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Artigo| Abençoado seja! O abençoado

17 de março de 2013 0

Nas tiranias,
a ação
discreta
surtiu, às
vezes, mais
efeito que a
luta frontal

FLÁVIO  TAVARES*

A Argentina tem um Prêmio Nobel da Paz e um Nobel de Medicina. Instituiu o ensino obrigatório e gratuito no início do século 20, há 100 anos. Ganhou dois campeonatos mundiais de futebol, tem Maradona e Messi. Teve Evita, Gardel, Piazolla, Jorge Luis Borges e Ernesto Sabato, além do esplendor de Buenos Aires rivalizando com Paris.
Ao norte, tem o clima mais tórrido do continente e, ao sul, a gélida Tierra del Fuego. Celeiro do mundo, abasteceu o planeta com a melhor carne e o melhor grão.
Teve também ditaduras de direita, mas isto foi um tumor que se abriu pela América Latina e, assim, nem conta.
Na megalomania argentina de ser o umbigo do mundo, só lhe faltava um papa. Pois aí está Francisco _ o Papa de jeito terno que, da sacada do Vaticano, antes de abençoar, pediu que o povo o abençoasse.
Em 1998, conheci fugazmente o então novo arcebispo de Buenos Aires, Jorge Bergoglio, na Universidade Austral, a instituição que o Opus Dei criou na Argentina. A humildade no ouvir e a fala mansa ocultavam o homem corajoso e decidido, que protegera perseguidos da ditadura quando sacerdote nos anos 1970.

***

Assim, temos um papa que toma mate e, portanto, próximo. Em 1978, após os breves 30 dias de João Paulo I, nosso cardeal Aloysio Lorscheidder só não foi papa por abdicar da indicação, ao sofrer um enfarte, pouco antes. Tornou-se, então, o grande eleitor do polonês Wojtyla, membro (como ele e os outros brasileiros) de uma igreja em atrito com a ditadura governante.
Agora, já na escolha do nome papal, Bergoglio opta pela solidariedade. Francisco de Assis, amigo da natureza e caminhante em rebeldia contra a injustiça. Ou Francisco de Paula, o jesuíta que levou o Evangelho à Ásia.
Logo após a escolha, porém, os meios de comunicação (e a internet) difundiram notícias da Argentina acusando o sacerdote Bergoglio de “cúmplice” do horror da ditadura. Durante o Concílio, a imprensa italiana inventou detalhes da reunião secreta e apontou os “candidatos fortes” sem falar no arcebispo de Buenos Aires. O erro se ampliou após a eleição, com o furor sensacionalista suplantando a verdade histórica.
Morei em Buenos Aires nos anos iniciais da ditadura (1976-77), quando os jesuítas já divergiam da alta cúpula católica que silenciava ante o assassinato e a tortura. Eram tempos do padre Arrupe, superior geral da ordem religiosa e propulsor das mudanças com que João XXIII libertou a Igreja das amarras da Idade Média. Bergoglio, então reitor do seminário, ajudou dezenas de perseguidos e salvou da morte dois sacerdotes tidos pelos militares como “subversivos” pelos trabalhos de catequese operária.
Nas tiranias com que a direita infestou a América Latina, a ação discreta surtiu, às vezes, mais efeito que a luta frontal. Bergoglio foi um desses recatados que agiam sem alarde. Como reitor de seminário, usufruía de um salvo-conduto tácito que usou para mover-se dentro de um governo que sequestrava, torturava e matava em nome da “defesa da civilização Ocidental e cristã”.

***

Tempos atrás, na Argentina, ao criticar a demagogia e a corrupção governamental, ele chamou o clientelismo político de “desumano”, por condenar os pobres “à dependência de pedir sempre e sem esperança”. Agora, como Papa, lembrou que a Igreja não deve resumir-se “a uma ONG piedosa”.
Ou, como disse Leonardo Boff, o teólogo que os dois últimos papas obrigaram ao
silêncio: “O papa Francisco é uma promessa. Escolher este nome é eleger um programa
_ o amor aos pobres, à natureza, à sobriedade e à ecologia”. Mais importante ainda, frisa Boff, é que “os papas recentes presidiam juridicamente e o papa Francisco quer presidir na caridade, sem espetáculo ou espetacularização”.
Abençoemos Francisco!

* Jornalista e escritor

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