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Posts de janeiro 2013

Editorial| A dor e a ação

30 de janeiro de 2013 0

Os prefeitos devem assumir a atribuição de proteger seus cidadãos e corrigir falhas e omissões, de suas gestões ou herdadas de antecessores, que podem levar a tragédias como a de Santa Maria.


Merece status de lei informal a advertência da presidente Dilma Rousseff na abertura do Encontro Nacional de Prefeitos, em Brasília, de que a dor que se propaga pelo país, a partir de Santa Maria, deve lembrar os gestores públicos de suas responsabilidades com a população. É mais do que apropriado: os 5,5 mil administradores municipais que estão assumindo seus mandatos, pela primeira vez ou como reeleitos, devem entender que representam os cidadãos de seus municípios e que estão no cargo por delegação deles, para servi-los e protegê-los. Depois da tragédia na cidade universitária e na antevéspera de mais um Carnaval, cabe às prefeituras promover imediata vistoria nas casas de espetáculos, nos locais de reunião de público e nos equipamentos que possam representar qualquer tipo de risco para as pessoas.
Os primeiros sinais de que algo começa a ser feito são oferecidos por algumas prefeituras do Interior, que já mobilizaram equipes de fiscalização. É um início, mas não pode ser um gesto transitório, que se esgote depois dos primeiros impactos do que ocorreu na madrugada de domingo. Será preciso fazer muito mais, para contrariar a certeza de que, em Porto Alegre e na grande maioria dos municípios, o controle capaz de evitar acidentes em locais públicos é insuficiente. Qualquer argumento em contrário não se sustenta numa realidade em que muitas vezes a vigilância das autoridades é precária.
Um exemplo, baseado não em suposições, mas em documentos, foi exposto há três anos, por uma série de reportagens da Rádio Gaúcha. Com a profundidade das abordagens jornalísticas investigativas e depois de meses de trabalho, os repórteres denunciaram que, de mais de cem casas noturnas da Capital, cujas documentações foram examinadas, apenas duas cumpriam integralmente as exigências legais. Licenças elementares, referentes a questões de segurança, não eram respeitadas. Se, nesse período, esse cenário assustador foi alterado, a Capital terá o mérito de servir de novo como exemplo, desta vez positivo, para os demais municípios do Estado.
Nada indica que, a partir das reportagens reveladoras, o cenário porto-alegrense tenha sofrido grandes alterações, como mostram debates recentes sobre o assunto, depois das mortes na boate Kiss. É lamentável, igualmente, que ações moralizadoras, sempre no sentido da preservação da vida, não tenham contado com o apoio que mereciam. Devem ser citadas, como reconhecimento, as atitudes muitas vezes consideradas radicais do Ministério Público, na tentativa de fazer valer o que determinam as normas de prevenção. Não foram poucas as ocasiões em que, sob pressão de interesse diversos, os integrantes do MP se viram acossados por críticas que os tachavam de inflexíveis e formalistas.
O momento é o da radicalidade do bom senso. Estão superadas as etapas dos debates e da troca de acusações sobre as tarefas de cada um. Instituições municipais e estaduais que orientam e fiscalizam sistemas de segurança devem convergir na busca de soluções. A ampliação do conflito de atribuições e a politização do debate em torno da tragédia constrangem e envergonham os que se esforçam em favor da prevenção e do compartilhamento de responsabilidades coletivas.

