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Posts de fevereiro 2013

Editorial interativo\ Editorial responsabiliza governos e empreiteiras pela deterioração precoce de estradas. Você concorda?

28 de fevereiro de 2013 12

Zerohora.com adianta o editorial que os jornais da RBS publicarão no próximo domingo para que os leitores possam manifestar concordância ou discordância em relação aos argumentos apresentados. Participações enviadas até as 18h de sexta-feira serão selecionadas para publicação na edição impressa.  Ao deixar seu comentário, informe nome e cidade.

Para que possamos avaliar seu comentário sobre este editorial, com vistas à publicação na edição impressa de Zero Hora, informe seu nome completo e sua cidade.

Para participar, clique aqui.

DESCASO NAS ESTRADAS

A incapacidade do poder público de investir o necessário para assegurar condições de trafegabilidade nas estradas do país e, mais do que isso, de fiscalizar com um mínimo de rigor o trabalho delegado a empreiteiras agrava de forma preocupante a situação enfrentada pelos usuários de maneira geral. Levantamento recém divulgado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) reforça os temores de brasileiros que, a lazer ou a trabalho, colocam sua integridade física em risco diante da sinalização precária e das péssimas condições de pavimentação que, em alguns trechos, tornam as rodovias intransitáveis. Como se já não bastassem todos esses riscos, há um fator com potencial suficiente para causar ainda mais indignação: trechos recém recapeados apresentam problemas, deixando evidente a falta de seriedade de quem contratou a obra, por não fiscalizar, e de quem a executou, por oferecer um serviço que não vale o preço combinado, pago com o dinheiro dos contribuintes.
Baseada em obras do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) concluídas nos últimos dois anos em oito Estados, a auditoria concluída agora aponta problemas estruturais em nada menos do que nove das 11 estradas analisadas. Somente para corrigir esses problemas surgidos com uma precocidade espantosa, seria preciso gastar o equivalente a mais de 20% do valor de todas as obras analisadas, o que dá uma ideia do descontrole do dinheiro público nessa área, dos ganhos nem sempre justos auferidos por empreiteiras e do desrespeito dispensado pelo poder público aos contribuintes. A situação, no caso, diz respeito a rodovias federais. Independentemente de quem detém o controle, porém, a realidade de quem roda pelos Estados sulinos, por exemplo, não costuma ser muito diferente.
De toda a malha rodoviária gaúcha, apenas 58,7% ganhou o conceito ótimo ou bom no levantamento realizado no ano passado pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT). A situação é ainda mais preocupante em Santa Catarina, onde o percentual cai para 40,1%. O restante está às voltas com problemas corriqueiros para os motoristas, forçados a correr riscos pessoais e a arcar com os custos aos veículos em consequência de desgastes na pavimentação, de ondulações ou mesmo de crateras de todos os tamanhos, de desgaste ou inexistência de pinturas de faixas ou de sinalização. A situação é menos desfavorável nos trechos concedidos, mas nem nesses os motoristas podem confiar plenamente.
Rodovias desgastadas aumentam os riscos para seres humanos e ampliam os custos para os consumidores, com impacto sobre o frete e, em consequência, sobre a inflação. Além de investir o necessário em infraestrutura rodoviária, o Executivo precisa impor condições rígidas para as empreiteiras, que devem ter seu trabalho fiscalizado em todas as etapas e até mesmo ressarcir os cofres públicos em casos de ineficiência ou má-fé. Só quando os responsáveis pela péssima situação das rodovias forem punidos de fato é que os usuários poderão transitar com mais segurança.

Editorial\ Águas agitadas

28 de fevereiro de 2013 0

Depois das palavras corajosas de Bento XVI na sua despedida, é de se esperar que suas alegações e sua opção pela transparência propiciem ao Vaticano uma oportunidade para passar a limpo hipocrisias históricas.

