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Artigo| Liberdade, democracia e patrimônio cultural

29 de abril de 2013 0

ANA MARIA MOREIRA MARCHESAN*

Os recentes protestos contra o valor da passagem de ônibus em Porto Alegre têm apresentado um viés nefasto e que de certa forma desqualifica o movimento: o vandalismo, prática odiosa, porque autofágica. Recursos que poderiam ir para a construção de uma sociedade mais feliz acabam sendo investidos para repor, tanto quanto possível, bens públicos ou de interesse público afetados.
Vivemos em uma democracia que permite a livre manifestação da população. Estamos maduros como sociedade consciente de que não há retrocesso possível. O que não podemos acatar é a depredação de nosso patrimônio cultural _ seja ele público ou privado _ em nome de qualquer causa, por mais justa que seja. O aspecto imaterial do patrimônio é bem de interesse público, socioambiental, vocacionado à elevação espiritual do indivíduo.
Em junho de 2005, um protesto de carroceiros no Paço Municipal trouxe como consequência indesejável o dano à Fonte Talavera de La Reina, um dos monumentos de maior valor artístico da nossa Capital, presente da Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos, no centenário da Revolução Farroupilha, em 1935.
Ao subir na bacia da fonte, um manifestante quebrou parte da cerâmica e jamais foi possível a recuperação integral daquele bem cultural. A peça foi remetida à Espanha e a fonte voltou desfigurada porque a própria artesania talaverana informou não ter mais o molde original. Perdeu-se irreversivelmente parte da nossa memória.
Quase oito anos depois, os manifestantes contrários ao atual preço da passagem de ônibus em Porto Alegre vandalizam o prédio da prefeitura, um primor da arquitetura positivista, e que traduz uma marca na cena urbana da capital gaúcha.
Essa atitude iconoclasta nos remete aos primórdios da Revolução Francesa no período conhecido como Terror, quando houve uma política de destruição das obras de arte arquitetônicas ligadas ao Ancient Régime. Esse movimento de destruição suscitou uma reação de defesa que objetivou não apenas conservar as igrejas medievais, mas estabelecer uma política de preservação do patrimônio nacional. Revolucionários com uma visão prospectiva criaram uma comissão para inventariar esses bens que passaram a ser patrimônio do povo francês.
Essa breve referência histórica busca despertar nossa reflexão para que possamos doravante construir práticas democráticas que não se voltem contra os bens de nossa memória, por mais representativos de uma hegemonia que nos parece repulsiva, mas que precisa ser preservada para que a história possa ser contada pelos testemunhos sem voz de nossos bens culturais imóveis. Bens que por sua simples presença contam histórias e que merecem ser “ouvidos” pelas presentes e futuras gerações.

*Promotora de Justiça

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