Editorial| Sangue bom

30 de janeiro de 2013 0

O recorde de doadores registrado pelo Hemocentro do Estado do Rio Grande do Sul no dia seguinte à tragédia de Santa Maria reflete bem o espírito de solidariedade dos gaúchos. E mostra, acima de tudo, o desprendimento de pessoas que só querem dar a sua contribuição para atenuar o sofrimento de seus semelhantes, sem esperar qualquer tipo de reconhecimento ou compensação. Sem ufanismo ou qualquer tipo de ostentação, sentimentos absolutamente dispensáveis numa situação dessas, pode-se concluir com certo orgulho que o Rio Grande solidário sempre emerge nos momentos de crise e dor.
É essa visão coletiva de fraternidade que compensa amplamente a cultura de rivalidade que afeta alguns setores da nossa sociedade. Na hora de doar sangue, ninguém pergunta se o precioso líquido será utilizado por um correligionário político ou por um torcedor do mesmo clube. As pessoas simplesmente oferecem o braço e confiam em que o gesto simples ajudará a salvar vidas. Não há _ nem pode haver _ mais gratificante compensação.
Fazem os doadores, a seu modo, o que fizeram tantos heróis anônimos no momento da tragédia. Protagonistas de histórias comoventes, bombeiros, agentes de saúde e muitos voluntários arriscaram suas vidas para ajudar pessoas desconhecidas. Entre esses, destacaram-se alguns jovens que estavam na boate sinistrada, que poderiam ter se livrado do perigo mas optaram por salvar amigos e companheiros de festa. Há casos, inclusive, de pessoas que retornaram para a morte unicamente por amor ao próximo.
Merecem total reconhecimento esses valentes personagens da história mais triste das nossas vidas. Mas também cabe reconhecer o humanitarismo das pessoas que continuam procurando os bancos de sangue para colaborar como podem. A cidadania também é uma espécie de heroísmo.

Artigo| Cruel pedagogia

30 de janeiro de 2013 1

PERCIVAL PUGGINA*

Do alto de seus 20 anos, os jovens contemplam a vida como quem, do alto de uma montanha, observa, extasiado, o mundo ao seu redor. Horizontes amplos, infinitas trilhas e 360 graus de possibilidades. Nessa idade, eu me lembro muito bem, a vida é eterna e a esperança infinita. Só os avós morrem quando se tem 20 anos. O velório de um jovem é inconcebível ruptura com a ordem natural. Contudo, a morte espreita a juventude com olhos cobiçosos. Enquanto os idosos morrem porque chegou a hora, porque dar adeus à vida terrena é próprio da velhice, os jovens morrem de infinitas maneiras, revelando inesperada vulnerabilidade.
Idosos morrem porque não podem alterar o curso da vitalidade que se extingue. Jovens, porém, morrem desnecessária e superfluamente, por motivos que poderiam ser evitados. Essa é a tragédia das tragédias cotidianas. Ir-se assim, sem que nem por quê? Jovens morrem nas ruas, nas estradas, nas brigas entre gangues, na lenta e dolorosa morte das drogas, nas madrugadas em que a violência espreita, nas infames brigas por motivos fúteis. Morrem nas aventuras e travessuras, na terra, na água e no ar. Por isso, pais e mães carregam no peito uma incompreendida e permanente aflição. A respiração para quando o telefone toca e para quando o telefone não toca. Paranoicos, nós? Não, não. Simplesmente pais cuidadosos de filhos incautos, que creem haver bebido a imortalidade no cálice da juventude.
As grandes catástrofes carregam em seu script uma pedagogia brutal. Há nelas uma lição sobre o que não fazer. Sua dissonante partitura se faz com notas que pedem atenção e reflexão. Desafortunadamente, numa espécie de autodefesa, cerramos os olhos e os ouvidos. E pouco aprendemos com as lições que nos vêm dos sinistros e dos escombros.
Por isso escrevo com a esperança de que a crudelíssima pedagogia dos fatos do dia 27 mostrem aos nossos jovens que nós, os pais, não somos coroas paranoicos a vislumbrar perigo ali onde tudo indica morar a felicidade e a alegria. Por isso, escrevo confiando em que os jovens não pressuponham que as autoridades fazem sempre, em toda a parte, tudo o que lhes compete para garantir a sua segurança. Não! Muitas vezes, é o contrário. Por isso escrevo desejando que os jovens, diante de tão sofrida experiência, valorizem o dom maravilhoso da vida como uma dádiva frágil a exigir prudência e atenção. As alegrias dos filhos serão maiores e as aflições dos pais serão menores se, doravante, filhos e pais forem severos fiscais da própria segurança onde quer que estejam.

*Escritor

Artigo| São só as boates? E as casa infantis?