Ao se despedir dos católicos na Praça de São Pedro, na sua última aparição pública como papa, Bento XVI voltou a surpreender a todos os que o ouviam, não só por explicar com clareza os motivos de sua renúncia mas também por se referir, ainda que metaforicamente, aos pecados da Igreja que de certa forma contribuíram para a sua retirada precoce. Ainda que a cada instante surja uma teoria nova para justificar sua abdicação, parece inquestionável que o líder religioso já não tem energia e saúde para desempenhar a contento as atribuições eclesiais e administrativas que o cargo exige. O papa de 85 anos fala baixo, movimenta-se com dificuldade e contabiliza uma série de moléstias debilitadoras, entre as quais a insuficiência cardíaca que o obriga a usar um marca-passo. Os problemas da idade, apontados por ele mesmo como causa maior da sua decisão, foram reafirmados ontem: “Nesses últimos meses, senti que as minhas forças tinham diminuído e pedi a Deus com insistência, na oração, que me iluminasse com a sua luz para me fazer tomar a decisão mais justa, não para o meu bem, mas para o bem da Igreja”.
Mas os problemas da Igreja parecem ser ainda mais graves, como se pode interpretar pela referência que Bento XVI fez às dificuldades enfrentadas durante o seu papado. “O Senhor nos deu muitos dias de sol e ligeira brisa, dias nos quais a pesca foi abundante, mas também momentos nos quais as águas estiveram muito agitadas e o vento contrário, como em toda a história da Igreja, e o Senhor parecia dormir.”
Águas agitadas! A metáfora remete inevitavelmente aos escândalos que a Igreja vem enfrentando nos últimos anos, notadamente os casos de abuso sexual envolvendo sacerdotes, a corrupção no banco do Vaticano, o vazamento de documentos reservados da Santa Sé e a disputa fratricida pelo poder na cúpula da organização religiosa. Ao lado desses episódios, alinham-se desafios que dividem os católicos e que certamente exigirão muita energia e sabedoria do comandante supremo da Igreja. Provavelmente o sucessor de Bento XVI tenha que administrar polêmicas recorrentes, como o fim do celibato obrigatório, o acesso de mulheres ao sacerdócio, o uso de preservativo, a união entre homossexuais e as experiências médicas com células-tronco, entre outros que contam com a oposição radical do Vaticano.
Embora seja reconhecido como conservador e como defensor intransigente da doutrina católica, Bento XVI deixa como legado final uma tênue abertura para a modernização da Igreja. Suas referências claras ou simbólicas às turbulências enfrentadas, assim como o relatório que encomendou sobre o vazamento de documentos confidenciais, certamente servirão de subsídios para o sucessor que deverá ser escolhido no conclave programado para os próximos dias. Diante de tais fatos, é de se esperar que a corajosa retirada do papa e sua opção pela transparência propiciem ao Vaticano uma oportunidade para passar a limpo hipocrisias históricas, para remover estruturas enferrujadas e para revitalizar a religião preferencial de expressiva parcela da humanidade.

Editorial\ Carência na Educação

28 de fevereiro de 2013 0

A retomada do ano letivo nas escolas públicas do Estado voltou a expor a falta de oportunidades na educação infantil, uma carência crônica que prefeitos recém-empossados precisarão enfrentar antes do final do mandato. Em diferentes municípios gaúchos, o relato de pais deixa evidente que a situação, na prática, mantém as dificuldades relatadas em levantamento divulgado no ano passado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE). Os números são desanimadores: menos de três dezenas dos 496 municípios gaúchos atingiram as metas para creche e pré-escola estabelecidas há mais de uma década pelo Plano Nacional de Educação (PNE). Só a pressão da sociedade poderá fazer com que a situação se reverta até 2016.
Aprovada no final de 2009, a Emenda Constitucional 59 determina o atendimento de todos os brasileiros entre quatro e 17 anos nas redes públicas de ensino. Pela Constituição, a oferta de educação infantil é responsabilidade dos municípios. Isso significa que os novos prefeitos e secretários de Educação já assumiram os cargos conscientes de que caberia a eles enfrentar a missão. O primeiro passo será assegurar os recursos necessários para complementar os repasses do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb).
Mesmo com a histórica alegação de falta de verba, os municípios tiveram papel preponderante na universalização do ensino para alunos entre seis e 14 anos, uma conquista recente do país. Futuramente, ainda precisarão atender a faixa entre zero e três anos de idade, demanda cada vez maior em consequência do aumento no número de mulheres trabalhando fora de casa.
Os prefeitos gaúchos, assim como os dos demais municípios brasileiros, têm razões fortes para encarar a sério o desafio da educação infantil. Crianças que começam mais cedo na escola costumam ter um desempenho melhor na sua trajetória estudantil e até mesmo na vida pessoal, o que já significa razão suficiente para motivar o maior número possível de pessoas em favor da causa.

