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Posts de setembro 2012

Artigo online| Álcool: fator de prevenção ou risco para o coração?

28 de setembro de 2012 0

“A doença é a zona noturna da vida. ”
Susan Sontag

“O álcool e uma tênue familiaridade com o perigo têm sido as únicas coisas que me dão força para recomeçar a cada manhã. O que eu não sabia é que esses recursos também vão se esgotando. O álcool só serve para manter uma efêmera razão de viver. O perigo se desvanece sempre que nos aproximamos dele.”
Relato de um homem, branco, 48 anos, pós cardioversão por arritmia cardíaca induzida por intoxicação alcoólica aguda


RUI PEIXOTO*

A incorporação do conceito de risco é a melhor maneira de se obter uma ação preventiva na prática médica.
Assim, por exemplo, se toda a população fumasse uniformemente não teria sido possível detectar o papel do fumo na causa do câncer de pulmão. Na época dos estudos populacionais, a proporção de fumantes era 40% dos homens adultos, valor percentual que permitiu observar as diferenças de incidência e mortalidade. E o álcool?
Na França, a dieta com alta concentração de gordura, acompanhada do consumo de vinho é associada à baixa mortalidade por doença coronariana. Esta observação estimulou o estudo Paradoxo Francês, sobre os componentes químicos do vinho, responsáveis por esse fenômeno. A maioria dos investigadores, afirma também que os mesmos flavonoides presentes em vegetais, frutas e cereais têm o mesmo efeito cardioprotetor. A dieta francesa é rica em ômega 3, 6, 9.
O estudo do Royal Free  School of Medicine de Londres examinou os efeitos individuais da cerveja, vinho e outras bebidas alcoólicas sobre o coração e a mortalidade por todas as causas. Durante um período de 16,8 anos, 7,7 mil homens com idade entre 40 e 59 anos foram acompanhados clinicamente. Entre os usuários de cerveja e outros aguardentes,
o consumo regular moderado reduziu os eventos coronarianos, mas não alterou a mortalidade por todas as causas. Os consumidores de vinho, tinham riscos mais baixos para a doença coronariana e também para a mortalidade por todas as causas.
A pesquisa, observou que os consumidores de vinho tinham um estilo de vida mais saudável, ou seja, menos obesos, menos fumantes e com níveis mais altos de atividade física. Sendo o estilo de vida o fator preponderante na redução das doenças coronárias.
O contraditório ao estímulo do álcool na prevenção de doenças: 18 em cada 100 brasileiros são dependentes, o hábito de beber em crianças e adolescentes não para de crescer, 40% das consultas psiquiátricas e 39% das ocorrências policiais são devido ao alcoolismo.
No efeito benéfico, usando o Paradoxo Francês com dieta rica em flavonoides, ômega 3, 6, 9 ou então usar os resultados do estudo do Royal: vinho ou cerveja de uso moderado, mas com estilo de vida saudável, ou seja, prevenindo os fatores de risco coronariano: obesidade, fumo, estresse, colesterol elevado, hipertensão arterial, diabete e vida sedentária.
* Médico cardiologista

Editorial| Crimes cibernéticos

28 de setembro de 2012 0

O Congresso precisa fazer a sua parte para reduzir a insegurança jurídica na rede, votando de vez o Marco Civil da Internet. A definição de direitos e deveres de internautas, provedores e governantes é essencial para as novas tecnologias garantirem mais transparência e liberdade.