30 de janeiro de 2013 3

Como mãe,
entrei em
desespero
e orei pelas
mães enlutadas
e por aquelas
que estão
nos hospitais

ROSANE NEUMANN KJELLIN DE BORJA *

Quando liguei a televisão no domingo e presenciei as imagens da tragédia em Santa Maria, automaticamente olhei para a minha filha de sete anos. Ao olhá-la, lembrei-me das inúmeras festinhas de aniversário que fomos e ainda iremos a casas infantis (buffet).
Recordei rapidamente os lugares e não me lembro de portas de emergência, saídas iluminadas, sistemas anti-fumaça, etc… Recordei SIM dos diversos brinquedos eletrônicos, das ilhas com massas, etc.!
Após assistir a diversos noticiários sobre todo o ocorrido em Santa Maria e refletir sobre os aniversários infantis, fiquei com a pergunta na cabeça: “E se ocorresse um incêndio numa casa de festas infantis?”; “Como as crianças seriam salvas?”; “E as crianças que estão sozinhas (pois muitos pais realizam a chamada festa-escola, uma modalidade oferecida pelos buffet para baixar o custo e manter a casa funcionando)?”; e, e, e… Teríamos que passar por uma situação semelhante a essa?
Como mãe, entrei em desespero e orei pelas mães enlutadas e por aquelas que estão nos hospitais aguardando seus filhos. Mas, também como mãe, comecei a falar para a minha filha sobre como se prevenir e escapar de uma situação de incêndio.
Hoje, após dois dias de tamanha tristeza, refletindo sobre como auxiliar a todos os brasileiros para exigirmos maiores legislação e fiscalização não só de boates, danceterias, casas infantis ou quaisquer ambientes fechados, sejam eles para diversão ou trabalho, tomei a decisão de, como professora e mãe, iniciar um projeto com meus alunos e minha filha sobre prevenção e fuga em caso de acidentes.
Precisamos incluir nas escolas o ensino de como agir e prevenir catástrofes, acidentes, incidentes e afins. Necessitamos ensinar nossas crianças a se defender, para que quando jovens possam saber lidar em situações de perigo. Façamos como o Japão que ensina nas escolas a proteger e evacuar locais com segurança.
Vamos lutar por melhorias nas legislação e fiscalização! Quem sabe assim nenhuma mãe precise chorar de tristeza e, sim, de alegria por seu filho.

* Mãe e professora dos Anos Iniciais da Rede Pública Estadual

Artigo| A terceira lista

30 de janeiro de 2013 0

A tragédia de
Santa Maria
se transformou
num drama
planetário
propagado
em imagens
e notícias