Artigo\ Assim caminha a democracia

28 de fevereiro de 2013 1

PEDRO WESTPHALEN*

Num mundo interconectado pela tecnologia _ onde temos a possibilidade do conhecimento dos fatos em escala planetária e em tempo real _, a imprensa tem garantido papel de destaque, levando à opinião pública denúncias, críticas, descobertas científicas, informações políticas, econômicas, enfim, possibilitando às pessoas serem agentes ativos no processo social.
Assim é que soubemos da tragédia que abalou a cidade de Santa Maria e nos mobilizamos, todos. Assim conhecemos o resultado dos pleitos eleitorais de todos os lugares e as ações de lideranças políticas e civis. Assim nos chegam notícias da queda de um meteorito na Rússia, dos conflitos no Oriente, da renúncia do Papa, da cotação dos alimentos, dos índices de crescimento ou estagnação, do que pensam os outros países a nosso respeito. Informação é conhecimento e conhecimento é poder. Jamais devemos esquecer que por longos períodos históricos ele permaneceu trancafiado por uma minoria, temerosa de que as camadas populares pudessem acessá-lo. E que dessa negação brotaram _ e ainda brotam _ preconceitos detonadores de sangrentas guerras. Que tal negação chegou ao obscurantismo de lançar mulheres sábias nas fogueiras.
A imprensa está para a contemporaneidade do mundo assim como a liberdade enquanto valor mais profundo. Atividade humana na construção de si mesma, ela erra e acerta, assim como a humanidade inteira caminha: em movimentos espirais ascendentes. Rumo ao futuro. Evoluindo. Saber é poder. Nas democracias, ele emana do povo e em seu nome deve ser exercido. O parlamento gaúcho reconhece esta dinâmica e busca constantemente aprimorar sua relação com o cidadão e com os meios de comunicação. Atividade humana que é, algumas vezes erra e, outras tantas, acerta. Queremos a imprensa apontando nossos erros. Precisamos disso para o amadurecimento desta instituição. Igualmente queremos a imprensa informando nossos acertos, que não são poucos. Precisamos disso para renovar nossas forças e seguirmos o caminho espiral ascendente da democracia.
*Presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul

Artigo\ Joseph Ratzinger

28 de fevereiro de 2013 0

Joseph Ratzinger
entendeu que é
simplesmente
um homem e
que humana é,
simplesmente,
a instituição
que dirigiu

