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Posts de outubro 2012

Editorial| A renegociação das dívidas

31 de outubro de 2012 0

Os critérios para pagamento das dívidas públicas, em desacordo com a nova realidade brasileira, devem ser revistos, para que cesse a expropriação de renda de Estados e municípios.

A situação financeira do município de São Paulo, que ganhou destaque depois da vitória do petista Paulo Haddad, contribui para que se compreenda a realidade de outras capitais e também de Estados submetidos ao arrocho de dívidas impagáveis. A grita do prefeito eleito, que já foi a Brasília na tentativa de renegociar o que desembolsa à União, tem o mérito de fazer com que apelos politicamente menos poderosos também sejam ouvidos. Antes de São Paulo, os governos estaduais do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, entre outros, expuseram a distorção representada hoje, em tempos de juros em queda, pelas regras impostas pelo Tesouro Nacional no final dos anos 1990.
Aparentemente, vista à distância, a questão da dívida pública é um assunto referente à burocracia das gestões administrativas, que interessam apenas a prefeitos e governadores. Não é bem assim. Os débitos impagáveis comprometem planos de governo, retiram autonomia financeira do setor público, impedem a tomada de novos empréstimos e, principalmente, travam investimentos em áreas essenciais. O caso de São Paulo é emblemático, por se tratar da maior cidade brasileira. A dívida atual, de R$ 67 bilhões, foi multiplicada por seis em 12 anos, quando a prefeitura renegociou o saldo com a União. O mesmo cenário repete-se no Rio Grande do Sul, que destina R$ 2,5 bilhões por ano a amortizações e, mesmo assim, continua devendo mais de R$ 40 bilhões. Em 1997, quando da renegociação com a União, o saldo era de R$ 11 bilhões.
O Estado de Santa Catarina pagou R$ 927 milhões para amortizar seu débito este ano, até setembro, mas o saldo aumentou R$ 26 milhões e chegou agora a R$ 10 bilhões. Parece absurdo, mas a verdade é que, quanto mais pagam, municípios e Estados mais devem. A explicação para uma conta que penaliza todos e não só os gestores está na indexação dos contratos com a União, que corrige as parcelas a serem pagas por um índice de  inflação, no caso o IGP-DI, mais juros de 6% a 9% ao ano. Num país em que os juros básicos caíram a 7,25% ao ano, é inconcebível que entes federados sejam punidos com custos até três vezes mais altos na hora de pagar o que devem. Alguns Estados comprometem mais de 10% do que arrecadam com o desembolso mensal à União.
Nenhum argumento técnico sustenta a manutenção da norma, nem mesmo a alegação de que, juridicamente, deve ser mantido o que foi contratado. Desde as renegociações, passou, em alguns casos, quase uma década e meia. O Brasil mudou, a inflação foi controlada, os custos financeiros desabaram e o setor público passou a se submeter a controles rigorosos da Lei de Responsabilidade Fiscal. O sistema de cobrança configura uma clara expropriação de renda de municípios e Estados. Para a União, nada disso justificava, pelo menos até as últimas eleições, mudança nos critérios que estrangulam os devedores. A reação paulistana veio em boa hora. Lamente-se, no entanto, o fato de que o Tesouro somente passou a acenar com possibilidade de reavaliação do endividamento a partir da conquista, pelo partido do governo, da mais importante capital do país.

