse território, também gostaria de partir assim, tendo tido o direito de viver plenamente até o fim, como ela.
Nesse sentido, celebro a resolução do Conselho Federal de Medicina, que se pronunciou sobre os termos do “Testamento Vital”. Trata-se do direito de deixar estabelecidos os limites a respeito dos procedimentos aos quais não desejamos ser submetidos na fase terminal. A morte deveria pertencer a seu protagonista, mas infelizmente, não existe momento de maior entrega.
Duvido que exista alguém que não tenha fantasiado sobre seu enterro. Quem não gostaria de ser uma mosca para assistir à própria despedida? Na derradeira celebração, estaríamos em condições de avaliar a veracidade das lágrimas, estimar nossa importância para os outros. É também oportunidade de, por que não, deixá-los culpados, se por acaso isso nos satisfaz. Dizem que a mãe judia vai mandar gravar em sua lápide: “Eu disse que não estava me sentindo bem”. No enterro, nosso epitáfio está na boca de todos, cada presente oferece uma frase que nos definia, ou uma memória marcante do convívio, dirá em que lhe faremos falta. Enfim, parece o momento em que nossas maiores perguntas estarão por fim respondidas e não estaremos lá para ouvir. Pena.
O problema é que até esse momento, em que nosso ser transforma-se nas palavras dos que permanecem vivos, precisamos passar pela dura transição de morrer. Morrer costuma doer. Dói sentir-se esvair, é absurdamente triste ver-se partir, dói o corpo que colapsa. Tenho mais medo de morrer do que da morte. Talvez, se minha amiga tivesse tido tempo de escrever seu testamento vital, não escolheria outros termos para sua partida.
Há pouco, o mundo assistiu chocado ao suicídio do diretor de cinema Tony Scott, que pulou de uma ponte, dizem que após constatar que possuía uma doença incurável. Abisma-me semelhante ousadia, não só relativa ao ato em si, mas também de assumir essa posição frente aos seres queridos. Morrer é como sair de uma festa, cedo é constrangedor, tarde é melancólico, buscamos a hora certa e sempre ficamos com a sensação de ter errado o momento. Nunca faria um ato como o de Scott, pois o efeito dramático sobre os que ficam é avassalador, também é preciso zelar pela dor deles. Quando chegar a hora, só peço que me poupem de torturas desnecessárias e me deixem partir. Essa é minha vontade e creio que a de tantos.