MILTON R. MEDRAN MOREIRA *

Só o tempo ou, quiçá, nem ele, poderá revelar à História todas as razões que levaram o papa Bento XVI à renúncia de seu pontificado. Demitir-se de um cargo para o qual foi eleito vitaliciamente e que alça seu titular, no imaginário popular e por força da fé e da tradição, à distinguida condição de “representante de Deus na Terra”, é gesto tão singular quanto surpreendente.
Da instituição por ele dirigida reconhece-se, mundialmente, sua força e poder. Mesmo que a História lhe haja imputado, ao curso dos tempos, a autoria de graves violações aos mais caros valores civilizatórios, seus dirigentes e fiéis chamam-na de “santa”. E, conquanto da lista de seus sumos pontífices, constem nomes a quem se atribuem atos da mais abjeta imoralidade e flagrante injustiça, o titular do cargo, recebe, em qualquer circunstância, o tratamento de “Santidade”.
O adjetivo que antecede a nominação da Igreja Católica Apostólica Romana e o tratamento reverencial reservado a seu sumo pontífice, justificam os teólogos, não se vinculam exatamente ao procedimento institucional e pessoal eventualmente adotado por um por outro, mas da missão sacrossanta de que estariam investidos. Em tese, pois, estariam ungidos da perfeição e das virtudes divinas, mas, na prática, como qualquer pessoa ou instituição, sujeitam-se aos erros pertinentes à humana imperfeição.
Difícil entender essa contradição fora do dualismo sagrado/profano. Por muito tempo, enquanto vigia no mundo a crença na existência de uma “ordem divina” em inconciliável contraste com a “ordem humana”, aquela incorrupta, esta corrompida por força do “pecado original”, havia lugar para esse fatal e insuperável maniqueísmo. Dentro dessa concepção, uma única instituição poderia se arrogar o privilégio da origem divina que a faria ponte entre os céus e a Terra. Mas, composta que é de homens, justificava-se fosse, ao mesmo tempo, santa e pecadora, virtuosa e devassa, sem que, com isso, perdesse  autoridade e credibilidade.
A modernidade, no entanto, ainda que disso não se apercebesse claramente a Igreja, foi, pouco a pouco, superando o maniqueísmo sagrado/profano, divino/humano, substituindo-o simplesmente pelo natural. O fenômeno universal é regido por leis naturais, que abarcam o físico e o moral, o material e o espiritual. Não é preciso tirar Deus dessa nova concepção de universo. Ele aí está presente como “inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas”, consoante tenta defini-lo O Livro dos Espíritos (1857).  Mas, para esse Deus não há pessoas e nem instituições privilegiadas, acima do bem e do mal. “Criados” todos simples e ignorantes, porque resultantes de um longo processo evolutivo, tornamo-nos capazes de nos reconhecer mutuamente como iguais em direitos e obrigações, sujeitos a erros e acertos e subordinados a uma mesma lei universal. Somos, no plano e no estágio em que nos encontramos, simplesmente, humanos. Como humanas serão todas as instituições que formos capazes de criar.
É nesse contexto que o velho conceito de santidade vai dando lugar ao de humanidade. Descobre-se, pouco a pouco, que toda a virtude, antes tida por revelação divina a alguns intermediários privilegiados, está, de fato, ínsita na própria natureza humana, como fagulha da divindade que a tudo deu origem e que a tudo alcança. Na medida em que essa consciência se faz comum entre homens e mulheres, percebe-se que não há mais lugar para distinções entre uns e outros e nem para outorgas representativas da divindade, com leis que assegurem privilégios, sejam estes por crença, sexo, ideologia ou etnia.
Essa mesma consciência de humanidade que a todos nos submete a princípios éticos universais é avassaladora. Pouco a pouco, derruba, em todos os quadrantes, as mais resistentes autocracias e aristocracias. Instituições, grupos raciais, políticos ou religiosos que teimam em preservar seus membros da censura imposta por regras que a civilização e a modernidade tornaram mundialmente cogentes, mais cedo ou mais tarde, terão de se submeter a esse tratamento igualitário de que buscaram se furtar. É o tempo da humanização que está um passo à frente da santificação.
Sem ser exatamente um santo, título que, talvez, até o incomodasse, Joseph Ratzinger entendeu, quem sabe antes de seus pares, que é simplesmente um homem e que humana é, simplesmente, a instituição que dirigiu. Seria esse o móvel de sua renúncia?
* Advogado e jornalista, presidente do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre

Artigo\ Lista de bucket

28 de fevereiro de 2013 3

O ser humano
pode ser
extremamente
forte, mesmo
quando não
podemos
imaginar que
seja possível

STEPHEN STEFANI*

Uma família acorda, toma café, arruma o carro para uma viagem de férias, confere se não esqueceram nada e tomam a estrada. Bang! Um acidente, que possivelmente não se teve tempo de perceber de onde veio, aniquila aquelas vidas. Houve imprudência? Imperícia? O outro motorista teve os mesmos cuidados _ ou descuidados? Um casal está sentado assistindo à novela e o filho adolescente vem se despedir, vai a uma festa. Algumas horas depois, uma ligação telefônica informa que houve um incêndio e algumas dezenas de vidas foram ceifadas.
O fato é que, em um momento, tudo muda. Uma grande lista de sonhos e projetos fica inacabada. Essas tragédias dilaceram o coração de quem pode, de alguma forma, se imaginar na situação dessas famílias.
Um dos pontos que é comum nesses cenários é que é tudo muito rápido. Não deu tempo de se preparar ou se despedir. Em algumas raras situações, as pessoas conseguem antecipar sua finitude e programar seu legado. É o caso de Alice Pyne, que, aos 17 anos, sabendo ter um câncer terminal, montou um blog para registrar sua “the bucket list”. A bem-humorada expressão “to kick the bucket” significa algo como “bater as botas”, então “the bucket list” pode significar um roteiro a seguir antes de bater as botas, ou uma lista de coisas a fazer antes de morrer. Foram mais de 4,8 milhões de acessos. O blog contém uma lista de pequenas coisas simples e prosaicas, como arrumar o cabelo e tirar uma foto com sua irmã, mas também tem links para sites importantes, como registro mundial de doadores de medula óssea e campanhas para coleta de fundos para caridade, que levantou mais de US$ 170 mil.
Infelizmente, a maioria de nossas listas somente é contemplada quando deparamos com uma interrupção compulsória e as energias são focadas no choque. Mesmo que se gaste uma boa quantidade de energia tentando fugir da tristeza de uma tragédia, estamos programados para a sobrevivência em meio a catástrofes. O ser humano pode ser extremamente forte, mesmo quando não podemos imaginar que seja possível. Um esforço enorme, possivelmente, é não se afastar do legado que as vidas interrompidas deixaram no que se refere a construir um mundo que não permita que os mesmos erros sejam cometidos.
Alice faleceu em janeiro. Um dos itens de sua lista é o desejo de que todos fizessem sua própria lista.
*Médico oncologista