Editorial| A defesa da imoralidade

31 de outubro de 2012 0

No momento em que a maioria dos brasileiros aplaude a punição dos réus do mensalão como uma perspectiva de moralização da atividade pública no país, causa perplexidade o episódio futebolístico caracterizado pela tentativa do Palmeiras de anular nos tribunais uma derrota de campo, sob o pretexto de que um gol absolutamente ilegal, marcado com a mão, foi incorretamente invalidado. A direção do clube paulista, seriamente ameaçado de rebaixamento no Campeonato Brasileiro, alega que o árbitro se socorreu de imagens de TV para voltar atrás na decisão que já havia tomado. O uso de tecnologia para decidir sobre lances de jogo continua sendo proibido pela Fifa.
A ilegalidade do lance foi tão gritante, que, num caso desses, deveria valer informação até do gandula para repor a verdade. Mas o autor da jogada desonesta, assim como muitos de seus companheiros e os dirigentes do clube, fazem questão de ignorar o mais importante e tentam transferir a responsabilidade para o árbitro. Ora, se o juiz errou ao não ver o toque de mão do atacante argentino, cabe à CBF puni-lo e promover a devida reciclagem, como faz costumeiramente com árbitros que cometem falhas relevantes. O que não cabe é premiar o infrator por causa de uma eventual irregularidade cometida pelo árbitro.
Nem a paixão clubística mais exacerbada justifica a defesa da imoralidade. No caso específico, talvez coubesse, isto sim, examinar a atitude antidesportiva do jogador, que sequer se desculpou por transgredir as regras do jogo e por tentar enganar os demais protagonistas da disputa. Assim como a política e outros setores da vida nacional, o futebol também precisa desenvolver uma cultura de integridade, para que não sirva de modelo para a esperteza, para o jeitinho e para a vitória a qualquer preço.

Artigo| A Jornada Mundial da Juventude

31 de outubro de 2012 0

JAIME SPENGLER*

Neste dia 31 de outubro, o Rio Grande do Sul acolhe os dois símbolos de fé que caracterizam a Jornada Mundial da Juventude: a Cruz e o ícone de Nossa Senhora. Estes símbolos percorrerão todo o Estado durante o mês de novembro. Em cada diocese, acontecerá uma programação específica marcada por momentos de formação, celebração e oração, além de experiências de solidariedade.
Trata-se de uma oportunidade ímpar para cultivo da dimensão místico-religiosa. Dimensão esta constitutiva do ser humano. Mas não só! A Cruz é expressão de tantas cruzes que caracterizam nossa juventude: a cruz da drogadição, do extermínio de jovens, da carência de postos de trabalho para nossos jovens; a falta, muitas vezes, de referências e referenciais seguros, além das dificuldades de acesso à educação e formação intelectual com qualidade.
Por isso, esse tempo que nos está sendo oferecido para, em torno da Cruz e do ícone de Nossa Senhora, criar condições para que nossa juventude se sinta sempre mais motivada a assumir o protagonismo que lhe compete na construção de uma sociedade mais humana e cristã. Trata-se de um tempo privilegiado.
Os jovens representam o potencial de uma sociedade, tanto no presente quanto para o futuro. A partir da experiência de encontro com a pessoa de Jesus Cristo, a Igreja crê cooperar para a construção de caminhos sólidos, indicando horizontes nos quais os jovens de hoje possam ser os homens e as mulheres do amanhã, autenticamente engajados na construção de uma sociedade orientada e sustentada por valores éticos, cristãos, universais.
Oxalá todas as forças da sociedade _ Igrejas, governos, escolas, formadores de opinião, entidades diversas _ se disponham a investir na juventude. Por isso, a Jornada Mundial da Juventude que estamos já vivendo no Rio Grande do Sul se une em coro com os jovens de todo o Brasil, formando como que uma grande sinfonia, cujo tema é a proclamação do valor da vida e a necessidade de promovê-la em todas as suas dimensões.