A ordem de prisão contra o diretor-geral da Google no Brasil, que não acatou decisão judicial para retirar material da internet, repercute em todo o mundo como uma agressão à liberdade de expressão e evidencia a urgência de uma legislação clara a respeito de crimes cibernéticos. A lei eleitoral, assim como os códigos criminais que estão sendo reformulados, colide com a atual realidade tecnológica, que permite a qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, divulgar conteúdos lícitos ou ilícitos. Sem um regramento específico, as próprias autoridades judiciais enfrentam dificuldade para aplicar punições aos infratores _ como foi o caso de Campo Grande (MS), onde o magistrado acabou revogando a própria ordem de prisão. Como problemas semelhantes persistem em mais de duas dezenas de Estados, o resultado prático é uma sensação generalizada de insegurança jurídica, incompatível com um país compromissado com a democracia e com a liberdade de expressão.
Na falta de uma legislação objetiva e transparente, o entendimento predominante no Judiciário brasileiro tem sido o de que os provedores não são responsáveis pela fiscalização prévia do conteúdo veiculado através de seus serviços. Ainda assim, são considerados corresponsáveis pelo ilícito se não tomarem providências depois de serem notificados judicialmente, como ocorreu no caso de Campo Grande. O enquadramento é feito com base em crimes de desobediência às determinações da Justiça Eleitoral. Embora os representantes dos provedores insistam na tese de que quem deve ser responsabilizado, nessas situações, são os autores da postagem de conteúdo, nada justifica o descumprimento de uma decisão judicial. Essas visões antagônicas entre quem defende ampla liberdade da circulação de informações na internet e quem se preocupa permanentemente em cerceá-la deveriam se constituir numa preocupação central de todos os defensores da democracia, mas também dos legisladores, dos quais se espera que consigam definir parâmetros claros nessa área.
Assim como ocorre no caso das eleições municipais, plataformas como o YouTube, controlada pela Google, vêm desempenhando um papel relevante em favor da democracia e das liberdades, como é o caso dos movimentos populares nos países árabes. No Brasil, onde é crescente a preocupação com a transparência dos atos do setor público, as ferramentas tecnológicas exercem papel cada vez mais relevante, graças à massificação e à facilidade do uso. O que falta para potencializar os ganhos é uma definição dos limites e das responsabilidades.
Ainda que o tema seja de extrema complexidade, pois o mundo virtual não tem fronteiras, o Congresso está devendo este esforço para reduzir a insegurança jurídica na rede, votando de vez o Marco Civil da Internet e cuidando para que não se transforme em instrumento de censura e controle estatal. A definição de direitos e deveres de internautas, provedores e governantes é essencial para as novas tecnologias garantirem mais transparência e liberdade.

Editorial| Proteção à criança

28 de setembro de 2012 0

Dependerá de uma ampla rede social, com o envolvimento de todos, o êxito do programa que o governo pretende lançar em outubro, com ações de proteção à criança. O Brasil Protege, que assim deve ser batizado, pretende dar prioridade às 38 mil crianças atualmente em abrigos do país, muitas das quais sem quaisquer perspectivas, pelos mais variados fatores e circunstâncias, de que venham a ter uma vida digna. O país da estabilidade não pode se contentar com os resultados internos e o reconhecimento internacional de seus avanços econômicos, e por isso se espera que o programa se concretize como uma das iniciativas que o poder público federal ainda deve aos brasileiros. É a oportunidade para que se cumpra a promessa feita pela presidente Dilma Rousseff, em seu discurso de posse, de que iria governar para as “gerações futuras”.
A competência para estimular a produção e a geração de empregos e induzir a redução dos juros, atenuando assim os danos da crise internacional, ainda não tem ações equivalentes na área social _ e seria uma das falhas que O Brasil Protege promete começar a corrigir. É precária a estrutura pública capaz de dar suporte às mães cujos filhos são rejeitados por creches sem vagas, desrespeitados por um ensino deficiente e submetidos a tratamentos indignos quando recorrem a serviços de saúde. Esse é o déficit que está a exigir políticas prioritárias dos governos, em especial o federal, que detém os mais fartos recursos para tanto.
Que o anunciado O Brasil Protege cumpra com o que se propõe, principalmente no esforço para que se restabeleçam vínculos familiares e afetivos e se estimulem adoções das crianças hoje recolhidas a abrigos em todo o país. Muitas delas estão, como advertem profissionais da área, simplesmente depositadas nesses locais, porque foram abandonados pelas famílias e pelo Estado. O resgate de suas perspectivas de vida é uma obrigação que exige ações efetivas, ou o governo voltado às gerações futuras terá sido somente uma figura de retórica inconsequente.

