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Artigo| A mentira na moldura

28 de abril de 2013 0

Estão matando
a República,
transformando
em simulacro
o que devia
ser expressão
da democracia

FLÁVIO TAVARES*

O personagem-símbolo (e mais significativo) do que seja, hoje, a política e o parlamento no Brasil, é um garçom do Senado, de nome Johnson Alves Moreira. O que fez ele, além de servir cafezinho e água mineral aos senadores?? Nada, absolutamente nada! Seu grande feito foi vestir fatiota, camisa e gravata e ser obrigado a sentar-se no plenário, para que a TV Senado transmitisse para o país inteiro, no dia 18 de abril, uma colossal mentira: o discurso de 14 páginas lido pelo senador João Costa (de um tal PPL de Tocantins) e assistido apenas pelo garçom, que simulava ser senador. Além de um “presidente” da sessão, não havia mais ninguém. Absolutamente ninguém! Nenhum outro parlamentar ali estava, a não ser o garçom Johnson, de traje escuro como um pomposo senador.
Também o longo discurso escrito foi uma farsa. Com as câmeras da TV focadas nele, o senador João leu algumas frases, gesticulou chamando a atenção dos “demais nobres senadores presentes” para as advertências que fazia! No plenário, o garçom assentia, movendo a cabeça de cima para baixo, em simulada adesão. Nada sabia da barafunda de leis, artigos, incisos e parágrafos citados a granel, mas simulava concordar. Lá pelas tantas, o senador cortou a leitura pelo meio e concluiu:
“Considerando a exiguidade do tempo, solicito que meu pronunciamento seja dado como lido. Obrigado aos senadores e senadoras pela atenção”.
Outra mentira: não havia ninguém para lhe dar atenção!

***

Agora, quando se descobre que até o programa Minha Casa, Minha Vida virou organizado ninho para acobertar ladrões, talvez essas piruetas de circo sejam coisa menor. Mas, mesmo se for só um ventinho leve em meio ao vendaval, a farsa oficializada pelo Senado acaba matando a República, pois transforma em simulacro o que deveria ser a expressão do livre debate da democracia. Corre-se o risco de o parlamento virar tolo brinquedo de adultos ou mera exposição de vaidade e títulos cerimoniosos para obter popularidade. E por este caminho, ter imunidade para usufruir vantagens.
Longe está o tempo em que o Senado era a expressão mais ilustre da política. Para citar só alguns gaúchos, lá estiveram Pinheiro Machado, mais tarde Getúlio Vargas, Alberto Pasqualini, Luiz Carlos Prestes, Mem de Sá e Daniel Krieger. Ou, entre os vivos, Paulo Brossard.
Agora, nosso senador Paulo Paim acaba de criar a “desaposentadoria”, que multiplicará a burocracia e provocará um caos sobre o significado do que seja aposentar-se. O aposentado poderá “desaposentar-se”, mostrando, assim, que não devia ter-se aposentado ou que a aposentadoria foi uma fraude…
Meses atrás, nosso mais antigo senador, Pedro Simon, defendeu acaloradamente o colega Demóstenes Torres, ligado à rede de corrupção do mafioso Carlinhos Cachoeira, em Goiás. Demóstenes terminou perdendo o mandato, pois foi impossível esconder suas falcatruas.
Por sorte, nossa terceira senadora, Ana Amélia Lemos, está há pouco por lá e ainda não foi contaminada pelo vírus do absurdo e da tolice. Oxalá resista ao assédio desse outro mundo perigosamente cômico e infantil em que transformaram o parlamento e a política partidária no Brasil.
E assim, perplexos, vemos a mentira propagar-se oficialmente como “razão de Estado”. Impotentes ante a avalanche, rimos em desaprovação e tudo segue igual.
Resta a tristeza e fica a pergunta: por que colocam a mentira numa moldura e fazem da farsa a coisa mais importante da vida pública e da política?

***

P.S. _ Pergunto também: iremos permitir que a tragédia de Santa Maria desemboque na impunidade? Vamos permitir que, também aí, ponham a mentira numa moldura, como se o crime fosse obra de arte?

*Jornalista e escritor

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