NILSON VARGAS*

A filha da Mauren, os dois sobrinhos do Betinho, a enteada do Diomar, três amigas da Tayani. Foi assim, carregadas de conexões que formam uma teia de lembranças de amigos e de passagens da minha vida, que as notícias sobre mortos foram chegando. As dores da minha estimada colega de aula no primário, do meu companheiro de futebol da juventude, do meu colega de faculdade, da minha querida afilhadinha foram se somando para formar a minha dor _ que me fez chorar nas duas madrugadas que se seguiram ao fato e no trajeto solitário que fiz de carro entre Santa Maria e Porto Alegre na manhã de terça-feira.
Cheguei ao local por volta das 5h da manhã. Não vou me deter em relatos do que vi. Eles já foram dados em textos, fotos, imagens, testemunhos a que desde então todos tiveram acesso. Ali encontrei outro amigo de infância de quem só lembro o apelido: Chico Rico. Militar do BOE, ele acabava de sair de dentro da boate e, depois de um “lembro de ti, sim”, me preveniu que havia “muita gente morta” lá dentro.
A frase do parceiro de futsal nas quadras do Clube 21 de Abril, no bairro Itararé, me fez entender que, como jornalista, estava assumindo uma missão numa cobertura ampla e complexa. E que, como santa-mariense, mergulhava num drama àquela altura difícil de dimensionar. Meu desafio pessoal, que creio estar cumprindo: separar a missão do jornalista, que requer equilíbrio e profissionalismo, do drama do santa-mariense, que, em 46 anos de vida, nunca havia visto a sua cidade tão triste.
Pela soma de dramas de pessoas conhecidas, por um drama pessoal de quem perdeu um filho ou por algum outro motivo, a cidade começava a ser engolfada por uma espiral de sentimentos que, aos poucos, iriam surgindo. Primeiro o terror de quem viveu aquele pesadelo, depois o choque de quem tomou conhecimento, seguido das muitas modalidades de dor que brotaram em cada um e que alimentaram uma onda de solidariedade que _ mesmo em meio à tragédia _ foi digna de orgulho. E não demorou para germinarem as dúvidas sobre o que teria conduzido àquele episódio horroroso, alimentando, finalmente, a cobrança por investigação, apuração e justiça.
Tudo isso em meio a uma dolorosa sequência de reconhecimento de corpos, velórios coletivos, enterros que dilaceravam parentes e amigos. Cenas que transformaram a tragédia de Santa Maria num drama planetário propagado em imagens e notícias. A cidade universitária se transformara em exemplo de duas situações paradoxais: como não deve ser um local de festas para jovens e como um povo solidário consegue ao menos atenuar o que aquela música descreve como “a dor de arrumar o quarto do filho que já morreu”.
Santa Maria se orgulha de uma lista divulgada todo ano: o listão dos aprovados no vestibular da UFSM. O orgulho é tanto que os nomes são lidos no rádio, um a um, com pausada alegria, em cadeias que chegam a incluir emissoras de SC, PR, MS… Estados que enviam milhares de seus filhos para estudar na cidade. À divulgação do listão se segue uma onda de festas, cumprimentos, alegria, faixas exibidas com orgulho nas sacadas e janelas das residências.
Na tragédia da boate, outra lista, também lida nas rádios e TVs, desta vez com pausada tristeza. Muitos dos 231 nomes já haviam figurado num listão da UFSM, mas não tiveram a chance de buscar o diploma e tocar a vida em frente.
No abismo de sentimentos que separa o listão dos aprovados da lista dos mortos, somente uma terceira lista, cujo tamanho não se sabe mas cujo prazo de divulgação precisa ser abreviado ao máximo, poderá aplacar o vale de lágrimas e de dor. É a lista dos culpados. Ela não trará de volta os tesouros da Mauren, do Betinho, do Diomar e da Thayani. Mas é o mínimo que o poder público pode fazer em resposta ao que aconteceu e que, mesmo que nos esforcemos muito, não será possível esquecer.

*Jornalista e santa-mariense

Editorial| Prevenção já!

29 de janeiro de 2013 6

O mínimo que se pode esperar depois de tão dolorosa experiência, até como homenagem aos jovens que perderam a vida em Santa Maria, é o investimento imediato numa cultura de prevenção que ensine o país a evitar tragédias futuras.

Assim como ocorreu na Argentina, em 2004, depois do incêndio que vitimou 194 pessoas e deixou mais de 1,4 mil feridos na boate República Cromañón e que muito se assemelha ao que ocorreu em Santa Maria, também no Brasil é impositivo que governantes, autoridades e os próprios empresários de casas noturnas deflagrem imediata revisão das condições de segurança de tais estabelecimentos. Mais do que isso: impõe-se um olhar atento dos legisladores sobre as normas de funcionamento e segurança dessas casas e um trabalho mais eficiente de fiscalização.
Autoridades e especialistas em segurança identificam inúmeras falhas de prevenção como causas da tragédia de Santa Maria: uso indevido de pirotecnia, teto inflamável, superlotação, falta de saídas de emergência e de sinalização adequada, pouca ventilação, pessoal de serviço despreparado, leniência dos órgãos fiscalizadores e inexistência de um plano de abandono para casos de urgência. Todos esses aspectos poderiam ter sido corrigidos se houvesse uma inspeção preventiva rigorosa por parte dos órgãos públicos _ e não apenas avaliações rotineiras e pouco eficientes. A legislação em vigor estabelece um conjunto de exigências que, se não é capaz de afastar completamente o risco de sinistro, constitui pelo menos uma garantia mínima de segurança para frequentadores e profissionais em serviço. Só que raramente é cumprida.
O poder público, em geral, foi eficiente no socorro. São elogiáveis as providências tomadas pelos governos federal, estadual e municipal. A presença em Santa Maria da presidente Dilma Rousseff, acompanhada de parte de seu ministério, do governador Tarso Genro, do presidente do Tribunal de Justiça do Estado, Marcelo Bandeira Pereira, deixou a impressão de que os administradores públicos estão empenhados no conforto e na assistência às famílias das vítimas, assim como na apuração rigorosa de responsabilidades, sem prejulgamentos nem interesses eleitoreiros. A prontidão do prefeito Cezar Schirmer, ele próprio atingido pela tragédia com a morte de um primo que se encontrava no local, também indica que, passada a comoção, há disposição do município de adotar as medidas cabíveis em face do desastre. A coordenação e a solidariedade entre os poderes, tão raras não apenas no Brasil mas em nível internacional, são dignas de reconhecimento. Mas essa mobilização, ocorrida no momento em que a maior parte das vítimas já havia perecido, não obscurece o fato de que houve falhas inquestionáveis em matéria de prevenção.
Por isso, seguindo o exemplo da Argentina e de outros países que aprimoraram suas normas de segurança depois de infortúnios desta natureza, o Brasil não pode mais hesitar. O primeiro aspecto a ser atacado é uma vistoria geral nas casas de espetáculos, para que se adaptem imediatamente às normas de segurança e conforto. Em seguida, cabe fazer uma revisão nesta legislação, para se ter a certeza de que é suficientemente rigorosa para prevenir riscos. Por fim, governos de todas as instâncias têm que instruir e fiscalizar seus próprios agentes, para que façam cumprir o que determina a lei. Também será oportuno se os próprios empresários do ramo se adiantarem, cuidando para que seus estabelecimentos operem dentro da legalidade.
O mínimo que se pode esperar depois de tão dolorosa experiência, até como homenagem aos jovens que perderam a vida em Santa Maria, é o investimento imediato numa cultura de prevenção que ensine o país a evitar tragédias futuras.