Artigo| Idosos gaúchos votam

28 de setembro de 2012 1

ÂNGELO BÓS*

Não obstante o número cada vez mais expressivo de idosos na sociedade, a participação cívica desse eleitor brasileiro tem sido negligenciada pela maioria dos candidatos. Existe uma crença de que eles não exercem sua participação cívica, deixando de votar após os 70 anos, pois a partir dessa idade é desobrigado pela lei. Nos Estados Unidos, onde o voto é voluntário, essa fatia da população é a que mais vota.
A participação cívica do idoso é considerada pela Organização Mundial da Saúde uma das contribuições sociais mais importantes dessa época da vida. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que pouco mais de 1,6 milhão de idosos gaúchos estão aptos a votar na próxima eleição. É um valor superior ao número estimado de idosos gaúchos, que é de 1,45 milhão. A diferença se deve ao fato de alguns terem falecido desde a última eleição e o TSE ainda não ter sido comunicado. Desta forma, podemos dizer que praticamente toda a população mais velha está apta a votar.
Pesquisa recente realizada pelo Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS em parceria com a Escola de Saúde Pública do RS apresentou dados interessantes a respeito da participação dos idosos na última eleição. A pesquisa de 2011 envolveu 7.315 idosos de 59 cidades gaúchas. Os idosos foram identificados aleatoriamente e entrevistados nas suas residências. O estudo fez parte de uma ampla avaliação buscando traçar um novo perfil dos idosos gaúchos, cujos resultados em breve serão divulgados. Eles foram questionados se votaram ou não na última eleição. O resultado foi que 91% dos idosos de 60 a 69 anos, obrigados a votar, compareceram na última eleição. Esse percentual é maior que os 85% de votantes no pleito presidencial de 2010, conforme os dados do TSE. Entre os eleitores de 70 a 79 anos, mesmo sendo isentos, 55% cumpriram com o seu direito cívico. A percentagem de idosos votantes entre 80 e 89 anos se mantém expressiva, com 32%.
O que mais impressiona na pesquisa é o número de votantes com 90 anos ou mais de idade: apesar de enfrentarem o peso dos anos vividos, 16% fizeram questão de deixar nas urnas os seus votos em 2010. Assim, podemos dizer que os idosos representam uma faixa da população cada vez mais ativa na sociedade e que os políticos do nosso país deveriam estar atentos a essa faixa etária, muitas vezes tão negligenciada.

*Professor e pesquisador do Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS

Artigo| A federação começa no município

28 de setembro de 2012 0

O sistema
escraviza muitos
Estados e
municípios aos
desideratos
imperiais da
majestade
presidencial