Editorial\ Não dá para esquecer

27 de fevereiro de 2013 28

Dói relembrar o que muita gente gostaria de esquecer. Mas doerá mais se fingirmos que nada aconteceu, pois assim os erros não serão corrigidos e logo teremos outras desgraças para chorar. Não vamos nos omitir. Não vamos esquecer. Não vamos deixar que os responsáveis fiquem impunes.

Nada vai atenuar a dor dos pais e mães que ficaram órfãos de seus filhos em Santa Maria naquele domingo trágico de janeiro.
Palavras, homenagens, manifestações, reportagens e até mesmo eventuais responsabilizações dificilmente reduzirão o sofrimento e a saudade de parentes, amigos, professores, colegas ou mesmo simples conhecidos dos jovens que tiveram suas vidas interrompidas de forma tão brutal.
Mas a Justiça precisa ser feita, porque ela é a única maneira de se dar sentido para um acontecimento tão estúpido e desconcertante. E basta um breve olhar para as causas da tragédia para se ter certeza de que não foi uma fatalidade _ foi, isto sim, um crime inominável, conjugação de desleixos, ganâncias, desprezo às leis e às normas de segurança, exibicionismo irresponsável, negligência do poder público, leniência dos órgãos fiscalizadores e total falta de memória de todos em relação a sinistros semelhantes que ocorreram em outras latitudes.
Não pode acontecer mais, nem aqui, nem em qualquer outra parte do mundo. Por isso, se registram o fato, a dor e o andamento das investigações um mês depois da sua ocorrência. Por isso, se exigem apuração rigorosa e punição exemplar para os culpados. Por isso, estamos voltando a um assunto que preferíamos nunca ter noticiado. Dói relembrar o que muita gente gostaria de esquecer. Mas doerá mais se fingirmos que nada aconteceu, pois assim os erros não serão corrigidos e logo teremos outras desgraças para chorar. Não vamos nos omitir. Não vamos esquecer. Não vamos deixar que os responsáveis fiquem impunes.
Porém, da mesma forma como procuramos tratar do infausto acontecimento com total respeito às vítimas, a seus familiares e amigos, queremos continuar acompanhando com atenção e responsabilidade as investigações e as providências que estão sendo tomadas pelas autoridades. Neste sentido, estamos registrando hoje, em reportagens especiais nos nossos veículos, não apenas as homenagens de Santa Maria pela passagem do primeiro mês da tragédia, mas também o estágio da investigação policial, das ações judiciais e das demais iniciativas relacionadas ao caso.
Mais: na próxima sexta-feira, apresentaremos o programa multimídia Painel RBS com a participação de representantes da Secretaria de Segurança, do Ministério Público, do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia, da prefeitura de Santa Maria, da associação de familiares das vítimas e de especialistas que possam lançar luzes sobre as investigações e a prevenção de novas tragédias. Nosso propósito é contribuir, por meio de um debate civilizado e consequente, para o aperfeiçoamento da legislação e para a disseminação de comportamentos que efetivamente protejam a vida.
Um mês, ainda que carregado de perplexidade, é um período muito curto para todas as mudanças que o país precisa fazer para garantir a segurança de seus cidadãos. Mas é um período suficiente para evidenciar as lições que precisam ser aprendidas.
Uma dor dessas não pode ser esquecida em um mês. Nem em 10 anos (como mostra emblemático artigo publicado ao lado). Nem nunca.
Mas pode ser transformada em ações práticas para que jamais volte a dilacerar os corações de pais e mães que geram os seus filhos para o sublime dom da vida.
Vamos fazer isso.