Artigo| A pior dor

29 de janeiro de 2013 0

A dor da
perda
é única e
indescritível.
A perda
verdadeira
e definitiva

J.J. CAMARGO

As grandes tragédias nos comovem porque nos transportam para dentro delas. E ficamos lá, durante dias, embalados pela discussão dos detalhes, pela tentativa infrutífera de reparar e, quando nos convencemos por exaustão de que nada mais é remediável, nos vemos a discutir os culpados, a criminosa falta de responsabilidade na emissão dos alvarás e as penas que deveriam receber. E ficamos indignados porque nada muda e, quando se repetir, sairemos outra vez atrás de novos culpados.
Mas nada disso passa nem perto dos sentimentos dos que perderam, porque a dor da perda é única e indescritível. A perda verdadeira e definitiva.
No máximo, podemos imaginar a partir de retalhos capturados nas declarações, o tamanho do sofrimento, mas não o sofrimento coletivo, porque este é sempre passageiro, mas o sofrimento individual, de cada pai e de cada mãe, que foram despertados com o relato de uma tragédia e descobriram petrificados que as luzes embaixo das portas continuavam acesas, porque seus filhos amados não retornaram da noitada.
Imaginem a saída para a rua depois de dezenas de telefonemas inúteis e a descoberta de que havia três possibilidades: mortos estendidos no piso de ginásio municipal, feridos hospitalizados em Santa Maria, feridos mais graves encaminhados para Porto Alegre.
Por onde começar a investigar, no meio de um tumulto, onde estariam a Bruna, o Rafael ou o Eduardo, se todas as pessoas gritavam e ninguém tinha uma informação confiável?
Quando a imprensa acessou o ginásio, reportou que corpos acomodados na lona preta pareciam intactos, visto que a maioria morreu asfixiada e não por queimaduras. Mas o que mais impressionou foi o relato de que os celulares seguiam tocando incansavelmente nos bolsos dos mortos.
E, quando um repórter tomou um deles, havia um registro a documentar todo o desespero, a perseverança e a incredulidade: “103 chamadas não atendidas”.
E no alto da tela o nome mais previsível: MÃE.