*Bispo auxiliar da Arquidiocese de Porto Alegre

Artigo| Na contramão dos vencedores

31 de outubro de 2012 1

Nem ao
menos
nossas
lideranças
políticas se
preocupam
em copiar
os vencedores

PAULO VELLINHO*

Partimos do princípio de que o Brasil é dividido entre os que estão no andar de cima, uma minoria privilegiada, e no andar de baixo, a grande maioria. A opção por esta realidade é culpa exclusiva das lideranças políticas da sociedade, pois a origem do quadro desigual brasileiro nasceu e se consolidou através dos seus poderes constitucionais, em níveis federal, estadual e municipal. Comparemos o Brasil e a Coreia do Sul, que em 1950 emergia de uma guerra com seus irmãos do Norte, desgastada social e economicamente e ainda curando as feridas originadas pela ocupação japonesa, que só terminou em 1941. Cinquenta anos depois, o seu PIB, que era inferior ao do Brasil, hoje é muitas vezes maior que o nosso. Quem fez o milagre?Simplesmente a vontade política de uma sociedade que, sob uma liderança cidadã, rompeu os grilhões com a pobreza para tornar-se um país. Receita simples: adotá-la foi uma opção que eles praticaram com uma cláusula pétrea a regê-la, o seu comprometimento com o futuro.
Elegeram o homem como objetivo primordial da nação e para chegar lá fizeram como os japoneses tinham feito no final do século 19: saneamento básico, nutrição da gestante e da criança, sem os quais não existem saúde física e mental, e finalmente qualidade na educação, com uma digna remuneração dos professores do Ensino Fundamental, a base do conhecimento.
Segundo o professor e doutor José Carlos, diretor do Senac, que fez uma pesquisa comparativa entre a educação na Coreia e no Brasil, e para tal selecionou as quatro melhores escolas públicas e privadas do RS, contrapondo-as às idênticas da Coreia, não é preciso dizer que a distância entre os dois grupos é abissal, pois enquanto os jovens coreanos realizam seus estudos em três turnos, os nossos mal orientados jovens recebem no máximo 20 horas de conhecimento por semana.
Extraordinário é o fato de que lá é comum os pais de alunos assistirem às aulas no fundo das salas para observar não só a dedicação, postura e qualificação do professor, como também o comportamento dos alunos, a disciplina e a ausência do bullying.
A Coreia vencedora apostou na excelência plena do seu cidadão, enquanto nós procuramos cada vez mais conduzir nossos “esforços” na simplificação do conhecimento, menos estudo e mais lazer… mais tempo para mais ignorância, o que inconscientemente os leva à sua exclusão quando estiveram aptos para o mercado de trabalho. Nem ao menos nossas lideranças políticas se preocupam em copiar os vencedores, pois preferem andar para trás, ao contrário do que fazem os outros e “premiar” a sociedade com pão e circo, mais circo do que pão, como, por exemplo, a “extraordinária” conquista da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016, que juntas custarão muito mais do que inverter a mão e buscar o desenvolvimento socioeconômico através da saúde e da educação.

* Empresário

Artigo| Avanço da cidadania

31 de outubro de 2012 0

No Brasil
de hoje,
resulta
importante
recuperar o
elo entre
cidadania e
poder político