SEBASTIÃO VENTURA PEREIRA DA PAIXÃO JR.*

É tempo de eleições municipais. Os candidatos se apresentam, os partidos se organizam, a militância vai às ruas, os cidadãos vão às urnas. Poderia, mas não irei tratar da qualidade do voto; deixarei o tema para outra oportunidade. Minha atenção centrará análise em algo preparatório ao bom exercício da cidadania. E por quê? Ora, porque para o voto ser qualitativamente elevado é preciso que o sistema seja reto, claro e adequado. Logo, para corrigir as deficiências da democracia, é fundamental recolocar cada parte da política em seu devido lugar. Em outras palavras, é necessário acabar com a bagunça política que reina no país.
Pois bem. A Constituição diz que a República Federativa do Brasil é formada pela união indissolúvel dos “Estados e municípios e do Distrito Federal” (art. 1º). Vejam que o legislador constitucional não falou da União. Terá sido um lapso involuntário? É difícil saber, pois não traduz tarefa fácil descobrir o que passou na cabeça de cada constituinte. Todavia, é de supor que um assunto tão relevante não seria relegado a um pueril esquecimento. Vencida a premissa, temos que buscar entender o porquê da dicção normativa. E o motivo parece ser um só: o legislador constituinte sabia e queria que a política federativa fosse concentrada nos municípios e nos Estados. Até mesmo porque a estrutura básica da federação é o município. Tudo parte daí. Afinal, não há Estado sem município e, sem município, não pode haver união nacional.
O interessante de tudo isso é que a Constituição somente se referiu à União ao versar sobre os Poderes da República (art. 2º) e, após, no art. 18, quando versou da organização do Estado. Por conseguinte, a função primordial da União é organizar política e institucionalmente o país, mas jamais exercer o protagonismo federativo. Incompreensivelmente, mesmo após os penosos anos da ditadura militar e de sua inerente hipertrofia central, o desenho da Constituição de 1988 foi traído, vindo-se, novamente, a fortalecer patologicamente a esfera federal. Como isso aconteceu? Simples: houve uma assustadora concentração fiscal na União, especialmente com o uso e abuso da criação de “contribuições” (art. 149, CF). A fúria arrecadatória é algo impressionante. E o que mais impressiona é que, para aquilo que a União mais precisaria contribuir, simplesmente silencia; aqui, a voracidade vira timidez, pois o país ainda aguarda uma contribuição federal para a honestidade e moralidade do país…
O fato é que precisamos reorganizar a matriz tributária do Brasil. Do jeito que está, o sistema escraviza muitos Estados e municípios aos desideratos imperiais da majestade presidencial. E isso pode ser tudo, menos democrático, republicano e federativo. Não podemos esquecer que a boa política começa e é exercida nos municípios, pois é na cidade que a vida democrática abre suas flores. Entre ervas daninhas e espinhos, a concentração do poder na União apenas serve para a criação de canais de burocracia e corrupção. Aliás, por ser menor, a própria fiscalização do município é mais fácil. E é mais fácil porque o cidadão está mais próximo da prefeitura do que do Planalto. O problema é que mexer nisso é tocar na vaidade do poder, naquilo que todos querem e que poucos se dispõem a perder. Não custa lembrar, todavia, que poder em demasia faz cegar. Ou será que já esquecemos daquele que não viu e não sabia de nada?

*Advogado e especialista do Instituto Millenium

Artigo| Por um novo pacto federativo

28 de setembro de 2012 0

O Estado
apresenta um
déficit estrutural
que vem de
longe e que se
agravou com o
fim da espiral
inflacionária

DARCY FRANCISCO CARVALHO DOS SANTOS*

O governo estadual encaminhou à Assembleia Legislativa a proposta orçamentária para 2013, que traz oculto um déficit potencial de R$ 3,2 bilhões, se forem cumpridos os percentuais com educação e saúde, sem considerar a subestimação da despesa com pessoal.
Para fechar o orçamento, utilizou-se de receitas fictícias de R$ 1,2 bilhão, uma prática que já havia sido abandonada. Os investimentos com recursos próprios serão pouco mais de 3% da receita líquida. Tudo isso, considerando que as receitas ordinárias se realizarão integralmente, elas que foram estimadas com base em parâmetros otimistas, como PIB de 5,5%.
O Estado apresenta um déficit estrutural que vem de longe e que se agravou com o fim da espiral inflacionária, que contribuía para aumentar a receita e reduzir o valor real das despesas. Esse déficit tem causas internas e externas, agravando-se por problemas conjunturais, como as secas recorrentes.
Como causas internas, tem-se o valor alto e crescente da despesa previdenciária, que já ultrapassa 30% da receita líquida, como a folha de pagamento com um todo.
A dívida pública, cuja despesa no próximo exercício consumirá R$ 3 bilhões, teve origem nos déficits sistemáticos do Estado e nos juros altos, ao ponto de crescer 27 vezes entre 1971 e 1998, quando foi renegociada com a União, em condições favoráveis para a época.
Como o cenário econômico modificou-se, a taxa de juros passou a ser muito alta para os padrões atuais e o indexador ficou inadequado, porque cresceu 35% acima da inflação oficial, o acordo tornou-se leonino para os Estados. A resposta da União aos Estados que pleiteavam uma nova negociação foi aumentar a margem de endividamento, ou seja, agravar ainda mais a situação.
Outro problema sério é o pacto federativo, pelo qual a União fica com 57% dos tributos e os Estados com menos de 25%, depois de possuírem 34% em 1960 e 27% em 1988.
Além disso, no Fundo de Participação dos Estados, as regiões Sul e Sudeste, com 56% da população e 79% da arrecadação dos impostos que lhe dão origem, ficam com apenas 15%. As propostas de alteração que tramitam no Congresso ainda reduzem mais as fatias dessas regiões.
Por tudo isso, a solução dos problemas financeiros estaduais passa por uma ação conjugada de políticas internas, reformas constitucionais e pela boa vontade do governo federal em renegociar a dívida.

