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Artigo| As faixas e as listas

31 de janeiro de 2013 1

LUIZ FERNANDO SCHERER SMANIOTTO*

Santa Maria cidade universitária dos jovens e da mãe Medianeira. Santa Maria, Maria da Graça, doce menina Maria Fumaça, Santa Maria da boca do monte. Cidade dos prédios ornados com faixas congratulando os que galgaram vagas nas universidades. Parabéns Luciano, valeu Fabrício, muito bem Igor, parabéns Ana, eu já sabia Luiza. Todos os janeiros são assim, quentes e alegres. Nunca mais serão. No primeiro mês do ano, as rádios divulgam as listas de vestibulandos aprovados e elas são fixadas nos portais das universidades. No dia 28/01/2013, existiam faixas e listas em propensão. As faixas convocavam para compartilhar a dor. As listas fixavam uma sentença de morte. A cidade sempre alegre e trepidante era um fantasma que assustou e assolou as nossas vidas para sempre. Até o vento minuano não ousou soprar na Boca do Monte. Monte de corpos empilhados nas quadras esportivas. O silencio era ensurdecedor, quebrado apenas pelas sirenes das ambulâncias e pelos cortejos funerários. As esquinas, antes tomadas pela algazarra juvenil estavam vazias. As faixas que antes explicitavam alegria pela aprovação em cursos dos centros universitários, hoje divulgam a dor das famílias e clamam reverência aos mortos. As listas que traziam os nomes dos aprovados trazem agora um convite para um ritual funesto. A cada nome divulgado um lamento pranteado por uma família. Vidas ceifadas no leito do chão, jovens tolhidos dos seus pais e irmãos – que se foram respirando o cheiro ocre dos que não tem nada de doce, dos que tem tão somente o fio da adaga dos charqueadores, velhos senhores, loucos autores dos seus horrores. Nunca mais ouvirei a relação de aprovados em vestibulares, desligarei o rádio, pois lembrarei para sempre da relação macabra. Nunca mais olharei para a fachada das casas verificando o nome dos aprovados. Caminharei de cabeça baixa, fitando o chão, o mesmo chão que recebeu os corpos calcinados. Mas pelas ruas, pelas vielas uma verdade ninguém vai ousar omitir. A insanidade sepultou a fogo o sonho gris de uma juventude que não mais vai luzir. Feriram de morte os sonhos da mocidade deste país. Brasil, o que vai ser de ti – um pai que mata seus filhos não terá um grande porvir.

*Advogado

Comentários (1)

  • JACOB FEITOZA CABRAL diz: 31 de janeiro de 2013

    A Nossa omissão custa caro, muito caro.

    Há mais de 08 anos, uma barragem na Paraíba se rompeu e levou a vida de dezenas de pessoas.

    Há pouco tempo atrás, um fenômeno natural ceifou mais de 1.000 vidas no Rio de Janeiro. Falo das chuvas.

    Agora, em Santa Maria-RS, 235 vidas, podendo chegar a um número maior, foram vitimadas por um incêndio em uma casa noturna.

    Sem sombra de dúvida, nós só podemos responsabilizar a sociedade pelos eventos citados.

    No caso da Paraíba, o Poder executivo não tomou conhecimento de que é necessário fazer manutenção preventiva na citada barragem. Resultado: mortes.

    No Rio de Janeiro, o Poder executivo foi conivente com uma urbanização caótica e sem nenhuma estrutura, resultado: mortes.

    No Rio grande do Sul, o Poder executivo não fiscalizou a casa noturna como deveria e tampouco os proprietários, na ganância de lotar a casa, estavam nem aí para a prevenção. Resultado: mortes.

    Lembrete! Nós, a sociedade, é que elegemos os membros dos três poderes e somos omissos quando não exigimos a eficiência dos atos administrativos.

    Pois bem, para ficar em só um exemplo, agora estamos construindo estádios de futebol moderníssimos, não querendo enxergar que crianças estão nascendo nos corredores das maternidades e morrendo por falta de UTI neo natal.

    Quando é que vamos deixar de sermos omissos?????

    Renan, Sarney, Lula, Dilma, FHC e tantos outros aloprados e fichas sujas são nossos representantes, eleitos pelo voto da sociedade, seja no Executivo, seja no Legislativo.

    A nossa omissão custa caro e a vida, ao que parece, deixou de ser cara para nós!!!

    Recife, 31 de janeiro de 2013.

    Jacob Feitoza Cabral

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