FÁBIO MEDINA OSÓRIO*

Um dos pilares conceituais dos regimes democráticos é o princípio conforme o qual o poder é exercido em nome do povo e em benefício da sociedade, daí a exigência natural de um vínculo de confiança entre cidadania e poder.
Os detentores de cargos ou funções públicas são mandatários de um poder que não lhes pertence. A democracia é uma fórmula de legitimação do poder, pois o ser humano não compreende a ideia de submeter sua liberdade ou patrimônio ao poder arbitrário de outrem.
O controle dos poderes é outro fator de legitimação crucial inerente às democracias contemporâneas. As instituições, no contexto da divisão de poderes, desempenham controles recíprocos. Daí a exigência crescente de transparência dos poderes públicos perante a sociedade.
A integridade das instituições remete, portanto, a determinados padrões de honestidade e de eficiência funcionais. Sabe-se que algumas condutas transgressoras, tais como corrupção, nepotismo ou favorecimentos indevidos, ocasionam perda de credibilidade nas instituições, rompendo regras básicas da ética pública.
Para além desses comportamentos ilícitos, torna-se necessário aquilatar padrões de condutas que remetem a níveis intoleráveis de ineficiência. Ambientes desorganizados, fechados e personalistas conduzem a uma lacuna de controles e proliferação de comportamentos desonestos. Ademais, lesões ao erário podem ser produzidas por erros grosseiros e condutas de extrema negligência, o que deveria preocupar autoridades fiscalizadoras.
O vínculo de representação não é um cheque em branco aos eleitos, assim como o concurso público não autoriza todo e qualquer ato de um agente político. Parece uma afirmação trivial, mas, no Brasil de hoje, resulta importante recuperar o elo entre cidadania e poder político.
A confiança retirada das urnas ou de concursos públicos, em realidade, renova-se diariamente pelo dever de lealdade institucional a ser observado pelos agentes políticos, que atuam impessoalmente em nome de toda a coletividade e devem perseguir finalidades públicas.
Nesse contexto é que os atos de improbidade administrativa são interpretados como traição institucional. Não por outra razão, todo o histórico da falta de probidade (desonra no setor público) foi retratado, nas Constituições republicanas do Brasil, como crime de responsabilidade, desde 1891 até 1988, ou seja, ao longo de quase um século!
Nessa linha de coerência, a improbidade, como grave desonestidade funcional ou grave ineficiência endêmica, observados os preceitos previstos na Lei 8.429/92, justifica perda da função pública, suspensão de direitos políticos e interdição de direitos de cidadania, observadas as garantias do direito administrativo sancionador.
A incidência de sanções que atingem a cidadania dos infratores constitui desdobramento lógico da gravidade do ato de improbidade, cada vez mais punido no Brasil, o que já significa um avanço considerável da cidadania.

*Advogado, presidente do Instituto Internacional de Estudos do Direito de Estado (Iiede)

Editorial| O recado das urnas

30 de outubro de 2012 0

O país, que consolidou um novo jogo de forças partidárias, não pode se lançar desde agora à próxima campanha eleitoral, sem que ao menos tenham sido encaminhadas questões essenciais com as quais os candidatos se comprometeram perante os munícipes.

Encerradas as eleições municipais, o país sai com sua democracia fortalecida para a sucessão presidencial de 2014 e com um novo conjunto de forças políticas. Fica evidente que o eleitor optou pela diversidade e pela renovação. Mesmo o PT, que acabou ficando com a joia da coroa _  a prefeitura de São Paulo _, obteve sua principal vitória com um nome novo: o ex-ministro Fernando Haddad. Pesou bastante, evidentemente, o apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidente Dilma Rousseff, mas não há dúvida de que a preferência dos paulistanos foi pelo novo. A clara opção pela renovação _ tanto sob o ponto de vista de tempo de atuação política quanto de estilo, com perda de espaço para os líderes tradicionais _ levou a uma fragmentação na nova composição de forças. Essa particularidade impediu que o resultado se limitasse a um único grande vencedor ou a um único grande perdedor, aspecto salutar para uma democracia que precisa se consolidar com a pluralidade e com partidos fortes.
Apesar da conquista significativa em São Paulo, o partido do governo saiu fragilizado no conjunto do país, levando em conta o número de prefeituras que comandará. As oposições, porém, saíram-se ainda pior: a eleição de ACM Neto em Salvador deu sobrevida ao DEM e o PSDB ficou menor, ainda que Aécio Neves saia fortalecido para a disputa presidencial. E uma força nova foi consolidada pelo pleito municipal: o PSB, que passou a contar até mesmo com um candidato à presidência da República _ o governador pernambucano Eduardo Campos. Esses são aspectos com repercussões sobre o próximo pleito, para o qual os políticos deveriam dedicar atenção só mais adiante. O país, que se renovou nas urnas e consolidou um novo jogo de forças partidárias, não pode se lançar desde agora à próxima campanha eleitoral, sem ao menos ter encaminhado questões essenciais com as quais os candidatos se comprometeram perante os munícipes.
Os resultados das eleições, com a realização do segundo turno em 17 capitais e 33 cidades do interior do país, em 19 Estados, porém, vão além da redefinição do jogo de forças políticas. O elevado percentual de abstenção, que somado ao votos brancos e nulos foi o maior desde 1996 em São Paulo, deixou evidente o rechaço do eleitor a campanhas eleitorais baseadas em ataques mútuos e no esforço permanente pela desconstrução do adversário. A apuração final confirmou também a opção já manifestada pelo eleitor no primeiro turno de não se deixar seduzir por candidaturas surgidas de aventureiros ou de oligarquias, mesmo em regiões nas quais elas geralmente se mostravam mais influentes.
Definido o recado transmitido pelos eleitores, é hora de os candidatos ungidos pelo voto se concentrarem em seus programas de governo e na realidade financeira das prefeituras cujo comando irão assumir em janeiro. Nesse período até a posse, precisam levar em conta também o fato de as eleições terem sido realizadas sob novos parâmetros éticos, o que reforça a expectativa de seriedade absoluta no comando dos municípios.