Artigo\ Nós estamos com vocês

27 de fevereiro de 2013 1

Tínhamos
esperanças
de que o nosso
incêndio teria
sido uma lição
para todos, e
que tamanha
tragédia jamais
aconteceria
novamente

G. WAYNE MILLER*

Nós aqui em Rhode Island, Estados Unidos, já vivemos o que os nossos amigos em Santa Maria, no Brasil, estão vivendo agora, com o terrível incêndio na casa noturna Kiss que matou 239 pessoas e feriu muitas outras. Por favor saibam que nossos pensamentos e preces estão com vocês.
Dez anos atrás, no dia 20 de fevereiro de 2003, um incêndio na casa noturna The Station, na cidade de West Warwick, em Rhode Island, matou 100 pessoas e feriu mais de 200.
Os paralelos entre o nosso incêndio e o de vocês são tragicamente sinistros: pirotecnia e espuma inflamável em um prédio inseguro e superlotado com pessoas que saíram para uma noite de diversão.
Ainda assim, quando nós vimos as manchetes e as reportagens na televisão mês passado sobre a sua cidade, nós não conseguimos acreditar. Ou, mais precisamente, nós não quisemos acreditar. Nós tínhamos esperanças de que o nosso incêndio teria sido uma lição para todos, e que tamanha tragédia jamais aconteceria novamente.
Parece que foi ontem que o nosso incêndio aconteceu. Na verdade, é claro, já faz 10 longos anos, repletos de desenvolvimentos, como uma linha do tempo da última década revela.
O que trouxe mais de 450 homens e mulheres _ alguns deles eram adolescentes, outros eram avós, e a maioria estava em algum lugar entre esses dois _ no dia 20 de fevereiro de 2003, aquela noite fria de inverno, aqui para Rhode Island? Mais ou menos a mesma coisa que levou pessoas à boate Kiss.
A perspectiva de diversão foi o que os trouxe. Uma banda favorita os trouxe.
Aquela noite não teve sinfonia. Nenhum instrumento foi tocado. Aqueles eram homens e mulheres trabalhadores de Rhode Island e do sul de New England que amavam música alta e um bar onde a cerveja era gelada e abundante.
Eles eram homens e mulheres lembrados como bons e decentes por quem os conhecia melhor.
_ Ela nos ensinou sobre honestidade, confiança, gentileza e respeito uns pelos outros e por nós mesmos _ disse uma estudante da professora Abbie Hoisington, 28 anos, à edição especial do Providence Journal publicada um mês após o incêndio.
_ Ele nos mantinha jovens _ disseram os pais de Billy Bonardi, 36 anos.
_ Os filhos eram a vida dele _ disse a irmã de Carlos Pimentel Sr., 38 anos.
_ Ela acreditava em anjos _ disse Patti Carbone sobre sua irmã Kristine, 38 anos.
_ Eu acredito que ela não conseguiu sair porque ela estava ajudando os outros. Eu conheço a personalidade dela. Ela estava ajudando _ disse uma amiga de Tammy Mattera-Housa, 29, mãe de duas crianças.
_ Ele tinha acabado de mudar de vida _ disse a mãe de Kevin Dunn, 37 anos. _ Ele estava muito feliz.
Então, aqui em Rhode Island, 10 anos se passaram.
“Segurança” se tornou uma palavra comumente falada. Em Rhode Island, sistemas de irrigação e outras medidas que podem salvar vidas foram incorporadas a partir de mudanças nos códigos de incêndio.
Nós não entramos mais em espaços fechados sem checar se existem saídas de emergência e qual a melhor rota para chegar nelas em segurança.
Nós sabemos o pior que pode acontecer.
Dez anos depois, algumas pessoas ainda estão com raiva, acreditando que a justiça não foi feita _ que aqueles que eram os maiores responsáveis não enfrentaram o público nem aceitaram a culpa. Por causa de um acordo que ultrajou muitos sobreviventes e famílias de vítimas, nenhum julgamento aconteceu. Nenhum dono, funcionário do prédio ou dos bombeiros, membros da banda ou outras pessoas envolvidas foram publicamente questionadas.
