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Artigo| A Ibero-América de García Márquez

10 de janeiro de 2013 0

Ainda hoje,
surpreendemo-nos
dentro de uma
nova Macondo,
ou esbarramos
em membros
da família
Buendía

ADROALDO FURTADO FABRÍCIO*

Gabriel García Márquez, na cerimônia de entrega do seu Prêmio Nobel, há uns 30 anos, disse que, sendo ele um sul-americano, não tinha dificuldade em encontrar personagens e enredos para produzir o realismo fantástico em que foi mestre incomparável. E ilustrou seu discurso com alguns fatos históricos, ligados a diversos governos do subcontinente, que nada ficavam a dever em extravagância e bizarria a suas ficções.
Um generalíssimo, quando de sua morte, deixou disposições minuciosas sobre seus funerais: deveria ser velado em uniforme de gala, com suas medalhas, sentado em seu trono _ e assim se fez. Um outro, para homenagear-se, queria uma estátua equestre, mas não tinha com que pagá-la: seus acólitos compraram uma usada e descartada, em um depósito parisiense, sem importar quem fosse o retratado (era o marechal Ney) e a instalaram na praça com todos os rituais e solenidades. Um terceiro inventou um instrumento em forma de pêndulo para detectar veneno em sua comida. E assim por diante.
Seria de esperar-se que os aparentes progressos da democracia na região e a sua própria inserção mais efetiva no contexto planetário, decorrente da revolução cibernética e da cosmopolitização do comércio, alterassem radicalmente o quadro. Mas não é assim. Ainda hoje, pelos quatro cantos do território ibero-americano, surpreendemo-nos seguidamente dentro de uma nova Macondo, ou esbarramos em membros da família Buendía.
Presidentes legam o poder a suas esposas (ou o dividem com amigas muito íntimas). Há pelo menos uma nação governada por um caudilho ausente, que ninguém sabe se está vivo ou morto. Outra foi até data recente dirigida por um ex-bispo excomungado, que se empenhara, antes de meter-se em política, no clandestino incremento populacional de sua pátria. Também há uma cujo presidente, levando a sério a anedota da “Suíça americana”, pensa estar na Holanda e tenta forçar a legalização do tráfico de drogas. E aquela regida por um cacique sem preparo sequer para governar uma taba.
Entre nós, um político cujo título maior é o de ex-guerrilheiro, hoje condenado por trapaças perpetradas contra o erário _ corrupção e formação de quadrilha _ assume sem pejo nem rubor, jurando cumprir e fazer cumprir a Constituição, uma cadeira de deputado, sob entusiástica aprovação dos companheiros. Outros, em similar situação, já ocupam vagas na mesma casa, com ar de quem nada tem a ver com isso, e de lá não têm a menor intenção de sair. A menos que, no país da piada pronta, a Câmara comece a botar ladrões pelo ladrão.
Se ainda escrevesse, o velho Gabo não teria de que se queixar.

*Jurista, advogado

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