*Médico

Artigo| O beijo da morte e a culpa

29 de janeiro de 2013 0

A dor não tem
um nome.
A culpa, a
responsabilidade
pelas mortes,
tem.
Possivelmente
tenha vários

DENISE LAHUTTE*

Uma boate ironicamente chamada Kiss encarregou-se de levar o beijo da morte para centenas de jovens no auge da vida. O beijo, que poderia ter sido dado com paixão, por empolgação ou por amor, não houve. Se houve, foi o último. O beijo que certamente houve foi o não desejado, o beijo contra a vontade, o beijo que trouxe o sofrimento indizível, o beijo da morte. Amigos, namorados, irmãos, netos e filhos amados morreram. E, quando morre o ser amado, a dor costuma vir acompanhada pela culpa. A culpa pelas frases duras que porventura trocamos, a culpa pelo abraço e pelo beijo de amor que não demos, a culpa por não termos dito “eu te amo e tu és muito importante pra mim” todas as vezes que poderíamos, a culpa por não termos adivinhado que só teríamos um último beijo e o termos dado de forma meio desleixada, a culpa pelos momentos que não passamos junto à pessoa amada, ocupados que estávamos com outras coisas e acreditando, ingenuamente, que nosso amado ainda teria muito tempo conosco.
Culpa. Companheira da dor, a culpa também dilacera e aniquila. E nos vemos no torturante exercício do “e se”. E se eu tivesse pedido pro meu filho não sair naquela noite? E se eu pudesse estar com ele? E se ele tivesse ido para outro lugar, como chegou a pensar? E se eu tivesse ensinado mais formas de se defender diante dos muitos perigos da vida, como eu fazia quando ele era pequeno? E se, ao invés do amigo, fosse o meu filho um dos sobreviventes? E se eu tivesse sido mais atento aos lugares que ele frequenta? E se eu tivesse dificultado sua saída? Comunicando gestos e intenções mais ou menos nobres, os “e se” nos torturam a consciência e martelam os pensamentos. São exercícios duros conosco mesmos, mas até certo ponto previsíveis e manifestações do sentimento de quem ama demais e se sente responsável pelo amado que morreu. A culpa costuma vir embutida no pranto soluçado que acompanha a dor. É o sentimento de quem se percebe onipotente nos cuidados com o amado, tal como fazia quando seu objeto de amor era um pequeno e indefeso bebê.
A despeito dos fatos que fazem parte da vida, a culpa pode anunciar-se implacável e surda aos apelos da realidade. Para o nosso coração, falhamos. E a culpa que acompanha a dor está presente para nos lembrar.
A culpa costuma vir com a dor do luto e é subjetiva porque comunica um afeto, um estado de espírito, um jeito de sentir e pensar. Ela não costuma comunicar realidade.
A dor do luto e a dor da culpa parecem inseparáveis, mas no caso das pessoas que perderam a vida na boate Kiss a culpa não é apenas um sentimento _ é uma realidade. Existe uma culpa que comunica realidade e pode ser substituída pela palavra responsabilidade. “Quem são os responsáveis pelo que aconteceu?”_ é a pergunta a ser feita. E a resposta segue seu curso natural pós-investigações. Não foi uma tragédia do destino, como alguns anunciam num tom quase profético. Por catástrofe ou tragédia, entendem-se causas climáticas e da natureza. Onde há o dedo do homem, fala-se sempre em “responsabilidade”. Que ela seja rapidamente apurada, que os responsáveis paguem sua dívida. Para a dor da perda de quem se ama não há atenuante. Para os causadores das mortes menos ainda deve haver.
A dor não tem um nome. A culpa _ a responsabilidade pelas mortes _ tem. Possivelmente tenha vários. Que se possam nomeá-los para aliviar um pouco a dor de quem sobrevive ao ser amado. O tempo _ apenas ele _ vai fazer doer menos, mas esta é uma dor que vai durar para sempre. Que ao luto se siga a justiça. Pelo menos, justiça.