Porque não houve julgamento, as respostas que eles (familiares das vítimas) queriam nunca vieram.
Essas respostam poderiam ter trazido um pouco de paz para aqueles que foram mais profundamente afetados, como Bob Johnson, de 78 anos, que perdeu seu filho Derek, de 32, e continua a lutar por justiça.
Para pessoas como Bob Johnson, uma parte do acordo de US$ 176 milhões não foi o suficiente. Ele promete continuar lutando.
_ Eu jamais vou parar. Eu nunca, jamais vou parar _ disse ele.
Algumas pessoas que estavam no nosso incêndio ainda estão fisicamente e/ou emocionalmente feridas.
Mas com a ajuda e o apoio de familiares, amigos, membros da igreja e terapeutas, outros se curaram. Alguns se curaram mais rapidamente. Outros demoraram mais.
Quem era criança 10 anos atrás agora é adulto. Os bebês em gestação na época que nunca conheceriam seus pais são crianças agora. Os dias passam; a vida continua.
Nós encontramos esperança e inspiração nas histórias de algumas famílias _ a família de Melinda Darby, por exemplo, que estava grávida de oito meses e tinha uma filha de 10 anos quando o marido dela e pai das crianças, Matt, morreu. E a história do jovem Acey Longley, cujo pai, Ty Longley, guitarrista da banda Great White, morreu no incêndio. Com sua mãe, Heidi Longley, Acey comanda uma instituição de caridade que anima crianças doentes na região de Chicago.
Nós encontramos coragem e determinação na história do sobrevivente que ficou com as piores queimaduras, Joe Kinan, que ficou meses no hospital e passou por mais de 120 cirurgias, incluindo um transplante de mão, mas que nunca desistiu _ e recentemente se tornou noivo da mulher que ama.
Nós encontramos força na história da sobrevivente Gina Russo, que foi uma incansável defensora dos benefícios das vítimas, e que aprecia as muitas amizades formadas após o incêndio. Ela disse ao nosso jornal:
_ Sinto-me grata por isso ter me tornado uma pessoa tão forte. Realmente mudou a minha vida por completo para melhor e acho que não trocaria isso por nada.
No lugar de West Warwick, onde homens e mulheres queriam apenas se divertir naquela noite 10 anos atrás, cruzes, velas e outras homenagens lembram dos cem mortos. Assim como Santa Maria agora será, West Warwick está para sempre associada à terrível noite.
Em breve, terá início a construção de um memorial permanente às vidas perdidas _ um lugar para “honrar, para celebrar, para se reunir, para rezar, para apoiar, para educar, e acima de tudo, para lembrar de nossos cem anjos”, de acordo com a Fundação Station Fire Memorial, responsável por manter viva a memória de todos.
Mas isso ainda está por vir.
Em uma manhã recente, o sol propagava sombras pelo local onde a casa noturna queimou _ o lugar que muitos agora chamam de “solo sagrado”. Um vento frígido soprava a neve recém caída, sacudia as contas dos rosários, borboletas, beija-flores e balões que os entes queridos colocaram nas cem cruzes. Os sinos tocavam com o vento, soprando sua melodia no ar. A memória de todos era real.
Por 10 anos, tantas pessoas viveram essa situação.
Nós ainda vivemos, aqui em Rhode Island.
Nós sabemos de uma maneira que outros não podem saber o que vocês, as boas pessoas de Santa Maria e do Brasil, estão vivendo. Que vocês encontrem paz.
* Integrante da equipe do Providence Journal. Nos últimos 10 anos, ele e seus colegas escreveram muitas histórias sobre o incêndio na boate The Station. Pela sua cobertura do incêndio, o jornal foi finalista do Prêmio Pulitzer de 2004 na categoria Serviço Público.