*Economista

Interativo| Editorial diz que a melhor censura é a rejeição do público. Você concorda?

27 de setembro de 2012 6

Zerohora.com adianta o editorial que os jornais da RBS publicarão no próximo domingo para que os leitores possam manifestar concordância ou discordância em relação aos argumentos apresentados. Participações enviadas até as 18h de sexta-feira serão selecionadas para publicação na edição impressa.
Ao deixar seu comentário, informe nome e cidade.

Para participar, clique aqui

PATRULHAMENTO CULTURAL

Igualdade racial e de gênero, acessibilidade e políticas afirmativas são conceitos nobres e sua aplicação prática representa inquestionável evolução da sociedade brasileira. Porém, sob o pretexto de defesa dessas meritórias causas, desenvolve-se no país um preocupante movimento de patrulhamento cultural que invariavelmente apela para a censura como antídoto para o que seus militantes consideram politicamente incorreto. É o que se percebe, agora, na polêmica campanha pelo veto a obras de Monteiro Lobato na rede pública, episódio que já chegou ao Supremo Tribunal Federal. Na mesma direção, vai o pedido de proibição de um filme norte-americano em cartaz nos cinemas do país, que mostra um ursinho consumindo droga.

No caso do livro, é inegável que a terminologia utilizada pelo escritor em sua época já não se adéqua aos tempos atuais. Mas isso não invalida nem desmerece sua obra, inegavelmente uma das mais ricas da literatura brasileira. Eram outros tempos _ e esta deve ser a explicação para as crianças que receberem o livro. Em vez de proibir, retirando dos leitores a oportunidade de conhecer e de debater o viés racista da passagem, o mais sensato é promover uma leitura orientada, com ênfase nas mudanças de costumes. Trata-se, acima de tudo, de um retrato de época. Basta lembrar que jornais, livros e outros registros do período escravocrata divulgavam verdadeiras atrocidades como fatos absolutamente normais. Conhecê-los, assim como a desarrazoada comparação feita pelo escritor, é fundamental para que a história não se repita.

Quanto ao filme, que realmente dá visibilidade ao consumo de drogas, vale lembrar que já foi submetido à classificação indicativa prevista pela legislação brasileira. A Constituição não prevê nem admite censura. Até cabe o questionamento sobre a idade mínima dos assistentes, mas a retirada do filme de cartaz, como chegou a ser cogitada, serviria apenas para valorizá-lo. A melhor censura para obras de mau gosto é a rejeição do público.

O desafio de uma sociedade que se pretende democrática e humanista é fazer acordos de convívio e reciprocidade. Precisamos de regras, sim, precisamos erradicar a cultura da discriminação, que também se manifesta na linguagem, no humor, nos meios de comunicação e também em produções artísticas e culturais. Mas sem esse verdadeiro macarthismo em que está se transformando o politicamente correto _ escudo semântico cada vez mais utilizado pelos militantes da proibição. Os brasileiros não precisam de tutores que lhes digam o que devem ler ou assistir. Esse tempo já passou. Agora vivemos numa democracia: temos leis, temos instituições eficientes e temos, principalmente, cidadãos conscientes e capacitados para gerir seus próprios destinos.