Editorial| Vaias para a impunidade

30 de outubro de 2012 0

As manifestações de hostilidade contra o ministro Ricardo Lewandowski e contra os petistas José Dirceu e José Genoino no momento em que se apresentaram para votar, em São Paulo, refletem acima de tudo a rejeição coletiva à impunidade. Tanto os dois políticos condenados quanto o revisor do mensalão representavam, na visão dos eleitores mais exaltados, o pior da política e da Justiça, que é a cumplicidade e a tolerância com a corrupção. Ao condenar a maioria dos réus denunciados num julgamento de grande visibilidade, o Supremo Tribunal Federal passou exatamente esta mensagem à população: as malfeitorias cometidas no exercício da atividade pública não mais ficarão impunes.
Mas há um aspecto preocupante nas vaias e xingamentos registrados no último domingo, que é o desconfortável espírito de justiçamento. Evidentemente, os cidadãos têm todo o direito de se expressar, mas com educação e civilidade. Se a Suprema Corte está fazendo a sua parte, condenando quem tem que condenar e absolvendo quem merece ser absolvido, dentro do mais absoluto respeito ao Estado democrático, qual o sentido da hostilidade? Os condenados, enquanto não estiverem privados da liberdade, têm os mesmos direitos de exercitar a cidadania que os demais brasileiros.
A atitude agressiva de lançar impropérios e até objetos nos réus do mensalão, assim como os xingamentos dirigidos ao magistrado que exerce o papel de revisor no processo, só mostra falta de confiança nas instituições. Além disso, contribui para alimentar o sentimento de perseguição que, espertamente, militantes de partidos envolvidos em deformações procuram evidenciar, para provar que estão sendo injustiçados pelas condenações. A melhor vaia para a impunidade é o aplauso para as instituições e para os homens públicos que cumprem o seu dever e o seu compromisso republicano.

