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Artigo| Morte súbita

30 de setembro de 2012 0

O futuro
político
de Lula
passa
pelo
sucesso
de Haddad
em São Paulo


LUIZ ANTÔNIO ARAUJO
luiz.araujo@zerohora.com.br

Em novembro de 2001, assisti àquela que imagino ter sido a única ocasião em que Luiz Inácio Lula da Silva perdeu o controle de uma plateia do PT.
Foi num comício em frente ao Palácio Piratini, organizado como ato de solidariedade ao então governador Olívio Dutra. Uma CPI da Assembleia expusera aspectos nebulosos da compra da sede estadual do partido, que envolviam o ex-dirigente Diógenes Oliveira. A tese da direção petista era de que a sede fora adquirida com dinheiro recolhido junto aos próprios militantes. Ao microfone, o futuro presidente da República afirmou:
_ O máximo que eles podem dizer é que o Diógenes comprou a sede do PT.
“Eles”, no caso, era a oposição, que havia assumido a ofensiva contra Olívio. Ao ouvir a frase de Lula, os milhares de petistas que se acotovelavam na Praça da Matriz ergueram suas bandeiras e cartazes e bradaram:
_ Não! Não! Eu comprei a sede do PT!
O episódio, logo contornado pela habilidade de Lula em comandar multidões, diz muito sobre seu tino político. O filho de dona Lindu sabe que, numa batalha em campo aberto, os fatos são praticamente invencíveis. Melhor não brigar com eles.
Aqueles que veem no julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal a principal fonte de preocupação para Lula confundem-no com uma figura quixotesca. O ex-presidente é realista demais para ignorar aquilo que a mais recente pesquisa Datafolha em Porto Alegre demonstrou em números: para 65% dos entrevistados, o processo do mensalão não tem influência no resultado da eleição.
Lula decidiu há muito tempo que 2012 seria o momento de impingir à oposição uma derrota eleitoral histórica em seu principal baluarte, São Paulo, a fim de se cacifar para um retorno à Presidência daqui a dois anos. Levando-se em conta esse objetivo, o pior cenário no Supremo _ uma possível condenação de José Dirceu, Delúbio Soares, Marcos Valério e Duda Mendonça _ pode ser embaraçoso em curto prazo. Não deixa de ser, porém, o desdobramento de um estrago político produzido há sete anos pelo maior escândalo de corrupção desde a chegada do PT à Presidência. Quando o mandato da presidente Dilma Rousseff chegar ao final, em 2014, o mensalão já terá completado o nono aniversário, e a decisão do Supremo, dois anos.
Bem distinto é o efeito de uma derrota em São Paulo. Recapitulando: Lula impôs um candidato sem qualquer expressão eleitoral, mas ligado a seu governo, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad. Passou por cima das pretensões da ex-ministra e ex-prefeita Marta Suplicy, que recebeu, como prêmio de consolação, o Ministério da Cultura. A fim de preservar alianças, patrolou o candidato preferido pelos filiados do PT em Recife. Colocou os petistas do Rio a reboque da candidatura à reeleição do peemedebista Eduardo Paes (por sinal, um dos grandes algozes de seu governo na CPI dos Correios, quando ostentava plumagem tucana). Manobrou pela escolha do ex-ministro Patrus Ananias como candidato em Belo Horizonte e pelo apoio a candidatos de partidos aliados em Manaus e Curitiba (nesse último caso, o beneficiado foi Gustavo Fruet, do PDT, outro ex-tucano que despontou na CPI dos Correios).
O futuro político de Lula _ leia-se sua pretensão mais do que óbvia de se candidatar à Presidência em 2014 _ passa pelo sucesso de Haddad em São Paulo. Inversamente, uma derrota do quase famoso ex-ministro significará que Lula, na contramão do que afirmou Marta Suplicy, não é deus. Isso é uma grave limitação quando se pretende ocupar o Palácio do Planalto pela terceira vez em pouco mais de uma década. A eleição municipal que se inicia no próximo dia 7 poderia ser um moroso campeonato com turno, returno e repescagem se Lula não a tivesse transformado numa decisão por morte súbita. E jogando fora de casa.

* Jornalista

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