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Editorial| Os órfãos do horror

29 de abril de 2013 0

Uma das faces dramáticas da violência doméstica, exposta em reportagem que este jornal publicou no domingo, mostra que nem mesmo uma legislação específica, como a Lei Maria da Penha, é capaz de reduzir de forma significativa as tragédias dentro de casa. Os órfãos de crimes cometidos contra a mulher, personagens da reportagem, constituem uma situação constrangedora para todos, em especial o setor público. Como mostram os relatos de filhos que perderam as mães, ainda há muito o que fazer para que, além das medidas repressivas ou punitivas, a sociedade aprenda a adotar atitudes preventivas, como parte essencial de políticas voltadas à preservação da vida de pessoas em situação de risco.
Somente no ano passado, 98 mulheres foram assassinadas por motivos passionais no Rio Grande do Sul. São crimes que esfacelam famílias, porque os filhos perdem as mães e veem, na maioria dos casos, os pais serem recolhidos a presídios para o cumprimento de penas. Claro que o trauma maior é o particular, de cada sobrevivente, diante das perspectivas sombrias criadas pelo desamparo daí decorrente. Mas não há como ignorar que todos os que participam de coletividades são, de forma indireta, impactados por essas situações, principalmente as comunidades de baixa renda. Acolher e proteger os órfãos da violência doméstica passa a ser uma tarefa compartilhada, mesmo que muitas vezes o principal obstáculo a ser enfrentado seja a omissão do setor público.
O alto índice de agressões às mulheres é constrangedor para todos os envolvidos em tentativas de contenção da fúria de maridos, companheiros ou namorados. A medida dessa vergonha é oferecida pela Fundação Perseu Abramo, segundo a qual a cada 15 segundos uma brasileira sofre algum tipo de ataque físico. Há falhas a serem corrigidas. O Congresso apontou deficiências graves para o cumprimento da lei, como a precariedade da estrutura das delegacias da mulher e o acúmulo de processos na Justiça. O certo é que há muito tempo esse tipo de violência deixou de ser assunto privativo de cada família. As comunidades devem, sim, ser cúmplices na vigilância que leve à redução do número de mortes e de órfãos.

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