Artigo| Bom augúrio

30 de outubro de 2012 0

OSMAR TERRA*

A vinda do ministro Pimentel ao Rio Grande do Sul, nesta terça-feira, não deixa de ser um bom augúrio. Depois de dois anos e meio de sofrimento com o bloqueio argentino, a nossa indústria precisa de um alento. Sem falar nos 16 meses em que não conseguimos exportar um quilo de carne suína para o nosso outrora maior comprador, a Rússia. Assim, o parque industrial gaúcho já amarga perdas na casa dos US$ 4 bilhões. Essas perdas e o desemprego que atinge os setores calçadista, máquinas agrícolas, de carnes, móveis, cutelaria e talheres e plásticos, entre outros, seriam evitáveis se houvesse uma postura mais ativa do ministro e do governo federal em defesa da nossa economia.
Na questão do bloqueio argentino, não só deixamos de vender, como também somos vítimas de um verdadeiro bullying comercial, pelo qual o governo argentino exige que as empresas daqui transfiram sua produção para lá, para poderem voltar a vender. E isso, segundo o jornal argentino Página 12, conta com o beneplácito do ministro Pimentel, que no encontro do dia 2 de junho de 2011 com a ministra daquele país, Débora Giorgi, deu o “visto bueno”, o aval, para que a Argentina continuasse sua pressão para a transferência de nossas indústrias. Na ocasião, o ministro só defendeu cotas para o setor automobilístico.
Em entrevista a Zero Hora no dia 19 de outubro, o ministro disse que o governo não iria se envolver em decisões das empresas de se transferirem ou não para a Argentina. Ora, se bloqueio comercial e pressão para transferência de empresas brasileiras para outro país não são um assunto do governo brasileiro, então o que será..!? Só os automóveis?!
Além dessa situação, existem as justas queixas do secretário Knijinik, sobre direcionamento de novas e importantes indústrias para outros Estados brasileiros, deixando o Rio Grande numa situação de esquecimento.
Dessa forma, a pauta do ministro Pimentel será extensa. E é bom lembrar que ainda é tempo de prevenir perdas maiores para os gaúchos. Se a vinda aqui servir para endurecer as ações contra o bloqueio argentino, ainda podemos evitar o fechamento de grandes indústrias. E se, conhecendo bem de perto nossa economia e geografia, o ministro ficar mais sensível aos nossos pleitos, poderemos, com o nosso reconhecido empreendedorismo, recuperar muito do que perdemos nesses dois anos e avançar muito mais.
A única coisa que pedimos e merecemos é o mesmo tratamento dado aos Estados do centro do país!

*Deputado federal PMDB-RS

Artigo| Chutando o balde

30 de outubro de 2012 0

A nossa
identidade é
múltipla e
deve atender
às diversas
faixas etárias
e às diferentes
culturas

ÂNGELA BALDINO*

Há muito se instalou um debate no Rio Grande do Sul, por vezes construtivo, por vezes anacrônico, em torno do que fazer para uma “retomada” do Rio Grande do Sul no cenário nacional e internacional. Esse debate tem se intensificado a partir da constatação de que o Estado vem perdendo espaço na economia brasileira. E a crença de termos a melhor qualidade de vida e educação do Brasil é colocada à prova por indicadores como o Ideb e o Enem. Se a situação do Rio Grande hoje é uma, ela foi construída por suas lideranças e profissionais. E assim também será construído o seu futuro.
Por essa razão, é oportuno saudar a realização do 21º Congresso de Marketing da ADVB/RS, que traz este tema como pano de fundo. Tendo como patrono Nelson Sirotsky, este encontro trará reflexões que podem avançar na construção de uma visão para o marketing e o desenvolvimento do Rio Grande do Sul. Para início do debate, é preciso deixar de lado conceitos como reconstrução ou recuperação econômica ou social do Estado. Em um mundo globalizado com mudanças tecnológicas diárias, de nada serve esse resgate. Outro fato trazido à luz é o de termos de enaltecer a nossa identidade como se fosse estanque e única. O mundo e também o nosso Rio Grande são multifacetados. Com isso, a nossa identidade é múltipla e deve atender às diversas faixas etárias e às diferentes culturas aqui existentes. Sendo assim, esta visão de desenvolvimento deverá contemplar uma linha de ação conjunta, democrática e moderna das várias identidades, das diferentes crenças e valores do nosso Estado. Precisamos também de um objetivo adequado às tendências futuras para alcançarmos uma inserção no mercado econômico nacional e internacional de forma eficiente. E, internamente, ampliarmos a discussão de imagem e valores com bases sólidas, sem estereótipos e discursos e com investimentos concretos dos agentes econômicos _ público e privado.
Os princípios para um marketing regional consistem em convergência e integração. A convergência com as tendências mundiais e a integração econômica, social e cultural do Estado dentro do território nacional e também no Exterior. Como fazem outras regiões em todo o mundo _ a construção do place branding, que envolve posicionamento, direcionamento estratégico com projeção e ampla governança. E para ser crível, com o fortalecimento também da imagem interna do Estado. Temos capital social suficiente para procurarmos o que queremos e construir uma realidade condizente com nossas aspirações e o momento brasileiro e global.