*Psicanalista

Artigo| Morte súbita

30 de setembro de 2012 0

O futuro
político
de Lula
passa
pelo
sucesso
de Haddad
em São Paulo


LUIZ ANTÔNIO ARAUJO
luiz.araujo@zerohora.com.br

Em novembro de 2001, assisti àquela que imagino ter sido a única ocasião em que Luiz Inácio Lula da Silva perdeu o controle de uma plateia do PT.
Foi num comício em frente ao Palácio Piratini, organizado como ato de solidariedade ao então governador Olívio Dutra. Uma CPI da Assembleia expusera aspectos nebulosos da compra da sede estadual do partido, que envolviam o ex-dirigente Diógenes Oliveira. A tese da direção petista era de que a sede fora adquirida com dinheiro recolhido junto aos próprios militantes. Ao microfone, o futuro presidente da República afirmou:
_ O máximo que eles podem dizer é que o Diógenes comprou a sede do PT.
“Eles”, no caso, era a oposição, que havia assumido a ofensiva contra Olívio. Ao ouvir a frase de Lula, os milhares de petistas que se acotovelavam na Praça da Matriz ergueram suas bandeiras e cartazes e bradaram:
_ Não! Não! Eu comprei a sede do PT!
O episódio, logo contornado pela habilidade de Lula em comandar multidões, diz muito sobre seu tino político. O filho de dona Lindu sabe que, numa batalha em campo aberto, os fatos são praticamente invencíveis. Melhor não brigar com eles.
Aqueles que veem no julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal a principal fonte de preocupação para Lula confundem-no com uma figura quixotesca. O ex-presidente é realista demais para ignorar aquilo que a mais recente pesquisa Datafolha em Porto Alegre demonstrou em números: para 65% dos entrevistados, o processo do mensalão não tem influência no resultado da eleição.
Lula decidiu há muito tempo que 2012 seria o momento de impingir à oposição uma derrota eleitoral histórica em seu principal baluarte, São Paulo, a fim de se cacifar para um retorno à Presidência daqui a dois anos. Levando-se em conta esse objetivo, o pior cenário no Supremo _ uma possível condenação de José Dirceu, Delúbio Soares, Marcos Valério e Duda Mendonça _ pode ser embaraçoso em curto prazo. Não deixa de ser, porém, o desdobramento de um estrago político produzido há sete anos pelo maior escândalo de corrupção desde a chegada do PT à Presidência. Quando o mandato da presidente Dilma Rousseff chegar ao final, em 2014, o mensalão já terá completado o nono aniversário, e a decisão do Supremo, dois anos.
Bem distinto é o efeito de uma derrota em São Paulo. Recapitulando: Lula impôs um candidato sem qualquer expressão eleitoral, mas ligado a seu governo, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad. Passou por cima das pretensões da ex-ministra e ex-prefeita Marta Suplicy, que recebeu, como prêmio de consolação, o Ministério da Cultura. A fim de preservar alianças, patrolou o candidato preferido pelos filiados do PT em Recife. Colocou os petistas do Rio a reboque da candidatura à reeleição do peemedebista Eduardo Paes (por sinal, um dos grandes algozes de seu governo na CPI dos Correios, quando ostentava plumagem tucana). Manobrou pela escolha do ex-ministro Patrus Ananias como candidato em Belo Horizonte e pelo apoio a candidatos de partidos aliados em Manaus e Curitiba (nesse último caso, o beneficiado foi Gustavo Fruet, do PDT, outro ex-tucano que despontou na CPI dos Correios).
O futuro político de Lula _ leia-se sua pretensão mais do que óbvia de se candidatar à Presidência em 2014 _ passa pelo sucesso de Haddad em São Paulo. Inversamente, uma derrota do quase famoso ex-ministro significará que Lula, na contramão do que afirmou Marta Suplicy, não é deus. Isso é uma grave limitação quando se pretende ocupar o Palácio do Planalto pela terceira vez em pouco mais de uma década. A eleição municipal que se inicia no próximo dia 7 poderia ser um moroso campeonato com turno, returno e repescagem se Lula não a tivesse transformado numa decisão por morte súbita. E jogando fora de casa.

* Jornalista

Sentenças| Frase da Semana

30 de setembro de 2012 0

“Está ficando tarde, muito tarde.”

BINYAMIN NETANYAHU, primeiro-ministro israelense, falando na ONU sobre o enriquecimento de urânio pelo Irã

Artigo| Memórias e venenos

30 de setembro de 2012 0

Por que os
deputados
pró-agrotóxicos
desprezaram
a luta
histórica
dos nossos
ambientalistas?

MOISÉS MENDES*
moises.mendes@zerohora.com.br

Funes, o memorioso, o rapaz que tudo lembrava, do conto de Jorge Luis Borges, tem um similar na Inglaterra. Irineo Funes tinha 19 anos e lembrava-se da forma das nuvens de um determinado dia, da espuma de água formada pelo remo no rio, dos sonhos, de tudo o que vivera a cada minuto. Mas as memórias de Funes eram lembranças autobiográficas soltas. Não serviam para nada, não se articulavam entre si, não auxiliavam na compreensão da sua existência, na formulação de juízos, de argumentos, de nada, nada.
O outro Funes, o que existe mesmo, também é jovem e chama-se Aurelien Hayman. Ele também se lembra de cada segundo. Umas sete décadas depois de Borges escrever o conto sobre o memorioso, a supermemória imaginada pelo gênio argentino foi identificada pela ciência como uma síndrome, a hipertimesia. Funes sofria da mesma doença de Hayman, que faz com que o passado se apodere do cérebro. Talvez exista apenas uma dúzia de Funes no mundo.
Vivem o incômodo de lembrarem-se de tudo, sem que isso os ajude no aprendizado como estudantes ou na criatividade como trabalhadores. Um Funes de mais idade sabe, sem recorrer ao Google, que os médicos do Hospital Roosevelt atestaram a morte de John Lennon às 23h7min do dia 8 de novembro de 1980. Mas pode saber pouco ou quase nada sobre Lennon. Já um Funes adolescente pode ter memorizado que numa tarde chuvosa de 10 de outubro de 2010 viu, no Facebook, alguém falar pela primeira vez de Michel Teló _  mas até hoje não sabe o que diferencia Teló de Caetano Veloso, por exemplo.
Nesse mundo fragmentado e acelerado, os mais velhos se acham os mais espertos e podem dizer que os jovens imersos no mundo virtual são os nossos Funes de hoje. E os mais jovens podem rebater que pais, tios, avós, irmãos mais velhos são os Funes de sempre, com suas lembranças chatas, repetitivas e inaproveitáveis.
O mundo está cheio de arremedos de Funes. Há pouco, a Assembleia estava com tudo pronto para votar um projeto que abriria as portas do Estado a qualquer agrotóxico, inclusive os proibidos. Deputados veteranos, que acompanharam a luta dos ambientalistas gaúchos, nos anos 70 e 80, contra os venenos, devem se lembrar daquela mobilização. Mas, como o Funes de Borges, não estariam conseguindo dar sentido, tanto tempo depois, àquele atrevimento de uns 40 anos atrás. O autor do projeto chegou a “agradecer” a militantes do ambientalismo que o teriam alertado para o que desconhecia.
Pode um deputado (por desinformação?) alinhar-se aos fabricantes de venenos e contra os interesses de todos, e não só dos agricultores que seriam intoxicados? Ou que desmemória teria sequestrado a lembrança dos danos provocados por agrotóxicos comprovadamente nocivos?
Funes, disse Borges, era incapaz de juntar lembranças que o ajudassem a pensar. Os deputados que aprovaram o projeto dos agrotóxicos em comissões internas da Assembleia _ e por pouco não o referendaram em plenário _ foram desrespeitosos com os gaúchos que ajudaram a formular com pioneirismo no Brasil as leis restritivas aos venenos.
O Funes memorioso morreu sem saber que serventia teria aquela overdose de lembranças. Era só o que faltava os Funes políticos não saberem para que serve o acervo dos feitos heroicos de Lutz, Hilda Zimmermann, Magda Renner, Augusto Carneiro. Os deputados pró-venenos seriam os nossos Funes, os vergonhosos.

*Jornalista

Editorial| Ética ou caos

29 de setembro de 2012 1

O rigor que vem sendo imposto pelo STF aos réus do mensalão, como bem ressaltou a ministra Cármen Lúcia, não pode servir para mais descrença na política. Precisa, isso sim, ser visto como um sinal de que o país não admite mais conviver com a corrupção.

A pouco mais de uma semana das eleições municipais, não poderia ser mais oportuna a manifestação feita pela ministra Cármen Lúcia, no julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal (STF), durante a sessão da última quinta-feira. Ao julgar e condenar réus ligados a partidos políticos por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, a magistrada, também presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), lembrou que boa parte dos 138 milhões de eleitores brasileiros vêm demonstrando não apenas desesperança, mas um desencanto com a política e acredita haver razões para isso. Os brasileiros, ressaltou, não devem confundir os réus do mensalão com toda a classe política. Ao mesmo tempo, os eleitores não podem ignorar a importância do voto, que deve ser visto sempre como exercício de cidadania.
A particularidade de dois episódios tão importantes para a democracia estarem ocorrendo de forma simultânea _ a campanha eleitoral e o julgamento do mensalão _ reforça o significado da manifestação. A repercussão gerada simultaneamente pelos dois eventos não pode servir para reduzir o impacto de um ou outro. Ambos precisam ser vistos como alternativas para o país reforçar as exigências quanto à atuação de seus homens públicos. Foi por isso que, num recado dirigido especialmente aos jovens, a integrante do STF fez um apelo à juventude para que não leve em conta fatos isolados para descrer da política. Mas ressalvou: detentores de cargos políticos devem ser mais rigorosos no cumprimento de leis, pois nesses casos, é a ética ou o caos.
Desvios no âmbito do setor público como os que vêm ocupando a atenção na mais alta corte judicial do país, de fato, impõem não apenas um custo moral. Significam também prejuízos financeiros consideráveis num país em que faltam recursos oficiais para tudo, inclusive em áreas às quais o poder público deveria dedicar atenção prioritária, pois são de sua exclusiva competência. Como ressaltou a ministra, “um prejuízo no espaço político significa que uma sociedade inteira foi furtada”. Na prática, o dinheiro que um parlamentar ou homem público embolsa acaba faltando para a reforma da escola, para maior atenção à criança e à mãe, para a construção de um posto de saúde e para investimentos em estradas ou em saneamento básico, entre outras áreas que deveriam se constituir em prioridade do poder público. E é contra essas subtrações que o eleitor deve se insurgir, pois não têm como ser toleradas.
O rigor que vem sendo imposto pelo STF aos réus do mensalão, como bem ressaltou a ministra Cármen Lúcia, não pode servir para mais descrença na política. Precisa, isso sim, ser visto como um sinal de que o país não admite mais conviver com a corrupção e já se mostra em condições de puni-la.

Editorial| Carros abandonados

29 de setembro de 2012 1

Medidas aparentemente singelas, com o poder de lei, contribuem para que as cidades aperfeiçoem suas regras de convívio. Inclui-se nessas iniciativas a regulamentação de uma legislação já existente, mas que finalmente entra em vigor, permitindo o recolhimento pela prefeitura de Porto Alegre de veículos abandonados nas ruas. O surpreendente é que assim se fica sabendo que não havia um suporte legal que permitisse esse tipo de ação do município. A EPTC calcula que existam cerca de 600 veículos na situação prevista em lei, ou seja, abandonados há mais de 30 dias. Muitas vezes, o automóvel descartado é deixado à beira da calçada ou em terrenos baldios, como se fizesse parte dos lixões acumulados indevidamente no entorno de áreas habitadas.
O correto, nesses casos, seria não só o recolhimento do veículo, que mais tarde será encaminhado a leilão. Os proprietários de bens deixados em via pública deveriam ser punidos, com multas, pelo descaso com que tratam a vida em comum. Situação similar é registrada, também em Porto Alegre, com móveis, eletrodomésticos e outros utensílios jogados em calçadas, riachos e terrenos desocupados. É exemplar, como procedimento condenável, o uso do Arroio Dilúvio, que corta a cidade de Leste a Oeste, como depósito de bens descartados.
É cômodo, para autoridades com a atribuição de exercer a fiscalização, alegar que dificilmente conseguem identificar os responsáveis por tais atos, ou que as atitudes devem ser vistas em seu contexto social. Modos civilizados e de respeito ao coletivo, em especial em áreas urbanas, devem ser estimulados também pela força coercitiva do poder público. Os moradores da capital e as pessoas que circulam pela cidade esperam que a retirada dos carros abandonados seja apenas a primeira de outras medidas capazes de livrar suas ruas dos lixões.

Artigo| SUS: voto por vaga

29 de setembro de 2012 0

PAULO DE ARGOLLO MENDES*

Mortes decorrentes da falta de leitos no Estado passaram a ser corriqueiras, sugerindo uma inércia dos responsáveis pelo SUS. Esta semana, mais um recém-nascido do Hospital de Canguçu faleceu antes de conseguir uma vaga em UTI neonatal, já que a do estabelecimento está interditada desde janeiro. No começo do mês, um paciente morreu após peregrinar por mais de 900 quilômetros em busca de atendimento especializado. A esses fatos, soma-se a divulgação pelo Conselho Federal de Medicina de levantamento que aponta o fechamento de aproximadamente 2,5 mil leitos no Rio Grande do Sul nos últimos sete anos, isto é, 10% de redução na estrutura disponível. É de se notar que, pelos dados do próprio Ministério da Saúde, o enxugamento de vagas do SUS há chega a 32,2% nos últimos 18 anos, uma média de quase 2% ao ano. Trata-se, portanto, de um processo que se mantém e se agrava ao longo do tempo.
Simultaneamente, noticia-se que a saúde é o problema prioritário a ser resolvido pelo novo prefeito, na opinião de 40% dos eleitores da Capital. Desnecessário apontar a demora em conseguir uma consulta especializada e a triste rotina das centenas de pessoas amontoadas em macas nas emergências dos hospitais. Um grande hospital filantrópico já fez estudo acurado e identificou que, para cada R$ 100 gastos com um paciente do SUS, menos de R$ 70 são ressarcidos. Isto é, num grande hospital, de administração tida como exemplar, cada atendimento gera prejuízo líquido e certo de mais de 30%, que é coberto com as receitas provenientes de convênios privados. Os pequenos estabelecimentos do Interior, no entanto, não dispõem desta alternativa. A única forma de evitar a falência é reduzir o prejuízo diminuindo o número de leitos.
Temos o paradoxo de que a população quer mais do que tudo resolver as deficiências da saúde, todos os candidatos prometem esta solução, o problema se arrasta ao longo das décadas e nada é feito. Ocorre que, na cabeça do eleitor, não está feita a conexão entre o seu voto e a vaga no SUS. Quer-se a solução do problema, mas ela não é levada em conta no momento da eleição. É fundamental que cada um de nós tenha a clara percepção de que ao votar estará determinando o número de leitos e o acesso ao atendimento médico.

*Médico e presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers)

Artigo| Água para todos: uma meta para o milênio

29 de setembro de 2012 0

Quais as
atitudes que
tomaremos
para tornar
o acesso à
água potável
universal?

ARNALDO DUTRA*

No primeiro semestre de 2012, tivemos a notícia de que o mundo alcançou antes do prazo a meta de reduzir pela metade a quantidade de pessoas sem acesso à água potável. O resultado foi divulgado pelo relatório Progressos sobre Água Potável e Saneamento 2012, publicado em parceria pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e Unicef. Ampliar este número até 2015 era um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), traçado pelas Nações Unidas.
Conforme a pesquisa apresentada, na última década mais de 2 bilhões de pessoas conseguiram acesso a fontes de água potável. Ao final de 2010, 89% da população mundial, 6,1 bilhões de homens e mulheres, haviam alcançado este direito. Apesar dos índices positivos, vemos também que 783 milhões de humanos ainda estão fora desta porcentagem. E ainda mais alarmante é a disparidade entre países e classes sociais. Na América Latina, 90% das pessoas têm acesso a fontes melhoradas de abastecimento de água, 31% a mais do que na África Subsaariana. O grande desafio encontrado é garantir água de qualidade às regiões mais pobres e aos menos favorecidos.
No Rio Grande do Sul, temos um cenário positivo, com 98% da população urbana abastecida por água tratada de qualidade. Além de uma extensa cobertura, possuímos a dádiva de contar com um precioso patrimônio da humanidade no nosso subterrâneo, o Aquífero Guarani.  Porém, ainda assim, deparamos com as zonas mais necessitadas sofrendo com a falta deste bem. Na primeira semana de outubro, nosso Estado terá a oportunidade de debater estas importantes questões. De hoje a 6 de outubro, a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária (Abes-RS), com o apoio de mais de 800 entidades, realiza a Semana Interamericana da Água. O objetivo do movimento, realizado em diversos municípios gaúchos, é justamente conscientizar a população para a forma como nos gerimos os recursos hídricos disponíveis.
Neste período, proponho uma reflexão sobre nossa relação com a água. Quais as atitudes que tomaremos para tornar o acesso à água potável universal? Como indivíduos, podemos implementar atitudes responsáveis, como evitar o desperdício e contribuir com a destinação correta de nosso resíduos. Como poder público, devemos garantir políticas permanentes de investimentos e práticas sustentáveis. Como sociedade, necessitamos defender que o controle da água não seja submetido aos interesses do capital. A gestão deste bem está diretamente relacionada ao exercício da cidadania, e à sobrevivência da humanidade no planeta.

*Diretor-presidente da Corsan

Artigo| Um futuro melhor?

29 de setembro de 2012 0

Atenção: quem
educa são os
pais. A escola
aperfeiçoa esta
educação. Cada
um deve fazer
a sua parte

ISABEL KERN LOPES*

O momento de assistir às notícias, à noite, pela televisão, causa certa expectativa. Espera-se, de algum modo, ouvir fatos geradores de esperança. No desenrolar dos programas percebe-se que os acontecimentos se repetem sistematicamente. Ano após ano. Os temas são sempre os mesmos, principalmente em nível nacional.
Podem-se enumerar fatos, como por exemplo: roubo do dinheiro público. Isto é alguma novidade? Todos nós pagamos nossos impostos com a “esperança” de que seja bem aplicado em benfeitorias para o povo. Mas qual!!! Alguns se acham no direito e no dever de se apropriarem e usar este dinheiro da melhor forma que lhes aprouver (claro que uso próprio). O escândalo surge em todas as telinhas do Brasil. As pessoas reagem, esbravejam, criticam, negam seus próximos votos, e assim vai …. A notícia segue seu curso e todos nós atentos aos acontecimentos. Finalmente, é dada a sentença: demitidos (alguns), cassados (outros) e … nada mais acontece. O dinheiro, que é do povo, ficou onde? Alguém restituiu? Estas pessoas que roubam continuam trabalhando nos mesmos lugares de onde saíram? E por que um outro ser humano (comum, é claro) vai preso, condenado e cumpre sua pena? E é demitido!!! Nós, cidadãos, queremos saber por que dois pesos e duas medidas? São perguntas sem respostas, principalmente, às nossas crianças e aos nossos jovens.
Outro fato: criança, adolescente e educação. O que mais se ouve é: a escola deve fazer, deve ajudar, deve melhorar, deve… o que mais? E as famílias? E os pais? Quais as responsabilidades e as obrigações das duas pessoas geradoras de outra (outras)? Ou será que a escola também está gerando bebês? Esta seria uma enorme novidade. O fato real e cru é que inúmeras pessoas geram filhos sem a menor capacidade de serem pais. Pessoas que, muitas vezes, não conseguem administrar sua própria vida e querem administrar uma família. “Ah, mas ter um filho é um sonho!” dizem alguns. Com certeza, ter um filho é algo sublime e maravilhoso. Mas, atenção: quem educa são os pais. A escola aperfeiçoa esta educação. Cada um deve fazer a sua parte com a total responsabilidade.
Para finalizar, apesar de haver outros fatos, saúde pública. Este tema colossal, juntamente com os citados acima e tantos mais, é usado com muita veemência no período de campanha política. As bandeiras são erguidas, as promessas são gritadas em palanques, mas … nada é feito. A população pobre, carente de tantas outras necessidades, também é subtraída do bem maior que é a vida. As filas continuam extensas e cansativas. Ao olhar de desânimo do contribuinte é acrescido um outro olhar: a desesperança.
E é sobre este olhar que devemos refletir: será que existe alguma esperança para este país? A justiça, fiel escudeira dos injustiçados, se fará presente? Queremos crer que no futuro, em algum momento deste futuro, o homem acordará. E, então, poderemos ouvir as notícias e os fatos tão sonhados!

* Professora