Para que possamos avaliar seu comentário sobre este editorial, com vistas à publicação na edição impressa de Zero Hora, informe seu nome completo e sua cidade.

Editorial| Conta para o contribuinte

27 de setembro de 2012 0

Não surpreende, num ambiente de continuada apropriação do que é público, que senadores em dívida com o Fisco transfiram para a população os custos dos impostos.

É duplamente inaceitável que, depois de darem um calote histórico na Receita Federal, deixando de pagar Imposto de Renda por um privilégio como o 14º e o 15º salários, senadores e ex-senadores tenham decidido transferir a conta para os contribuintes, a maioria dos quais paga seus tributos em dia e não tem como repassá-los a terceiros. Na prática, conforme denúncia feita pelo Correio Braziliense, os valores referentes ao IR, que não foram descontados nos últimos cinco anos _ prazo durante o qual a Receita pode cobrar retroativamente _, ficaram no bolso dos senadores. A administração da Casa argumenta que o imposto não foi pago porque, na sua interpretação, tratava-se de ajuda de custo. Como a Receita insistiu na cobrança, a mesma administração, com o apoio silencioso das lideranças, decidiu que o Senado pagará os atrasados.
É claro que a conta não será quitada pela mais alta casa legislativa do país, mas por todos os que pagam impostos. O fato está consumado, sem que os senadores tenham qualquer prejuízo, mesmo que os dois salários a mais, pagos ao fim do ano, não possam, de forma alguma, ser entendidos como ajuda de custo. São vencimentos extras que, na origem, nos anos 40, haviam sido adotados como forma de compensar as despesas dos legisladores com passagens nas idas e vindas a seus Estados de origem. Há muito tempo, senadores e deputados têm verbas específicas para viagens, e sabe-se que muitas vezes o Senado também paga bilhetes aéreos de parentes, amigos, bajuladores e apoiadores.
É uma desfaçatez que não se materializa apenas no Senado, pois a Câmara já havia sido indulgente com o IR de seus integrantes, ao arcar com os mesmos pagamentos por tributo devido. Numa situação normal, empresas ou pessoas físicas são convocadas pela Receita, cotidianamente, para  ficar em dia com o Fisco. No Congresso, onde quase tudo é diferente do Brasil real, os débitos são repassados à população. Por isso, com raras exceções, não surpreende que os abonados por salários adicionais não tenham se manifestado sobre a decisão absurda da direção da Casa e tampouco tenham feito qualquer gesto no sentido de devolver ao caixa do Congresso o dinheiro que deveria ter sido destinado ao pagamento do IR.
Esse novo episódio apenas se soma a inúmeros outros, quase todos marcados pela naturalidade com que alguns desfrutam de regalias condenáveis. É assim que a maioria dos beneficiados pela anistia se protege de improváveis arrependimentos ou dilemas morais, porque não haveria nada de errado em fazer com que a população quite impostos que eles deixaram de recolher. O fim dos salários extras, em estudo no Congresso, eliminaria apenas uma das tantas distorções preservadas pela omissão das lideranças políticas e por uma cultura secular de apropriação privada de bens, serviços e recursos públicos.