Editorial\ A voz da rede

26 de fevereiro de 2013 2

O importante é que as manifestações por honestidade e transparência na política sejam percebidas pelos governantes e pelos parlamentares escolhidos democraticamente para representar os autores dessas mensagens.

Parcela expressiva da população brasileira não aceita o senhor Renan Calheiros como presidente do Senado, cargo para o qual foi eleito por seus pares pela terceira vez no início deste mês. Pessoas que discordam desta escolha, por julgar que o senador alagoano não tem condições morais para comandar o Congresso Nacional, participaram de uma mobilização nas redes sociais e tentaram levá-la às ruas no último final de semana. Embora tenham ocorrido atos de protesto em 33 cidades brasileiras e até no Exterior, a presença de público foi infinitamente inferior ao 1,6 milhão de assinaturas recolhidas na petição virtual encaminhada ao Senado com o propósito de dar início a um processo de cassação. Na prática, o manifesto eletrônico não tem qualquer base legal para uma análise do Conselho de Ética e os protestos de rua foram pouco significativos para convencer os parlamentares a revisar a decisão.
Fica, porém, uma mensagem clara: os cidadãos brasileiros, armados pelas novas ferramentas tecnológicas e estimulados pelo recente julgamento do mensalão, não estão mais dispostos a tolerar a política do jeitinho, das articulações pouco transparentes e do uso da função pública em benefício próprio. A reação contra Renan Calheiros não é gratuita. Em 2007, ele renunciou à presidência do Senado para não ser cassado após a revelação de relações suspeitas com uma empreiteira, que pagava a pensão de sua filha. Desde então, embora tenha mantido o mandato por decisão de seus pares, Renan Calheiros passou a contar com severa oposição, o que, num ambiente de total domínio da base governista, que ele integra, não impediu sua reeleição para a presidência da Casa.
Lá, ao que tudo indica, ele vai ficar até o final do seu mandato de dois anos _ a não ser que fatos novos determinem uma mudança de rumo. Para atenuar a reação contrária, Renan Calheiros anunciou na semana passada que implementará no comando do Congresso uma administração baseada em quatro pontos principais: austeridade, transparência, racionalização de gastos e defesa intransigente da liberdade de expressão. Resta conferir se as bondades anunciadas resultarão em ações efetivas.
Quanto à liberdade de expressão, é bom que o senador alagoano e os políticos brasileiros em geral passem a considerar também a voz dos internautas, pois essa é uma manifestação inequívoca do pensamento dos cidadãos com acesso aos computadores. Ainda que no caso referido a correspondência entre uma e outra tenha sido decepcionante, a voz da rede pode, sim, se transformar em voz das ruas, como já ocorreu em outras situações e em outros países. Independentemente do seu formato, porém, o importante é que as manifestações por honestidade e transparência na política sejam percebidas pelos governantes e pelos parlamentares escolhidos democraticamente para representar os autores dessas mensagens, sejam eles o contestado senador ou outros que lhe dão sustentação.

Editorial\ Cascata de reajustes

26 de fevereiro de 2013 0

Cascata de reajustes

Custará R$ 122,4 milhões aos cofres públicos do Estado nos próximos três anos o reajuste dos integrantes do Judiciário, do Ministério Público, do Tribunal de Contas e da Defensoria Pública, resultante do aumento de subsídios dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), aprovado ainda em 2012. O montante é superior aos investimentos destinados a melhorias na área da segurança pública nos últimos dois anos. Só por aí, já se constata a importância do pleito em exame pela Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia. Servidores devem ser remunerados adequadamente de acordo com suas atribuições, mas reajustes com esse impacto precisam ser examinados com o máximo de atenção e transparência.
O simples fato de a situação do caixa da União ser completamente diversa da enfrentada pelas diferentes unidades da federação já significaria razão suficiente para cautela com reajustes que, na prática, costumam ocorrer sem maiores questionamentos. Quando os ministros do STF têm seus salários revistos, os recursos precisam ser buscados nos cofres federais. A conta resultante do efeito cascata acaba sendo transferida para os Estados, mesmo os de situação financeira combalida como o Rio Grande do Sul e, em última análise, para os contribuintes.
No caso atual, só para bancar o reajuste de juízes e desembargadores, incluindo os que estão na ativa e os inativos, mais os magistrados do Tribunal de Justiça Militar, haverá necessidade de mais R$ 57,6 milhões até 2015. Trata-se, obviamente, de um montante de que o Estado não dispõe em caixa e precisará reunir retirando de outras áreas.
Um aspecto que torna a questão ainda mais preocupante é que tanto o Tribunal de Justiça quanto o Ministério Público pretendem tornar automático de fato o reajuste sempre que o Supremo elevar seus ganhos. Por mais legítimo que seja, revisão salarial não tem como ser dissociada da realidade das finanças do setor público nem da realidade dos servidores de maneira geral.