*Psicóloga clínica de adultos, casais e famílias

Artigo| Assassinamos nossos filhos

28 de janeiro de 2013 0

ISABEL COCHLAR*

Tragédia, além do luto,  o final dos sonhos de 245 jovens que perderam suas vidas no incêndio da Boate Kiss, na madrugada de sábado, na cidade de Santa Maria. Desespero inominável de cada família, cada amigo, cada um de nós que sente, na perda de cada vítima, uma lesão maior à humanidade como um todo.
Indesculpável a ação dos seguranças em tentar barrar os garotos para que não saíssem sem pagar. Imperdoável a ausência de sinalização das saídas de emergência que condenaram vários a morrer intoxicados nos banheiros. Impossível adjetivar a conduta do(s) proprietário (s) que abriu o lugar sem o Alvará válido.
Mas, como em todos os episódios trágicos, desesperador, para nós pais de adolescentes é verificar a falha do poder público na  fiscalização deste estabelecimento.  A constatação de que não existe serviço público eficaz a prevenir tais tragédias, pela  ausência de condições   de segurança de tais locais e de fiscalização efetiva da permissão de funcionamento,  nos leva a concluir que somos todos, por omissão, assassinos dos sonhos de nossos filhos.
Choraremos longamente a falta de cada um, nos solidarizaremos com cada família, mas, infelizmente, ainda assim, não aprenderemos a lição de exigir a prestação pública eficiente para evitar novas tragédias. Aguardaremos a prestação jurisdicional para a condenação dos culpados e a indenização pelos danos materiais e morais sofridos pelos familiares, inclusive contra o órgão público responsável, mas, como sempre, seremos sempre surpreendidos por fatos como esse pelo simples fato que não aprendemos a ser cidadãos exigentes de nossos direitos.
E assim, seremos sempre culpados por cada filho nosso perdido!

* advogada

Artigo| Eu acuso!

28 de janeiro de 2013 3

JOÃO MARCOS ADEDE Y CASTRO*

Parafraseando Émile Zola, eu acuso, mesmo que ninguém me pergunte, diversas pessoas e entidades de Santa Maria, pela tragédia do incêndio da Boate Kiss, neste domingo de luto, dor, lágrimas, morte, perplexidade.
Quando falo em diversas pessoas, eu quero dizer todos nós, que achamos que a lei de prevenção de incêndio não é para valer. Santa Maria teria sido o primeiro município do Estado a contar com uma lei de prevenção de incêndio, que acabou por ser usada como referência para a lei estadual no mesmo sentido.
Mas, exatamente aqueles que aprovaram a lei foram os primeiros a descumpri-la, ou seja, até hoje 90% das escolas públicas, municipais e estaduais, não contam com sistema de prevenção de incêndio, depois de mais de trinta anos, colocando em risco a vida e a segurança dos servidores, dos professores e, quem está preocupado com isto?, de milhares de crianças. Eu acuso o Estado e o Município como responsáveis!
Passei 22 anos brigando para exigir que os locais de aglomeração de público, tais como boates, estádios, prédios de apartamentos, escolas, centros de tradições, clubes, para que tivessem sistema de prevenção e combate a incêndios, tudo em vão. Eu os acuso como responsáveis!
Inúmeras boates foram fechadas por liminar do Poder Judiciário por falta de condições de segurança contra incêndio, mas reabertas logo a seguir com a cassação da medida antecipatória porque eles provavam ter feito as adaptações necessárias e, logo que recebiam o alvará, desmontavam o sistema. Eu os acuso como responsáveis!
O esporte favorito de alguns políticos locais era defender boates sem condições de segurança, sob a alegação de que a atividade criava empregos, o que é verdade, mas esquecendo que também criava risco de morte. Eu os acuso como responsáveis!
Eu me acuso, como membro do Ministério Público, por não ter feito mais, com culpa ou sem culpa. Aí está, desde 1963, o prédio da Avenida Rio Branco sem nenhuma manutenção e há anos com inúmeras decisões judiciais e de pé, como se tivesse sido construído ontem. O esqueleto nos olha desafiador, gozando de nossa cara! Quando cair, quantas pessoas morrerão? Bobagem, o Adede é um idiota, todo mundo sabe, pretensioso e metido a engenheiro. O prédio não vai cair, nunca!
Eu só não acuso as vítimas, porque estas só queriam viver a vida, e um bando de irresponsáveis não permitiu isto. Um bando de irresponsáveis, do setor público que só pensa nos votos da próxima eleição e do setor privado que só pensa no lucro.
As vítimas viviam a vida que lhes era própria, com festa, com sorrisos, com cabeça leve e espírito jovem, o que era um direito seu.
Não podemos crucificar ninguém sem investigação séria e julgamento justo, mas também não podemos minimizar as responsabilidades. Eles podem fugir e se esconder, mas não para sempre.
Não foi uma fatalidade, mas a soma de irresponsabilidades.
Que cada um assuma a sua.
Eu acuso!

*Advogado, Promotor de Justiça Aposentado e Escritor