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Artigo| Aterro do Guaíba

29 de abril de 2013 0

Mesmo
entre a
galharia,
o sol brilhará
para iluminar
todas as mentes

CLÁUDIO BRITO*

Eu era bem guri. Gostava de sair com meu pai e meu tio para ver de perto, às margens do Guaíba, as obras do aterro, que puxaram o Menino Deus até a beira d’água. Nasceu ali um bairro novo, o Praia de Belas. O que era pura água virou chão arenoso. Ainda nem se falava no Gigante, agora palco de uma Copa do Mundo. Corriam os últimos anos da década de 50 do século passado e o assunto nos recreios do Colégio Mãe Admirável eram as obras que começavam a permitir que a área fosse habitável.
Fui estudar no La Salle Dores e levei comigo aquelas histórias maravilhosas. Contava como saía lá do fundo do rio o areião. Via-se aquela mistura barrenta no ar e, aos poucos, o Guaíba ia secando. Era assim que se entendia o que estava acontecendo, que me perdoem engenheiros e geólogos por alguma heresia cometida na descrição. O que sei e não esqueci é que foi tudo obra de Leonel Brizola, Sucupira Viana e Loureiro da Silva, os prefeitos do período. Nada ali surgiu por conjunção astral ou soma de circunstâncias naturais. Tudo fruto da transformação que os homens realizaram. A cidade precisava crescer e ganhar novos espaços. Porto Alegre foi buscá-los no rio. Ninguém chiou. Só os gremistas, em 1963, quando o colorado lançou a pedra fundamental de seu estádio e, por birra, o povo azul anunciava que, em vez de cadeiras, logo seriam vendidas boias cativas pelo Internacional a seus torcedores. Foi no meio do aterro que assinei a proposta de sócio patrimonial juvenil, orgulhoso por estar na festa, como torcedor e componente da Banda Marcial Dorense. Rufou meu tarol e lá estavam aplaudindo a meninada personalidades inesquecíveis: Pinheiro Borda, Cândido Norberto e Glênio Peres, entre outras.
Por saber e ter visto de perto como aqueles recantos de nossa Capital foram acrescentados ao desenho da península que os açorianos elegeram há 241 anos, não compreendo a intolerância de alguns ante a necessidade de nova intervenção na região. Bradam contra a troca de 115 árvores exóticas por mais de 400 a serem plantadas em outras áreas, além de rejeitarem mais compensações, alinhadas e prometidas. A duplicação de uma via, a abertura de outros acessos e a otimização do lugar onde o campeonato mundial vai acontecer estão ameaçadas pela intransigência de quem nasceu depois do aterro e das árvores e pensa que tudo ali é nativo.
Ainda creio que, mesmo entre a galharia, o sol brilhará para iluminar todas as mentes. Vamos para novos parques e bosques, em outros lugares possíveis, ou então provoquemos uma grande inundação, ali da altura da Borges de Medeiros até o rio, alagando o aterro, devolvendo-se à natureza o cenário original.
*    Jornalista

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