Editorial| Tragédia da miséria

27 de setembro de 2012 2

O assassinato do papeleiro Carlos Miguel dos Santos, em Caxias do Sul, por quatro adolescentes criados em contato com a violência das ruas choca pelas circunstâncias bárbaras do crime, mas sobretudo pelas condições de miserabilidade dos envolvidos no caso. O país já presenciou episódios semelhantes, em outras ocasiões, envolvendo inclusive jovens procedentes de famílias bem estruturadas e de renda razoável. Nesse episódio mais recente, o que chama a atenção são justamente os elevados níveis de miséria, tanto financeira quanto educacional e cultural dos envolvidos, a ponto de terem levado jovens adolescentes a atear fogo a um ser humano movidos por vingança devido a uma dívida de R$ 2. Por isso, não basta exigir justiça para o caso. É preciso também que a indignação com a selvageria reforce a discussão sobre a necessidade de se ir às origens dessas tragédias, infelizmente tão comuns no cotidiano brasileiro.
Sempre que jovens como os autores confessos do crime se tornam uma ameaça, é porque falharam os mecanismos que, de alguma forma, tinham alguma responsabilidade sobre sua formação. As famílias, desestruturadas, não conseguiram impedir que se desencaminhassem nas ruas. Faltaram também condições às escolas para retê-los em sala de aula. E a dúvida é se o poder público, que demorou 90 horas para dar início à perícia sobre a ocorrência, terá condições de se mostrar ágil daqui para a frente, até mesmo para compensar a impossibilidade de agir de forma preventiva.
Infelizmente, se prevalecerem as condições existentes hoje, é improvável que haja uma resposta à altura. Sobra burocracia e faltam condições para a aplicação de medidas socioeducativas em casos como o da barbárie de Caxias do Sul. E esses poderiam ser evitados ou pelo menos reduzidos com mais educação e maior responsabilidade dos pais, de quem se deveria esperar, no mínimo, que avaliassem sempre se têm condições de manter uma estrutura familiar e de programá-la adequadamente.

Artigo| É tão fácil

27 de setembro de 2012 0

RICARDO RUSSOWSKY*

O Brasil e nós, aqui do Rio Grande do Sul, não suportamos mais a vergonhosa malha rodoviária de que dispomos. Falta um pouco de tudo. E a maior ironia está no fato de que os trechos concedidos e tão polêmicos são os que ainda se salvam. Aqui, eles são os protagonistas do apocalipse por serem ainda reflexo de um dos mais sérios problemas do nosso Estado: a ideologização.
Precisamos de investimentos para ampliar e melhorar a malha existente. Ponto final. E a razão também é bem simples: boa parte está em mau estado e os gargalos, todos sabem, só aumentam o Custo Brasil. Enquanto no Rio Grande do Sul se discute o fim das concessões, no país a presidenta Dilma Rousseff retoma a tese dos investimentos privados em rodovias.
Para nós, cidadãos, interessa menos saber o certo ou o errado. Interessa mais ter segurança nas estradas, logística condizente com nossas necessidades e economia fluindo para que nosso PIB cresça estimulado pela competitividade e custos compatíveis com nosso esforço de produzir e vender.
Impostos altos e voracidade da máquina pública em arrecadar sem qualquer retorno aos cidadãos não serão os protagonistas deste artigo que quer, isto sim, estradas bem resolvidas, trafegáveis, seguras e, principalmente, respeitosas com os cidadãos. Temos no Brasil continental a menor rede rodoviária entre as 20 maiores economias do mundo e, ironicamente, somos um dos maiores territórios desta comparação.
Está na hora de crescer e pensar que o bem comum é para todos e que os interesses político-partidários têm demonstrado, ao longo de sua história, que são prejudiciais ao coletivo. Agora vale o bem-estar, a segurança, as condições de crescimento e o livre-arbítrio. Não se admite mais brecar o desenvolvimento por preconceitos ideológicos ou razões eleitoreiras.
Temos inúmeros exemplos para citar aqui e fora daqui. É um atraso tolerar estradas ruins porque os governos não têm recursos e também se recusam a buscar a saída na iniciativa privada por absoluto preconceito. Se os cofres públicos pudessem sustentar o crescimento, ótimo, mas não podendo, não vamos admitir que os governos obstruam o fluxo do desenvolvimento que se impõe com prejuízo para toda sociedade.

*Presidente da Federasul