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Artigo| Os esquecidos

30 de setembro de 2012 0

O país
continua
à espera das
reformas do
doutor Chico,
quase
esquecidas

FLÁVIO  TAVARES*

A perda do passado é nosso maior vício como sociedade organizada. Esquecemos a História ou não lhe damos importância, como se o passado ou a própria vida fossem um móvel carcomido de cupim atirado ao lixo. Há 50 anos, em 27 de setembro de 1962, por exemplo, o país inteiro foi sacudido pela morte repentina de Francisco Brochado da Rocha. Apenas 11 dias antes, este gaúcho afável, professor de Direito Constitucional da UFRGS, tinha renunciado ao posto de primeiro-ministro e chefe do governo, numa dramática madrugada em Brasília, quando o Congresso negou-se a lhe conceder poderes para executar um programa de reformas sociais e um plebiscito sobre o sistema parlamentarista, então vigente. Só o suicídio de Getúlio Vargas ou a lenta agonia de Tancredo Neves tiveram dimensão mais trágica, no Brasil, que a morte do “doutor Chico”, como o chamávamos.
Ao recusar que ele levasse adiante as reformas agrária e bancária, o Congresso evitou resolver uma situação até hoje insolúvel ou só maquiada. O governo Brochado da Rocha durou apenas 67 dias, num dinamismo inversamente proporcional à sua brevidade. Estruturou a Eletrobrás e o sistema energético, esboçou o regulamento da mineração e o planejamento do governo além de criar a Embratel, tida como “exótica” num tempo em que telefonar era um luxo. E, por fim, enfrentou uma crise militar! Onze dias depois, a revolucionária e breve passagem pelo poder ativou um aneurisma cerebral e ele morreu em Porto Alegre, após três cirurgias e 40 horas de agonia.
Hoje, a Embratel (em que se assenta a telefonia nacional fixa ou móvel) foi entregue ao mexicano Carlos Slim e o país continua à espera das reformas do doutor Chico, quase esquecidas.

***

A atual campanha política, em que todos se igualam no linguajar medíocre do jargão, me leva ao passado para não esquecer a astúcia cínica. Meu velho amigo Rubens Barbosa (ex-embaixador do Brasil em Washington e noutras praças) redescobriu agora uma carta do ano 64 A.C., em que Quinto Túlio, general de Roma, faz recomendações ao irmão Marco Túlio Cícero, grande tribuno e candidato ao Senado.
Com mais de 2 mil anos, tudo ali é atual: “Para seduzir os indecisos, faz pequenos favores. Em quem despertes esperança, faz acreditar que os ajudarás sempre. Faz com que saibam que estás agradecido por serem leais e que és grato pelo que cada um faz por ti. Encoraja aos que já te conhecem e adapta tua mensagem à situação de cada um, mostrando gratidão ao apoio que te dão” _  são as instruções iniciais ao irmão-candidato.
Após lembrar que “favores, esperança e relações pessoais” garantem votos, o general sugere buscar “as pessoas chaves” em cada povoado: “Reconhecer a diferença entre os úteis e inúteis evitará investir tempo e recursos em quem seja de pouca ajuda”.

***

O cinismo da Roma de ontem difere do cinismo do Brasil de hoje só na forma, não no conteúdo. O general aconselha: “Mantém por perto os teus amigos. E teus inimigos, mais perto ainda. Identifica quais os amigos com que podes contar e, depois, dá atenção aos inimigos. Faz promessas de todo tipo. As pessoas preferem uma mentira de conveniência a uma recusa direta. Deves prometer sempre fazer qualquer coisa para qualquer um, a menos que uma clara obrigação ética te impeça”.
“O mais importante _ observa _ é incentivar a esperança no povo e nele criar um sentimento de boa vontade. Mas, não faças promessas específicas para o Senado nem para o povo. Fica só em vagas generalidades”.
Mesmo se houvesse apenas isto a não esquecer, lembro o que me disse um peão rural ao ver, agora, o horário eleitoral na TV: “Se fosse para capinar, não haveria tanto candidato!”.

* Jornalista e escritor

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