*Secretária-chefe do Escritório de Captação de Recursos de Canoas e Conselheira da ADVB/RS

Artigo| Mãos ou cérebros?

30 de outubro de 2012 0

Temos
consciência
de que
precisamos
de mãos,
mas muito
mais de
cérebros

HEITOR JOSÉ MÜLLER*

Nações desenvolvidas nos ensinam que educação e crescimento econômico são indissociáveis. Uma lição importante que o mundo globalizado nos lega é justamente esta: sem uma estrutura de ensino adequada, não há como garantir competitividade, muito menos um ambiente inovador. Se até há algum tempo nossas escolas técnicas formavam “mão de obra”, hoje essa denominação esgotou seu prazo de validade. Por isso, é imprescindível ter presente a nova revolução industrial que estamos vivendo, caracterizada pela sociedade do conhecimento. Cada vez mais, vamos substituir a formação de “mão de obra” pelo investimento em “inteligência inovadora” _ em outras palavras, a atividade meramente manual pela que agrega conhecimento.
A missão é desafiadora. Até 2015, o Rio Grande do Sul precisará formar 554,3 mil trabalhadores, somente entre os profissionais da indústria de nível técnico e os de áreas de média qualificação. A Federação das Indústrias do Estado (Fiergs), aceitou o desafio proposto no Mapa do Trabalho Industrial 2012, lançado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Soma-se assim ao esforço para compensar o fato de apenas 6,6% dos brasileiros entre 15 e 19 anos estarem em cursos de formação profissional. Na Alemanha, por exemplo, o índice alcança 53%.
São temas como esses que estarão na pauta do 5º Congresso Internacional da Inovação, promovido pelo Sistema Fiergs e que começa nesta terça-feira no Teatro do Sesi. A educação criativa como ferramenta para a elevação da competitividade industrial surge como o caminho do futuro que queremos. É cada vez maior o percentual de organizações com dificuldades para preencher as vagas disponíveis. Executivos da área de recursos humanos insistem em que o problema é um entrave para a expansão das atividades. O que fazer, então, para removê-lo?
Há mais de seis décadas, a Fiergs tem uma atuação destacada na área educacional. O trabalho é desenvolvido em sintonia com as necessidades imediatas do mercado. Segue também as recomendações do Banco Mundial (Bird), que defende a educação profissional e tecnológica sob a responsabilidade de organizações do setor privado. A indústria, por meio de sua instituição máxima, tem melhores condições de avaliar e orientar os recursos humanos dos quais necessita para o seu dia a dia, garantindo formação em áreas que estejam realmente sendo requisitadas pelo mercado.
Tanto no caso da educação básica e continuada oferecida pelo Serviço Social da Indústria (Sesi) quanto no da educação profissional e tecnológica a cargo do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), chamam a atenção aspectos como o elevado interesse por parte dos alunos em aprender e a vontade de fazer tudo da melhor forma possível. É uma realidade distinta da registrada com frequência no ensino formal.
Cada vez mais, o perfil do técnico de nível médio é modificado por demandas emergentes. Crescem as exigências por novas habilidades, que levam à preferência por profissionais empreendedores, autônomos e proativos, em condições de atuar num sistema informatizado e dinâmico. Temos consciência de que precisamos de mãos, mas muito mais de cérebros. A indústria, de forma planejada, quer e tem todas as condições de contribuir para essa transição, pois só acredita em desenvolvimento baseado num pressuposto: o pilar educação.

*Presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs)