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Artigo| Memórias e venenos

30 de setembro de 2012 0

Por que os
deputados
pró-agrotóxicos
desprezaram
a luta
histórica
dos nossos
ambientalistas?

MOISÉS MENDES*
moises.mendes@zerohora.com.br

Funes, o memorioso, o rapaz que tudo lembrava, do conto de Jorge Luis Borges, tem um similar na Inglaterra. Irineo Funes tinha 19 anos e lembrava-se da forma das nuvens de um determinado dia, da espuma de água formada pelo remo no rio, dos sonhos, de tudo o que vivera a cada minuto. Mas as memórias de Funes eram lembranças autobiográficas soltas. Não serviam para nada, não se articulavam entre si, não auxiliavam na compreensão da sua existência, na formulação de juízos, de argumentos, de nada, nada.
O outro Funes, o que existe mesmo, também é jovem e chama-se Aurelien Hayman. Ele também se lembra de cada segundo. Umas sete décadas depois de Borges escrever o conto sobre o memorioso, a supermemória imaginada pelo gênio argentino foi identificada pela ciência como uma síndrome, a hipertimesia. Funes sofria da mesma doença de Hayman, que faz com que o passado se apodere do cérebro. Talvez exista apenas uma dúzia de Funes no mundo.
Vivem o incômodo de lembrarem-se de tudo, sem que isso os ajude no aprendizado como estudantes ou na criatividade como trabalhadores. Um Funes de mais idade sabe, sem recorrer ao Google, que os médicos do Hospital Roosevelt atestaram a morte de John Lennon às 23h7min do dia 8 de novembro de 1980. Mas pode saber pouco ou quase nada sobre Lennon. Já um Funes adolescente pode ter memorizado que numa tarde chuvosa de 10 de outubro de 2010 viu, no Facebook, alguém falar pela primeira vez de Michel Teló _  mas até hoje não sabe o que diferencia Teló de Caetano Veloso, por exemplo.
Nesse mundo fragmentado e acelerado, os mais velhos se acham os mais espertos e podem dizer que os jovens imersos no mundo virtual são os nossos Funes de hoje. E os mais jovens podem rebater que pais, tios, avós, irmãos mais velhos são os Funes de sempre, com suas lembranças chatas, repetitivas e inaproveitáveis.
O mundo está cheio de arremedos de Funes. Há pouco, a Assembleia estava com tudo pronto para votar um projeto que abriria as portas do Estado a qualquer agrotóxico, inclusive os proibidos. Deputados veteranos, que acompanharam a luta dos ambientalistas gaúchos, nos anos 70 e 80, contra os venenos, devem se lembrar daquela mobilização. Mas, como o Funes de Borges, não estariam conseguindo dar sentido, tanto tempo depois, àquele atrevimento de uns 40 anos atrás. O autor do projeto chegou a “agradecer” a militantes do ambientalismo que o teriam alertado para o que desconhecia.
Pode um deputado (por desinformação?) alinhar-se aos fabricantes de venenos e contra os interesses de todos, e não só dos agricultores que seriam intoxicados? Ou que desmemória teria sequestrado a lembrança dos danos provocados por agrotóxicos comprovadamente nocivos?
Funes, disse Borges, era incapaz de juntar lembranças que o ajudassem a pensar. Os deputados que aprovaram o projeto dos agrotóxicos em comissões internas da Assembleia _ e por pouco não o referendaram em plenário _ foram desrespeitosos com os gaúchos que ajudaram a formular com pioneirismo no Brasil as leis restritivas aos venenos.
O Funes memorioso morreu sem saber que serventia teria aquela overdose de lembranças. Era só o que faltava os Funes políticos não saberem para que serve o acervo dos feitos heroicos de Lutz, Hilda Zimmermann, Magda Renner, Augusto Carneiro. Os deputados pró-venenos seriam os nossos Funes, os vergonhosos.

*Jornalista

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